Capítulo 60 – INTÉRPRETE OU ENGODO
Televisão desde a minha infância tem
programa de calouros, aliás, antes d’eu, já existia nas rádios. Um dos mais famosos e engraçado era o
chacrinha, mas havia outros. Me lembro até que houve uma revelação que
respondia pelo nome de Paulo Sergio, proveniente desses tipos de programas. Foi
uma revelação bombástica na época. Tinha o timbre vocal muito parecido com o do
Roberto Carlos e isso provocou comparações e comentários ofensivos chamando-o de
imitador. Ele estava conseguindo até desbancar o consagrado Rei do iê, iê, iê e
da jovem guarda e fazendo uma legião de fãs. Ele lançou 13 “long play’s” entre
1967 e 1980. Todos sucessos. Era talentoso no quesito cantor romântico e bom
compositor. Um derrame abreviou sua trajetória aos 36 anos. Lembro-me também de
um outro programa, apresentado pelo saudoso Flavio Cavalcanti, de calouros “A grande chance”, que
estreou em 1967, dando visibilidade a cantores em início de carreira. Nomes que
se tornaram grandes na MPB participaram do concurso, como Emílio Santiago,
Alcione, Leci Brandão e Áurea Martins. No júri, personalidades como Nélson
Motta, Leila Diniz, Mister Eco, Maestro Cipó, Osvaldo Sargentelli, Marisa
Urban, Márcia de Windsor, o estilista Dener, Danusa Leão, Vera Fisher, Aracy de
Almeida e Maysa, entre outros, ajudavam a abrilhantar o show. Cito esses dois
momentos da nossa tv brasileira, sem desmerecer nenhum outro programa, apenas
porque me lembrei mais. Hoje, continuam a oferecer ao público esse tipo de
programa, claro, num outro formato, mas a finalidade continua a mesma, revelar
novos talentos, a única diferença, penso eu, é que estamos numa, como poderia
dizer, safra de pouca criatividade e a importância do intérprete passou a ser
medida não pela qualidade vocal ou como o artista une bem voz, música, palco,
público, dominando perfeitamente bem esses quatros elementos, mas, ao contrário
eleva-se a categoria de ídolo apenas pela estilo musical, normalmente de baixa
qualidade. Note que peguei para uma mera e simples comparação quatro artistas
que por ventura passaram por programas de “calouros” e que se tornaram nomes
fortíssimos e com uma carreira brilhante. São artistas da nossa música que
emplacaram vários sucessos em alto nível.
Num dos
últimos programas que mantinha o velho formato de calouros, Raul Gil
apresentava para o seu público cantores infantis, juvenis e adultos, eu não sou
mais um fã desse tipo de programa, mas meus sogros adoravam assistir, enquanto
existiu, todos os sábados o velho e bom programa de calouros. Eu ainda não
havia me mudado, portanto morava numa casa que havia construído no final do
terreno do meu sogro e como sempre fazia, adentrava pela porta dos fundos como
se fosse uma extensão da minha, afim de vê-los e muitas vezes papear com meu
sogro ou apenas assistir um jogo de futebol. Por diversas vezes, me recordo
agora, ficava assistindo com eles o desfile de alguns talentos promissores,
tanto de pouca idade, assim como já adultos. Foi num determinado programa que
apareceu um cantor que viria a ser o xodó do programa. Afinação perfeita.
Extensão vocal absurdamente segura. Presença de palco. Domínio. Empatia. Não
sou nenhum expert no assunto, mas também não sou assim tão tapado. Senti que
havia ali um grande potencial e certamente uma promissora carreira. Em pouco
tempo passou a ser atração, deixando para trás o lugar de calouro. Acredito que
como o programa foi seu fio condutor, deve tê-lo amarrado com um contrato,
fechando exclusividade em participações, apesar de eu não saber precisar, sua
presença invariavelmente era anunciada como atração principal. Isso funcionava,
tiro essa conclusão pela reação dos meus sogros, pois quando era anunciada sua
participação, eles ficavam mais animados e ansiosos.
Eu nunca
mais o vi e nem ouvi falar, desde que me mudei e deixei de vez por outra
assisti-lo no programa do Raul Gil. Como eu pessoalmente não tinha o habito de
assistir televisão durante o dia e especialmente programas de auditórios, em
minha nova casa o cantor revelação nunca entrou, entretanto, não passou desapercebido,
que passando em alguns lugares, bairros, principalmente nos outdoors que nos
chamam a atenção para algo, estava sempre em algum ponto um, anunciando seu
show. Nunca me veio a curiosidade de vê-lo. Esperava encontra-lo ao som de uma
rádio, mas nada. Talvez, em algum canal de música, mas nada. Na internet, mas
também nada. Até que o esqueci. Durante esse hiato, apareceram diversos
artistas, uns chegando a arrebentar a boca do balão, de tanto sucesso, mas
nenhum deles é e nunca será cantor. Taí uma coisa para reflexão. Existe uma
dúzia ou mais que revezam o topo das paradas de sucesso, se é que ainda pode se
chamar assim, mas nenhum canta a metade do rapaz revelação do Raul Gil.
