quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Capítulo 76 – A CRISE DA MPB

Não tenho ilusões quanto ao “popular” na música brasileira, nem muito menos quanto ao seu caráter industrializado, realidade necessária face à produção e à circulação numa sociedade complexa, industrializada. Com efeito, desde as primeiras décadas do século passado, entre o compositor e/ou intérprete “popular” e a produção musical existiram mediações que, de uma forma ou de outra, interferiram na forma ou conteúdo da mensagem ou -melhor dizendo- deram o formato com que a canção brasileira foi registrada e se tornou conhecida.
O que lamento, pessoalmente como apreciador de uma tradição que parece estar se extinguindo, é o provável fim do ideal de uma “música popular brasileira” capaz de circular entre diferentes classes sociais e indivíduos de níveis culturais diversos (resultando, assim, numa forma de “reconhecimento” entre diferentes grupos sociais). Pode-se dizer que esse é a vertente “nacional-popular” de nossa música.
Creio que um dia ela teve mais intensidade, porque parecia ser capaz de expressar os humores e afetos de um povo, seu cotidiano mais prosaico, transmutado em canção/poesia -é nesse sentido que vejo pertinência na alusão de Chico Buarque ao rap, cumprindo esse papel hoje (no entanto, com amplitude bem menor). E tal produção musical, mesmo em seus preconceitos e aparente simplicidade, impunha-se como uma forma de “expressão comum”, mas não vulgar. Penso aqui, entre tantos e tantos exemplos, em compositores/intérpretes como Ataulfo Alves, Geraldo Pereira, Lupicínio Rodrigues, Mário Reis e Dalva de Oliveira.
Curiosamente, no meu entender, o ápice criativo dessa situação -a bossa nova- já apontava para o declínio da mesma. Em certo sentido, muito bem sucedida na capacidade de estabelecer diálogo com ritmos estrangeiros e o samba (tanto o sincopado, quanto o samba-canção), a bossa nova deu origem a uma teoria muito infeliz sobre o “linha evolutiva” na música popular.
Não condeno (e aprecio) a sofisticação musical de um Caetano, dos Mutantes e outros. No entanto, é claro que esse processo resultou numa “segmentação”, de saída, quanto aos ouvintes. E o “popular”, entendido como a capacidade que a canção brasileira teve de ser apreciada e adotada por muitos, é em geral convertido em paródia (Caetano, cantando “Coração de Mãe” ou Peninha, não é outra coisa).
Ao mesmo tempo, note-se que esse “popular” a que me refiro pouco tem a ver com a origem social do músico (Noel era de classe média e estudante de medicina), mas sim com formas de expressão, por assim dizer, “inclusivas” e mais espontâneas. Formas “nacionais”, mas não xenófobas: o próprio Noel, que ironizou a adoção fútil do inglês pelos brasileiros, compôs, com brilhantismo, em ritmos diversos, inclusive estrangeiros. “Pra que mentir” tem toda a influência do tango argentino, no entanto, o ritmo é “aclimatado” (claro, o mérito e também do extraordinário Vadico, autor da musica).
Seria simplicista, porém, dizer que o fato de compositores com grande capital cultural e capacidade musical terem emergido desde os anos 60 e depois (no pós-Tropicália, Egberto Gismonti, Arrigo Barnabé e tantos outros) é a principal causa dessa -a meu ver- “agonia da música popular”. Correlação temporal não é causação, mas essa coincidência não me parece banal.
De certo modo, o caminho de sofisticação formal tomado por parte da produção de compositores e intérpretes fez com que a “música popular” passasse a dirigir-se agora para a “classe média” (em particular a intelectualizada), e isso implicou numa lógica de distinções perversa (no caso brasileiro, onde o “popular” significava uma mensagem rica em termos de conteúdo e forma), porque empobrecedora de uma capacidade que a música brasileira teve de ser uma mensagem para muitos.
De outro lado -e talvez o aspecto mais importante- as mediações que se colocaram entre os artistas e produtores ganharam aparentemente maior complexidade. O avanço nas relações mercantis e em aspectos que buscam aumentar as possibilidades de êxito comercial (minorando, ao mesmo tempo, as chances de um custoso fracasso), como o marketing e a interferência criativa dos “fazedores de sucesso” (arranjadores, produtores) no trabalho dos músicos, favoreceram a redundância e o empobrecimento musical. Também, para os novatos em particular, dificultaram o desenvolvimento de uma “voz pessoal”. É claro, que existem exceções, mas o peso dos aspectos comerciais, de modo geral, sobrepuja a expressão musical desse possível “segmento” para o grande público.
Naturalmente, isso é muito prejudicial a uma maior espontaneidade que a música popular já possuiu. A démarche ou segmentação, que parece ser totalmente natural hoje entre os públicos, impele o “popular” (no sentido daquele que pretende se dirigir a muitos) a um caminho de manipulação estratégica (vide conjuntos como É o Tchan), guetização e fonte de uma identidade por parte dos excluídos (o funk carioca e parte do rap) ou hibridismos até o momento sem maior densidade musical (a música sertaneja, ou chamada música “brega”). É interessante também notar que aqueles que apelam à força de uma tradição intocada e “preservada” no limite da imobilidade (as rodas de “samba de raiz” ou o choro, por exemplo), fazem do consumo dessa música igualmente um elemento de distinção, mais do que a atualização de uma tradição e fonte de prazer estético para muitos.
De certa forma, é como se atualmente o projeto de uma música “nacional-popular” não fizesse muito sentido. O possível “diálogo social” que a música popular propiciava foi solapado por múltiplas segmentações e lógicas de distinção. A analogia com a política e a sociedade de modo geral é evidente e rica em possibilidades de reflexão -que não me arrisco a fazer, por falta de conhecimento dos aspectos empíricos da produção musical que poderiam embasar esta problemática, bem como de teoria social.

