segunda-feira, 30 de outubro de 2017

CAPÍTULO 66 - MPB: JÁ CHEGAMOS AO FIM DO POÇO?
(Parte 3- Final da série)
Esse “poço” parece não ter fim. A capacidade de produção de música ruim é proporcional ao apetite de gravadoras, mídias e produtoras de faturar. Entramos em um círculo vicioso: oferece-se a música que o povo quer, aumenta o “ibope”, todo mundo fatura… ou o povo gosta porque é o que oferecem a ele…(Tostines é fresquinho porque vende mais ou vende mais porque é fresquinho?” )
Vai ser difícil romper o círculo quando todos os seus mantenedores estão satisfeitos. Como convencer, por exemplo, a Globo a colocar na sua grade de programação, em horário nobre, MPB de qualidade? Dirão: não vai ter “ibope”. Já o fizeram há vários anos (houve até um programa comandado por Chico e Caetano). Recentemente produziram uma série de programas dedicados aos grandes compositores da MPB. Puseram-nos na madrugada, após o Programa do Jô, certamente para não prejudicar o “ibope”. O “Altas Horas”, quando era de madrugada (altas horas mesmo), trazia boas músicas. Depois que passou a ser transmitido mais cedo, virou uma repetição do “Domingão do Faustão” e de outros “domingueiros” com um desfile de “sertanejos universitários” , pagodeiros, funkeiros etc. “A força da grana que ergue e destrói coisas belas”.
Não há muita chance de mudar isso. Boni, ex todo poderoso da Globo, defende que a tevê deveria dar um pouco mais ao povo, melhorando o nível gradativamente. Afinal como apreciar a ótima música de Noel se não o damos por conhecer? Como saber da existência de Lenine se não o pomos na grande mídia?
Poderia haver contra-argumentações (sempre bem recebidas). “A fila anda; temos que produzir coisas novas; o que passou passou…” Ponderaria ,reproduzindo mais ou menos o que ouvi de Paulinho da Viola: não sinto nostalgia nem saudade porque o passado está presente em mim. A música de Cartola é atual. E, depois, temos que “andar” evoluindo, não retrocedendo. Mas aí vem aquela frase matadoura, para encerrar o papo: gosto não se discute. E eu me permito contra-argumentar: de fato, gosto não se discute, mas qualidade sim.
Enquanto isso, para ouvir música de qualidade,vamos nos contentando com circuitos alternativos, infelizmente não acessíveis a todo mundo. Auditórios e certas casas noturnas de algumas capitais mantêm programação com grandes nomes da MPB. Em geral lotam. Para shows de Betânia, SimoneChico, Caetano, Paulinho da Viola entre outros há necessidade de compra antecipada de ingressos.
A boa música brasileira continua aí sempre nascendo e renascendo nas vozes de Marisa Monte, Zélia DuncanRoberta Sá, Tereza Cristina, Mariene de Castro, Adriana Calcanhoto, Vanessa da Mata, Tulipa Ruiz, Mariana Aydar,  Monica Salmaso, Paula Lima, Céu, Fabiana Cozza e tantas outras e outros que não deixam a peteca cair. Continuam presentes e atuais todos os grandes compositores e intérpretes brasileiros. Continuarei ouvindo no meu carro todos eles e os que por falta de espaço e esquecimento não citei nos artigos anteriores. Certamente entre esses estará o mestre do bandolim Jacó, a  “divina” Elizeth, a notável Elis, Clara, Paulinho , João Nogueira, Gonzaguinha, Tim Maia, Jorge Ben (sem o Jor), Milton Nascimento, Nelson Gonçalves, Orlando Silva, Raul Seixas, João Bosco, Nana Caymmi, Fagner, Altemar Dutra e…
Senão, dando uma chegadinha no exterior, poderei ouvir uma boa Música Popular Brasileira.
EXEMPLOS DE LETRAS DE MÚSICA- (Pequenos trechos catados sem muito esforço)
1-De Paulinho da Viola 
Teu olhar iluminava
O mar que havia no meu coração
Meu barco de sonhos
Tranqüilo
Navegava em meu delírio
Entregue em tuas mãos
Mas o tempo sempre apaga
O fogo de qualquer paixão
E lança, sem pena,
As flores que restaram
Nas águas da desilusão
2-De Vinicius de Moraes
Ai, vontade de ficar mas tendo que ir embora
Ai, que amar é se ir morrendo pela vida afora
É refletir na lágrima um momento breve
De uma estrela pura
Cuja luz morreu
Numa noite escura
Triste como eu
3-De Caetano Veloso
O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim
4-De Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito
Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor

5 De Orestes Barbosa
E a lua furando nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão.
Tu pisavas nos astros distraída…

6-De Lenine
Daqui desse momento
Do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem
A sombra do futuro
A sobra do passado
Assombram a paisagem

7-De Emicida
Hoje cedo
Quando eu acordei e não te vi
Eu pensei em tanta coisa
Tive medo
Ah, como eu chorei, eu sofri
Em segredo
Tudo isso
Hoje cedo

8- De Chico Buarque
Amaram o amor urgente
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar

A música brasileira dos dias de hoje e sua triste realidade!

A indústria musical hoje no Brasil busca novidades que agradam ao ouvido da população e da mídia em geral. Mas o que leva a uma grave preocupação é que a boa música de algumas décadas atrás foi praticamente esquecida pelas gravadoras e trocada por produções de baixa qualidade musical, que facilmente agrada os ouvintes atualmente.

Composições vazias e sem conteúdo relevante é o que gera lucro para os empresários da música, logo o espaço que poderia ser divulgado novos talentos e relembrado grandes clássicos são exclusivos de artistas com qualidade musical totalmente limitada. Isso sem levar em consideração também o fato de que, músicos que possuem obras superiores tecnicamente, ou em qualquer outra questão, ficam sem espaço na grande mídia. Estes acabam restritos aos fãs mais fiéis e a alguns ouvintes que buscam obras bem produzidas, os quais são, obviamente, mais sensatos que os adoradores do baixo nível.

Se for preciso citar alguns gêneros que entopem as rádios e emissoras de TV com lixos industriais, com certeza o faremos. Qualquer pessoa que consiga compreender algo totalmente básico em uma obra artística e não a aprecie apenas superficialmente, logo perceberá que o Funk brasileiro, os chamados Sertanejos Universitários, entre outros, espalham músicas sem nenhum conteúdo relevante. Porém o que acontece? A grande massa gera lucro para estilos como estes, deixando grandes composições de MPB e do velho Rock Nacional, principalmente da década de 70 e 80, cada vez mais esquecidos e menos valorizados.

Artistas que produzem “enlatados”, ou seja, obras que já vêm prontas e são fáceis de engolir, ganham inúmeros prêmios, como de melhor banda, melhor música, melhor cantor etc. E os dinossauros da música brasileira estão sendo fortemente abandonados por grande parte do público e pela mídia.

É necessário ressaltar também que o capitalismo além de matar muitas pessoas, está matando e quer enterrar, sem piedade, a boa música. Esta afirmação existe baseada principalmente em uma concepção, um dos fatores primordiais deste sistema, o dinheiro. Atualmente as gravadoras se preocupam essencialmente com o lucro, ao invés da qualidade das obras. Essa triste realidade acaba fazendo com que os artistas fiquem sem opções de escolha, em outras palavras, ou você aceita que o mais importante na música hoje é o lucro, ou contente-se com a cena underground.