Praticamente todos, cada um no seu, cantam um só estilo de música, as vezes até
parece que estão cantando a mesma música, só trocando a letra pobre e o refrão,
esse então não pode faltar. E a massa adora. É um fenômeno! Alguns são
compositores, mas a maioria é fruto de uma panela que fabrica sucesso a rodo.
Talvez por isso elas se pareçam tanto. Já, o nosso cantor revelação, passeia
por todas as vertentes musicais, como se elas fossem simples de cantar, dá uma
inveja miserável! Houve época em que um artista desse calibre, teria uma
exposição maior perante ao público por parte da mídia, mas hoje as prioridades
são outras, lamentável!!
Perto da minha casa existe um clube que sempre tem apresentações de
cantores que já foram sucesso em outras épocas e que agora continuam, só que
com o mesmo público, apenas mais velhos, assim como eles. Num dia desses eu
passava em frente ao clube, como de costume sempre olhei para os anúncios das
atrações, foi quando deparei com um cartaz anunciando a apresentação do cantor
revelação. Eu sempre olhei, mas comparecer a um show, nunca me passou pela
cabeça. Chegando em casa e conversando com minha esposa, foi que me veio a
ideia de presentear a minha sogra, infelizmente meu sogro não se encontrava
mais entre nós. Concluímos que depois de tantos programas acompanhados, vê-lo
ao vivo, seria algo... tratei logo de me inteirar a respeito do valor, aonde
havia mesa vazia, de preferência próximo ao palco, enquanto isso minha esposa
tratava de assegurar que sua mãe não teria compromisso no dia e que a notícia,
que era também um convite, a deixaria muito feliz. Estávamos há umas quatro
semanas do show, consegui um ótimo lugar e ficamos esperando o dia. No dia do
show, uma pequena confusão causada por uma informação desencontrada fez com que
nós chegássemos as dezenove horas, horário da abertura dos portões e não do
começo do show, mas esse pequeno detalhe não explicava no anúncio. De qualquer
maneira, mesmo o horário verdadeiro ser às vinte horas, o show só começou às 22
horas, enquanto isso aguardamos vendo e ouvindo um músico desses de barzinho e
festas, tocando um teclado em cima de arranjos pré-definidos e cantando vários
estilos. A maioria do público havia participado das bodas de Canaã, mas estavam
ligados numa corrente de 220volts, haja disposição! Apesar de serem a maioria,
havia jovens também. Finalmente as 22:20 horas, conjunto formado por um
baixista, guitarrista e baterista, já estavam prontos e apostos, quando foi
anunciada a atração da noite: Ricky Vallen! A introdução nos trouxe o artista já
cantando uma belíssima música, mostrando todo o seu potencial vocal e sua
desenvoltura de grande intérprete que o é. terminada a entrada avassaladora,
vieram os cumprimentos a plateia presente e seguiu-se a primeira parte do show
com um repertório de músicas de altíssimo nível de grandes compositores da MPB,
porém da metade para o final desandou a maionese, claro que na minha humilde
opinião, por ter um gosto mais apurado, mas ele sabia que era necessário cantar
certas músicas, as chamadas comerciais, açucaradas, chiclete e por aí vai. Mas
não posso deixar de elogiar, que mesmo nesse território, ele mostrava que não é
um cantor brega, pois todas as músicas recebiam um arranjo próprio, deixando
evidente que apesar de serem músicas menores, podiam ser cantadas com mais
apuro, cito como exemplo dois funks, que ele desarranjou, desconstruiu e me surpreendeu
com uma levada jazzística que mesmo com a letra fraca, o conjunto da obra ficou
bem apresentado, diria fantástico! Eu fiquei feliz por ter contribuído com a
felicidade da minha sogra e de uma certa maneira um pouco triste em saber que
existe artistas de grande talento sendo menosprezado pelo público maior ou se
for mais adequado, não divulgado devidamente para esse mesmo público. Não penso
que seja um caso isolado, o que torna maior o desalento. Aquilo que ouvíamos e
que ainda ouvimos e que ouviremos com grande satisfação até os últimos dias da
nossa vida, essa geração não terá esse gosto, pois o consumo é volátil e, o
produto é descartável, de pouca duração. A esquina é inevitável, em cada uma
muda-se a direção, em cada uma encontra-se uma nova e pobre canção. Inté!