quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Capítulo 60 – INTÉRPRETE OU ENGODO

Televisão desde a minha infância tem programa de calouros, aliás, antes d’eu, já existia nas rádios.  Um dos mais famosos e engraçado era o chacrinha, mas havia outros. Me lembro até que houve uma revelação que respondia pelo nome de Paulo Sergio, proveniente desses tipos de programas. Foi uma revelação bombástica na época. Tinha o timbre vocal muito parecido com o do Roberto Carlos e isso provocou comparações e comentários ofensivos chamando-o de imitador. Ele estava conseguindo até desbancar o consagrado Rei do iê, iê, iê e da jovem guarda e fazendo uma legião de fãs. Ele lançou 13 “long play’s” entre 1967 e 1980. Todos sucessos. Era talentoso no quesito cantor romântico e bom compositor. Um derrame abreviou sua trajetória aos 36 anos. Lembro-me também de um outro programa, apresentado pelo saudoso Flavio Cavalcanti, de calouros “A grande chance”, que estreou em 1967, dando visibilidade a cantores em início de carreira. Nomes que se tornaram grandes na MPB participaram do concurso, como Emílio Santiago, Alcione, Leci Brandão e Áurea Martins. No júri, personalidades como Nélson Motta, Leila Diniz, Mister Eco, Maestro Cipó, Osvaldo Sargentelli, Marisa Urban, Márcia de Windsor, o estilista Dener, Danusa Leão, Vera Fisher, Aracy de Almeida e Maysa, entre outros, ajudavam a abrilhantar o show. Cito esses dois momentos da nossa tv brasileira, sem desmerecer nenhum outro programa, apenas porque me lembrei mais. Hoje, continuam a oferecer ao público esse tipo de programa, claro, num outro formato, mas a finalidade continua a mesma, revelar novos talentos, a única diferença, penso eu, é que estamos numa, como poderia dizer, safra de pouca criatividade e a importância do intérprete passou a ser medida não pela qualidade vocal ou como o artista une bem voz, música, palco, público, dominando perfeitamente bem esses quatros elementos, mas, ao contrário eleva-se a categoria de ídolo apenas pela estilo musical, normalmente de baixa qualidade. Note que peguei para uma mera e simples comparação quatro artistas que por ventura passaram por programas de “calouros” e que se tornaram nomes fortíssimos e com uma carreira brilhante. São artistas da nossa música que emplacaram vários sucessos em alto nível.
Num dos últimos programas que mantinha o velho formato de calouros, Raul Gil apresentava para o seu público cantores infantis, juvenis e adultos, eu não sou mais um fã desse tipo de programa, mas meus sogros adoravam assistir, enquanto existiu, todos os sábados o velho e bom programa de calouros. Eu ainda não havia me mudado, portanto morava numa casa que havia construído no final do terreno do meu sogro e como sempre fazia, adentrava pela porta dos fundos como se fosse uma extensão da minha, afim de vê-los e muitas vezes papear com meu sogro ou apenas assistir um jogo de futebol. Por diversas vezes, me recordo agora, ficava assistindo com eles o desfile de alguns talentos promissores, tanto de pouca idade, assim como já adultos. Foi num determinado programa que apareceu um cantor que viria a ser o xodó do programa. Afinação perfeita. Extensão vocal absurdamente segura. Presença de palco. Domínio. Empatia. Não sou nenhum expert no assunto, mas também não sou assim tão tapado. Senti que havia ali um grande potencial e certamente uma promissora carreira. Em pouco tempo passou a ser atração, deixando para trás o lugar de calouro. Acredito que como o programa foi seu fio condutor, deve tê-lo amarrado com um contrato, fechando exclusividade em participações, apesar de eu não saber precisar, sua presença invariavelmente era anunciada como atração principal. Isso funcionava, tiro essa conclusão pela reação dos meus sogros, pois quando era anunciada sua participação, eles ficavam mais animados e ansiosos.
