quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Capítulo 20 – GOSTINHO DE QUERO MAIS

Chegamos e notamos que o clima estava a flor da pele. Tenso. Muito tenso. Afinal era a final, não resisti. Rs rs... Fomos recebidos pelas meninas, que foram logo perguntando se estávamos felizes e preparados pela oportunidade do show. Bem, preparados não seria bem a verdade, pois fomos pegos de surpresa, mas, mostramos que estávamos confiantes e sim, felizes. De repente veio ao meu encontro um participante do festival e me fez um convite, que seria outra surpresa, queria que eu subisse o palco junto com ele, empunhando meu violão e o acompanhasse na apresentação. Eu disse: “Mas que maluquice é essa, meu irmão? ” Ele bradou como se fosse as trombetas de um palácio anunciando a chegada de uma comitiva muito importante: “ Deus do céu! Tu não notaste que és o queridinho dessa rapaziada que aí está? “ Eu meio que notei, mas não com tanta ênfase, então repliquei: “Já que tu dizes, quem sou eu para duvidar, mas, como vou tocar se não sei a música? “ A pergunta, foi ao mesmo tempo uma resposta afirmativa, então mais que depressa pediu para que eu pegasse o violão e em seguida foi falando a sequência: “ Faça ré maior, passe para lá maior e depois mi maior, agora mete o ritmo de forró, assim, vou cantar! ”   E começou e eu perseguindo, ele cantando e eu aprendendo e, quando vimos já estávamos ensaiados. “Viu como é fácil? Então, está combinado, na minha hora, vem comigo para o palco, falou? “ Acenei que sim e nos cumprimentamos para selar o compromisso.
Voltando para junto dos amigos, expliquei o que acontecera e o que aconteceria. Foi uma festa só. Nós estávamos curtindo aquele momento como um sonho, que depois despertaríamos, mas que por enquanto o encanto nos elevava as nuvens.
O festival deu sinais de que ia começar. O microfone aberto ressoando aquela voz inconfundível mostrava a todos que era chegada a hora. Feita as devidas apresentações de rotina, foi anunciado o primeiro concorrente da noite ao grande prêmio. Meu novo amigo, que participava da final, veio me avisar que ele era o sexto, para que eu ficasse atento, tranquilizei-o mostrando que tudo estava sob controle. Os meus amigos da banda foram dar uma volta, pois nós iríamos nos apresentar depois que todos se apresentassem e o corpo de jurados se retirasse para a contagem das anotações feitas por cada um e assim determinar os três primeiros lugares e claro o grande vencedor; além do melhor intérprete.
Como é diferente quando você não tem a responsabilidade de fazer o seu melhor; de ter o peso nas costas da responsabilidade na apresentação; de participar, mas ao mesmo tempo ser um espectador; é tão diferente que você não sente nem vontade de ir ao banheiro. Chegou a vez de atender o convite e subir no palco junto com o cantor e concorrente. Deu para sentir que a galera reagiu surpreendida quando me viram subindo ao palco também, penso que era isso que o meu amigo já esperava. Penso que isso não ajudaria em nada a sua caminhada para a vitória, porém, a apresentação ganhava uma atenção maior, isso eu tenho que concordar, sem modéstia. A orquestra tocou a introdução. Meu amigo com o microfone