Capítulo 34 – NOITE SHOW
Depois da primeira semana, as outras
foram progressivamente aumentando a presença do público. Não havia mais
necessidade de divulgação. Caímos no gosto popular. Às sextas na casa de festa
se tornou ponto de encontro, ponto de lazer e porque não dizer, sem modéstia,
ponto de se ouvir boa música brasileira. A cada semana eu me esforçava para
apresentar sempre novidades. Eu sempre avisava o público, que se não estivesse
na playlist das músicas que eu sabia, eu não tocaria no momento, porém, se eu
conhecesse, faria o possível para apresenta-la na semana seguinte. Eu sempre
argumentava que era melhor faltar o agrado, do que tentar agradar com uma
apresentação horrível. Essa combinação prévia, evitava que eu recebesse pedidos
indesejáveis, mas, para minha sorte ou talvez fruto do nível das músicas, que a
maioria dos frequentadores queriam ouvir, os pedidos eram escassos. A
convivência com a dona da casa nos aproximou de tal maneira, que nos tornamos
grandes amigos e, por tabela também de seus amigos. Eu, agora um profissional
da noite, vire e mexe recebia convite para tocar em eventos na casa de festa ou
fora. Casamentos, confraternização de empresas, aniversários, outros bares, era
o meu momento. O dinheiro que entrava eu investia em melhoria da aparelhagem. A
médio prazo os recursos já não eram tão improvisados, eu consegui montar uma
pequena estrutura, o suficiente para transportar e que servia adequadamente
para pequenos e médios lugares. Essa dupla jornada me tomava quase todo tempo,
tanto que as composições ficaram adormecidas por um período. Ainda bem que eu
possuía um bom número, pois além de ser contratado de vez em quando e tocar as
sextas, ainda havia os festivais. Estando dentro do circuito cultural musical,
você acaba conhecendo novas pessoas e através delas recebendo convites para
assistir, participar, enfim, seus radares aumentam o alcance e captam mais
oportunidades. Eu ia contar que o movimento do bar estava tão bom, que eu tive
uma ideia louca de alugar a casa de festa para fazer um show, mas deixo para
depois, agora vou contar sobre como eu fui parar no festival dos comerciários
realizado pelo SESC no município de São João de Meriti.
Como havia descrito, um lugar puxa
outro, uma pessoa outra, acabei conhecendo Lobo. Lobo era muito parecido com
Chico Chicão de Duque de Caxias, lembra? Movimentava a rapaziada toda ligada
com música e, como tinha no SESC de Meriti um trabalho à frente do teatro,
levando ao público a possibilidade de acesso à cultura musical, através de bons
nomes da nossa música, nomes como: Leila Pinheiro, Boca Livre, etc. abria
também o espaço para os músicos independentes e realizava o festival. Numa
dessas eu fui convidado para uma reunião, que acontecera no SESC e, durante a
reunião nos fora passado que teríamos dias do meio da semana, excluía-se aí a
sexta, o sábado e o domingo, para uma caravana musical com todo os recursos do
teatro. Seria apenas uma semana, cada dia com três atrações e a bilheteria
seria inteiramente nossa, dividida pelos três igualmente. Até aí todos acenaram
afirmativamente, o problema começou quando o Lobo apresentou a distribuição dos
participantes, quanto ao dia seria no sorteio, tudo bem, agora misturar banda
de rock com um violeiro, era um pouco pesado, sem contar o pessoal do samba.
Ajeita daqui, ajeita dali, finalmente ficaram todos satisfeitos. Quanto ao dia,
viesse o que tivesse que vir, seria no meio da semana mesmo. E tive muita
sorte, caiu para mim uma quinta-feira. Dividiria o palco com outro violeiro e
um grupo gospel. Sai da reunião muito empolgado. Teríamos 45 minutos para
preencher ou não com as nossas músicas. Melhor ainda é que elas teriam que ser
autorais e inéditas, nada de música gravada para não dar problemas com os
direitos autorais. Nós assinamos um documento e recebemos o regulamento. No
ônibus de volta para casa, já estava listando mentalmente as escolhidas, mas
ainda tinha que planejar a divulgação. Isso aconteceu a exatamente uma semana
antes das apresentações. Era uma segunda-feira, portanto alguns teriam menos e
outros mais tempo para se preparar e divulgar. O valor do ingresso era barato,
coisa pequena comparado com a oportunidade de uma apresentação numa acústica de
um teatro, mais ainda, que além do meu público, nós (as três atrações) teríamos
outras presenças que seriam novos ouvidos e avaliações. Listei, ensaiei,
cronometrei, queria usar todo o tempo, divulguei. Como fora combinado
previamente, as três atrações chegariam antes do horário marcado para começar.