Eu nunca mais o vi e nem ouvi falar, desde que me mudei e deixei de vez por outra assisti-lo no programa do Raul Gil. Como eu pessoalmente não tinha o habito de assistir televisão durante o dia e especialmente programas de auditórios, em minha nova casa o cantor revelação nunca entrou, entretanto, não passou desapercebido, que passando em alguns lugares, bairros, principalmente nos outdoors que nos chamam a atenção para algo, estava sempre em algum ponto um, anunciando seu show. Nunca me veio a curiosidade de vê-lo. Esperava encontra-lo ao som de uma rádio, mas nada. Talvez, em algum canal de música, mas nada. Na internet, mas também nada. Até que o esqueci. Durante esse hiato, apareceram diversos artistas, uns chegando a arrebentar a boca do balão, de tanto sucesso, mas nenhum deles é e nunca será cantor. Taí uma coisa para reflexão. Existe uma dúzia ou mais que revezam o topo das paradas de sucesso, se é que ainda pode se chamar assim, mas nenhum canta a metade do rapaz revelação do Raul Gil. Praticamente todos, cada um no seu, cantam um só estilo de música, as vezes até parece que estão cantando a mesma música, só trocando a letra pobre e o refrão, esse então não pode faltar. E a massa adora. É um fenômeno! Alguns são compositores, mas a maioria é fruto de uma panela que fabrica sucesso a rodo. Talvez por isso elas se pareçam tanto. Já, o nosso cantor revelação, passeia por todas as vertentes musicais, como se elas fossem simples de cantar, dá uma inveja miserável! Houve época em que um artista desse calibre, teria uma exposição maior perante ao público por parte da mídia, mas hoje as prioridades são outras, lamentável!!
Perto da minha casa existe um clube que sempre tem apresentações de cantores que já foram sucesso em outras épocas e que agora continuam, só que com o mesmo público, apenas mais velhos, assim como eles. Num dia desses eu passava em frente ao clube, como de costume sempre olhei para os anúncios das atrações, foi quando deparei com um cartaz anunciando a apresentação do cantor revelação. Eu sempre olhei, mas comparecer a um show, nunca me passou pela cabeça. Chegando em casa e conversando com minha esposa, foi que me veio a ideia de presentear a minha sogra, infelizmente meu sogro não se encontrava mais entre nós. Concluímos que depois de tantos programas acompanhados, vê-lo ao vivo, seria algo... tratei logo de me inteirar a respeito do valor, aonde havia mesa vazia, de preferência próximo ao palco, enquanto isso minha esposa tratava de assegurar que sua mãe não teria compromisso no dia e que a notícia, que era também um convite, a deixaria muito feliz. Estávamos há umas quatro semanas do show, consegui um ótimo lugar e ficamos esperando o dia. No dia do show, uma pequena confusão causada por uma informação desencontrada fez com que nós chegássemos as dezenove horas, horário da abertura dos portões e não do começo do show, mas esse pequeno detalhe não explicava no anúncio. De qualquer maneira, mesmo o horário verdadeiro ser às vinte horas, o show só começou às 22 horas, enquanto isso aguardamos vendo e ouvindo um músico desses de barzinho e festas, tocando um teclado em cima de arranjos pré-definidos e cantando vários estilos. A maioria do público havia participado das bodas de Canaã, mas estavam ligados numa corrente de 220volts, haja disposição! Apesar de serem a maioria, havia jovens também. Finalmente as 22:20 horas, conjunto formado por um baixista, guitarrista e baterista, já estavam prontos e apostos, quando foi anunciada a atração da noite: Ricky Vallen! A introdução nos trouxe o artista já cantando uma belíssima música, mostrando todo o seu potencial vocal e sua desenvoltura de grande intérprete que o é. terminada a entrada avassaladora, vieram os cumprimentos a plateia presente e seguiu-se a primeira parte do show com um repertório de músicas de altíssimo nível de grandes compositores da MPB, porém da metade para o final desandou a maionese, claro que na minha humilde opinião, por ter um gosto mais apurado, mas ele sabia que era necessário cantar certas músicas, as chamadas comerciais, açucaradas, chiclete e por aí vai. Mas não posso deixar de elogiar, que mesmo nesse território, ele mostrava que não é um cantor brega, pois todas as músicas recebiam um arranjo próprio, deixando evidente que apesar de serem músicas menores, podiam ser cantadas com mais apuro, cito como exemplo dois funks, que ele desarranjou, desconstruiu e me surpreendeu com uma levada jazzística que mesmo com a letra fraca, o conjunto da obra ficou bem apresentado, diria fantástico! Eu fiquei feliz por ter contribuído com a felicidade da minha sogra e de uma certa maneira um pouco triste em saber que existe artistas de grande talento sendo menosprezado pelo público maior ou se for mais adequado, não divulgado devidamente para esse mesmo público. Não penso que seja um caso isolado, o que torna maior o desalento. Aquilo que ouvíamos e que ainda ouvimos e que ouviremos com grande satisfação até os últimos dias da nossa vida, essa geração não terá esse gosto, pois o consumo é volátil e, o produto é descartável, de pouca duração. A esquina é inevitável, em cada uma muda-se a direção, em cada uma encontra-se uma nova e pobre canção. Inté!      

