quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Capítulo 34 – NOITE SHOW

Depois da primeira semana, as outras foram progressivamente aumentando a presença do público. Não havia mais necessidade de divulgação. Caímos no gosto popular. Às sextas na casa de festa se tornou ponto de encontro, ponto de lazer e porque não dizer, sem modéstia, ponto de se ouvir boa música brasileira. A cada semana eu me esforçava para apresentar sempre novidades. Eu sempre avisava o público, que se não estivesse na playlist das músicas que eu sabia, eu não tocaria no momento, porém, se eu conhecesse, faria o possível para apresenta-la na semana seguinte. Eu sempre argumentava que era melhor faltar o agrado, do que tentar agradar com uma apresentação horrível. Essa combinação prévia, evitava que eu recebesse pedidos indesejáveis, mas, para minha sorte ou talvez fruto do nível das músicas, que a maioria dos frequentadores queriam ouvir, os pedidos eram escassos. A convivência com a dona da casa nos aproximou de tal maneira, que nos tornamos grandes amigos e, por tabela também de seus amigos. Eu, agora um profissional da noite, vire e mexe recebia convite para tocar em eventos na casa de festa ou fora. Casamentos, confraternização de empresas, aniversários, outros bares, era o meu momento. O dinheiro que entrava eu investia em melhoria da aparelhagem. A médio prazo os recursos já não eram tão improvisados, eu consegui montar uma pequena estrutura, o suficiente para transportar e que servia adequadamente para pequenos e médios lugares. Essa dupla jornada me tomava quase todo tempo, tanto que as composições ficaram adormecidas por um período. Ainda bem que eu possuía um bom número, pois além de ser contratado de vez em quando e tocar as sextas, ainda havia os festivais. Estando dentro do circuito cultural musical, você acaba conhecendo novas pessoas e através delas recebendo convites para assistir, participar, enfim, seus radares aumentam o alcance e captam mais oportunidades. Eu ia contar que o movimento do bar estava tão bom, que eu tive uma ideia louca de alugar a casa de festa para fazer um show, mas deixo para depois, agora vou contar sobre como eu fui parar no festival dos comerciários realizado pelo SESC no município de São João de Meriti.
Como havia descrito, um lugar puxa outro, uma pessoa outra, acabei conhecendo Lobo. Lobo era muito parecido com Chico Chicão de Duque de Caxias, lembra? Movimentava a rapaziada toda ligada com música e, como tinha no SESC de Meriti um trabalho à frente do teatro, levando ao público a possibilidade de acesso à cultura musical, através de bons nomes da nossa música, nomes como: Leila Pinheiro, Boca Livre, etc. abria também o espaço para os músicos independentes e realizava o festival. Numa dessas eu fui convidado para uma reunião, que acontecera no SESC e, durante a reunião nos fora passado que teríamos dias do meio da semana, excluía-se aí a sexta, o sábado e o domingo, para uma caravana musical com todo os recursos do teatro. Seria apenas uma semana, cada dia com três atrações e a bilheteria seria inteiramente nossa, dividida pelos três igualmente. Até aí todos acenaram afirmativamente, o problema começou quando o Lobo apresentou a distribuição dos participantes, quanto ao dia seria no sorteio, tudo bem, agora misturar banda de rock com um violeiro, era um pouco pesado, sem contar o pessoal do samba. Ajeita daqui, ajeita dali, finalmente ficaram todos satisfeitos. Quanto ao dia, viesse o que tivesse que vir, seria no meio da semana mesmo. E tive muita sorte, caiu para mim uma quinta-feira. Dividiria o palco com outro violeiro e um grupo gospel. Sai da reunião muito empolgado. Teríamos 45 minutos para preencher ou não com as nossas músicas. Melhor ainda é que elas teriam que ser autorais e inéditas, nada de música gravada para não dar problemas com os direitos autorais. Nós assinamos um documento e recebemos o regulamento. No ônibus de volta para casa, já estava listando mentalmente as escolhidas, mas ainda tinha que planejar a divulgação. Isso aconteceu a exatamente uma semana antes das apresentações. Era uma segunda-feira, portanto alguns teriam menos e outros mais tempo para se preparar e divulgar. O valor do