quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Capítulo 17  -  IR AONDE O PÚBLICO ESTÁ

Acordamos no sábado ainda com a ressaca do dia anterior. Pela hora, já podíamos procurar uma pensão para almoçar. A cidade tinha duas temperaturas: durante o dia fazia um sol delicioso e a temperatura subia, mas quando começava a escurecer, parecia que alguém ligava o ar condicionado no máximo e aí ela despencada vertiginosamente. Como tínhamos um chuveiro que não ajudava muito em temperatura baixa, o jeito era tomar o banho agora e mais tarde só mudar a roupa para a apresentação ou voltar antes de escurecer para um segundo banho, mas aí dependia do que iria acontecer. Enquanto nos ajeitávamos, nosso amigo apareceu. Todos prontos, descemos e partimos para forrar a barriga. No meio do caminho, estávamos perfilados, vinham subindo ao nosso encontro umas quatro meninas também lado a lado, descemos da calçada para que elas passassem e quando isso aconteceu ouvimos logo em seguida elas cochicharem entre si o nome da banda, como forma de identificação, foram segundos de êxtase. Uma apresentação e já estávamos famosos.
Voltamos ao hotel para pegarmos os instrumentos e seguimos para o ginásio, onde iríamos passar o som. Dessa vez correu tudo bem, penso que por estarmos familiarizados agora com o som e o local. Agora dentro do ginásio, me lembrei de uma saia justa que ficamos na noite anterior, que não posso deixar de citar, pois mais tarde vocês verão a importância do relato: Nós havíamos acabado de nos apresentar, quando, acho que uma ou duas músicas depois, o nosso contrabaixista veio a ser procurado por um músico da banda do festival, que precisava do seu instrumento, pois a corda do contrabaixo havia arrebentado e por não prevê tal acidente, demoraria um pouco para a nova corda chegar e o som não podia parar. Fomos pegos de supetão, mas a decisão cabia ao nosso músico, afinal o instrumento era dele. O contrabaixista não foi solicito e prontamente emprestou, pelo contrário, deu para notar que a dúvida rondava todo o seu ser, tanto, que ele ficou mudo, adiando a resposta à procura de uma luz que iluminasse o caminho certo; a decisão que diluísse o sofrimento. Não era egoísmo, apenas aquele apego a um objeto que ele havia levado tempo, economizado duramente para tê-lo e que finalmente desfrutava e era natural que não o quisesse compartilhar, ainda mais com estranhos. O sujeito não escondeu a sua decepção quando lhe fora negado o empréstimo. Deixou bem claro ao olhar diretamente para o nosso músico, antes de se retirar de volta ao palco. Nós não emitimos nenhuma opinião. O ocorrido momentaneamente afastou a nossa alegria, mas foi logo esquecido. Vida que segue.
O espaço onde acontecia o festival, era bem em frente à praça São Januário, também conhecida como Ary Barroso, compositor famoso pela música Aquarela do Brasil que fora nascido e criado em Úba e, que agora em destaque na praça era homenageado com um busto. Nós não tínhamos mais o que fazer dentro do ginásio, então saímos e fomos sentar num dos diversos bancos espalhados pela praça. Era uma bela tarde de sábado. O sol iluminava e mantinha aquecida toda a cidade. Havia muitas árvores ao redor. Sentados e protegidos do sol por uma delas, estávamos numa agradável sombra. O som começou tímido, assim meio que só para nós, mas não demorou muito, aos poucos foram chegando, rodeando, ouvindo, aplaudindo e de repente nos demos conta que estávamos no centro das atenções de dezenas de jovens que haviam nos assistidos no dia anterior. Então, eu subi no banco, para ter uma noção do que acontecia, ao me deparar com a multidão em volta, não me fiz de rogado, subi o volume e continuei cantando todo o repertório que normalmente nós quando nos reuníamos cantávamos. Não consigo precisar exatamente quanto tempo durou. Só sei que quando não havia mais nada para acrescentar e também comecei a sentir que a garganta estava dando sinais de cansaço, avisei que iriamos parar. Foi a consagração. Não queriam deixar a gente ir embora de jeito nenhum, então, alegando precisar preservar a minha voz para a noite, agradeci em meu nome e em nome de todos e anunciei a saideira. Esse show em praça pública, no contato direto e próximo com o público, no olhar, no sorriso, nos braços quase que literalmente da galera, foi algo que eu não sabia naquele momento, mas que no decorrer dos anos eu vim a saber: “Cantar era buscar o caminho que vai dar no sol, tenho comigo as lembranças do que eu era. Todo artista tem de ir aonde o povo está, se for assim, assim será. Cantando me disfarço e não me canso de viver, nem de cantar. ”
 A noite chegou e depois de passarmos por todo aquele ritual de preparação no hotel, desde a briga com o chuveiro, até a escolha da vestimenta. Colocar aqui que nós tínhamos que escolher o que vestir é até exagero. O que na verdade aconteceu, foi que eu fiquei com mesma roupa do primeiro dia, pois ela acabou virando uma marca e os outros só mudavam a camisa. Se para classificar a música, a roupa contasse pontos, nós estávamos fudidos. Fizemos o mesmo itinerário do dia anterior, até ficarmos na sala de espera para sermos chamados para a apresentação. A diferença ficou por conta de uma entrevista que eu dei para a rádio de Cataguases, que transmitia o festival. Esse também foi um outro momento muito marcante, pois eu fora informado dentro da sala, que o radialista que estava do lado de fora, queria me entrevistar antes de começar as apresentações.
A música tocou anunciando a abertura da segunda eliminatória. O locutor ilustre deu boa noite e convidou todos a participar de mais uma noite grandiosa, do festival de música popular brasileira da cidade de Úba. Antes de anunciar o primeiro candidato, era de praxe ele ensebar um pouco com agradecimentos e rasgar elogios aos organizadores e enumerar esforços empreendidos. Procuramos, enquanto isso, saber qual era a nossa posição na lista de entrada, para enfim ficarmos atentos. Entraríamos um pouco depois da metade. Feitas todas as citações, claro que havia um tempo até para o apresentador, começou a chamada para a alegria ou tristeza, estas opções dependiam exclusivamente do concorrente, do que viria ser o resultado da apresentação. Nós, naquele momento jogávamos as nossas últimas fichas naquela noite. Se tudo corresse bem, igual ao ensaio, tínhamos grande esperança. Chamado o primeiro, começou a nossa aflição. O dia anterior passou, agora era o presente, outra situação, outra realidade, outra música e outra chance. Chegou a nossa vez, já, já você vai saber...        

                       

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