Capítulo 19 –
AQUECENDO A PLATEIA
Estávamos
diante dos dois organizadores do festival. Eles foram muito simpáticos e agradáveis, pediram desculpas
pelos acontecimentos, já sabiam do boicote a banda e, como prova, não podiam
mudar o resultado, de perceber a grande injustiça que sofrêramos, nos convidaram
para participar do show de encerramento. Ficamos tão abobalhados, que pedimos
para repetir o final da frase. Era verdade, estávamos sendo convidados para
participar do show de encerramento, que teria como estrela principal a cantora
Eliana Pittman. Nós aqueceríamos a plateia e de quebra apareceríamos na TV
Cataguases. Não eram apenas desculpas, era sobretudo o reconhecimento de que o
trabalho apresentado, havia alcançado uma fatia preciosa do festival, os
jovens. Nós éramos os únicos que falávamos na mesma linguagem que este público
gostava, foi uma ideia boa para os dois lados e sem custo. Enquanto eles
atendiam uma demanda, nós solidificaríamos a nossa imagem. Houve uma pequena
discussão quanto ao repertório. Queríamos tocar só as nossas, mas, eles exigiam
que fossem músicas conhecidas. Alegamos que para isso eles teriam que pagar
direitos autorais. Sendo assim, chegamos num acordo que meio a meio estaria de
bom tamanho. Então seriam três nossas e três a escolher. Optamos por Rita Lee e
Mutantes, além das nossas.
Na verdade,
não tínhamos material ensaiado para uma apresentação, claro as nossas nós
sempre tocávamos lá na garagem do batera, mas as outras, como nós éramos uma
banda autoral, nunca havíamos tocado junto, apesar de conhece-las. Fizemos uma pequena
reunião para decidirmos quais as escolhidas. As músicas próprias, resolvemos
rapidamente, já as outras tivemos que simplificar para não cometer nenhum erro,
então escolhemos as mais fáceis e mais comercias. Decidido o repertório, agora
era só relaxar e deixar o tempo passar até a hora do show. Falando assim,
parece coisa de profissional do ramo, mas, o festival com as duas apresentações
e, o show na praça, nos deram uma tremenda confiança, não confunda com
arrogância. Nós saímos de uma garagem, onde estávamos já há bastante tempo
ensaiando, secos para mostrar para alguém o som que produzíamos, surgiu essa
grande oportunidade, com aparelhagem de primeira e grande plateia, encaramos o
desafio com medo, é certo, mas, encaramos e, em dois dias ficamos muito
conhecidos, não é para menos que a confiança passou a ser nossa companheira.
Festejamos como nunca nessa noite. Tomamos quase todas, se não, todas, pois o
batera ficou muito ruim, só notamos quando ele se levantou para ir ao banheiro.
Havia um corredor entre as mesas com cadeiras e no final é que estava o
banheiro. Era só se dirigir pelo corredor, ainda bem que no bar só estávamos
nós, pois o que ocorreu foi que o batera até o banheiro conseguiu esbarrar em
todas as mesas, derrubando tudo pelo caminho. Resolvemos encerrar e tratamos de
acudir o bebum. Deu um trabalhão. No caminho de volta até o hotel, tivemos que
revezar em segurar o sujeito, não posso dizer que estávamos bem, mas com
certeza melhor que ele. Chegamos na pracinha aonde ficava o hotel e, alguém
teve a ideia de antes de subirmos, ainda de dois em dois revezando, segurando o
bebum, corrermos em volta da praça para evaporar o álcool. Sinceramente, não
sei, não lembro, me recuso a lembrar, quem foi que teve essa brilhante ideia,
além de não adiantar muito, quando subimos, sentimos uma fraqueza nas pernas e,
como o cachaça ainda estava pra lá de Bagdá, a última tentativa de amenizar o
prejú e, dentro das nossas possibilidades, foi leva-lo para o chuveiro; antes,
passamos pelo quarto, tiramos toda a roupa e depois sim, levamos para aquele
chuveiro que não esquentava a água. O cachaça tentava sair da água fria, mas
nós o mantínhamos sob rédea curta, éramos quatro segurando-o para que
melhorasse e pudesse dormir sem vomitar mais. Finalmente na cama, arrumamos
coberta para aquecê-lo, claro após secá-lo, ainda esperamos um pouco para nos
certificarmos de que realmente ele havia entrado em sono profundo, penso que
não foi bem sono profundo, foi mais para apagão e só então cada um procurou a sua
cama completamente extenuado.
A ressaca é
um mal-estar físico, que com alguns cuidados ao longo do dia você vai
contornando, todavia, a ressaca do mico, essa por mais que você tente, nada vai
adiantar, o estrago já foi feito e para quem viu, você será lembrado pelo resto
da vida. Toda a vez que se falar em bebedeira, a sua história fará parte da
conversa e com detalhes que você nem poderá discutir alegando exagero, pois sua
memória não permitirá.
O pobre do
batera ainda teve que amargar o desprezo das meninas, que eram amigas e
descobriram que as três estavam sendo usadas por ele.
Quanto ao
guitarrista, engatou um romance passageiro com uma das meninas da organização
do festival e nos abandonou a tarde inteira.
Bem, aquela
brincadeira de encher a cara, junto com o trabalho com o bebum, nos deixou de
molho até a noite para a apresentação, além de inflamar a minha garganta. O
nosso amigo que estava na casa do tio, providenciou pastilhas para tentar
amenizar, já que o tio dele possuía uma farmácia, mas foi um paliativo.
Conforme a noite foi chegando e junto a queda de temperatura, o estado da
garganta não dava sinais de melhora. Antes de entrarmos para a apresentação,
passei num boteco e comprei um tanto de pinga, reservei-a numa garrafa de água
mineral e partimos para o tudo ou nada, afinal não é todo o dia que se tem a
oportunidade de usufruir de recursos sonoros de boa qualidade; de ter casa
cheia; de aparecer na televisão; de realizar sonhos que até pouco tempo
pareciam distantes. Aquela noite seria...
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