ingresso era barato, coisa pequena comparado com a oportunidade de uma apresentação numa acústica de um teatro, mais ainda, que além do meu público, nós (as três atrações) teríamos outras presenças que seriam novos ouvidos e avaliações. Listei, ensaiei, cronometrei, queria usar todo o tempo, divulguei. Como fora combinado previamente, as três atrações chegariam antes do horário marcado para começar. Penso que o Lobo assim o fez para que pudéssemos interagir, e usou de um artifício muito inteligente quando não definiu qual seria a ordem de apresentação, deixando para no dia apresentar, assim, além estarmos juntos ao mesmo tempo, a nossa divulgação fora toda feita com o começo num único horário. Me arrisco a dizer que matreiramente ele manipulou de acordo com a presença do público. Aquele que trouxesse um número maior de pessoas para assistir o evento, fecharia a noite. Como notadamente do grupo gospel preenchiam boa parte dos assentos, eles fecharam, eu fiquei no meio, meus convidados - amigos, familiares – dentro da proporção assim definiram. Foi uma noite agradabilíssima. Som, iluminação, público, local, tudo conspirou a favor. Antes mesmo da última apresentação da noite, quando eu terminei, cruzando com os componentes do grupo gospel, eles, todos, fizeram questão de me cumprimentar enaltecendo a minha voz. Depois, assistindo à apresentação deles, pude dimensionar o elogio recebido, o grupo todo, as meninas e os rapazes tinham uma educação vocal excepcional, foi uma aula de como cantar em grupo e, quando nas partes de solo, que todos tiveram a sua oportunidade, cada qual no seu timbre, simplesmente maravilhoso. No final uma pequena, curta mesmo, em virtude do adiantar da hora, palavra de agradecimento proferida pelo nosso querido amigo Lobo, a recíproca era verdadeira e maior, passando para as nossas mãos um envelope contendo o nosso cachê. O cachê, pelo menos para mim, mas acredito que era consenso, naquele momento valia pouco diante da oportunidade, mas como sabiamente disse o velho Lobo: “ Tocar, cantar, compor é um trabalho que assim como os outros deve também ser remunerado, porém não dá para mensurar o quanto uma música mexe com os sentimentos das pessoas, seja ele de tristeza ou alegria, lembranças, nostalgia, apenas relaxar ou causar euforia, tantas são as suas possibilidades, encantos através de uma melodia, amor, paixão, louvor, cantoria, mas acima de tudo uma sintonia através das ondas sonoras. “
Voltando a minha rotina de banquinho e violão as sextas, mal havia me recuperado da emoção retida, fui surpreendido por um novo convite, dessa vez para participar do festival dos comerciários do SESC de Meriti, que aconteceria daqui há um mês. Pediam que eu fosse fazer a inscrição já com uma fita cassete e a letra da música, que primeiramente passaria pela peneira e se fosse escolhida participaria do festival. Junto a correspondência veio um pequeno regulamento, uma síntese, na qual objetivamente mostrava que seria realizado num dia só, com premiação em dinheiro apenas para o primeiro lugar e o melhor intérprete, escrito em negrito o valor de cada prêmio. Como o festival não tinha fase de classificação, os escolhidos após a inscrição já eram os classificados para o dia e, nesse dia já iriam disputar a premiação. O resultado sairia alguns minutos após a última apresentação. Troféus para o terceiro e segundo lugar e além do troféu, o cheque com o valor do prêmio para o primeiro lugar e o melhor intérprete. Preparei duas músicas. Gravei em duas fitas e fui me inscrever com duas possibilidades. O regulamento permitia no máximo duas composições por inscrição. Quando terminei de preencher o formulário, a secretária, que recolhia a fita, a letra e a inscrição, me avisou que o resultado com as músicas classificadas estaria a disposição no dia tal e que eu não deixasse de ligar nesse dia para saber o resultado ou passasse no SESC, pois uma reunião aconteceria o mais breve possível. Peguei a minha cópia da inscrição e junto veio uma outra folha com algumas observações. Uma delas era que depois do festival, eu poderia a qualquer dia e dentro do horário de funcionamento pegar de volta as minhas fitas. Bem, agora aquela situação, talvez dessa vez um pouco mais angustiante, devido a escolha já ser a classificação. Eu já falei em outros capítulos, eu me importo, claro, mas não me abato se por acaso não ganhar, agora não participar, aí eu me incomodo muito. Me desculpem, não dá para escrever mais, eu sei que vocês querem saber o que aconteceu, mas se eu continuar o capítulo ficará longo e cansativo, então, que tal nos encontrarmos aqui semana que vem, para eu terminar a prosa, hein!? Inté!                                                  

              

