Capítulo 65 – MPB: JÁ CHEGAMOS AO FIM DO POÇO?
(Parte I)
A polêmica sobre o “FIM DA CANÇÃO” agitou críticos,
compositores e cantores quando Chico Buarque, em entrevista a
jornais em 2009, declarou que a canção, como a conhecemos, pode ter se esgotado
e estar encerrando seu ciclo na História. ” A canção talvez seja um
fenômeno do século passado no Brasil. A minha geração, que fez aquelas canções todas,
com o tempo só aprimorou a qualidade de sua música. Mas o interesse hoje por
isso parece pequeno”. Chico se refere à canção mais elaborada musicalmente
e com letras densas e ricas.
A julgar pela qualidade das músicas que são divulgadas nas mídias mais populares,
somos obrigados a concordar que nossas “canções” perderam seu lugar, estando
cada vez mais distantes do povo. A sociedade de consumo atingiu a produção
artística, e seus “produtos” se tornaram descartáveis, servindo apenas e tão
somente ao entretenimento passageiro. São como os produtos de plástico: mais
baratos, atendendo à voracidade do consumo de massa. “Produtos” mais elaborados
ficam restritos a “públicos” mais exigentes.
A televisão e as mídias impressas mais populares têm o poder de glamurizar personagens
pelo seu visual, não importando o conteúdo apresentado. Viram “celebridades” da
noite para o dia, arrebanhando uma legião de fãs. Exemplos não faltam na
cambaleante música popular brasileira.
EXEMPLOS DE LETRAS DE MÚSICA
1-Do chamado “sertanejo universitário” seleciono
aleatoriamente versos dos galãs Victor e Leo, que fazem estrondoso
sucesso:
Percebo que o tempo já não passa. Você diz que não tem graça amar assim. Foi
tudo tão bonito, mas voou pro infinito
Parecido com borboletas de um jardim
Parecido com borboletas de um jardim
Agora você volta
E balança o que eu sentia por outro alguém
Dividido entre dois mundos. Sei que estou amando, mas ainda não sei quem
E balança o que eu sentia por outro alguém
Dividido entre dois mundos. Sei que estou amando, mas ainda não sei quem
2-Do “forró universitário”, extraio o refrão abaixo:
É nóis fazer “parapapa” “parapapa” “parapapa”
Agarrar, beijar
Fazer “parapapa”
É nóis fazer “parapapa” “parapapa” “parapapa”
Agarrar, beijar
Fazer “parapapa”
Agarrar, beijar
Fazer “parapapa”
É nóis fazer “parapapa” “parapapa” “parapapa”
Agarrar, beijar
Fazer “parapapa”
3-Do bonito e simpático Luan Santana, ídolo de multidões:
Ela é uma mulher menina. Que precisa urgentemente ser mais forte. Ela quer alguém que
leia seu sorriso
Antes de olhar o seu decote
Ela vê suas amigas se entregando
Ao primeiro que aparecer
Numa tentativa boba de se preencher
Antes de olhar o seu decote
Ela vê suas amigas se entregando
Ao primeiro que aparecer
Numa tentativa boba de se preencher
Como disse, catei aleatoriamente essas letras. Não conheço as
melodias. Os leitores hão de convir que todas elas não têm o mínimo compromisso
com beleza, estética, criatividade e riqueza de conteúdo. Um amontoado de
ideias e rimas pobres (quando há). Que importa! Prevalece o visual dos “universitários” que
provoca delírio em multidão de fãs. Entretenimento passageiro. Ibope certo para
os “domingões musicais”.
(Parte 2)
Sempre tivemos músicas
ruins. Não é característica do momento atual.
No final dos anos
50 (antes da fabulosa safra musical da década de 60), tínhamos ainda
resquícios dos bolerões e guarânias importados e de gosto duvidoso, algumas
baladas bem fraquinhas que vinham dos Estados Unidos, muitas canções com letras
malfeitas e uma infinidade de versões que nem sempre traduziam com
fidelidade as letras originais. Mas havia na MPB um núcleo de
qualidade que prenunciava os grandes “movimentos ” de 60. Ataulfo
Alves, Noel Rosa, Ary Barroso, Dorival Caymmi e muitos outros
“grandes” garantiam o “DNA” positivo responsável pela excelência da MPB.