na mão começou a cantar, como era uma música bastante ritmada ele não ficava parado, se movimentava para todos os ângulos onde pudesse ser visto. Eu tocando o violão inicialmente quieto, senti que o propósito era que fizéssemos uma festa no palco, então, entrei na brincadeira sem ofusca-lo e passei a me expressar com mais veemência. A simbiose ficou perfeita, erámos dois artistas que se completavam, um cantava e encantava, o outro tocava e ditava o ritmo. Foi um momento muito gratificante, principalmente pela generosidade do amigo que não se importou em dividir aquele que seria o seu momento. Se por um lado a música não era uma obra prima, por outro ela proporcionava a nós e nós correspondemos, a oportunidade de contagiar o público e fazer da apresentação uma grande festa. Todos se sentiram convidados e compareceram. No final sentimos que deixamos aquele gostinho de quero mais.
Todos os concorrentes se apresentaram, o júri se retirou para apuração e agora o apresentador anunciava mais uma vez que daqui a pouco viria a atração especial da noite, mas enquanto isso o público teria a oportunidade de receber uma banda vinda do Rio de janeiro e anunciou chamando-nos para o palco. Como não havia outra maneira, nos posicionamos dentro daquilo que já havíamos feito. Dessa vez eu não tremia, ao contrário, encarava a plateia e já cheguei cumprimentando e saudando a todos, não tínhamos a pressão do tempo para começar, então tudo podia ser feito com calma, assim foi. Minha garganta estava muito dolorida, amenizei um pouco com a pinga e, esperava que ao cantar e aquecê-la, conseguisse aguentar. Uma chance dessas, com casa cheia, nós não teríamos tão cedo, então agora era tentar fazer o melhor e nos despedirmos desse acolhimento carinhoso com um belo show.
Existem acontecimentos que certamente ficarão na sua memória para o resto da sua existência. Acontecimentos agradáveis ou desagradáveis. Aos que te magoaram, te feriram, deixaram marcas, você faz de tudo para esquecer a magoa; de tudo para curar a ferida; de tudo para não ficar nenhuma marquinha. Aos que te inebriaram e você levitou; te levaram para um mundo paralelo, irreal; te mostraram paixão, amor; te recompensaram depois de muito esforço, que poderia não acontecer; te marcaram, agora de uma maneira boa, profundamente, você vai recolhendo e guardando, como se guarda um bom filme, dentro de um compartimento especial, para que possas abri-lo mais tarde, antes que seja tarde e, revê-lo cena por cena, trazendo odores, sons, pessoas, lugares, sol ou chuva, noite ou dia, brisa ou vento, mas acima de tudo a certeza da felicidade advinda desses acontecimentos. Quaisquer que sejam os meios usados para retratar tais momentos: Livros, músicas, fotos, pinturas, filmes, etc. eles ficam aquém, pois nada é mais fiel do que a sua memória. Esse foi um desses acontecimentos. Aconteceu um momento mágico. Momento nosso, só nosso. Vivenciamos, sentimos, quase palpável, porém invisível. Traduzir, detalhar, peço desculpas pela minha limitação. Uma coisa é certa: foi nossa prova de fogo. Passamos com louvor e saímos convencidos, principalmente pela reciprocidade, de que tínhamos talento para trilhar esse caminho.   

