Capítulo 20 –
GOSTINHO DE QUERO MAIS
Chegamos e
notamos que o clima estava a flor da pele. Tenso. Muito tenso. Afinal era a
final, não resisti. Rs rs... Fomos recebidos pelas meninas, que foram logo
perguntando se estávamos felizes e preparados pela oportunidade do show. Bem,
preparados não seria bem a verdade, pois fomos pegos de surpresa, mas,
mostramos que estávamos confiantes e sim, felizes. De repente veio ao meu
encontro um participante do festival e me fez um convite, que seria outra
surpresa, queria que eu subisse o palco junto com ele, empunhando meu violão e
o acompanhasse na apresentação. Eu disse: “Mas que maluquice é essa, meu irmão?
” Ele bradou como se fosse as trombetas de um palácio anunciando a chegada de
uma comitiva muito importante: “ Deus do céu! Tu não notaste que és o
queridinho dessa rapaziada que aí está? “ Eu meio que notei, mas não com tanta
ênfase, então repliquei: “Já que tu dizes, quem sou eu para duvidar, mas, como
vou tocar se não sei a música? “ A pergunta, foi ao mesmo tempo uma resposta
afirmativa, então mais que depressa pediu para que eu pegasse o violão e em
seguida foi falando a sequência: “ Faça ré maior, passe para lá maior e depois
mi maior, agora mete o ritmo de forró, assim, vou cantar! ” E começou e eu perseguindo, ele cantando e
eu aprendendo e, quando vimos já estávamos ensaiados. “Viu como é fácil? Então,
está combinado, na minha hora, vem comigo para o palco, falou? “ Acenei que sim
e nos cumprimentamos para selar o compromisso.
Voltando para
junto dos amigos, expliquei o que acontecera e o que aconteceria. Foi uma festa
só. Nós estávamos curtindo aquele momento como um sonho, que depois
despertaríamos, mas que por enquanto o encanto nos elevava as nuvens.
O festival
deu sinais de que ia começar. O microfone aberto ressoando aquela voz
inconfundível mostrava a todos que era chegada a hora. Feita as devidas
apresentações de rotina, foi anunciado o primeiro concorrente da noite ao
grande prêmio. Meu novo amigo, que participava da final, veio me avisar que ele
era o sexto, para que eu ficasse atento, tranquilizei-o mostrando que tudo
estava sob controle. Os meus amigos da banda foram dar uma volta, pois nós
iríamos nos apresentar depois que todos se apresentassem e o corpo de jurados
se retirasse para a contagem das anotações feitas por cada um e assim
determinar os três primeiros lugares e claro o grande vencedor; além do melhor
intérprete.
Como é
diferente quando você não tem a responsabilidade de fazer o seu melhor; de ter
o peso nas costas da responsabilidade na apresentação; de participar, mas ao
mesmo tempo ser um espectador; é tão diferente que você não sente nem vontade
de ir ao banheiro. Chegou a vez de atender o convite e subir no palco junto com
o cantor e concorrente. Deu para sentir que a galera reagiu surpreendida quando
me viram subindo ao palco também, penso que era isso que o meu amigo já
esperava. Penso que isso não ajudaria em nada a sua caminhada para a vitória,
porém, a apresentação ganhava uma atenção maior, isso eu tenho que concordar,
sem modéstia. A orquestra tocou a introdução. Meu amigo com o microfone na mão
começou a cantar, como era uma música bastante ritmada ele não ficava parado,
se movimentava para todos os ângulos onde pudesse ser visto. Eu tocando o
violão inicialmente quieto, senti que o propósito era que fizéssemos uma festa
no palco, então, entrei na brincadeira sem ofusca-lo e passei a me expressar
com mais veemência. A simbiose ficou perfeita, erámos dois artistas que se
completavam, um cantava e encantava, o outro tocava e ditava o ritmo. Foi um
momento muito gratificante, principalmente pela generosidade do amigo que não
se importou em dividir aquele que seria o seu momento. Se por um lado a música
não era uma obra prima, por outro ela proporcionava a nós e nós correspondemos,
a oportunidade de contagiar o público e fazer da apresentação uma grande festa.
Todos se sentiram convidados e compareceram. No final sentimos que deixamos
aquele gostinho de quero mais.
Todos os
concorrentes se apresentaram, o júri se retirou para apuração e agora o
apresentador anunciava mais uma vez que daqui a pouco viria a atração especial
da noite, mas enquanto isso o público teria a oportunidade de receber uma banda
vinda do Rio de janeiro e anunciou chamando-nos para o palco. Como não havia
outra maneira, nos posicionamos dentro daquilo que já havíamos feito. Dessa vez
eu não tremia, ao contrário, encarava a plateia e já cheguei cumprimentando e
saudando a todos, não tínhamos a pressão do tempo para começar, então tudo
podia ser feito com calma, assim foi. Minha garganta estava muito dolorida,
amenizei um pouco com a pinga e, esperava que ao cantar e aquecê-la,
conseguisse aguentar. Uma chance dessas, com casa cheia, nós não teríamos tão
cedo, então agora era tentar fazer o melhor e nos despedirmos desse acolhimento
carinhoso com um belo show.
Existem
acontecimentos que certamente ficarão na sua memória para o resto da sua
existência. Acontecimentos agradáveis ou desagradáveis. Aos que te magoaram, te
feriram, deixaram marcas, você faz de tudo para esquecer a magoa; de tudo para
curar a ferida; de tudo para não ficar nenhuma marquinha. Aos que te inebriaram
e você levitou; te levaram para um mundo paralelo, irreal; te mostraram paixão,
amor; te recompensaram depois de muito esforço, que poderia não acontecer; te
marcaram, agora de uma maneira boa, profundamente, você vai recolhendo e
guardando, como se guarda um bom filme, dentro de um compartimento especial,
para que possas abri-lo mais tarde, antes que seja tarde e, revê-lo cena por
cena, trazendo odores, sons, pessoas, lugares, sol ou chuva, noite ou dia, brisa
ou vento, mas acima de tudo a certeza da felicidade advinda desses
acontecimentos. Quaisquer que sejam os meios usados para retratar tais
momentos: Livros, músicas, fotos, pinturas, filmes, etc. eles ficam aquém, pois
nada é mais fiel do que a sua memória. Esse foi um desses acontecimentos. Aconteceu
um momento mágico. Momento nosso, só nosso. Vivenciamos, sentimos, quase
palpável, porém invisível. Traduzir, detalhar, peço desculpas pela minha
limitação. Uma coisa é certa: foi nossa prova de fogo. Passamos com louvor e saímos
convencidos, principalmente pela reciprocidade, de que tínhamos talento para trilhar
esse caminho.
Festival
terminado, nós já tínhamos passado no hotel, quitado a hospedagem e, agora
estávamos na praça com as meninas e queríamos nos despedir com um jantar na
churrascaria. A ideia era boa, mas...