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Capítulo 33 – A REINAUGURAÇÃO
 No sábado, pela manhã, relatei em casa o ocorrido na inauguração do bar na casa de festa. Relatei em seus mínimos detalhes: disposição das mesas na área externa com pequenos postes iluminando como se fosse uma rua; os petiscos servidos em porções generosas; as pessoas conhecidas que compareceram, ambiente alegre, acolhedor, bebidas bem geladas e a parte que seria a cereja do bolo, mas que infelizmente desandou. Imaginamos juntos pelo que deveria estar passando, nesse sábado, a anfitriã que idealizou e pôs em prática um sonho e, justamente na inauguração – se fosse uma escola de samba, diríamos que todas as alas são importantes, contudo, mestre-sala e porta-bandeira, a importância é acentuada – não poderia falhar a parte da atração musical. Poderia até faltar, mas não falhar, já que estava dentro dos quesitos a serem apresentados e anunciados previamente.  Ainda comentei, que fulano e sicrano, na surdina, me pediram que pegasse o violão e salvasse a noite, mas eu aleguei que não tomaria tal atitude, estava fora dos meus princípios, além do mais, analisando as condições eu não poderia fazer nenhum milagre, talvez atenuar, mas era mais prudente não me meter. Durante o final de semana ouvi alguns comentários, aí pude até observar como as coisas chegam aos ouvidos dos outros tão distorcidas. Se não fosse testemunha ocular acreditaria em alguns, provavelmente.
Segunda-feira chegou, depois de ser ansiosamente desejada por todos, levando cada um à sua rotina. Já nesse início de semana, com as atividades tomando conta, eu nem lembrava mais, todavia, com o desenrolar e a proximidade do fim de semana, principalmente a sexta-feira, voltou a lembrança e junto a curiosidade em saber como funcionaria o bar. A rua em que eu morava tinha um pequeno declive, por isso mesmo todos se referiam ao endereço complementando se era na parte de cima ou de baixo e, eu morava na parte de cima. A casa de festa, que as sextas receberiam as pessoas em forma de bar, ficava exatamente na esquina ao lado esquerdo de quem descia a primeira quadra da parte de cima. Eu quando chegava do trabalho, entrava na rua pelo topo da rua, portanto não passava na porta do bar e nem dava para saber se já havia movimento. Em casa perguntei se iríamos beber umas cervejas e completei que poderíamos descer e ver se estava aberto o novo bar. Em sua lateral, descendo o final da quadra, o muro era alto, mas dava para notar que havia luzes, ao terminar numa curva para esquerda o muro mudava, não de tamanho, mas sim de formato, nele havia uma boa abertura no meio e, com esse desenho já se podia visualizar o interior. Notei que havia pessoas, poucas, mas havia e, o portão estava aberto, isso significava que estava funcionando. Entrei e me dirigi ao espaço onde ficavam as mesas. Praticamente todos, apesar de poucos, eram conhecidos, uns mais próximos. A dona havia improvisado um som ambiente. Ela ligou um aparelho três em um dentro do salão, que ficava ao lado do espaço e nas janelas abertas colocou as caixas de som voltadas para o espaço num volume adequado para se ouvir sem precisar elevar a voz para conversar. O cenário era o mesmo, mas o ambiente estava completamente diferente do dia da inauguração. Naquela noite a casa estava cheia e todas as luzes acesas. As vozes se misturavam harmonicamente como em todo ambiente de bar. O sentimento de alegria era contagiante, emanava de todos os lugares. Se fossemos levar ao pé da letra o velho ditado popular: “A primeira impressão é a que fica. ” O estrago da atração musical, eu diria que abalaria qualquer pessoa que estivesse começando, mas não o suficiente para desistir, apenas teria que agir rapidamente e consertar essa pequena falha. Como no dia da inauguração, também agora as mesas eram visitadas pela anfitriã para saber se tudo estava ao agrado e como faltava música ao vivo, ela se desculpava e garantia que estava providenciando. Antes que perguntasse algo em nossa mesa, foi abruptamente atropelada por uma pergunta lhe dirigida através de uma amiga que partilhava da minha mesa: “ Por que você não chamou o Dinho para tocar? ” Se eu me surpreendi, imagina ela.  