Festival terminado, nós já tínhamos passado no hotel, quitado a hospedagem e, agora estávamos na praça com as meninas e queríamos nos despedir com um jantar na churrascaria. A ideia era boa, mas...         

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Capítulo 19 – AQUECENDO A PLATEIA

Estávamos diante dos dois organizadores do festival. Eles foram muito simpáticos e agradáveis, pediram desculpas pelos acontecimentos, já sabiam do boicote a banda e, como prova, não podiam mudar o resultado, de perceber a grande injustiça que sofrêramos, nos convidaram para participar do show de encerramento. Ficamos tão abobalhados, que pedimos para repetir o final da frase. Era verdade, estávamos sendo convidados para participar do show de encerramento, que teria como estrela principal a cantora Eliana Pittman. Nós aqueceríamos a plateia e de quebra apareceríamos na TV Cataguases. Não eram apenas desculpas, era sobretudo o reconhecimento de que o trabalho apresentado, havia alcançado uma fatia preciosa do festival, os jovens. Nós éramos os únicos que falávamos na mesma linguagem que este público gostava, foi uma ideia boa para os dois lados e sem custo. Enquanto eles atendiam uma demanda, nós solidificaríamos a nossa imagem. Houve uma pequena discussão quanto ao repertório. Queríamos tocar só as nossas, mas, eles exigiam que fossem músicas conhecidas. Alegamos que para isso eles teriam que pagar direitos autorais. Sendo assim, chegamos num acordo que meio a meio estaria de bom tamanho. Então seriam três nossas e três a escolher. Optamos por Rita Lee e Mutantes, além das nossas.
Na verdade, não tínhamos material ensaiado para uma apresentação, claro as nossas nós sempre tocávamos lá na garagem do batera, mas as outras, como nós éramos uma banda autoral, nunca havíamos tocado junto, apesar de conhece-las. Fizemos uma pequena reunião para decidirmos quais as escolhidas. As músicas próprias, resolvemos rapidamente, já as outras tivemos que simplificar para não cometer nenhum erro, então escolhemos as mais fáceis e mais comercias. Decidido o repertório, agora era só relaxar e deixar o tempo passar até a hora do show. Falando assim, parece coisa de profissional do ramo, mas, o festival com as duas apresentações e, o show na praça, nos deram uma tremenda confiança, não confunda com arrogância. Nós saímos de uma garagem, onde estávamos já há bastante tempo ensaiando, secos para mostrar para alguém o som que produzíamos, surgiu essa grande oportunidade, com aparelhagem de primeira e grande plateia, encaramos o desafio com medo, é certo, mas, encaramos e, em dois dias ficamos muito conhecidos, não é para menos que a confiança passou a ser nossa companheira. Festejamos como nunca nessa noite. Tomamos quase todas, se não, todas, pois o batera ficou muito ruim, só notamos quando ele se levantou para ir ao banheiro. Havia um corredor entre as mesas com cadeiras e no final é que estava o banheiro. Era só se dirigir pelo corredor, ainda bem que no bar só estávamos nós, pois o que ocorreu foi que o batera até o banheiro conseguiu esbarrar em todas as mesas, derrubando tudo pelo caminho. Resolvemos encerrar e tratamos de acudir o bebum. Deu um trabalhão. No caminho de volta até o hotel, tivemos que revezar em segurar o sujeito, não posso dizer que estávamos bem, mas com certeza melhor que ele. Chegamos na pracinha aonde ficava o hotel e, alguém teve a ideia de antes de subirmos, ainda de dois em dois revezando, segurando o bebum, corrermos em volta da praça para evaporar o álcool. Sinceramente, não sei, não lembro, me recuso a lembrar, quem foi que teve essa brilhante ideia, além de não adiantar muito, quando subimos, sentimos uma fraqueza nas pernas e, como o cachaça ainda estava pra lá de Bagdá, a última tentativa de amenizar o prejú e, dentro das nossas possibilidades, foi leva-lo para o chuveiro; antes, passamos pelo quarto, tiramos toda a roupa e depois sim, levamos para aquele chuveiro que não esquentava a água. O cachaça tentava sair da água fria, mas nós o mantínhamos sob rédea curta, éramos quatro segurando-o para que melhorasse e pudesse dormir sem vomitar mais. Finalmente na cama, arrumamos coberta para aquecê-lo, claro após secá-lo, ainda esperamos um pouco para nos certificarmos de que realmente ele havia entrado em sono profundo, penso que não foi bem sono profundo, foi mais para apagão e só então cada um procurou a sua cama completamente extenuado.
A ressaca é um mal-estar físico, que com alguns cuidados ao longo do dia você vai contornando, todavia, a ressaca do mico, essa por mais que você tente, nada vai adiantar, o estrago já foi feito e para quem viu, você será lembrado pelo resto da vida. Toda a vez que se falar em bebedeira, a sua história fará parte da conversa e com detalhes que você nem poderá discutir alegando exagero, pois sua memória não permitirá.
O pobre do batera ainda teve que amargar o desprezo das meninas, que eram amigas e descobriram que as três estavam sendo usadas por ele.
Quanto ao guitarrista, engatou um romance passageiro com uma das meninas da organização do festival e nos abandonou a tarde inteira.

Bem, aquela brincadeira de encher a cara, junto com o trabalho com o bebum, nos deixou de molho até a noite para a apresentação, além de inflamar a minha garganta. O nosso amigo que estava na casa do tio, providenciou pastilhas para tentar amenizar, já que o tio dele possuía uma farmácia, mas foi um paliativo. Conforme a noite foi chegando e junto a queda de temperatura, o estado da garganta não dava sinais de melhora. Antes de entrarmos para a apresentação, passei num boteco e comprei um tanto de pinga, reservei-a numa garrafa de água mineral e partimos para o tudo ou nada, afinal não é todo o dia que se tem a oportunidade de usufruir de recursos sonoros de boa qualidade; de ter casa cheia; de aparecer na televisão; de realizar sonhos que até pouco tempo pareciam distantes. Aquela noite seria... 