Felipe Ferraz

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Capítulo 65 – MPB: JÁ CHEGAMOS AO FIM DO POÇO?
(Parte I)
A polêmica sobre o “FIM DA CANÇÃO” agitou críticos, compositores e cantores quando Chico Buarque, em entrevista a jornais em 2009, declarou que a canção, como a conhecemos, pode ter se esgotado e estar encerrando seu ciclo na História. ” A canção talvez seja um fenômeno do século passado no Brasil. A minha geração, que fez aquelas canções todas, com o tempo só aprimorou a qualidade de sua música. Mas o interesse hoje por isso parece pequeno”. Chico se refere à canção mais elaborada musicalmente e com letras densas e ricas.
A julgar pela qualidade das músicas que são divulgadas nas mídias mais populares, somos obrigados a concordar que nossas “canções” perderam seu lugar, estando cada vez mais distantes do povo. A sociedade de consumo atingiu a produção artística, e seus “produtos” se tornaram descartáveis, servindo apenas e tão somente ao entretenimento passageiro. São como os produtos de plástico: mais baratos, atendendo à voracidade do consumo de massa. “Produtos” mais elaborados ficam restritos a “públicos” mais exigentes.
A televisão e as mídias impressas mais populares têm o poder de glamurizar personagens pelo seu visual, não importando o conteúdo apresentado. Viram “celebridades” da noite para o dia, arrebanhando uma legião de fãs. Exemplos não faltam na cambaleante música popular brasileira.
EXEMPLOS DE LETRAS DE MÚSICA
1-Do chamado “sertanejo universitário” seleciono aleatoriamente versos dos galãs Victor e Leo, que fazem estrondoso sucesso:
Percebo que o tempo já não passa. Você diz que não tem graça amar assim. Foi tudo tão bonito, mas voou pro infinito
Parecido com borboletas de um jardim
Agora você volta
E balança o que eu sentia por outro alguém
Dividido entre dois mundos. Sei que estou amando, mas ainda não sei quem
2-Do “forró universitário”, extraio o refrão abaixo:
É nóis fazer “parapapa” “parapapa” “parapapa”
Agarrar, beijar
Fazer “parapapa”
É nóis fazer “parapapa” “parapapa” “parapapa”
Agarrar, beijar
Fazer “parapapa”
3-Do bonito e simpático Luan Santana, ídolo de multidões:
Ela é uma mulher menina. Que precisa urgentemente ser mais forte. Ela quer alguém que leia seu sorriso
Antes de olhar o seu decote
Ela vê suas amigas se entregando
Ao primeiro que aparecer
Numa tentativa boba de se preencher
Como disse, catei aleatoriamente essas letras. Não conheço as melodias. Os leitores hão de convir que todas elas não têm o mínimo compromisso com beleza, estética, criatividade e riqueza de conteúdo. Um amontoado de ideias e rimas pobres (quando há). Que importa! Prevalece o visual dos “universitários” que provoca delírio em multidão de fãs. Entretenimento passageiro. Ibope certo para os “domingões musicais”.