Penso que o Lobo assim o fez para que pudéssemos interagir, e usou de um
artifício muito inteligente quando não definiu qual seria a ordem de apresentação,
deixando para no dia apresentar, assim, além estarmos juntos ao mesmo tempo, a
nossa divulgação fora toda feita com o começo num único horário. Me arrisco a
dizer que matreiramente ele manipulou de acordo com a presença do público.
Aquele que trouxesse um número maior de pessoas para assistir o evento,
fecharia a noite. Como notadamente do grupo gospel preenchiam boa parte dos
assentos, eles fecharam, eu fiquei no meio, meus convidados - amigos,
familiares – dentro da proporção assim definiram. Foi uma noite agradabilíssima.
Som, iluminação, público, local, tudo conspirou a favor. Antes mesmo da última
apresentação da noite, quando eu terminei, cruzando com os componentes do grupo
gospel, eles, todos, fizeram questão de me cumprimentar enaltecendo a minha
voz. Depois, assistindo à apresentação deles, pude dimensionar o elogio
recebido, o grupo todo, as meninas e os rapazes tinham uma educação vocal
excepcional, foi uma aula de como cantar em grupo e, quando nas partes de solo,
que todos tiveram a sua oportunidade, cada qual no seu timbre, simplesmente
maravilhoso. No final uma pequena, curta mesmo, em virtude do adiantar da hora,
palavra de agradecimento proferida pelo nosso querido amigo Lobo, a recíproca
era verdadeira e maior, passando para as nossas mãos um envelope contendo o
nosso cachê. O cachê, pelo menos para mim, mas acredito que era consenso,
naquele momento valia pouco diante da oportunidade, mas como sabiamente disse o
velho Lobo: “ Tocar, cantar, compor é um trabalho que assim como os outros deve
também ser remunerado, porém não dá para mensurar o quanto uma música mexe com
os sentimentos das pessoas, seja ele de tristeza ou alegria, lembranças,
nostalgia, apenas relaxar ou causar euforia, tantas são as suas possibilidades,
encantos através de uma melodia, amor, paixão, louvor, cantoria, mas acima de
tudo uma sintonia através das ondas sonoras. “
Voltando a minha rotina de banquinho
e violão as sextas, mal havia me recuperado da emoção retida, fui surpreendido
por um novo convite, dessa vez para participar do festival dos comerciários do
SESC de Meriti, que aconteceria daqui há um mês. Pediam que eu fosse fazer a
inscrição já com uma fita cassete e a letra da música, que primeiramente
passaria pela peneira e se fosse escolhida participaria do festival. Junto a correspondência
veio um pequeno regulamento, uma síntese, na qual objetivamente mostrava que
seria realizado num dia só, com premiação em dinheiro apenas para o primeiro
lugar e o melhor intérprete, escrito em negrito o valor de cada prêmio. Como o
festival não tinha fase de classificação, os escolhidos após a inscrição já
eram os classificados para o dia e, nesse dia já iriam disputar a premiação. O
resultado sairia alguns minutos após a última apresentação. Troféus para o
terceiro e segundo lugar e além do troféu, o cheque com o valor do prêmio para
o primeiro lugar e o melhor intérprete. Preparei duas músicas. Gravei em duas
fitas e fui me inscrever com duas possibilidades. O regulamento permitia no
máximo duas composições por inscrição. Quando terminei de preencher o
formulário, a secretária, que recolhia a fita, a letra e a inscrição, me avisou
que o resultado com as músicas classificadas estaria a disposição no dia tal e
que eu não deixasse de ligar nesse dia para saber o resultado ou passasse no
SESC, pois uma reunião aconteceria o mais breve possível. Peguei a minha cópia
da inscrição e junto veio uma outra folha com algumas observações. Uma delas
era que depois do festival, eu poderia a qualquer dia e dentro do horário de
funcionamento pegar de volta as minhas fitas. Bem, agora aquela situação,
talvez dessa vez um pouco mais angustiante, devido a escolha já ser a
classificação. Eu já falei em outros capítulos, eu me importo, claro, mas não
me abato se por acaso não ganhar, agora não participar, aí eu me incomodo
muito. Me desculpem, não dá para escrever mais, eu sei que vocês querem saber o
que aconteceu, mas se eu continuar o capítulo ficará longo e cansativo, então,
que tal nos encontrarmos aqui semana que vem, para eu terminar a prosa, hein!?
Inté!