Mas, concluindo, diria que é significativo que certos grupos tenham antes um projeto “internacional-popular”, para usar a expressão de Renato Ortiz, como Os Tribalistas -que, operando no segmento jovem, dirige-se a um público “antenado” mundial. Creio que esse último dado coloca em cena, portanto, mais um fator desse cenário complexo: a globalização (no seu aspecto cultural). É claro que esse processo não deve levar, por si só, a fatores (bem colocados no artigo do Coletivo), como a “a perda de um referencial coletivo de transformação; e a própria transformação do que se entende por cultura no Brasil”, mas ela é mais um dado dessa dolorosa, na medida em que parece resultar em perda, situação. A transformação (não a “morte”, pois está implícito nesse termo um saudosismo desmedido) da MPB em algo muito diverso do que já foi.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Capítulo 75 – GERAÇÃO OUSADIA OU SEM NOÇÃO?

A ousadia da geração que gosta de MPB, funk, sertanejo, rock, forró e tá tudo bem

Minha mãe gosta de sertanejo raiz. Milionário e José Rico, João Mineiro e Capataz, ela escuta isso sempre. Toda vez que vai colocar uma música é só esse gênero. Modão de viola, sôTrem das antigas. Ela não escuta rádio sertaneja porque só toca a famosa divisão universitária. Não tem preconceito com isso, não sai esbravejando quando começa a tocar, mas se pudesse trocar pelo modão ela ficaria bem feliz.
É de outra geração, acostuma a ouvir o que o ambiente em que cresceu tocava. Do interior de São Paulo, beirando Taubaté, mamãe cresceu ouvindo viola caipira e sem influências de outros gêneros. É disso que ela gosta. Ponto.
Nós não consumimos mais música da mesma forma como nossos pais e avós consumiam, não recebemos mais música da mesma maneira. As rádios e a TV (nossa geração assiste televisão além dos eventos ao vivo?) não são mais as únicas difusoras de novos artistas. A internet possibilitou novos fenômenos musicais e todos eles estão a um clique de você. No Rio de Janeiro ou no interior da Bahia, ninguém precisa mais buscar, a música te acha. Nós viramos produtores de conteúdo em nossas redes sociais e por consequência divulgadores de novos nomes.
Se você buscar pelas músicas mais tocadas no Brasil (lista do Spotify) encontra Mc Zaac, Ed Sheeran, Nego do Borel, Alok, Simone e Simara (3x), Luan Santana, Wesley Safadão, The Chainsmokers (2x), Coldplay, Marron 5, Anavitória (2x), Luis Fonsi e Marília Mendonça (3x). Forró, Funk, Pop, Rock, Pop Funk, Sertanejo Universitário, Raggeaton, Eletrônica e até o novíssimo Pop Rural (uma nova divisão dentro da MPB).