 (Parte 2)
Sempre tivemos músicas ruins. Não é característica do momento atual.
No final dos anos 50 (antes da fabulosa safra musical da década de 60), tínhamos ainda resquícios dos bolerões e guarânias importados e de gosto duvidoso, algumas baladas bem fraquinhas que vinham dos Estados Unidos, muitas canções com letras malfeitas e uma infinidade de versões que nem sempre traduziam com fidelidade as letras originais. Mas havia na MPB um núcleo de qualidade que prenunciava os grandes “movimentos ” de 60. Ataulfo Alves, Noel Rosa, Ary Barroso, Dorival Caymmi e muitos outros “grandes” garantiam o “DNA” positivo responsável pela excelência da MPB.
Dick Farney (meio americanizado), Johnny Alf, Tito Madi, Dolores Duran, Antônio Maria, Braguinha (“Copacabana, princesinha do mar…”), Pixinguinha, Dóris Monteiro (“Mudando de Conversa”), Miltinho (“Cara de palhaço…”), Lúcio Alves, Elza Soares (magnífica), Sylvia Telles, Alaíde Costa, Nora Ney, Leny Andrade, só para citar alguns, já compunham, tocavam ou cantavam hits “preparatórios” ou “introdutórios” para a chegada da Bossa Nova. O famoso “Beco das Garrafas” no Rio pariu esse novo movimento na MPB. Aí vieram João Gilberto, Vinicius, Tom, Carlos Lyra, Menescal, Bôscoli, Nara Leão, e tantos outros trazendo esse som que ganhou o mundo e até hoje é sucesso no exigente mercado americano, na Europa, no Japão e em muitas partes do planeta (quase esquecido no Brasil). O que falar da dupla Tom Jobim e Vinicius?
Em meio aos Beatles, a MPB ganha força com a mais valiosa e extensa safra de compositores surgida de uma só vez. Não dá para citar todo mundo. Vou de Chico, Caetano, Edu, Vandré, Gil e paro por aqui para não se pensar que é uma lista exaustiva. A MPB explode nas mídias, trazendo artistas geniais: Elis, Elizeth, Betânia, Gal, Rita Lee, MPB-4, Quarteto em Si, Zimbo Trio e uma porção de intérpretes incríveis. A Tropicália libera a guitarra para a MPB e tira do baú gênios esquecidos, recuperando-lhes o merecido prestígio popular: Luiz Gonzaga, Cartola, Nelson Cavaquinho, Ismael Silva, Adoniran Barbosa, Carmen Miranda e muitos outros. A Televisão se firmava como mídia favorita do povo, superando no quesito música o Rádio (que passou a privilegiar noticiários e utilidade pública, exceção ainda às FM’s com muita música importada e insuportável).
Jovem Guarda trouxe na mesma época uma resposta à brasileira ao “Iê,Iê,Iê” de Liverpool, com Roberto e Erasmo fazendo coisas boas e ruins (muitas versões de gosto duvidoso). Na esteira do movimento, surgem cantores ruins e músicas “fraquinhas” de apelo popular. Mas foi um movimento de muito sucesso, nas “jovens tardes de Domingo”. As coisas boas dessa turma permanecem até hoje.
Primeiro a TV Excelsior e Tupi depois a Record se encarregaram de difundir todos esses movimentos musicais com programas como “Brasil 60” (61, 62…mudando conforme o ano; apresentado por Bibi Ferreira), “O Fino da Bossa” (Elis e Jair Rodrigues), “Bossaudade”(Elizeth Cardoso),”Encontro com Luiz Vieira” ( “Menino Passarinho”,”Menino de Braçanã), “Spotlight” (Simonal), “Show em Si…monal”,  “Jovem Guarda” e outros, além dos famosos festivais de MPB.
Nos Anos 70 o Samba veio forte com grandes composições, tendo Paulinho da Viola como “mestre”, os compositores das “velhas guardas” das Escolas de Samba, com intérpretes do naipe de Clara Nunes, Beth Carvalho e Alcione. e muitos bambas, João Nogueira, Martinho, Roberto Ribeiro (voz belíssima, dicção perfeita) fazendo o melhor do samba brasileiro. e letristas estupendos como Aldir Blanc (“O Bêbado e Equilibrista”) e Paulo Sérgio Pinheiro (“O Poder da Criação”). Até o Chorinho ressurge, aproveitando a onda do melhor momento da MPB. Os gênios de Altamiro Carrilho, Waldir AzevedoSivuca, Paulo Moura e outros chorões saíram das tocas para mostrar arte pura. Enchiam grandes auditórios e podiam ser ouvidos nos programas de maiores ibopes da TV. Era Chorinho pra todo lado! Os jovens até ficaram sabendo quem eram Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth.
E a qualidade musical continuou com Ivan Lins, Milton Nascimento, Gonzaguinha, Toquinho, Alceu Valença, Zeca Pagodinho e tantos outros.
O que acontece- obviamente sob meu ponto de vista- é que essa qualidade começa a deteriorar-se a partir dos Anos 80. Não que parassem de surgir ótimos compositores e cantores. O Brasil será sempre celeiro de grandes músicos. As transformações aceleradas no mundo, movidas pelo avanço supersônico da tecnologia, parecem ter aberto espaço para o “mercado-rei” e suas exigências de lucro rápido, público crescente e consumismo desenfreado, atingindo de frente a produção musical e artística em geral. Tudo vira “produto” para consumo imediato e descarte à medida em que surgem sucedâneos mais  “comerciais”. E daí o que se pode esperar? Produção massiva e qualidade lá embaixo. Analogamente: produtos de metal substituídos por produtos de plástico.
O bom e autêntico samba dá lugar a “pagodinhos” feitos sem qualquer esmero nas letras e com melodias que poderiam ser passadas tranquilamente para “bolerinhos”. Ganhando muito dinheiro, surgem conjuntinhos de “pagodeiros” em que somente um se sobressai para depois sair do grupo e fazer carreira solo. A música caipira ou sertaneja de raiz (que antes só ocupava as madrugadas nas rádios) vira “sertanejo universitário”, com uma infinidade de duplas enriquecendo-se em “rodeios” pelo Brasil e agora invadindo até o Carnaval da Bahia. A qualidade das músicas é a pior possível. Mas isso não vem ao caso. Para as mídias populares, capitaneadas pela TV, o que interessa é o visual da rapaziada arrancando suspiros de fãs apaixonadas. Quanto mais “ibope” mais patrocinadores e cifrões. A resistência ainda se vê nos autênticos, padrão Almir Sater, Renato Teixeira e Sérgio Reis, bancados por programas como os de Inezita Barroso e Rolando Boldrin.
O que me impressiona é a qualidade que vai se deteriorando ano a ano. O brega em um ano é menos ruim que o brega seguinte. Waldick Soriano e Reginaldo Rossi são menos ruins que Odair José que, por sua vez, é menos ruim que Amado Batista que, por sua vez, é menos ruim que um tal de Tayrone Cigano (descobri esse “cantor” em Salvador, fazendo o maior sucesso com o povão; é péssimo!).
Carnaval tem sido um exemplo claro dessas minhas constatações. Um ano a “Eguinha Pocotó” é o hit. No outro é o “Créu”, no seguinte é o “Rebolation”, no outro é o “Lepo Lepo”. Consome-se o “produto” para descartá-lo em seguida. Mais uma vez: não importa a qualidade. Nada é para ficar, para durar mais que um ano! Plástico barato.