Respondeu com uma outra pergunta: “ Eu não sei, quem é Dinho? “ Imediatamente todos olharam para mim e confirmaram com o dedo. Ela então: “Você toca e canta? “ A pergunta veio acompanhada de uma certa ou total dúvida. O tom era de incredulidade. Eu lhe respondi que sim. O que veio em seguida eu compreendi perfeitamente, aproveitando que o movimento estava fraco me pediu se eu não podia fazer uma apresentação sem compromisso, inclusive ali no espaço. Imaginando o que eu poderia usar como aparelhagem, pedi para olhar o som que estava ligado. Depois de feita a avaliação, pedi que me aguardasse que eu iria até em casa buscar as minhas coisas. Não demorei muito para voltar e começar a armar a minha barraca. Para não demandar mais trabalho, fiz a instalação no aparelho através da janela, armei o pedestal do microfone e também o do caderno de música, pluguei o violão no amplificador, a casa possuía um banco de boa altura e testei o som, afinação do instrumento, retorno e quando dei por mim, estavam todos esperando sentados e voltados para minha direção, ansiosos para ouvir alguma coisa boa. Para alguns, essa hora seria a chamada hora de grande responsabilidade, para mim, olhando e vendo as pessoas prestando atenção no que eu iria cantar, era outra coisa, era hora do show!
Eu sabia que eles estavam ali, bem pertinho, prestando atenção, então, apenas fiz o que sempre faço, me concentrei no meu trabalho, não importa se for para poucos ou muitos, tem que fazê-lo com paixão. Toquei direto umas oito músicas, emendando uma na outra sem intervalos, apenas um breve obrigado pelos aplausos. Quando finalmente parei para pedir um pouco de água, a dona da casa se aproximou e encantada com o que havia acabado de ouvir, não resistiu, olhando dentro dos meus olhos, proferiu como uma dama da socialite que era, mostrando-se altamente refinada: “P.Q.P.! Onde você estava escondido que eu não te vi? Aqueles m&$%#§ destruíram a minha noite. Vamos conversar. ” Eu não conhecia muito bem a pessoa, ela tinha um tom de voz, que podemos classificar de autoritária, mas conhecendo melhor você já classifica de outra maneira, não é autoritarismo, é firme, convicta, decidida e justa com os seus empregados, parceiros e amigos. Pessoas assim são difíceis de se lhe dar, não, pelo contrário, basta você ter caráter, honestidade, sinceridade, honra, moral, atributos que são básicos, nada de anormal, que você terá dessa pessoa a mais gratificante e profunda amizade. Naquela noite fiquei cantando um bom tempo, o suficiente para me satisfazer e o suficiente para honrar as minhas amigas que me indicaram. Afinal, eu fui ali para beber e não para trabalhar. Depois que desinstalei, arrumei e guardei tudo, pude enfim beber uma cerveja e começar a conversar sobre a minha permanência como o cantor da casa. Durante a conversa fiquei sabendo que a contratação dos garotos, não fora no escuro, eles haviam visitado a casa e feito uma pequena apresentação e diante do que viu e ouviu não havia dúvida de que estaria com tudo controlado. Qualquer imprevisto ela contornaria, mas esse era o único que fugia praticamente inteiro do seu controle, portanto, agora diante do que acontecera, precisava mais do que nunca de um parceiro, quase uma sociedade, bem parecido, essa parte ela queria que a pessoa fosse de sua confiança e que soubesse administrar bem essa relação com o público, com o som, enfim, a parte musical. Acertamos os valores, eu posso dizer com franqueza d’alma, o dinheiro era o menor das minhas preocupações. Eu sempre coloquei como prioridade a qualidade do som. Ainda mais ali que o espaço era aberto, não havia acústica, portanto a atenção e os cuidados com essa parte eram dobrados.
