Capítulo 79
– MPB MAIS POBRE E BANAL; DE QUEM É A CULPA?
A música brasileira nunca esteve
tão simplória, confinada em letras que abusam de palavras repetidas e de poucos
e recorrentes acordes nas composições. Os responsáveis por esse movimento não
são exatamente os atuais sertanejos, mas o rock nos 1960, o rap nos 1980 e,
principalmente, a massificação cultural do país desde o auge de Faustão e Gugu
Liberato em seus programas de auditório.
A conclusão acima está em um
estudo do pernambucano Leonardo Sales, um dos mais completos já publicados
sobre o tema no Brasil e o primeiro a ir a fundo em questões harmônicas. Para
chegar a um veredito o que para muitos é mais que óbvio, ele selecionou 532
artistas nacionais, analisando o espectro de letras e acordes.
A radiografia musical é baseada
nos acervos dos sites Letras.com.br (102 mil letras) e Cifras.com.br (44 mil
cifras). Privilegiou-se artistas com mais de dez cifras e gêneros com mais de
20 artistas. Apenas faixas com pelo menos 50% do vocabulário em português e
palavras constantes no nosso dicionário entraram na análise de dados.
Essa metodologia, como qualquer
outra, têm lá suas limitações. As cifras extraídas, por exemplo, não são
necessariamente as oficiais do artista. Muitos jamais chegaram a registrar a
notação. “Claro que música é muito mais complexo que isso. A intenção é apenas
pontuar certos aspectos das músicas e analisá-los, no limite do que é
quantificável pela análise de dados no computador.”
Segundo a pesquisa, a música
brasileira foi brutalmente "simplificada" com o advento do rock e da
Jovem Guarda nos anos 1960. Passada a moda de Roberto, Erasmo e Wanderléa, os
sons voltaram se intrincar, mas é nítido que ao longo das últimas décadas eles
vêm ficando mais fáceis. Isso tem a ver com a popularização do rap a partir da
década de 1980, que maximizou o número de palavras e diminuiu o de acordes, e
com o intenso processo de massificação que hoje tem reflexo no quase monopólio
do sertanejo nas paradas. “Houve uma mudança do perfil do artista. Antes, ele
era mais elitizado. Tinha que saber compor e tocar. Com a mercantilização da
música, hoje ele pode se lançar sem saber muito de música, sabendo só cantar e
se apresentar. ”
Em termos de riqueza artística,
não tem para ninguém. Chico Buarque lidera com folga o coeficiente brasileiro
de complexidade musical. Não por acaso, o cantor e compositor carioca é o
artista nacional que mais gravou acordes distintos na carreira. Na sequência
dos complexos, aparecem, na ordem, Djavan, Ivan Lins, João Bosco, Ed Motta,
Caetano Veloso, Lenine, Vinicius de Morais e Simone. O técnico Ed Motta
encabeça no ranking de tamanho de acorde (aqueles enriquecidos com mais notas),
enquanto Lenine é o primeiro em matéria de raridade deles, o que torna o
pernambucano, ao menos cientificamente, um dos artistas mais originais do país.
Na outra ponta da lista, a dos músicos menos complexos, estão nomes como
Michele Mello, a banda Malla 100 Alça e o --lembra dele?-- grupo Rouge.
Você sempre odiou os funkeiros,
argumentando que o gênero é o mais pobre e simplista da música? Bem, ao menos
sob a ótica da quantidade de acordes, há aí um bom argumento. O estilo nascido
nos morros do Rio é o que menos faz uso de notações distintas. A repetição
também é a tônica do rap, do brega, da música regional e do reggae, que
aparecem na sequência --sim, o reggae é mais simples, que ritmos como o forró,
o axé e o sertanejo, que já são relativamente descomplicados. Outra: o
samba/pagode é bem mais complexo harmonicamente que o rock. Já no número de
palavras e na raridade delas, o rei é o rap: só ele consegue bater a MPB, o
estilo mais rico da nossa música, seguido da bossa nova. Entre os artistas, o
grupo paulistano Facção Central é o primeiro lugar isolado em quantidade de
palavras diferentes usadas.
Sim: à similaridade dos
“acordários”. Polêmico? Nem tanto. De acordo com o estudo, esses dois populares
grupos, conhecidas por suas sonoridades enxutas, utilizam uma dinâmica similar
no uso de acordes. É aí que o rock básico influenciado pelo pós-punk e as
micaretas do axé se encontram. Já em matéria de temática de letras, o resultado
é bem diferente. A banda de Renato Russo está agrupada entre os artistas
capazes de escrever sobre questões sociais e não só relacionamentos, enquanto
os asseclas de Durval Lélys habitam o variado mundo das paixões bem-sucedidas,
que agrega principalmente o axé, mas também o samba, o pop rock e... Tom Jobim.
Em tempo: 64% dos artistas brasileiros tem uma forte preponderância em versar
sobre temas ligados ao relacionamento.
A verdade é que
as letras atuais são tão ridículas que não deveriam ser chamadas de músicas.
Parando de lamentar e tentando entender (se é que é possível) como chegamos
nisso? Como podemos ouvir ou dar ibope a algo tão ruim
A culpa em parte
é do mercado da música, que passou a produzir dois tipos de cantores: o
comercial e o artista. Sendo que o primeiro é bom porque faz um hit que estoura
nas paradas de sucesso, como o rebolation. Só que essa música, por ser um produto descartável,
não será relembrada por muito
tempo. O segundo tipo é composto por aqueles que realmente possuem talento, que
são raros. Aqui entra a parcela dos outros culpados: Nós, consumidores! Temos
dado tanto ibope para diversas porcarias que nem mais reconhecemos os bons artistas!
Enquanto
mantermos essa postura não teremos grandes compositores ou cantores, teremos
apenas palhaços com suas músicas vergonhosas. Na verdade, grandes sábios, não
é? Porque o termo “palhaços” se encaixaria melhor a nós, por sermos adeptos ao
lixo que circula por aí!