Capítulo 76 – A CRISE DA MPB
Não tenho ilusões quanto ao “popular” na música
brasileira, nem muito menos quanto ao seu caráter industrializado, realidade
necessária face à produção e à circulação numa sociedade complexa,
industrializada. Com efeito, desde as primeiras décadas do século passado,
entre o compositor e/ou intérprete “popular” e a produção musical existiram
mediações que, de uma forma ou de outra, interferiram na forma ou conteúdo da
mensagem ou -melhor dizendo- deram o formato com que a canção brasileira foi
registrada e se tornou conhecida.
O
que lamento, pessoalmente como apreciador de uma tradição que parece estar se
extinguindo, é o provável fim do ideal de uma “música popular brasileira” capaz
de circular entre diferentes classes sociais e indivíduos de níveis culturais
diversos (resultando, assim, numa forma de “reconhecimento” entre diferentes
grupos sociais). Pode-se dizer que esse é a vertente “nacional-popular” de
nossa música.
Creio
que um dia ela teve mais intensidade, porque parecia ser capaz de expressar os
humores e afetos de um povo, seu cotidiano mais prosaico, transmutado em
canção/poesia -é nesse sentido que vejo pertinência na alusão de Chico Buarque
ao rap, cumprindo esse papel hoje (no entanto, com amplitude bem menor). E tal
produção musical, mesmo em seus preconceitos e aparente simplicidade,
impunha-se como uma forma de “expressão comum”, mas não vulgar. Penso aqui,
entre tantos e tantos exemplos, em compositores/intérpretes como Ataulfo Alves,
Geraldo Pereira, Lupicínio Rodrigues, Mário Reis e Dalva de Oliveira.
Curiosamente,
no meu entender, o ápice criativo dessa situação -a bossa nova- já apontava
para o declínio da mesma. Em certo sentido, muito bem sucedida na capacidade de
estabelecer diálogo com ritmos estrangeiros e o samba (tanto o sincopado,
quanto o samba-canção), a bossa nova deu origem a uma teoria muito infeliz
sobre o “linha evolutiva” na música popular.
Não
condeno (e aprecio) a sofisticação musical de um Caetano, dos Mutantes e
outros. No entanto, é claro que esse processo resultou numa “segmentação”, de
saída, quanto aos ouvintes. E o “popular”, entendido como a capacidade que a
canção brasileira teve de ser apreciada e adotada por muitos, é em geral
convertido em paródia (Caetano, cantando “Coração de Mãe” ou Peninha, não é
outra coisa).
Ao
mesmo tempo, note-se que esse “popular” a que me refiro pouco tem a ver com a
origem social do músico (Noel era de classe média e estudante de medicina), mas
sim com formas de expressão, por assim dizer, “inclusivas” e mais espontâneas.
Formas “nacionais”, mas não xenófobas: o próprio Noel, que ironizou a adoção
fútil do inglês pelos brasileiros, compôs, com brilhantismo, em ritmos
diversos, inclusive estrangeiros. “Pra que mentir” tem toda a influência do
tango argentino, no entanto, o ritmo é “aclimatado” (claro, o mérito e também
do extraordinário Vadico, autor da musica).
Seria
simplicista, porém, dizer que o fato de compositores com grande capital
cultural e capacidade musical terem emergido desde os anos 60 e depois (no
pós-Tropicália, Egberto Gismonti, Arrigo Barnabé e tantos outros) é a principal
causa dessa -a meu ver- “agonia da música popular”. Correlação temporal não é
causação, mas essa coincidência não me parece banal.
De
certo modo, o caminho de sofisticação formal tomado por parte da produção de
compositores e intérpretes fez com que a “música popular” passasse a dirigir-se
agora para a “classe média” (em particular a intelectualizada), e isso implicou
numa lógica de distinções perversa (no caso brasileiro, onde o “popular”
significava uma mensagem rica em termos de conteúdo e forma), porque
empobrecedora de uma capacidade que a música brasileira teve de ser uma
mensagem para muitos.
De
outro lado -e talvez o aspecto mais importante- as mediações que se colocaram
entre os artistas e produtores ganharam aparentemente maior complexidade. O
avanço nas relações mercantis e em aspectos que buscam aumentar as
possibilidades de êxito comercial (minorando, ao mesmo tempo, as chances de um
custoso fracasso), como o marketing e a interferência criativa dos “fazedores
de sucesso” (arranjadores, produtores) no trabalho dos músicos, favoreceram a
redundância e o empobrecimento musical. Também, para os novatos em particular,
dificultaram o desenvolvimento de uma “voz pessoal”. É claro, que existem
exceções, mas o peso dos aspectos comerciais, de modo geral, sobrepuja a
expressão musical desse possível “segmento” para o grande público.
Naturalmente,
isso é muito prejudicial a uma maior espontaneidade que a música popular já possuiu.
A démarche ou segmentação, que parece ser totalmente natural hoje entre os
públicos, impele o “popular” (no sentido daquele que pretende se dirigir a
muitos) a um caminho de manipulação estratégica (vide conjuntos como É o
Tchan), guetização e fonte de uma identidade por parte dos excluídos (o funk
carioca e parte do rap) ou hibridismos até o momento sem maior densidade
musical (a música sertaneja, ou chamada música “brega”). É interessante também
notar que aqueles que apelam à força de uma tradição intocada e “preservada” no
limite da imobilidade (as rodas de “samba de raiz” ou o choro, por exemplo),
fazem do consumo dessa música igualmente um elemento de distinção, mais do que
a atualização de uma tradição e fonte de prazer estético para muitos.
De
certa forma, é como se atualmente o projeto de uma música “nacional-popular”
não fizesse muito sentido. O possível “diálogo social” que a música popular
propiciava foi solapado por múltiplas segmentações e lógicas de distinção. A
analogia com a política e a sociedade de modo geral é evidente e rica em
possibilidades de reflexão -que não me arrisco a fazer, por falta de
conhecimento dos aspectos empíricos da produção musical que poderiam embasar
esta problemática, bem como de teoria social.
Mas,
concluindo, diria que é significativo que certos grupos tenham antes um projeto
“internacional-popular”, para usar a expressão de Renato Ortiz, como Os
Tribalistas -que, operando no segmento jovem, dirige-se a um público “antenado”
mundial. Creio que esse último dado coloca em cena, portanto, mais um fator
desse cenário complexo: a globalização (no seu aspecto cultural). É claro que
esse processo não deve levar, por si só, a fatores (bem colocados no artigo do
Coletivo), como a “a perda de um referencial coletivo de transformação; e a
própria transformação do que se entende por cultura no Brasil”, mas ela é mais
um dado dessa dolorosa, na medida em que parece resultar em perda, situação. A
transformação (não a “morte”, pois está implícito nesse termo um saudosismo desmedido)
da MPB em algo muito diverso do que já foi.