terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Capítulo 31 –  UM BANQUINHO, UM VIOLÃO

O poeta popular um dia escreveu: “Deixa a vida me levar, vida leva eu. ” Foi o que aconteceu. Houve um hiato grande. Durante, aconteceram muitas coisas: casamento, casa nova, gravidez, desemprego, nascimento, nova casa, novo emprego, novo trabalho, outra casa, outro emprego com bons ganhos, nascimento e finalmente nossa casa. Construída às pressas, sem acabamento, só o essencial, o suficiente para o básico, mas principalmente para fugir do aluguel. Durante esse tempo, apesar das inúmeras reviravoltas, eu não deixei de lado o meu companheiro violão, apenas não fiz nenhuma apresentação, mas as composições continuavam. Eu nunca fui um exímio instrumentista, dava para o gasto, pelo menos para as minhas pretensões autorais. Tinha passado por algumas escolas de música, não me formei, mas aprendi e guardei boas dicas. Fiz canto, teoria musical e violão, mas todas as vezes surgia, foram três, não cheguei a passar de seis meses, alguma coisa que me tirava da sala de aula. Eu teria que abdicar de outras coisas, mas cada vez mais eu me comprometia com outras coisas, das quais eu tinha de priorizar. A vida de músico e cantor independente não oferece condições e segurança para sustentar uma família, então, eu tive que me especializar numa profissão que provesse. Ainda mais sendo eu um artista autoral. Diante desses conflitos, tendo resolvido um, eu vi a possibilidade de juntar o outro, somar. Comecei a percorrer bancas de jornais, sebos, a procura daquelas revistinhas que trazem a letra da música cifrada* proporcionando a você a possibilidade de tocá-la. Para isso, é preciso que conheças muito bem a melodia, pois a cifra só lhe indica o acorde. Algumas revistas mostram o ritmo, a batida, a introdução, mas algumas não, aí você tem que se virar ou seja, ouvindo, assim também aproveita para aguçar o ouvido. Muitos são chamados de músico de ouvido e alguns de ouvido absoluto. Eu sempre gostei de música, então a minha memória musical era extensa, mas não a minha memória das letras. Para poder construir uma agenda musical, fui copiando o conteúdo das revistinhas para uma folha maior, tipo A4, assim dessa forma consegui chegar a um número de músicas que me permitia ficar no ar miseravelmente umas cinco a seis horas sem intervalos. Me envolvendo com esse material, evolui como instrumentista e como cantor. Apesar de ser conhecido ou chamado como um trabalho cover, pois muitos colegas se apresentavam como se fossem o original, eu nunca segui essa linha, desde do início eu impus a minha personalidade, o meu toque pessoal, a minha marca, o meu nome, a única coisa que não me pertencia era a música, pois na maioria dos casos um arranjo diferente eu criava, mesmo sem a permissão do compositor ou do cantor original, na maior parte das vezes os dois eram o mesmo.
O meu começo na carreira de banquinho e violão deu-se assim por acaso. Eu ainda não estava à procura de um lugar para tocar e cantar, não me sentia ainda totalmente pronto. Perto de casa, uma conhecida, ainda não era a grande amiga que se tornou, havia comprado, bem numa esquina de bom movimento, um terreno com uma velha casa. Mandou derrubar tudo e construiu um espaço que iria aluga-lo para festas e outros afins. Dentro dessa proposta alugaria só aos sábados e domingos e, reservaria as sextas para um mimo pessoal. Toda sexta-feira ela abriria a casa funcionando como um bar. Queria que sua casa fosse um lugar no bairro para que os vizinhos, os amigos, os amigos dos amigos, pudessem, além de alguns estarem perto de casa, afrouxar a gravata, esquecer das sobrecargas, sair de casa sem precisar ir muito longe para encontrar um ambiente acolhedor, encontrar os amigos e, principalmente aqueles que já fazia tempo, apesar de morar perto, que não se viam há tempos, para papear descontraidamente. Dentro dessa preparação toda, que eu não sei todos os detalhes, incluía-se música ao vivo. Foram enviados mensageiros a todos os cantos para anunciar o dia da inauguração. Todos devidamente informados de que se tratava de um bar, incluindo, bebidas, petiscos e música popular brasileira ao vivo para harmonizar o ambiente. Como o interior do bairro era carente desse tipo de atração, penso que muita gente deve ter imaginado que seria caro, os mais próximos sabiam que não, enfim, criou-se uma grande expectativa para o dia. Eu, assim como todos, fiquei sabendo também e no dia da inauguração, mesmo não tendo ninguém para ir comigo, compareci, já sabendo que iria encontrar gente conhecida, portanto não corria o risco de ficar deslocado. Depois que se passava pelo portão, assim mesmo, não estranhe, afinal era ainda uma casa, havia duas possibilidades: seguindo em frente daria direto no salão que normalmente era usado para a decoração, o bolo, ou se fosse para um evento mais profissional o salão servia para um almoço comemorativo. Seguindo, após entrar, a sua