quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Capítulo 19 – AQUECENDO A PLATEIA

Estávamos diante dos dois organizadores do festival. Eles foram muito simpáticos e agradáveis, pediram desculpas pelos acontecimentos, já sabiam do boicote a banda e, como prova, não podiam mudar o resultado, de perceber a grande injustiça que sofrêramos, nos convidaram para participar do show de encerramento. Ficamos tão abobalhados, que pedimos para repetir o final da frase. Era verdade, estávamos sendo convidados para participar do show de encerramento, que teria como estrela principal a cantora Eliana Pittman. Nós aqueceríamos a plateia e de quebra apareceríamos na TV Cataguases. Não eram apenas desculpas, era sobretudo o reconhecimento de que o trabalho apresentado, havia alcançado uma fatia preciosa do festival, os jovens. Nós éramos os únicos que falávamos na mesma linguagem que este público gostava, foi uma ideia boa para os dois lados e sem custo. Enquanto eles atendiam uma demanda, nós solidificaríamos a nossa imagem. Houve uma pequena discussão quanto ao repertório. Queríamos tocar só as nossas, mas, eles exigiam que fossem músicas conhecidas. Alegamos que para isso eles teriam que pagar direitos autorais. Sendo assim, chegamos num acordo que meio a meio estaria de bom tamanho. Então seriam três nossas e três a escolher. Optamos por Rita Lee e Mutantes, além das nossas.
Na verdade, não tínhamos material ensaiado para uma apresentação, claro as nossas nós sempre tocávamos lá na garagem do batera, mas as outras, como nós éramos uma banda autoral, nunca havíamos tocado junto, apesar de conhece-las. Fizemos uma pequena reunião para decidirmos quais as escolhidas. As músicas próprias, resolvemos rapidamente, já as outras tivemos que simplificar para não cometer nenhum erro, então escolhemos as mais fáceis e mais comercias. Decidido o repertório, agora era só relaxar e deixar o tempo passar até a hora do show. Falando assim, parece coisa de profissional do ramo, mas, o festival com as duas apresentações e, o show na praça, nos deram uma tremenda confiança, não confunda com arrogância. Nós saímos de uma garagem, onde estávamos já há bastante tempo ensaiando, secos para mostrar para alguém o som que produzíamos, surgiu essa grande oportunidade, com aparelhagem de primeira e grande plateia, encaramos o desafio com medo, é certo, mas, encaramos e, em dois dias ficamos muito conhecidos, não é para menos que a confiança passou a ser nossa companheira. Festejamos como nunca nessa noite. Tomamos quase todas, se não, todas, pois o batera ficou muito ruim, só notamos quando ele se levantou para ir ao banheiro. Havia um corredor entre as mesas com cadeiras e no final é que estava o banheiro. Era só se dirigir pelo corredor, ainda bem que no bar só estávamos nós, pois o que ocorreu foi que o batera até o banheiro conseguiu esbarrar em todas as mesas, derrubando tudo pelo caminho. Resolvemos encerrar e tratamos de acudir o bebum. Deu um trabalhão. No caminho de volta até o hotel, tivemos que revezar em segurar o sujeito, não posso dizer que estávamos bem, mas com certeza melhor que ele. Chegamos na pracinha aonde ficava o hotel e, alguém teve a ideia de antes de subirmos, ainda de dois em dois revezando, segurando o bebum, corrermos em volta da praça para evaporar o álcool. Sinceramente, não sei, não lembro, me recuso a lembrar, quem foi que teve essa brilhante ideia, além de não adiantar muito, quando subimos, sentimos uma fraqueza nas pernas e, como o cachaça ainda estava pra lá de Bagdá, a última tentativa de amenizar o prejú e, dentro das nossas possibilidades, foi leva-lo para o chuveiro; antes, passamos pelo quarto, tiramos toda a roupa e depois sim, levamos para aquele chuveiro que não esquentava a água. O cachaça tentava sair da água fria, mas nós o mantínhamos sob rédea curta, éramos quatro segurando-o para que melhorasse e pudesse dormir sem vomitar mais. Finalmente na cama, arrumamos coberta para aquecê-lo, claro após secá-lo, ainda esperamos um pouco para nos certificarmos de que realmente ele havia entrado em sono profundo, penso que não foi bem sono profundo, foi mais para apagão e só então cada um procurou a sua cama completamente extenuado.
A ressaca é um mal-estar físico, que com alguns cuidados ao longo do dia você vai contornando, todavia, a ressaca do mico, essa por mais que você tente, nada vai adiantar, o estrago já foi feito e para quem viu, você será lembrado pelo resto da vida. Toda a vez que se falar em bebedeira, a sua história fará parte da conversa e com detalhes que você nem poderá discutir alegando exagero, pois sua memória não permitirá.
O pobre do batera ainda teve que amargar o desprezo das meninas, que eram amigas e descobriram que as três estavam sendo usadas por ele.
Quanto ao guitarrista, engatou um romance passageiro com uma das meninas da organização do festival e nos abandonou a tarde inteira.

Bem, aquela brincadeira de encher a cara, junto com o trabalho com o bebum, nos deixou de molho até a noite para a apresentação, além de inflamar a minha garganta. O nosso amigo que estava na casa do tio, providenciou pastilhas para tentar amenizar, já que o tio dele possuía uma farmácia, mas foi um paliativo. Conforme a noite foi chegando e junto a queda de temperatura, o estado da garganta não dava sinais de melhora. Antes de entrarmos para a apresentação, passei num boteco e comprei um tanto de pinga, reservei-a numa garrafa de água mineral e partimos para o tudo ou nada, afinal não é todo o dia que se tem a oportunidade de usufruir de recursos sonoros de boa qualidade; de ter casa cheia; de aparecer na televisão; de realizar sonhos que até pouco tempo pareciam distantes. Aquela noite seria... 

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