Carnaval virou um rentável “produto comercial”. Se fosse só isso, nada de mal. Muita gente se arruma com uma fonte de renda nessa época. A questão que enfoco é a decadência musical. Considero também que a “festa” anda se descaracterizando, transformando-se em espetáculo para as tevês. Na Bahia, por exemplo, onde o Carnaval tem a fama de ser o melhor do Brasil, os tradicionais “Trios Elétricos” (Dodô e Osmar) movidos a frevo (Moraes Moreira e o grande músico Armandinho) deram lugar a possantes “carros -palco” de som, onde em um longo percurso vai se apresentando todo tipo de música. São verdadeiros palcos volantes, vitrines para os sucessos do ano. Os cantores param de cantar para longas conversas com os repórteres das tevês e com o pessoal dos camarotes. Aliás- diga-se de passagem-  a “camarotização” nos carnavais é uma forma de segregar famosos e endinheirados do grande público. E mais que isso- oferecer outras opções de música para os “camarotizados”. A reação a esse tipo de Carnaval tem sido observada ano a ano com a proliferação de bandas que saem semanas antes, principalmente no Rio e em São Paulo. Já passam de 1000 no Rio e perto disso em São Paulo.

Milton Pereira

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Capítulo 64 – JURAVA QUE ERA FÁCIL SER JURADO
 Na década de 60, 70, penso eu até um pouco mais, todos sabem que existiam grandes festivais de música transmitidos por canais de televisão e, que nessa onda ou ouso chamar de tsunami, vieram trazidos pela arca de Noé musical, vários e bons artistas, entre compositores, cantores, instrumentistas. Desse grande número de revelações, muitos foram alçados ao patamar máximo, deixando sua marca no rol dos grandes nomes da nossa música popular brasileira. Eu, comecei a participar de festivais no ano de 1976 e de cara fui para um fora da minha cidade, o que já envolveu planejamento financeiro. Foi dureza para eu e meus companheiros de banda, a grana, sem apoio de papai ou mamãe, era curtíssima, mas, nos viramos. A partir daí veio uma sequência de apresentações em outras competições, nada tão grande quanto, em se tratando de exposição, aos transmitidos pela tv, mas alguns tinham organização tanto quanto e boas premiações. Enquanto banda nunca ficamos entre os três primeiros, apesar de sentir o calor do público em reconhecer que tínhamos nos apresentados bem e que a música havia sido bem recebida, mas o resultado como era uma equação resolvida por um júri, não tínhamos certeza de nada, apenas desconfiávamos em algumas, que o resultado final parecia manipulado, mas sem provas, pairava no ar um monte de interrogações. Depois que desfizemos a banda, segui carreira solo e continuei a participar de festivais. Sozinho consegui mais alegrias do que dissabores. Foram pouquíssimas as vezes em que senti manipulação, mesmo as que eu não me coloquei entre os primeiros, porém, as vitórias foram deliciosas. Foram três prêmios de melhor intérprete, sendo dois deles juntamente com a escolha de melhor música também.
Certa vez, aconteceria um festival de música entre bandas formadas por garotos frequentadores das igrejas católicas, normalmente oriundos da pastoral musical, que tocavam e cantavam em missas normais e solenes e essas igrejas faziam parte de uma determinada região, não era uma competição nacional, apenas de alguns bairros do Rio de Janeiro. Eu, frequentador das missas de domingo e das atividades culturais e festivas da Paróquia no meu bairro, tendo já feito algumas apresentações, portanto tinham conhecimento da minha afinidade musical, fui procurado e convidado para participar do corpo de jurados e de quebra ainda levei meu compadre com formação em direção de artes. Quando fui convidado não me preocupei e para dizer a verdade nem pensei direito na responsabilidade que eu iria assumir, apenas aceitei. Mais próximo do evento, foi que me dei conta de que eu iria fazer o que até então faziam comigo, julgar. Meus amigos, pode parecer besteira da minha parte, mas me senti desconfortável. Quem sou eu para julgar o trabalho