Dick Farney (meio americanizado), Johnny
Alf, Tito Madi, Dolores Duran, Antônio Maria, Braguinha (“Copacabana,
princesinha do mar…”), Pixinguinha, Dóris Monteiro (“Mudando
de Conversa”), Miltinho (“Cara de palhaço…”), Lúcio Alves,
Elza Soares (magnífica), Sylvia Telles, Alaíde Costa, Nora Ney, Leny
Andrade, só para citar alguns, já compunham, tocavam ou cantavam hits
“preparatórios” ou “introdutórios” para a chegada da Bossa Nova. O
famoso “Beco das Garrafas” no Rio pariu esse novo movimento
na MPB. Aí vieram João Gilberto, Vinicius, Tom, Carlos
Lyra, Menescal, Bôscoli, Nara Leão, e tantos outros trazendo
esse som que ganhou o mundo e até hoje é sucesso no exigente mercado americano,
na Europa, no Japão e em muitas partes do planeta (quase esquecido no
Brasil). O que falar da dupla Tom Jobim e Vinicius?
Em meio aos
Beatles, a MPB ganha força com a mais valiosa e extensa safra
de compositores surgida de uma só vez. Não dá para citar todo mundo. Vou
de Chico, Caetano, Edu, Vandré, Gil e paro por aqui para não
se pensar que é uma lista exaustiva. A MPB explode nas mídias,
trazendo artistas geniais: Elis, Elizeth, Betânia, Gal,
Rita Lee, MPB-4, Quarteto em Si, Zimbo Trio e uma porção de
intérpretes incríveis. A Tropicália libera a guitarra
para a MPB e tira do baú gênios esquecidos, recuperando-lhes
o merecido prestígio popular: Luiz Gonzaga, Cartola, Nelson
Cavaquinho, Ismael Silva, Adoniran Barbosa, Carmen Miranda e muitos outros.
A Televisão se firmava como mídia favorita do povo, superando no quesito música
o Rádio (que passou a privilegiar noticiários e utilidade pública, exceção
ainda às FM’s com muita música importada e insuportável).
A Jovem
Guarda trouxe na mesma época uma resposta à brasileira ao “Iê,Iê,Iê”
de Liverpool, com Roberto e Erasmo fazendo coisas boas e ruins
(muitas versões de gosto duvidoso). Na esteira do movimento, surgem
cantores ruins e músicas “fraquinhas” de apelo popular. Mas foi um
movimento de muito sucesso, nas “jovens tardes de Domingo”. As
coisas boas dessa turma permanecem até hoje.
Primeiro a TV
Excelsior e Tupi depois a Record se encarregaram de difundir todos esses
movimentos musicais com programas como “Brasil 60” (61, 62…mudando
conforme o ano; apresentado por Bibi Ferreira), “O
Fino da Bossa” (Elis e Jair Rodrigues), “Bossaudade”(Elizeth
Cardoso),”Encontro com Luiz Vieira” ( “Menino Passarinho”,”Menino
de Braçanã), “Spotlight” (Simonal), “Show em
Si…monal”, “Jovem Guarda” e outros, além dos
famosos festivais de MPB.
Nos Anos 70 o Samba veio
forte com grandes composições, tendo Paulinho da Viola como
“mestre”, os compositores das “velhas guardas” das Escolas de Samba,
com intérpretes do naipe de Clara Nunes, Beth Carvalho e
Alcione. e muitos bambas, João Nogueira, Martinho, Roberto
Ribeiro (voz belíssima, dicção perfeita) fazendo o melhor do
samba brasileiro. e letristas estupendos como Aldir Blanc (“O
Bêbado e Equilibrista”) e Paulo Sérgio Pinheiro (“O Poder da
Criação”). Até o Chorinho ressurge, aproveitando a onda do
melhor momento da MPB. Os gênios de Altamiro Carrilho,
Waldir Azevedo, Sivuca, Paulo Moura e outros
chorões saíram das tocas para mostrar arte pura. Enchiam grandes auditórios e
podiam ser ouvidos nos programas de maiores ibopes da TV. Era Chorinho pra
todo lado! Os jovens até ficaram sabendo quem eram Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth.