No dia seguinte, sábado, aproveitei para divulgar para todos os conhecidos, amigos, que agora estaria tocando as sextas na casa de festa e desfiava o rosário todo. Aproveitei também para pedir socorro para melhorar a qualidade do som. A semana voou. Na sexta cheguei mais cedo para arrumar o som e deixar tudo pronto para começar com o pé direito. Aos poucos foram chegando as pessoas, novas pessoas no ambiente e um bom número das que estiveram na inauguração. Estava uma noite agradabilíssima. Finalmente podia-se dizer que o bar das sextas da casa de festa fora inaugurado e eu agora me sentia plenamente inserido no hall dos cantores de um banquinho e um violão. Inté!                 

              

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Capítulo 32 – PRIMEIRA CAMINHADA

Retrocedendo um pouco no tempo, para enfim chegarmos ao dia da fatídica inauguração do bar do salão de festas, tenho que introduzir no relato, alguns acontecimentos que contribuíram para minha estreia na noite.
Existia um bar algumas ruas abaixo da minha, em que eu normalmente frequentava, de propriedade de bons amigos, que não havia música ao vivo e, por isso ali, estando com os meus amigos, sem pressão, eu podia tocar as minhas músicas, eles sabiam todas e, ainda aproveitava para exercitar apresentando as conhecidas, músicas dos artistas que curtíamos em comum, que agora faziam parte do meu repertório. Já havia algum tempo que eu vinha mostrando ao pessoal essa novidade.
Num dia desses quaisquer no meio dos numerosos dias que compõe o ano, talvez tivesse eu ido à padaria comprar leite, não sei ao certo, só sei que ia cruzando o caminho com o primo dos irmãos donos do bar que eu frequentava e ele parou-me para me propor uma sociedade, se é que se pode chamar assim. E veio a proposta: Ele tinha uma casa na mesma rua do bar; nela ele construiu um espaço que eventualmente alugava para festas; ela possuía estrutura para receber um bom número de pessoas, digamos mais de 100 pessoas, com mesas e cadeiras, cozinha e claro bar. Essa parte seria de sua inteira responsabilidade, cardápio variado e cerveja gelada, além de conforto no ambiente. A minha parte seria colocar as pessoas ali dentro. Eu seria a atração musical, mas teria que bolar uma estratégica de marketing que convencesse as pessoas a saírem de suas casas no sábado já com a intenção de ocupar o espaço, para uma boa distração regada com uma cerveja gelada, com bom acompanhamento culinário, cercado de bons amigos e, ouvindo muita música popular brasileira de boa qualidade cantada por mim. Confesso que àquela altura eu já gozava de um certo prestígio, mas mesmo assim num primeiro instante pensei que não conseguiria. Marquei uma reunião para acertar os detalhes. Quando nos encontramos, eu já tinha desenhado uma estratégia e a expus: Ele mandaria fazer ou faria uma filipeta composta de quatro lugares, sem numeração, que seriam cadeiras numa mesa; a época duas marcas de cerveja disputavam a preferência, portanto a casa atenderia a ambos os gostos; o cardápio com as iguarias, quantidades nas porções e inicialmente preços, mostrando que valia a pena passar a noite ali; a atração musical, além do dia da semana e do início de funcionamento. No final a pergunta que exigia uma resposta de imediato: Como seria feita a divulgação e como ele saberia a quantidade de pessoas que iria receber, para que pudesse calcular o quanto poria para vender? Eu assumi essa tarefa. Faria a venda antecipada, indo ao encontro dos que me conheciam e essa verba já seria o meu cachê. Ficaríamos sempre com umas mesas de reserva, poucas, para serem vendidas no dia. Eu escalaria um amigo para a portaria, pois se a venda era antecipada, apesar de não haver mesas numeradas, os lugares para sentar estariam garantidos, portanto até certa hora só entrava quem estivesse com a filipeta, depois mesmo com as mesas da reserva vendidas, se aparecesse alguém querendo entrar pagando o valor unitário, mas sem lugar para sentar e tendo espaço, eu autorizava a venda e entrada. Acertamos que a filipeta teria que ficar pronta umas duas semanas de antecedência da data marcada para a estreia, assim eu teria um final de semana antes para encontrar ou visitar as pessoas que já havia listado.