direita havia uma passagem com escadas que te levava para o terraço, muito bom para festas de quinze anos e mais à frente no final do salão ainda a direita a passagem para a cozinha, que além dessa havia no lado oposto uma outra porta que dava para os fundos, que também servia de saída para os garçons servir os convidados da outra parte do espaço; seguindo para a esquerda, passando pela frente do salão, começava, mas pela parte final, o espaço que era usado isoladamente nas sextas para o bar; nessa lateral ao salão, ficavam as últimas mesas espalhadas no espaço até o começo que se daria até a saída da tal porta dos fundos da cozinha. Não havia só o portão de entrada. Como era uma esquina, circundando o terreno saindo da frente em direção a esquerda pela rua, mais acima havia uma vaga de garagem, por esse espaço entrava todas as coisas grandes que fossem necessárias, mas durante as festas e o funcionamento do bar ficava fechada para não haver penetras no primeiro caso e para não comprometer o fluxo operacional. Comparando com o terreno todo, essa garagem ficava quase um degrau de escada acima do nível do restante e, era bem ali que foi escolhido para servir de palco. Encontrei, como previa, amigos em comum e depois de cumprimentar todos os conhecidos, fui convidado a sentar-me numa mesa perto do palco, afinal, assim como todos, estava curioso para ver a apresentação. O tempo estava passando, se esvaindo e com ele a paciência das pessoas, pois a atração musical não começava. Fiquei sabendo através de um integrante da mesa que os meninos estavam completamente atrasados. Após ter que ouvir algumas piadas dos amigos, a dona do espaço finalmente veio a público pedir desculpas pela demora e explicar que acidentes acontecem, mas que começaria a música. Três rapazes se apresentaram e se prepararam para dar início ao show. Bem, meus caros leitores, eu não posso me alongar mais, se não ficará cansativa a leitura, então, me comprometo com vocês de no próximo capítulo descrever com detalhes e, põe detalhe nisso, o que aconteceu. Inté!                
*Cifra é um sistema de notação musical usado para indicar, por meio de símbolos gráficos ou letras, os acordes a serem executados por um instrumento musical (como uma guitarra, ou um violão por exemplo). As cifras são utilizadas principalmente na música popular, acima das letras ou partituras de uma composição musical, indicando o acorde que deve ser tocado em conjunto com a melodia principal, ou ainda para acompanhar o canto.

Este tipo de notação ou cifragem indica ao executante o acorde que ele deve construir, mas deixa a sua sensibilidade musical ser responsável pela maneira exata na qual ele executará os acordes. Isso ocorre pelo fato de cada acorde ser composto por duas ou mais notas tocadas ao mesmo tempo, sendo que essas notas podem se localizar em diferentes regiões de um instrumento, o que possibilita muitas opções distintas se formar um mesmo acorde.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Capítulo 30 -  UNS DIAS CHOVE, NOUTROS DIAS BATE SOL

Ressaca! Ressaca! Antes sesse, mas nunca deixara de for. Na fatídica noite anterior eu não me animei a beber muito, apesar de ter os meus motivos para afogar as minhas mágoas. A ressaca que eu sentia quando acordei, não era provocada por excessos etílicos, mas por força das circunstâncias adversas. Eu era a própria fera ferida. Me movia em câmera lenta. Monossilábico.  Recebia o afago, o gesto de estímulo da minha namorada, sentados na calçada em frente à casa. Além dela, havia um dos irmãos e alguns amigos, desses, boa parte era formado dos que estiveram presentes na noite anterior e os outros acabavam de saber. Tentávamos esquecer, mas vire e mexe o assunto voltava à tona. Era uma tarde plácida. Jazíamos sob a sombra da imensa mangueira, que do quintal se estendia até a calçada com seus galhos longos e fartos de folhas verde e rosa. Iriamos tranquilamente passar a tarde nessa merecida preguiça, se não fosse pela interrupção abrupta provocada por aquele rapaz, que eu havia feito a tal música para ele participar do festival do colégio. Chegou esbaforido, atropelando a fala. Não vinha sozinho, junto a si acompanhava uma meia-dúzia de colegas. Depois de atender ao nosso pedido para que se acalmasse, falou o que o afligia. O festival iria acontecer dali a poucas horas e o seu amigo violeiro e cantor não conseguiu aprender a música. Sim e daí? Daí, que ele queria saber se eu não podia ir ao colégio cantar a música. Não era um pedido, era uma súplica. Mesmo assim eu respondi: “Nem me pagando! ” Começou uma disputa entre o desesperado e o indiferente, entre o esperançoso e o desiludido. Pior foi que, conforme ele apelava, mais gente o apoiando ele conseguia e, eu acabei ficando só. Encostado no paredão, não tive outra alternativa a não ser aceitar. Peguei o violão e partimos. Ah! Ia me esquecendo, peguei a letra também, eu não conseguiria canta-la se não pudesse lê-la.