sábado, 12 de agosto de 2017

Capítulo 59 – LITERATURA, POESIA E MÚSICA
Esse tema sempre me fascinou, ao ponto de em algumas conversas chegar a perguntar aos meus amigos de que forma eles encaravam a definição de que a poesia e letra de música seriam duas coisas diferentes ou em alguns casos cabia definir como poesia musicada? Aqui, eu tomei a liberdade de buscar, não todo, um trabalho de Pós-Graduação em Letras, onde o objetivo é estudar a interface Literatura e Música. Através dela, busca-se compreender a forma como a crítica literária incorpora os estudos sobre a MPB, assim como a contribuição desse espaço de trânsito entre sistemas semióticos distintos para a consolidação dos Estudos Culturais.  
Ora, claro que existem inúmeros casos, em que não se deve nem considerar como poesia o que está sendo cantado, apenas palavras rasas colocadas dentro de um ritmo, mas a quantidade de obra musical existente no nosso país é tão vasta, que me atrevo a dizer que temos um grande território de Literatura e Poesia misturados aos vários ritmos e sendo cantadas há muito tempo.   

A partir da década de 80, os estudos que têm como tema a música, principalmente a MPB, se expandem, notando-se um significativo aumento desse interesse nos últimos 5 anos, sendo que, em termos absolutos, as universidades de maior incidência de tais trabalhos encontram-se no Rio de Janeiro (UFRJ, PUC-RJ e UFF). Outro tópico a ser observado são os temas mais recorrentes que privilegiam a crítica cultural, confirmando assim a expansão dos estudos na área. É significativo o volume de trabalhos que buscam historicizar a Música Popular Brasileira, a partir da análise dos principais ritmos ou movimentos musicais. Dentre tais estudos, destacam-se aqueles voltados ao samba (11 dissertações) e o Tropicalismo (13 trabalhos, se incluídos os dedicados especificamente a alguns dos principais integrantes do movimento, como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Torquato Neto). Muitos desses trabalhos adotam um recorte temático, seja ao tratar das particularidades da cultura de massas, ou ao priorizar tanto questões de gênero, como aqueles relativos à identidade étnica e nacional. Há também várias análises com o objetivo de ler a forma como a literatura insere a música em seus enredos ou como a utiliza na própria estruturação da obra. Autores como Machado de Assis, Joaquim Manuel de Macedo, Érico Veríssimo, Caio Fernando Abreu e James Joyce, além do já citado Mário de Andrade marcam presença nesse tipo de abordagem. Uma outra vertente que se pode mencionar, ainda que sejam poucos os estudos realizados (4 apenas), é aquela que busca analisar a importância da música como forma de estimular os alunos ao prazer da leitura literária. No que se refere à perspectiva adotada na análise da música no âmbito dos estudos literários deve-se ressaltar, contudo, um problema que parece grave: a recorrente ausência de uma reflexão que leve em consideração as particularidades da linguagem musical. Raros são os trabalhos que se dedicam a discutir a relação entre letra e melodia (considerando-se as sinopses, apenas 5 trabalhos podem ser citados aqui). Essa questão já vem sendo apontada por estudos sobre a história dos diversos gêneros da MPB e sobre a inter-relação entre o canto e a palavra que têm oferecido suporte para nossa análise da configuração da área acadêmica de Letras. De acordo com o livro organizado por Claúdia Neiva de Matos, Elizabeth Travassos e Fernanda Teixeira de Medeiros, ao encontro da palavra cantada (2001), nas últimas décadas vem acontecendo um aumento do interesse pela poética da canção, retomando-se assim uma aliança ancestral entre poesia e música. Mas, como é bem analisado neste livro, esse estudo esbarra em uma dificuldade por parte do especialista em literatura, que é a carência de instrumental e base teórica musical. Ainda que a possível confluência dos estudos lingüísticos, literários e musicológicos, resultando em uma compreensão muito mais sofisticada dos efeitos entoativos, rítmicos e fônicos da linguagem poética e do verso em particular, já venha sendo apontada e praticada desde os estudos dos formalistas eslavos no início do século