Eu já ouvi muitas vezes falarem para mim: Você já nasceu vendedor! Como se fosse um dom. Sim, existem pessoas que dão nó em pingo de éter, mas não significa que sejam bons vendedores. Esse não sou eu. Sou um vendedor, mas quem não o é? Pense: Será que eu já vendi e não percebi? Visualize todas as vezes que você apresentou, recomendou, sugeriu, indicou, discursou, defendeu, partilhou ou apenas presenteou. Você fez uma venda. Você vendeu sem interesses financeiros algo que lhe trouxe satisfação e que você acreditou que outros poderiam também o sentir. Então, munido deste sentimento que sempre me motivou, eu acreditei que como produto, valesse a compra da filipeta. Tenho certeza que algumas pessoas compraram inicialmente pela amizade, outras porque conheciam o meu potencial e gostavam de me ouvir cantar.
No primeiro sábado, todas as expectativas foram correspondidas. Casa cheia. Gente conhecida e amiga. Tudo funcionou como tinha que funcionar. Esse início nos deu gás para os outros sábados. Alguns, tivemos problemas com a lotação. O espaço passou a ser pequeno. Até aventamos a possibilidade de um lugar maior, mas time que está ganhando é melhor não mexer. Entretanto, existem certos namoros que chegam a noivado e ao casamento, mas no nosso caso não passamos do namoro, as divergências começaram a interferir, coisas de sociedade e, então a nossa temporada que parecia ir mais longe, para preservar a amizade acabou. Apesar de praticamente ter um público já conhecido, durante esse período pude observar a presença de pessoas que não sabiam que eu tocava e cantava, portanto aumentei o que podemos chamar de fã clube. Ter aceito esse desafio me propiciou o amadurecimento da ideia de me tornar um profissional da noite.
Foi uma boa temporada. Não me lembro exatamente de quantos sábados eu cantei, mas sei que foi um bom número. A proposta era diferente de um bar de verdade, mas serviu, principalmente para que eu pudesse debutar e pesar os prós e os contras. Um pensador disse: “O grande paradoxo do artista é ter de tornar invisível a visibilidade do artifício com que torna visível esse invisível. ”
Agora, estava eu ali na casa de festa que as sextas funcionariam como um bar, sentado e presenciando um verdadeiro desastre musical e consequentemente a inauguração desse aspecto indo pro ralo ou brejo. Apesar de os outros compromissos da casa estarem funcionando em sintonia, a parte que seria a cereja do bolo desandava. Os meninos atrasaram em muito, o que já causou um desconforto geral, principalmente na anfitriã e, quando parecia que tudo entraria nos eixos, foi aí que a máxima se fez presente: “Não há nada que esteja ruim, que não possa piorar. ” Fiquei sabendo que dentro da cozinha a anfitriã estava inconsolável, entre lágrimas de decepção e vergonha, pedia aos mais próximos que terminassem com o seu sofrimento e dos demais, desligando o som e retirando os músicos do pequeno palco. Não é que os meninos não sabiam tocar e cantar, o problema maior estava no equipamento, claro que faltou experiência, mesmo sendo uma estreia e eles terem assumido o compromisso, se não havia condições técnicas, o mínimo seria explicar a quem contratou e posteriormente ao público, mas como eu não sei bem o que houve, fico com o que vi e ouvi. Providenciaram a retirada dos músicos. Ficou aquele gosto amargo em quem veio prestigiar. Para a anfitriã só restou reunir forças, juntar os cacos, e pedir desculpas aos que atenderam o seu convite e convicta de que o começo não fora completamente desastroso, pois as instalações da casa, a comida, a bebida, o serviço, tinham correspondidos cem por cento, reiterou aos presentes que o propósito da abertura da casa as sextas continuariam e, quanto a música, ela procuraria com mais calma e ouviria, coisa que não o fez por ter sido uma recomendação. Não era a hora certa para procura-la, me candidatar e negociar termos contratuais, então, me despedi do pessoal e fui para casa dormir.

