Capítulo 17 - IR
AONDE O PÚBLICO ESTÁ
Acordamos no
sábado ainda com a ressaca do dia anterior. Pela hora, já podíamos procurar uma
pensão para almoçar. A cidade tinha duas temperaturas: durante o dia fazia um
sol delicioso e a temperatura subia, mas quando começava a escurecer, parecia
que alguém ligava o ar condicionado no máximo e aí ela despencada
vertiginosamente. Como tínhamos um chuveiro que não ajudava muito em
temperatura baixa, o jeito era tomar o banho agora e mais tarde só mudar a
roupa para a apresentação ou voltar antes de escurecer para um segundo banho,
mas aí dependia do que iria acontecer. Enquanto nos ajeitávamos, nosso amigo
apareceu. Todos prontos, descemos e partimos para forrar a barriga. No meio do
caminho, estávamos perfilados, vinham subindo ao nosso encontro umas quatro
meninas também lado a lado, descemos da calçada para que elas passassem e
quando isso aconteceu ouvimos logo em seguida elas cochicharem entre si o nome
da banda, como forma de identificação, foram segundos de êxtase. Uma
apresentação e já estávamos famosos.
Voltamos ao
hotel para pegarmos os instrumentos e seguimos para o ginásio, onde iríamos
passar o som. Dessa vez correu tudo bem, penso que por estarmos familiarizados
agora com o som e o local. Agora dentro do ginásio, me lembrei de uma saia
justa que ficamos na noite anterior, que não posso deixar de citar, pois mais
tarde vocês verão a importância do relato: Nós havíamos acabado de nos
apresentar, quando, acho que uma ou duas músicas depois, o nosso contrabaixista
veio a ser procurado por um músico da banda do festival, que precisava do seu
instrumento, pois a corda do contrabaixo havia arrebentado e por não prevê tal
acidente, demoraria um pouco para a nova corda chegar e o som não podia parar. Fomos
pegos de supetão, mas a decisão cabia ao nosso músico, afinal o instrumento era
dele. O contrabaixista não foi solicito e prontamente emprestou, pelo
contrário, deu para notar que a dúvida rondava todo o seu ser, tanto, que ele
ficou mudo, adiando a resposta à procura de uma luz que iluminasse o caminho
certo; a decisão que diluísse o sofrimento. Não era egoísmo, apenas aquele
apego a um objeto que ele havia levado tempo, economizado duramente para tê-lo
e que finalmente desfrutava e era natural que não o quisesse compartilhar,
ainda mais com estranhos. O sujeito não escondeu a sua decepção quando lhe fora
negado o empréstimo. Deixou bem claro ao olhar diretamente para o nosso músico,
antes de se retirar de volta ao palco. Nós não emitimos nenhuma opinião. O
ocorrido momentaneamente afastou a nossa alegria, mas foi logo esquecido. Vida
que segue.
O espaço onde
acontecia o festival, era bem em frente à praça São Januário, também conhecida
como Ary Barroso, compositor famoso pela música Aquarela do Brasil que fora
nascido e criado em Úba e, que agora em destaque na praça era homenageado com
um busto. Nós não tínhamos mais o que fazer dentro do ginásio, então saímos e
fomos sentar num dos diversos bancos espalhados pela praça. Era uma bela tarde
de sábado. O sol iluminava e mantinha aquecida toda a cidade. Havia muitas
árvores ao redor. Sentados e protegidos do sol por uma delas, estávamos numa
agradável sombra. O som começou tímido, assim meio que só para nós, mas não
demorou muito, aos poucos foram chegando, rodeando, ouvindo, aplaudindo e de
repente nos demos conta que estávamos no centro das atenções de dezenas de
jovens que haviam nos assistidos no dia anterior. Então, eu subi no banco, para
ter uma noção do que acontecia, ao me deparar com a multidão em volta, não me
fiz de rogado, subi o volume e continuei cantando todo o repertório que
normalmente nós quando nos reuníamos cantávamos. Não consigo precisar
exatamente quanto tempo durou. Só sei que quando não havia mais nada para
acrescentar e também comecei a sentir que a garganta estava dando sinais de
cansaço, avisei que iriamos parar. Foi a consagração. Não queriam deixar a
gente ir embora de jeito nenhum, então, alegando precisar preservar a minha voz
para a noite, agradeci em meu nome e em nome de todos e anunciei a saideira.
Esse show em praça pública, no contato direto e próximo com o público, no
olhar, no sorriso, nos braços quase que literalmente da galera, foi algo que eu
não sabia naquele momento, mas que no decorrer dos anos eu vim a saber: “Cantar
era buscar o caminho que vai dar no sol, tenho comigo as lembranças do que eu
era. Todo artista tem de ir aonde o povo está, se for assim, assim será.
Cantando me disfarço e não me canso de viver, nem de cantar. ”
A noite chegou e depois de passarmos por todo
aquele ritual de preparação no hotel, desde a briga com o chuveiro, até a
escolha da vestimenta. Colocar aqui que nós tínhamos que escolher o que vestir
é até exagero. O que na verdade aconteceu, foi que eu fiquei com mesma roupa do
primeiro dia, pois ela acabou virando uma marca e os outros só mudavam a camisa.
Se para classificar a música, a roupa contasse pontos, nós estávamos fudidos.
Fizemos o mesmo itinerário do dia anterior, até ficarmos na sala de espera para
sermos chamados para a apresentação. A diferença ficou por conta de uma
entrevista que eu dei para a rádio de Cataguases, que transmitia o festival.
Esse também foi um outro momento muito marcante, pois eu fora informado dentro
da sala, que o radialista que estava do lado de fora, queria me entrevistar
antes de começar as apresentações.
A música
tocou anunciando a abertura da segunda eliminatória. O locutor ilustre deu boa
noite e convidou todos a participar de mais uma noite grandiosa, do festival de
música popular brasileira da cidade de Úba. Antes de anunciar o primeiro
candidato, era de praxe ele ensebar um pouco com agradecimentos e rasgar
elogios aos organizadores e enumerar esforços empreendidos. Procuramos,
enquanto isso, saber qual era a nossa posição na lista de entrada, para enfim
ficarmos atentos. Entraríamos um pouco depois da metade. Feitas todas as
citações, claro que havia um tempo até para o apresentador, começou a chamada
para a alegria ou tristeza, estas opções dependiam exclusivamente do
concorrente, do que viria ser o resultado da apresentação. Nós, naquele momento
jogávamos as nossas últimas fichas naquela noite. Se tudo corresse bem, igual
ao ensaio, tínhamos grande esperança. Chamado o primeiro, começou a nossa
aflição. O dia anterior passou, agora era o presente, outra situação, outra
realidade, outra música e outra chance. Chegou a nossa vez, já, já você vai
saber...
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