XX, permanece o problema de se construir uma leitura que leve em conta todos esses aspectos. Outro ponto levantado neste livro, composto de textos que buscam contemplar uma vasta gama de referências teóricas para dar conta dos muitos aspectos da interação entre discurso verbal, a música e a voz, foi a configuração e expansão dos estudos sobre cultura, que ajudou também a aproximar o pensamento literário das investigações sobre indústria cultural e canção mediatizada de massas. A abordagem multidisciplinar, implícita na parceria, afigura-se como condição para apreender a interação entre as dimensões verbo-voco-musical da palavra cantada nos circuitos culturais, onde se articulam seus processos de produção e recepção. No texto “Pipoca moderna: uma lição - estudando canções e devolvendo a voz ao poema” incluído no livro acima citado, Fernanda Medeiros afirma que texto e música podem dialogar de forma quase didática, um elucidando o outro, estabelecendo uma relação que poderia se classificar como de complementaridade explicativa. A palavra cantada é fato de comunicação estética dotada de propriedades especificas, relacionadas à interação entre poesia verbal, música e performance vocal. Como afirma a autora, “trata-se de objeto híbrido, cujo estudo, portanto, não se deve limitar ao foco no texto, subtraindo à canção elementos significadores encontrados na melodia e na interpretação. “ (MEDEIROS, 2001, p.128) E por isso, a canção pertence, necessariamente, a um terreno interdisciplinar envolvendo letras e música – terreno não muito diferente do da poesia. A importância do contato entre o poema e o estudo da canção justifica-se pelo fato inelutável assinalado por Fernanda Medeiros de que somente o corpo, metonimizado aqui pela voz, tem a capacidade de apreender o ritmo, sendo o ritmo por sua vez um dos elementos que podem caracterizar um poema. “Ritmo no falado e no escrito. Ritmo, espinha dorsal do corpo e da mente. Ritmo na espiral da fala e do poema”, bem representado e moldado pela melodia de Arnaldo Antunes na canção com a qual comecei este ensaio. Esta questão da abordagem da poesia é discutida por diversos autores como Octavio Paz, B. Tomachevski, Umberto Eco, T. S. Eliot que, ao tentar distingui-la da prosa, referem-se à presença do ritmo como seu principal constituinte. E acrescentando-se a esta noção rítmica, vista tanto na poesia, quanto na música, Paul Zumthor, francês que se dedicou ao estudo da poesia vocal e suas formas mediatizadas na contemporaneidade, traz a noção de “performance” embutida na voz que se faz presença tanto na arte literária quanto na musical. Ele lembra que o atrelamento da literatura à escrita é muito recente na nossa história, datando aproximadamente do século XIII. Até então se tinha a poesia, uma arte não de escrita, mas da linguagem cujo suporte de realização era a voz e cuja história se confunde com a própria história da humanidade. Esta relação literário–musical se faz de forma diferencial no Brasil, que dispõe de um grande acervo poético e musical fascinando a todos que com ele tenha contato. Isto oferece um caráter mutante a nossa canção, que, como diz Luiz Tatit, é organismo que ludibria os observadores por jamais se apresentar com o mesmo aspecto. Por isso, a canção brasileira converteu-se em território livre, muito frequentado por artistas híbridos que não se consideravam nem músicos, nem poetas, nem cantores, mas um pouco de tudo isso e mais alguma coisa. (TATIT, 2004, p.12)

É por esse e por outros motivos que a canção brasileira se solidifica e se torna objeto de estudo, o que é bem demonstrado no livro O século da canção, de Tatit. Verifica-se assim, o entrecruzamento das áreas pesquisadas. São cantores que gravam poesias, que valorizam as formas, as melodias. São poetas que buscam inspiração na música para compor os seus versos. E é este movimento que torna frutífera esta relação. Marcando as devidas diferenciações, como o caráter especialmente escrito da poesia e até menos difundido que a música, possuidora de maior alcance e, por sua vez, cantada dentro de quadros melódicos, acontece o encontro produtivo em diversos outros pontos que podem ser objetos futuros de análise. Inté!