Antes de adormecer, fiquei passando as imagens dos acontecimentos da noite e claro, a parte do show. Houveram erros básicos, não que eu tivesse muita experiência, mas, não me queimaria se não houvesse o mínimo de condições. Fiquei pensando como eu faria e de certa forma agradeci não ter sido eu o convidado para a inauguração. Mas, a vida é uma caixinha de surpresas! No próximo capítulo explicarei como se deu a minha contratação. Inté!     

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Capítulo 11 -  DEL VECCHIO

A semana transcorria agora com uma grande diferença, as minhas horas vagas que eram preenchidas com leitura, a partir da chegada do violão foram substituídas, mas só durante o dia, a madrugada ainda era reservada à leitura. Meu novo amigo não apareceu todos os dias, contudo, quando aparecia acrescentava mais uma lição e a gente, mais ele do que eu, aprimorava os arranjos das músicas feitas. Acabou que o sábado da apresentação não rolou. Fui conhecendo o grupo separadamente e o grupo não se restringia apenas aos da banda, existia os amigos dos amigos, assim fui aos poucos me enturmando.
A casa se encontrava no mesmo bairro que o colégio. Era próxima, para ser mais exato, o que para ele ir a pé era comum. Já para mim, inobstante ter que ir de ônibus, não ficava tão distante, apenas uns vinte minutos, talvez menos, dependia do transito. Com essas duas possibilidades, além de diariamente, passamos a nos ver nos fins de semana, ora em sua casa, ora em outro bairro residido por alguém do grupo. Não tinha hora certa, podia ser a tarde, à noite, de madrugada, o que era comum mesmo era o violão, sempre presente, as vezes mais de um, mas o do meu amigo era certo. Praticamente todas as canções que cantávamos eram puxadas sempre pelo seu violão. Passávamos horas cantando MPB. Eu, apesar de conhecer algumas, falo isso, pois dos quinze aos dezoito ou dezenove fiquei curtindo muito rock progressivo e, só então comecei a despertar os meus sentidos com maior intensidade aos compositores nacionais, isso se deve em muito aos festivais de músicas da Record e posteriormente Globo, mas principalmente os da Record. Diante desse consumo constante e de uma melhoria no manuseio do violão, fui compondo músicas sofrendo várias influências, mas, de todas, a que mais me tocou no fundo do coração foi o que aqui se chamava de Rock Rural, o que seria uma espécie de descendente do Country Americano, evidentemente com adaptações tupiniquins. Aproveito para contar, por enquanto, dois causos interessantes a esse respeito: Sabe aquelas pessoas que cruzam o seu caminho por um período e, depois de algum tempo, as vezes curto, você nunca mais verá, pois foi assim. Conheci um cara que tocava uma viola a la Bob Dylan com direito a Harmônica ou Gaita, o que você quiser, naquela armação por cima do ombro e tudo, de deixar o queixo cair. Sabe aqueles ripongas da época, que não pertenciam ao sistema, ele tocava muito bem Bob Dylan e pintava uns quadros maneiros, que eram sua fonte de renda e expunha-os na rua no centro da cidade e foi justamente indo algumas vezes à sua casa e vê-lo pintar e tocar tão bem àquele violão que eu não conhecia, que descobrir a sonoridade que mudaria o meu batimento cardíaco, foi amor à primeira vista, eu tinha que possuir um violão folk.