E a qualidade
musical continuou com Ivan Lins, Milton Nascimento, Gonzaguinha, Toquinho,
Alceu Valença, Zeca Pagodinho e tantos outros.
O que acontece-
obviamente sob meu ponto de vista- é que essa qualidade começa a deteriorar-se
a partir dos Anos 80. Não que parassem de surgir ótimos
compositores e cantores. O Brasil será sempre celeiro de grandes músicos. As
transformações aceleradas no mundo, movidas pelo avanço supersônico da
tecnologia, parecem ter aberto espaço para o “mercado-rei” e
suas exigências de lucro rápido, público crescente e consumismo desenfreado,
atingindo de frente a produção musical e artística em geral. Tudo
vira “produto” para consumo imediato e descarte à medida em
que surgem sucedâneos mais “comerciais”. E daí o que se pode
esperar? Produção massiva e qualidade lá embaixo. Analogamente:
produtos de metal substituídos por produtos de plástico.
O bom e
autêntico samba dá lugar a “pagodinhos” feitos
sem qualquer esmero nas letras e com melodias que poderiam ser passadas
tranquilamente para “bolerinhos”. Ganhando muito dinheiro, surgem conjuntinhos
de “pagodeiros” em que somente um se sobressai para depois
sair do grupo e fazer carreira solo. A música caipira ou sertaneja de
raiz (que antes só ocupava as madrugadas nas rádios) vira “sertanejo
universitário”, com uma infinidade de duplas enriquecendo-se em
“rodeios” pelo Brasil e agora invadindo até o Carnaval da Bahia. A
qualidade das músicas é a pior possível. Mas isso não vem ao caso. Para as
mídias populares, capitaneadas pela TV, o que interessa é o visual da rapaziada
arrancando suspiros de fãs apaixonadas. Quanto mais “ibope”
mais patrocinadores e cifrões. A resistência ainda se vê
nos autênticos, padrão Almir Sater, Renato
Teixeira e Sérgio Reis, bancados por programas como os
de Inezita Barroso e Rolando Boldrin.
O que me
impressiona é a qualidade que vai se deteriorando ano a ano. O brega em
um ano é menos ruim que o brega seguinte. Waldick
Soriano e Reginaldo Rossi são menos ruins que Odair José que,
por sua vez, é menos ruim que Amado Batista que, por sua vez,
é menos ruim que um tal de Tayrone Cigano (descobri esse
“cantor” em Salvador, fazendo o maior sucesso com o povão; é péssimo!).
O Carnaval tem
sido um exemplo claro dessas minhas constatações. Um ano a “Eguinha
Pocotó” é o hit. No outro é o “Créu”, no
seguinte é o “Rebolation”, no outro é o “Lepo Lepo”.
Consome-se o “produto” para descartá-lo em seguida. Mais uma vez: não
importa a qualidade. Nada é para ficar, para durar mais que um ano! Plástico
barato.
O Carnaval virou
um rentável “produto comercial”. Se fosse só isso, nada de
mal. Muita gente se arruma com uma fonte de renda nessa época. A questão que
enfoco é a decadência musical. Considero também que a “festa” anda
se descaracterizando, transformando-se em espetáculo para as tevês. Na Bahia,
por exemplo, onde o Carnaval tem a fama de ser o melhor do
Brasil, os tradicionais “Trios Elétricos” (Dodô e Osmar)
movidos a frevo (Moraes Moreira e o grande músico Armandinho)
deram lugar a possantes “carros -palco” de som, onde em um
longo percurso vai se apresentando todo tipo de música. São verdadeiros palcos
volantes, vitrines para os sucessos do ano. Os cantores param de cantar para
longas conversas com os repórteres das tevês e com o pessoal dos camarotes.
Aliás- diga-se de passagem- a “camarotização” nos
carnavais é uma forma de segregar famosos e endinheirados do grande público. E
mais que isso- oferecer outras opções de música para os “camarotizados”.
A reação a esse tipo de Carnaval tem sido observada ano a ano com a
proliferação de bandas que saem semanas antes, principalmente
no Rio e em São Paulo. Já passam de 1000 no Rio e perto disso em São
Paulo.
Milton Pereira
Milton Pereira
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