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Capítulo 58 – VERDADES E VERDADES

"É que músico é vagabundo...
Tão vagabundo que enquanto você sai ele tá ensaiando ou "divertindo" a noite do seu público.
Tão vagabundo que passa mais de 10 anos estudando e pode estudar por mais 50 que não vai saber de tudo.
Tão vagabundo que tem que, além de ser músico, ser administrador, economista, web designer, empresário, roadie, técnico de som e mágico (pra fazer o cachê durar e pagar tudo que tem que ser pago - como uma pessoa normal).
Músico é tão vagabundo que sequer merece um aumento de cachê junto com a inflação.
Músico é tão vagabundo que muitas vezes não briga pelo Couvert que não ganhou pra não perder o contato (mesmo sabendo que é direito dele. A gente precisa pagar nossas contas, de uma forma ou de outra).
Músico é tão vagabundo que escolhe o que faz pelo infinito amor, não pelo retorno. Porque, se fosse pelo retorno, escolheria outra coisa.
São tão vagabundos, mas tão vagabundos, que pagam uma fortuna em estudos, instrumentos e equipamentos pra ouvir de alguém que "trezentos tá caro".
Escolhem, por muitas vezes, sustentar sua casa tocando por quantidade, porque é a única forma de conseguir pagar as contas, sustentar uma família. Mesmo que saibam da qualidade de seu trabalho e saibam o tanto de tempo que dedicaram pro seu trabalho ficar como ficou.
Os vagabundos a quem me refiro acima te trazem alegria, mudam seu padrão energético, mexem com tuas emoções. Eles doam de sua própria energia e amor em prol de algo intocável. Eles têm brilho nos olhos quando ouvem que modificaram a vida de alguém por algum motivo. Tá bom que trabalhar com algo tão sublime é motivo de procurar em uns os defeitos (tem que ter defeitos!), e nosso grande defeito é a nossa desvalorização: muitas vezes feita por nós mesmos."
Dentro dessa seara, posso confirmar com propriedade, pois durante a minha caminhada passei por vários desrespeitos para com essa profissão, apesar de não a ter como principal fonte de renda e, talvez por covardia ou por ter me casado cedo não enfrentei esse desafio como muitos o fazem. Não me arrependo, mas sinto que se as circunstâncias fossem outras talvez... de qualquer maneira eu só não me tornei profissional no sentido literal, mas o gosto, o amor, a fissura pela música sempre esteve presente na minha vida. Me tornei mais recluso, mas quando saio do meu casulo para alguma apresentação, gosto sempre de dialogar com os jovens independentes, excluídos da mídia, que trabalham em cima de novas experiências, em sua maioria com resultados bons, mas que o grande público nunca terá conhecimento. Esse mundo paralelo, que existe ao lado do mundo consumista, proveniente do maciço marketing exercido pelos condutores de massa, não vai acabar, pelo contrário, está existindo ressonância, apesar de lenta, porém guerreira, a boa música vem acompanhado de bons músicos. Eu tenho consciência de que o número é desigual, comparado com alcance das mídias descartáveis, entretanto, sou otimista pelo fato de mesmo sendo um percentual ainda pequeno, contudo existente, o que já me deixa esperançoso, pois a batalha tem sido árdua, mas ainda não perdemos a guerra. Essa música rasteira que impregna o ar não pode se torna única. Convoco os heróis das resistências, para que não arredemos um palmo. Continuemos nosso trabalho de criação mantendo o nível musical e poético sempre em prol da arte.         
