CAPÍTULO 66 - MPB: JÁ CHEGAMOS AO FIM DO POÇO?
(Parte 3- Final da série)
Esse “poço” parece
não ter fim. A capacidade de produção de música ruim é
proporcional ao apetite de gravadoras, mídias e produtoras de faturar. Entramos
em um círculo vicioso: oferece-se a música que o povo quer, aumenta
o “ibope”, todo mundo fatura… ou o povo gosta porque é o que oferecem a ele…(Tostines é
fresquinho porque vende mais ou vende mais
porque é fresquinho?” )
Vai ser difícil
romper o círculo quando todos os seus mantenedores estão satisfeitos.
Como convencer, por exemplo, a Globo a colocar na sua grade de
programação, em horário nobre, MPB de qualidade? Dirão: não
vai ter “ibope”. Já o fizeram há vários anos (houve até um programa comandado
por Chico e Caetano). Recentemente produziram uma série
de programas dedicados aos grandes compositores da MPB. Puseram-nos
na madrugada, após o Programa do Jô, certamente para não prejudicar o “ibope”.
O “Altas Horas”, quando era de madrugada (altas horas mesmo), trazia
boas músicas. Depois que passou a ser transmitido mais cedo, virou uma
repetição do “Domingão do Faustão” e de outros “domingueiros” com um
desfile de “sertanejos universitários” , pagodeiros, funkeiros etc.
“A força da grana que ergue e destrói coisas belas”.
Não há muita chance
de mudar isso. Boni, ex todo poderoso da Globo, defende
que a tevê deveria dar um pouco mais ao povo, melhorando o nível
gradativamente. Afinal como apreciar a ótima música de Noel se
não o damos por conhecer? Como saber da existência de Lenine se
não o pomos na grande mídia?
Poderia haver
contra-argumentações (sempre bem recebidas). “A fila anda; temos que produzir
coisas novas; o que passou passou…” Ponderaria ,reproduzindo mais ou menos o
que ouvi de Paulinho da Viola: não sinto nostalgia nem saudade
porque o passado está presente em mim. A música de Cartola é
atual. E, depois, temos que “andar” evoluindo, não retrocedendo. Mas aí vem
aquela frase matadoura, para encerrar o papo: gosto não se discute.
E eu me permito contra-argumentar: de fato, gosto não se discute,
mas qualidade sim.
Enquanto isso, para
ouvir música de qualidade,vamos nos contentando com circuitos alternativos,
infelizmente não acessíveis a todo mundo. Auditórios e certas casas
noturnas de algumas capitais mantêm programação com grandes nomes da MPB.
Em geral lotam. Para shows de Betânia, Simone, Chico,
Caetano, Paulinho da Viola entre outros há necessidade de compra
antecipada de ingressos.
A boa música
brasileira continua aí sempre nascendo e renascendo nas vozes de Marisa
Monte, Zélia Duncan, Roberta Sá, Tereza Cristina,
Mariene de Castro, Adriana Calcanhoto, Vanessa da Mata, Tulipa
Ruiz, Mariana Aydar, Monica Salmaso, Paula Lima, Céu, Fabiana
Cozza e tantas outras e outros que não deixam a peteca cair.
Continuam presentes e atuais todos os grandes compositores e intérpretes
brasileiros. Continuarei ouvindo no meu carro todos eles e os que por falta de
espaço e esquecimento não citei nos artigos anteriores. Certamente entre esses
estará o mestre do bandolim Jacó, a “divina” Elizeth, a
notável Elis, Clara, Paulinho , João Nogueira, Gonzaguinha, Tim Maia,
Jorge Ben (sem o Jor), Milton Nascimento, Nelson Gonçalves,
Orlando Silva, Raul Seixas, João Bosco, Nana Caymmi, Fagner, Altemar Dutra e…
Senão, dando uma
chegadinha no exterior, poderei ouvir uma boa Música Popular Brasileira.
EXEMPLOS DE LETRAS DE MÚSICA- (Pequenos trechos
catados sem muito esforço)
1-De Paulinho
da Viola
Teu olhar iluminava
O mar que havia no meu coração
Meu barco de sonhos
Tranqüilo
Navegava em meu delírio
Entregue em tuas mãos
Mas o tempo sempre apaga
O fogo de qualquer paixão
E lança, sem pena,
As flores que restaram
Nas águas da desilusão
O mar que havia no meu coração
Meu barco de sonhos
Tranqüilo
Navegava em meu delírio
Entregue em tuas mãos
Mas o tempo sempre apaga
O fogo de qualquer paixão
E lança, sem pena,
As flores que restaram
Nas águas da desilusão
2-De Vinicius
de Moraes
Ai, vontade de
ficar mas tendo que ir embora
Ai, que amar é se ir morrendo pela vida afora
É refletir na lágrima um momento breve
De uma estrela pura
Cuja luz morreu
Numa noite escura
Triste como eu
Ai, que amar é se ir morrendo pela vida afora
É refletir na lágrima um momento breve
De uma estrela pura
Cuja luz morreu
Numa noite escura
Triste como eu
3-De Caetano
Veloso
O quereres e o
estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim
4-De Nelson
Cavaquinho e Guilherme de Brito
Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor
Que eu quero passar com a minha dor
5 De Orestes Barbosa
E a lua furando nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão.