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Criatura de Sebo: Depois do fim - Bacamarte - 1983

Criatura de Sebo: Depois do fim - Bacamarte - 1983: Postagem original: 07/03/2013 1 - UFO  Mário Neto 2 - Smog Alado  Mário Neto 3 - Miragem   Mário Neto 4 - Pássaro De Lu...

Para quem sempre foi fã do Yes e outros do gênero (rock progressivo), esta banda brasileira BACAMARTE não fica devendo nada a ninguém na parte instrumental, além de contar com a voz maravilhosa de Jane Duboc.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Capítulo 18 – A VINGANÇA

Dessa vez estávamos um pouco mais calmos, já que a estreia nos deu um dia de experiência, sem contar o show em praça pública, porém, todo cuidado é pouco. Conforme a chamada, os participantes partiam esperando fazer o melhor e, além do público, os jurados eram as suas maiores preocupações. Nós já havíamos conquistado o público, o que nos deu uma responsabilidade maior na apresentação, pois precisávamos ratificar o que já havíamos feito até então. Agora a nossa maior preocupação era conquistar o corpo de jurados e conseguir passar para a fase final no dia seguinte, no domingo. O ritual seria o mesmo do dia anterior. Eu passaria pela cortina na frente dos demais e subiria a rampa até o palco do cantor, me posicionando à espera da contagem, enquanto os outros, no palco de trás, tomariam seus respectivos lugares.
Quando finalmente fomos anunciados, seguimos o ritual, afinal tínhamos apenas trinta segundos para começar. Olhei para trás afim de conferir se já podíamos dar início, mas, fui surpreendido pelo desespero do contrabaixista, querendo o som do instrumento e ele não saia de jeito nenhum. A caixa estava ligada. O instrumento plugado. E nada. A rapaziada da banda do festival não ajudava em nada. Os trinta segundos estavam indo para o espaço, então me dirigi ao presidente da mesa e fiz as minhas ponderações. Ele gesticulava para que começássemos. Apontava para o relógio e não me entendia, se entendia, não demonstrava interesse. Até que estourado o tempo, em muito e, atendendo as minhas súplicas para que fosse ver de perto o que estava ocorrendo, se levantou e foi ao fundo do palco. Com a chegada do presidente, a rapaziada se movimentou e não demorou muito o som surgiu, mas o estrago já estava feito. Se lembra daquela história do contrabaixista não ter emprestado o instrumento para a banda, pois foi a maneira que eles arrumaram de dar o troco. O homem voltou para o seu lugar, mas, não sabíamos se estávamos disputando ou desclassificado. O guitarrista foi começar a introdução e, aí vimos que não era só o som do contrabaixo, a guitarra estava desafinada. Quando ele começou, os meus ouvidos acusaram na lata. O desespero dele tentando afinar na marra e ao mesmo tempo tocando a introdução, para nós que já conhecíamos a melodia, era um sofrimento. Vendo que daquele jeito não havia tom para começar a cantar, o contrabaixista entrou, pelo menos o instrumento dele estava afinado, para manter o tom. Abreviamos um pouco e, eu comecei a cantar. Com o decorrer da música, a guitarra foi se ajustando, quero dizer afinando e, assim conseguimos fazer a apresentação até o fim. Saímos do palco arrasados. Na verdade, “putos”. Os caras conseguiram tirar a nossa última chance. As meninas, vieram consolar-nos, mas estava difícil de assimilar o golpe. Cada um sentia que o festival naquele momento havia acabado para nós. Tentamos descobrir se o júri havia considerado a apresentação ou se por ordem do presidente fora decretada a desclassificação, mas a interrogação persistia, nem as meninas tiveram sucesso, tudo ficaria para a hora em que o apresentador viesse com a lista dos classificados para domingo; então, saímos da sala e fomos beber uma cerveja para desanuviar, menos o batera, ele estava ficando com três garotas ao mesmo tempo, posicionadas estrategicamente em ambientes diferentes, então tratou de circular para aproveitar um pouco de cada. Mesmo com a cabeça fervendo de raiva, tudo ficou diferente, quando fomos abordados por dois sujeitos que se diziam olheiros de um produtor da gravadora CBS do Rio de janeiro e, queriam saber se nós tínhamos alguma fita demo, que pudesse passar a eles para ser levada ao produtor. Não tínhamos, mas como éramos do Rio e eu, como conhecia alguns produtores da tal gravadora, perguntei quem era e, ao saber o nome, me veio a memória o semblante, daí, pedimos os nomes dos dois, anotamos e, agradecendo deixamos bem claro que nós mesmo iríamos procura-lo assim que voltássemos para casa. Esse pequeno acontecimento, afastou momentaneamente a tristeza resultada dos eventos recentes.