Eu sabia que a rua da carioca era o lugar dos violões na cidade, então com a imagem e o nome que aprendi com ele, fui um dia até a rua e lá comecei a pesquisa por modelos e preços. A princípio fiquei fascinado com a variedade, mas os preços... eu tinha algum guardado, já com a intensão de comprar um para mim e devolver o emprestado. Já tinha entrado em algumas lojas, mas foi quando entrei na loja Guitarra de Prata e, me vendo, aproximou-se um vendedor para aquela pergunta de praxe: “posso lhe ajudar em alguma coisa” – sim, disse eu. “Poderia me mostrar alguns modelos de violão Folk?” – Fez um gesto para que fossemos mais para o fundo da loja e então começou o desfile, era cada um mais bonito que o outro, foi quando perguntei pelo preço de cada, que vi que teria que guardar mais um pouco de grana, mas antes de desistir, fiz uma última pergunta e que seria a minha salvação. “ O senhor não teria algum violão mais barato? Dependendo do valor eu vou pagar à vista! ”   Foi quando ele trouxe um violão com o bojo grande e disse: “ Tem esse aqui, não sei se você vai gostar, é um Folk da marca Del Vecchio.” Peguei, ele me ajudou a afinar e, quando toquei, o som me envolveu plenamente e senti que era com aquele que eu iria voar. O preço?  Vestiu como uma luva ou melhor, cabia no meu bolso. Pedi que guardasse e não vendesse para ninguém que eu já voltaria com o dinheiro. Joguei dez no veado e fui!   
Já em casa com o violão dos sonhos, virado pura realidade, voei. O voo de Ícaro, mais que o dele. O voo dos pássaros, mais que os deles. O meu voo particular, só meu. O conjugado, sumiu. O bairro, sumiu. A cidade, sumiu. O mundo, sumiu. O Del Vecchio era o meu tapete mágico. Me desloquei para um universo paralelo. Era eu e o Del Vecchio. Somente. A mente só. Não dá para mensurar o tempo, quando se está no mundo encantado. Quando acabou, o momento, não o encantamento, havia resultado numa composição, mostrando que estava tudo nos eixos: “Vai Tudo Bem
No dia seguinte, na hora do almoço, o meu amigo não apareceu, e então, após, resolvi ir até o centro encontrar o Bob Dylan, para lhe contar a novidade. Na esquina já vinha chegando, foi o tempo certo para uma breve corrida e pronto já estava dentro do ônibus, que me deixaria na esquina da Rua do México, que me permitiria chegar em poucos minutos ao cruzamento com a Araújo Porto Alegre, onde o riponga expunha os seus quadros. O efeito Del Vecchio estava latente e, parece que no meio do caminho resolveu dar o ar da graça, pois de repente caiu como um raio e, veio direto em mim, ou melhor, dentro da minha mente, uma melodia, e ela não estava sozinha, vinha acompanhada de letra. Mentalmente como sempre fazia, fui cantando, repetindo, repetindo, quando vi já estava na esquina. Saltei e corri feito um louco. Para pegar a condução de volta para casa, eu tinha que passar pelo meu amigo, mas, foi algo assim cinematográfico. Mal cheguei, já fui me despedindo, tentando explicar o inexplicável, uma palavra não encaixava muito bem na outra, mas depois fui saber que ele entendeu. Ao chegar em casa, desencapei o Del Vecchio, fechei os olhos e me concentrei. Foi um orgasmo. Quando acabei estava esgotado, porém satisfeito. Regozijando o resultado. Contudo, havia uma interrogação. Que guardo, pois, não consigo explicar. Como surgiu na minha cabeça essa música toda pronta? Penso que nem o deus das artes e música Apolo, saberá me responder. Para aqueles que conhecem, a música é: “MOTIVOS

As duas me botaram na estrada, mas “MOTIVOS”, essa... bem, até quarta-feira!