Recados para uma avó que vai ficar com os netos alguns dias em agosto
• A Matilde não come arroz. Diz que fica enjoada. Ainda não percebemos bem de onde vem isso, pensávamos que fosse do glúten, mas ela só come arroz sem glúten. Aliás, ela não come glúten. A nutricionista naturopata recomendou. Também não come ovos de aviário.

Deixei um saco com comida para os miúdos. Arroz sem glúten, massa sem glúten, bolachas sem açúcar, alfarroba desidratada e biscoitos de aveia e quinoa dos Andes.
• Não lhes dê bolos de pastelaria. Nem sumos de pacote. Nem leite de vaca. Nem chocolates. Nem leite com chocolate.
• Eles não comem nada que tenha açúcar refinado. Eu sei que a mãe faz um bolo de cenoura ótimo, mas se fizer use apenas açúcar amarelo. Mas só metade da dose. E cenoura biológica.
• Deixei também açúcar amarelo. É especial, extraído de cana-de-açúcar explorada de forma sustentável.
• Se eles insistirem muito para comer doces, dê-lhes uma peça de fruta biológica. Ou um abraço.
• O Pedro pode brincar com o iPad dele antes de ir para a cama. Mas não nos últimos 34 minutos antes de apagar a luz. É o que dizem os estudos mais recentes.
• Se ele ensaiar uma fita por causa disso, não o contrarie de mais. Não lhe tire o iPad das mãos à força. Dialogue com ele. Convença-o. Queremos que os miúdos tenham capacidade de argumentação e não queremos contrariá-los de mais, para não serem castrados na construção da sua personalidade. No fim, dê-lhe um abraço.
• O iPad é a única coisa eletrônica que o Pedro tem. O psicólogo dele dizia que não devia haver tecnologia nenhuma até aos 12 anos. Mudámos de psicólogo e o outro diz que pode haver, desde que tenha jogos que estimulem a parte do cérebro onde se constroem as emoções. Como ficámos baralhados, arranjámos um terceiro psicólogo, que disse para fazermos o que quisermos.
• Eles têm uma série de brinquedos de madeira e metal, feitos por artesãos velhinhos. Às vezes queixam-se que as rodas de lata não andam. Se for o caso, ajude-os a brincar com outra coisa qualquer, desde que não tenha plástico. Não queremos brinquedos de plástico.
• Se forem à feira e eles quiserem comprar bugigangas nos vendedores, compre-lhes uma rifa. Ou uma maçã. Ou dê-lhes um abraço.
• Todos os brinquedos devem ser partilhados. Não há brinquedo de menina e brinquedo de menino. Se o João quiser brincar com as bonecas de linho biológico da irmã, não há problema.
• Se ele quiser vestir as saias dela, também não há problema. Não queremos limitar a identidade de género dos nossos filhos.
• Há um saco com sabonete natural e champô à base de plantas medicinais sem aditivos químicos. Cheira um pouco mal, mas é ótimo para o cabelo.
• Mandei também umas toalhas de algodão biológico. Use só essas quando forem para a praia. São as melhores para o pH da pele deles.
• Todas as noites eles devem ouvir um pouco de música. Não pode ser o Despacito. O ideal é ser aquele CD de monges tibetanos. Aqueles sons são bons para o cérebro e para a digestão.
• Se eles quiserem subir às árvores, podem subir. Mas devem dar um abraço ao tronco antes disso. De preferência, devem agradecer à árvore antes de subirem para cima dela.
• Eles precisam de três abraços por dia. Pelo menos. Por favor não esqueça isso. E se puder, dê-lhes abraços de pele a tocar na pele. A energia positiva assim passa de forma mais eficaz.

PS 1: Mãe, não se enerve depois de ler isto tudo.
PS2: Cole este papel na porta do frigorífico, para não se esquecer de nada. Mas não use fita-cola, que isso tem plástico.

Inté!