Era um colégio comum, nada especial. Arquitetura antiga, mas bem espaçoso. O evento aconteceria na quadra de esporte, que ficava dentro do prédio no segundo pavimento na parte de cima. Eu, de certa forma estava estranhando tudo, pois não tinha o costume de me apresentar de dia. Começamos a subir a rampa e eu já pude ouvir a barulheira que vinha da quadra. Nossa vida o tempo todo é pautada por desafios. Ocasião ou grande obstáculo que deve ser ultrapassado. Uns você mesmo se propõe e outros surgem assim do nada, sem avisar, cabe a você a reação, mesmo não estando preparado, se ele veio é porque você dá conta, é só encarar. Claro, você pode dizer: Pera aí nem tudo dá para encarar. É porque talvez não seja um desafio. Essa pequena introdução, foi para explicar que quando acabou a rampa eu me deparei com uma cena no mínimo aterrorizante. Havia um canto da quadra, reservado para o evento. Como o espaço era retangular, o canto ficava, conforme a entrada, ao lado direito no fundo, ocupando um pouco mais para frente da arquibancada e, tendo as costas um paredão. Ali era a proposta de um palco, ficava o som e o microfone. Tudo muito simples, no chão. Um pouco mais para o lado esquerdo de quem fosse cantar, num ângulo bom para se ouvir e ver os concorrentes, estavam o corpo de jurados, sentados com mesas postas para escrever suas anotações. A arquibancada do fundo estava praticamente lotada e, detalhe muito importante, havia, nem contei quantas, mas uma porrada de vuvuzela, naquela época não tinha esse nome, mas não importa. A garotada estava com a corda toda. O negócio era fazer barulho. Entrei, me sentei na arquibancada lateral do lado oposto ao palco e as costas dos jurados, segurando o violão virei-me para o rapaz que havia escrito o poema e depois para os amigos e sentenciei: “Aonde é que eu fui amarrar o meu bode? ”
A primeira música foi anunciada. Cada banda, cantor ou cantora, conjunto de samba, todos vinham com muita vontade e muito barulho também. Usavam seus instrumentos como se fosse uma guerra. Quem se apresentava, disputava com a plateia, qual som seria reproduzido mais alto. As vuvuzelas não paravam em momento algum. Haja disposição. Eu, olhava para o violão e pensava, nem eu vou me ouvir. O poeta veio me avisar: “ A próxima é a nossa. ” Estavam se apresentando um grupo de samba, eu não entendi um pedaço sequer de letra, o batuque me pareceu meio desencontrado, mas como vinha som de dois lados, talvez fosse compreensivo. Chegou a minha vez. Fui anunciado. Me levantei empunhando a viola, me dirigi ao lugar onde estava a caixa de som, pluguei o instrumento e pedi ao rapaz que controlava que pusesse no máximo. Assentei numa cadeira, ajeitei o microfone e também pedi que pusesse no máximo. A menina para qual fora feito o poema veio e deitou-se a minha frente segurando a folha de caderno ao qual se esparramava o poema, para que eu pudesse lê-lo e assim canta-lo. Como eu expliquei no capítulo 28 “MÚSICA DE ENCOMENDA”, o início eu declamava acompanhado de uma melodia dedilhada no violão, como uma introdução e só depois é que eu cantava todo o restante sem repetir nenhum pedaço, por ser ela muito extensa. Naquele momento eu parecia um seresteiro que iria cantar o seu amor para sua amada na sacada ou um trovador que cantava um poema. Respirei fundo, dedilhei o violão e comecei a declamar. Pasmem! Silêncio. Acabei a introdução, passei a cantar e... pasmem! Silêncio. Eu ouvia o violão, eu me ouvia, aliás só se ouvia a minha voz. Pasmem! Silêncio. Tão compacto que dava para cortá-lo em fatias. Quando notei o meu domínio, me empertiguei. Olhei de soslaio para os jurados e percebi em seus semblantes plena aprovação. Entrei na segunda parte cantada me encaminhando para o final e... pasmem! Silêncio. Eram todos ouvidos. Nenhum pigarro, nenhuma tosse, nenhum espirro, nenhum barulho, só eu e o violão. Quando passei o dedo pelas cordas do violão, decretando o final, a casa veio a baixo. As vuvuzelas, os tambores, os gritos, tomaram conta por completo do ambiente mostrando que a hipnose havia acabado.

Querem saber quem ganhou o festival? Não precisa. Ah! Querem saber quem ganhou o prêmio de melhor intérprete? Também não precisa. Agora, ter que responder ao diretor que eu não era profissional, que era apenas irmão do aluno do colégio, isso foi uma verdade e uma mentira, mas pela cara dele ficou mais para uma mentira e uma verdade. É assim mesmo: “Uns dias chove, noutros dias bate sol”.