O segundo dia do festival chegou ao seu final e a lista com os nomes dos que voltariam a se apresentar na final no domingo já estava na mão do apresentador. Apesar de ser uma tênue esperança, de ser mínimas as nossas chances, nos mantivemos firmes, acreditando até o final, mas a realidade foi dura. Quando o último nome foi pronunciado e não era o nosso, o festival acabava ali para nós. Mas, a vida é uma caixinha de surpresas! Uma das meninas veio até nós, pedindo que fossemos até a presença do organizador e do prefeito para um comunicado. Nos apressamos e logo ... pode deixar vocês vão saber.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Capítulo 17  -  IR AONDE O PÚBLICO ESTÁ

Acordamos no sábado ainda com a ressaca do dia anterior. Pela hora, já podíamos procurar uma pensão para almoçar. A cidade tinha duas temperaturas: durante o dia fazia um sol delicioso e a temperatura subia, mas quando começava a escurecer, parecia que alguém ligava o ar condicionado no máximo e aí ela despencada vertiginosamente. Como tínhamos um chuveiro que não ajudava muito em temperatura baixa, o jeito era tomar o banho agora e mais tarde só mudar a roupa para a apresentação ou voltar antes de escurecer para um segundo banho, mas aí dependia do que iria acontecer. Enquanto nos ajeitávamos, nosso amigo apareceu. Todos prontos, descemos e partimos para forrar a barriga. No meio do caminho, estávamos perfilados, vinham subindo ao nosso encontro umas quatro meninas também lado a lado, descemos da calçada para que elas passassem e quando isso aconteceu ouvimos logo em seguida elas cochicharem entre si o nome da banda, como forma de identificação, foram segundos de êxtase. Uma apresentação e já estávamos famosos.
Voltamos ao hotel para pegarmos os instrumentos e seguimos para o ginásio, onde iríamos passar o som. Dessa vez correu tudo bem, penso que por estarmos familiarizados agora com o som e o local. Agora dentro do ginásio, me lembrei de uma saia justa que ficamos na noite anterior, que não posso deixar de citar, pois mais tarde vocês verão a importância do relato: Nós havíamos acabado de nos apresentar, quando, acho que uma ou duas músicas depois, o nosso contrabaixista veio a ser procurado por um músico da banda do festival, que precisava do seu instrumento, pois a corda do contrabaixo havia arrebentado e por não prevê tal acidente, demoraria um pouco para a nova corda chegar e o som não podia parar. Fomos pegos de supetão, mas a decisão cabia ao nosso músico, afinal o instrumento era dele. O contrabaixista não foi solicito e prontamente emprestou, pelo contrário, deu para notar que a dúvida rondava todo o seu ser, tanto, que ele ficou mudo, adiando a resposta à procura de uma luz que iluminasse o caminho certo; a decisão que diluísse o sofrimento. Não era egoísmo, apenas aquele apego a um objeto que ele havia levado tempo, economizado duramente para tê-lo e que finalmente desfrutava e era natural que não o quisesse compartilhar, ainda mais com estranhos. O sujeito não escondeu a sua decepção quando lhe fora negado o empréstimo. Deixou bem claro ao olhar diretamente para o nosso músico, antes de se retirar de volta ao palco. Nós não emitimos nenhuma opinião. O ocorrido momentaneamente afastou a nossa alegria, mas foi logo esquecido. Vida que segue.