Não muito tempo atrás o Funk não se bicava com o rock e a música eletrônica então, sempre amiga do Reggaeton, nem chegava perto do Sertanejo. Ver todos eles numa mesma lista, poderia não significar absolutamente nada se não fossem ritmos consumidos sem preconceito por uma mesma geração. Se todo mundo que gosta de rock ouvisse só o rock ele apareceria na lista da mesma forma, assim como com os outros ritmos, mas o que mudou foi o consumir funk numa mesma playlist de forró e sertanejo. Uma geração que esqueceu de dividir e escolher, preferiu juntar e não vê problema nenhum nisso.
“A gente gosta é de música!” diz o comercial do Multishow, canal da Globosat que foca sua grade em eventos e clipes musicais. Na programação se vê de tudo, inclusive um programa “bom demais da conta” que resume esse meu texto em qualquer episódio. Música Boa Ao Vivo, comandado pela cantora Anitta, traz diversos convidados dos mais variados gêneros músicas com uma pluralidade de ritmos apresentados para um mesmo público que canta e se diverte com todos eles.
Para a maioria, não tem mais essa de “só escuto tal ritmo”. Eles até têm um gênero musical predileto, mas não fazem cara feia quando começa a tocar funk, por exemplo. Sertanejo na sexta, balada eletrônica no sábado e no domingo pagode. Poderia ser o roteiro de um final de semana qualquer. A lista do serviço de streaming tem de tudo um pouco e se tocar em ordem aleatória, pode até dar um nó na cabeça da geração mais velha. Festa de casamento toca de tudo, festa de aniversário toca de tudo. É difícil montar uma playlist porque você não sabe se MC Kevinho fica melhor depois de Imagine Dragons ou antes do Criolo.
É fato que alguns gêneros musicais ainda predominam no Brasil. Sertanejo Universitário virou um tsunami desde 2010 e essa onda parece que nunca vai chegar na praia. Recentemente, o Funk recuperou um espaço que tinha perdido e fez surgir novos nomes com músicas que só Deus sabe como é que grudam na nossa cabeça tão fácil. No meio deles, onde cabe a comparação de um vagão de trem lotado no horário de pico da estação principal, a MPB/Pop Rural colocou dois nomes para cantarem amor e tocarem violão a capela. “Garçom troca o DVD que essa moda me faz sofrer”, “tu é trevo de quatro folhas” e “quando ela bate com a bunda no chão”. É literalmente assim, mas nem sempre nessa ordem, que o país vive com orgulho seu momento mais choque cultural desde que Cabral chegou aqui achando que tava nas índias.
Totalidade, a gente aprende, não existe. É impossível imaginar que daqui a alguns anos todo mundo vai gostar de todos os ritmos e vamos ser todos felizes dentro do desenho dos ursinhos carinhosos. Isso não vai acontecer nunca, mas aceitar o diferente, o novo, não ver problema em misturar e saber que tem espaço para todo mundo, é um bom sinal dentro do caos. Essa galerinha que ta ousando ser plural no meio de tanta gente singular anda deixando rastros de que tá aqui para derrubar muros que já não fazem — se é que algum dia fizeram — nenhum sentido.

Marcela Natra