de uma outra pessoa, posso até emitir uma opinião quando perguntado, mas julgar, pensei ser um pouco demais. No dia do festival, confidenciei ao meu compadre essa minha visão, ao qual fui agraciado com a alegação de que estava mais do que na hora, de eu saber o que era ouvir músicas dos outros e ter que dar uma nota, classificando assim entre ruim, média e boa. Antes de começar as apresentações, nós integrantes do corpo de jurado, fomos convidados para uma pequena e rápida reunião. Ainda não tinham escolhido o presidente, aquele que ficaria responsável por receber os votos e fazer a contagem. Houve consenso de que deveria ser no sorteio e assim foi. Meu compadre foi o sorteado, gostei. Ele como presidente tinha a prerrogativa de escolher o seu secretário, vocês não precisam nem se esforçarem para adivinhar, isso mesmo, eu. Um último comunicado: inicialmente foram convidados cinco Paróquias e cada uma com três participantes escolhidos pelos próprios, contudo, uma delas uma semana antes desculpou-se enviando um recado de que não poderiam participar, então, para não baixar o número calculado inicialmente, foram abertas mais quatro vagas, uma para cada Paróquia, mas acabou que só duas poderiam preencher esse vazio, o que foi feito, só que cada uma mandou mais dois concorrentes, assim, ficamos com dezesseis participantes, sendo duas Paróquias com cinco e as outras duas com três, fazer o quê? Terminada a reunião, nos dirigimos para os nossos assentos de cara para o palco. Apesar de ser um festival de música entre Paroquianos representando sua Paróquia, não havia obrigatoriedade que o tema fosse religioso, pelo contrário, ele era livre, desde de que não ferisse o bom senso.
O áudio foi ligado, os participantes começaram a ser chamados e a aí começou o que podemos chamar de momento de grande martírio. Você tem uma tabela de notas para aplicar de acordo com o somatório do conjunto da obra ou basear-se apenas na letra e música, mesmo que haja desafinações, o que certamente acontecerá, pois são amadores e jovens. Se as primeiras apresentações forem só boas, você pode evitar uma nota alta, mas se elas estiverem acima, aí fica difícil. Para nossa sorte ou azar o nível chegava apenas ao razoável nesse início. Eu e meu compadre éramos a imparcialidade total, porém no decorrer do festival, eu vi que ao meu lado esquerdo haviam dois jurados que estavam torcendo descaradamente para uma paróquia, chamei a atenção do meu companheiro, que ao sacar o lance lamentou profundamente. Procuramos entre os demais se havia tal comportamento, se havia, estavam bem contidos, o que já não acontecia com os dois ao meu lado. Decorrido o festival, duas bandas se destacaram e, portanto, tínhamos certeza que estavam disputando o prêmio. No nosso entendimento uma delas merecia uma pontuação melhor, mas nada que fosse tão distante, apenas o suficiente para ganhar, porém os dois do meu lado torciam por uma delas. Fomos para apuração e para a nossa surpresa, no somatório geral a que nós achamos melhor perdia. Como estávamos só eu e meu compadre fazendo a apuração, procuramos em cada tabela ver se havia distorções, qual não foi a nossa surpresa que justamente na tabela daqueles dois a diferença de nota entre uma e a outra determinava o resultado. Vocês vão dizer assim: Isso é fácil de resolver, basta adulterar as notas dos dois e pronto, já que estavam sozinhos, ninguém iria saber. Não vou mentir, até passou pelas nossas cabeças, mas resolvemos não fazermos justiça com as próprias mãos, entregamos na mão de Deus, afinal era um festival entre paróquias, imagina aqueles que não são, o que rola.

Dessa história eu tirei uma experiência muito desagradável e além do que as minhas suspeitas em boa parte dos festivais em que participei afloraram. Eu não fico só nos festivais em que estive, vou mais longe, aos festivais que assisti e principalmente os transmitidos pela tv. Neles vi cada absurdo, que eu chegava a me achar um completo idiota, analfabeto musical. Nada disso, apenas um pobre inocente e ingênuo. Inté!