Tu pisavas nos astros distraída…
6-De Lenine
Daqui desse momento
Do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem
A sombra do futuro
A sobra do passado
Assombram a paisagem
Do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem
A sombra do futuro
A sobra do passado
Assombram a paisagem
7-De Emicida
Hoje cedo
Quando eu acordei e não te vi
Eu pensei em tanta coisa
Tive medo
Ah, como eu chorei, eu sofri
Em segredo
Tudo isso
Hoje cedo
Quando eu acordei e não te vi
Eu pensei em tanta coisa
Tive medo
Ah, como eu chorei, eu sofri
Em segredo
Tudo isso
Hoje cedo
8- De Chico
Buarque
Amaram o amor
urgente
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar
A música
brasileira dos dias de hoje e sua triste realidade!
A indústria
musical hoje no Brasil busca novidades que agradam ao ouvido da população e da
mídia em geral. Mas o que leva a uma grave preocupação é que a boa música de
algumas décadas atrás foi praticamente esquecida pelas gravadoras e trocada por
produções de baixa qualidade musical, que facilmente agrada os ouvintes
atualmente.
Composições vazias e sem conteúdo relevante é o que gera lucro para os empresários da música, logo o espaço que poderia ser divulgado novos talentos e relembrado grandes clássicos são exclusivos de artistas com qualidade musical totalmente limitada. Isso sem levar em consideração também o fato de que, músicos que possuem obras superiores tecnicamente, ou em qualquer outra questão, ficam sem espaço na grande mídia. Estes acabam restritos aos fãs mais fiéis e a alguns ouvintes que buscam obras bem produzidas, os quais são, obviamente, mais sensatos que os adoradores do baixo nível.
Se for preciso citar alguns gêneros que entopem as rádios e emissoras de TV com lixos industriais, com certeza o faremos. Qualquer pessoa que consiga compreender algo totalmente básico em uma obra artística e não a aprecie apenas superficialmente, logo perceberá que o Funk brasileiro, os chamados Sertanejos Universitários, entre outros, espalham músicas sem nenhum conteúdo relevante. Porém o que acontece? A grande massa gera lucro para estilos como estes, deixando grandes composições de MPB e do velho Rock Nacional, principalmente da década de 70 e 80, cada vez mais esquecidos e menos valorizados.
Artistas que produzem “enlatados”, ou seja, obras que já vêm prontas e são fáceis de engolir, ganham inúmeros prêmios, como de melhor banda, melhor música, melhor cantor etc. E os dinossauros da música brasileira estão sendo fortemente abandonados por grande parte do público e pela mídia.
É necessário ressaltar também que o capitalismo além de matar muitas pessoas, está matando e quer enterrar, sem piedade, a boa música. Esta afirmação existe baseada principalmente em uma concepção, um dos fatores primordiais deste sistema, o dinheiro. Atualmente as gravadoras se preocupam essencialmente com o lucro, ao invés da qualidade das obras. Essa triste realidade acaba fazendo com que os artistas fiquem sem opções de escolha, em outras palavras, ou você aceita que o mais importante na música hoje é o lucro, ou contente-se com a cena underground.
Felipe Ferraz
Composições vazias e sem conteúdo relevante é o que gera lucro para os empresários da música, logo o espaço que poderia ser divulgado novos talentos e relembrado grandes clássicos são exclusivos de artistas com qualidade musical totalmente limitada. Isso sem levar em consideração também o fato de que, músicos que possuem obras superiores tecnicamente, ou em qualquer outra questão, ficam sem espaço na grande mídia. Estes acabam restritos aos fãs mais fiéis e a alguns ouvintes que buscam obras bem produzidas, os quais são, obviamente, mais sensatos que os adoradores do baixo nível.
Se for preciso citar alguns gêneros que entopem as rádios e emissoras de TV com lixos industriais, com certeza o faremos. Qualquer pessoa que consiga compreender algo totalmente básico em uma obra artística e não a aprecie apenas superficialmente, logo perceberá que o Funk brasileiro, os chamados Sertanejos Universitários, entre outros, espalham músicas sem nenhum conteúdo relevante. Porém o que acontece? A grande massa gera lucro para estilos como estes, deixando grandes composições de MPB e do velho Rock Nacional, principalmente da década de 70 e 80, cada vez mais esquecidos e menos valorizados.
Artistas que produzem “enlatados”, ou seja, obras que já vêm prontas e são fáceis de engolir, ganham inúmeros prêmios, como de melhor banda, melhor música, melhor cantor etc. E os dinossauros da música brasileira estão sendo fortemente abandonados por grande parte do público e pela mídia.
É necessário ressaltar também que o capitalismo além de matar muitas pessoas, está matando e quer enterrar, sem piedade, a boa música. Esta afirmação existe baseada principalmente em uma concepção, um dos fatores primordiais deste sistema, o dinheiro. Atualmente as gravadoras se preocupam essencialmente com o lucro, ao invés da qualidade das obras. Essa triste realidade acaba fazendo com que os artistas fiquem sem opções de escolha, em outras palavras, ou você aceita que o mais importante na música hoje é o lucro, ou contente-se com a cena underground.
Felipe Ferraz