O espaço onde acontecia o festival, era bem em frente à praça São Januário, também conhecida como Ary Barroso, compositor famoso pela música Aquarela do Brasil que fora nascido e criado em Úba e, que agora em destaque na praça era homenageado com um busto. Nós não tínhamos mais o que fazer dentro do ginásio, então saímos e fomos sentar num dos diversos bancos espalhados pela praça. Era uma bela tarde de sábado. O sol iluminava e mantinha aquecida toda a cidade. Havia muitas árvores ao redor. Sentados e protegidos do sol por uma delas, estávamos numa agradável sombra. O som começou tímido, assim meio que só para nós, mas não demorou muito, aos poucos foram chegando, rodeando, ouvindo, aplaudindo e de repente nos demos conta que estávamos no centro das atenções de dezenas de jovens que haviam nos assistidos no dia anterior. Então, eu subi no banco, para ter uma noção do que acontecia, ao me deparar com a multidão em volta, não me fiz de rogado, subi o volume e continuei cantando todo o repertório que normalmente nós quando nos reuníamos cantávamos. Não consigo precisar exatamente quanto tempo durou. Só sei que quando não havia mais nada para acrescentar e também comecei a sentir que a garganta estava dando sinais de cansaço, avisei que iriamos parar. Foi a consagração. Não queriam deixar a gente ir embora de jeito nenhum, então, alegando precisar preservar a minha voz para a noite, agradeci em meu nome e em nome de todos e anunciei a saideira. Esse show em praça pública, no contato direto e próximo com o público, no olhar, no sorriso, nos braços quase que literalmente da galera, foi algo que eu não sabia naquele momento, mas que no decorrer dos anos eu vim a saber: “Cantar era buscar o caminho que vai dar no sol, tenho comigo as lembranças do que eu era. Todo artista tem de ir aonde o povo está, se for assim, assim será. Cantando me disfarço e não me canso de viver, nem de cantar. ”
 A noite chegou e depois de passarmos por todo aquele ritual de preparação no hotel, desde a briga com o chuveiro, até a escolha da vestimenta. Colocar aqui que nós tínhamos que escolher o que vestir é até exagero. O que na verdade aconteceu, foi que eu fiquei com mesma roupa do primeiro dia, pois ela acabou virando uma marca e os outros só mudavam a camisa. Se para classificar a música, a roupa contasse pontos, nós estávamos fudidos. Fizemos o mesmo itinerário do dia anterior, até ficarmos na sala de espera para sermos chamados para a apresentação. A diferença ficou por conta de uma entrevista que eu dei para a rádio de Cataguases, que transmitia o festival. Esse também foi um outro momento muito marcante, pois eu fora informado dentro da sala, que o radialista que estava do lado de fora, queria me entrevistar antes de começar as apresentações.
A música tocou anunciando a abertura da segunda eliminatória. O locutor ilustre deu boa noite e convidou todos a participar de mais uma noite grandiosa, do festival de música popular brasileira da cidade de Úba. Antes de anunciar o primeiro candidato, era de praxe ele ensebar um pouco com agradecimentos e rasgar elogios aos organizadores e enumerar esforços empreendidos. Procuramos, enquanto isso, saber qual era a nossa posição na lista de entrada, para enfim ficarmos atentos. Entraríamos um pouco depois da metade. Feitas todas as citações, claro que havia um tempo até para o apresentador, começou a chamada para a alegria ou tristeza, estas opções dependiam exclusivamente do concorrente, do que viria ser o resultado da apresentação. Nós, naquele momento jogávamos as nossas últimas fichas naquela noite. Se tudo corresse bem, igual ao ensaio, tínhamos grande esperança. Chamado o primeiro, começou a nossa aflição. O dia anterior passou, agora era o presente, outra situação, outra realidade, outra música e outra chance. Chegou a nossa vez, já, já você vai saber...