Capítulo 16 –
A APRESENTAÇÃO
Em menos de
trinta segundos o guitarrista começou a contagem e em seguida se espalhou pelo
ar daquele ginásio, os primeiros acordes da introdução. A minha perna ainda
continuava a tremer, mas assim que soltei a minha voz e o retorno me mostrou
que eu estava no caminho certo, as coisas foram se acalmando e tanto eu quanto
a banda estávamos em completa sintonia. Dava para sentir que nós acabávamos de
assumir o domínio total sobre aquela massa; sobre a multidão. O artista sabe
através do silêncio reinante, que a sua voz, a sua música, a sua apresentação,
está sendo inteiramente absorvida e observada com muita atenção e gosto. Existe
nessa resposta silenciosa uma afirmação de que o som produzido neste momento,
causa interesse, de que é preciso ouvi-lo e com muita atenção. Os comentários
são mínimos e sucintos para não se perder nenhum detalhe. Eu, que estava de
cara para a galera, depois que me acalmei, pude observar, enquanto cantava, que
até alguns dos jurados pegavam o fone para melhor ouvir. A plateia eram olhos e
ouvidos voltados inteiramente para nós. Ser o centro da atenção de milhares de
pessoas mesmo por alguns minutos, pode parecer uma coisa simples, corriqueira,
talvez sim, para quem já esteja na estrada há muito tempo, mas, para nós e
principalmente para mim, era uma sensação nova e, se não tivéssemos tempo
determinado, penso que eu ficaria muito mais. Depois que o frio na barriga passou
e também no meu caso a perna deixou de tremer, o canto ficou firme, seguro; a
música e a letra eu que havia composto; sabia de cór, mesmo assim não se pode
baixar a guarda, perder a concentração. Esse sempre fora o meu sonho, não
esperava que de primeira fosse para tanta gente, mas, sempre sonhei em cantar
minha música num palco com a atenção de um público. A exposição, no caso, saber
que você está sendo observado por centenas ou milhares de gostos díspares, é
uma coisa complicada, que pode ser gratificante ou não, mas se você quer ser um
cantor, ou no mínimo cantar as suas composições, não existe outra maneira
melhor do que o julgamento do público e sim, tem que se preparar e encarar. A
música enquanto cantada seguia num tom e ritmo e no momento final o contrabaixo
chamava a melodia para a introdução mostrando que o final se aproximava. Neste
exato instante a plateia nem esperou os últimos acordes. Uma maioria esmagadora
se levantou e aos berros e aplausos, mostravam todo o seu contentamento com a
apresentação. Não consegui conter o arrepio que tomou conta do meu corpo, vendo
tal manifestação. Indescritível! Imensurável! Agradeci reverenciando o público,
como não podia ficar muito tempo no palco, aproveitei o máximo possível aquele
instante de glória. Eu e meus companheiros saímos do palco e ao passarmos pela
cortina e adentrarmos o recinto de espera, não nos contemos: sorrisos, abraços,
lágrimas, gritos, pulos. Sabíamos que tínhamos feito uma apresentação
irrepreensível, quanto aos jurados não podíamos prever, porém, o público, esse,
não restava nenhuma dúvida: nós conquistamos! É um festival de música popular
brasileira. É uma competição. Não requer pirotecnias, nem dança, nem
dançarinos, tem que ser o conjunto da obra: boa música; boa letra; bom cantor;
bom arranjo e claro, isso tudo junto e bem executado. Bem, a primeira etapa
estava devidamente cumprida e diga-se de passagem: bem cumprida. Festejamos e
alegres ficamos, até o momento da leitura das músicas que estariam
classificadas para a reapresentação na final no domingo. O clima de apreensão
passeava pela sala onde se encontrava todos os participantes da noite. Éramos
todos ouvidos. A nós, agora só nos interessava a voz do apresentador. Ele, como
todo profissional do ramo, sabia que esse momento era de expectativas imensas e
claro, melhor do que ninguém ali, também sabia que era o centro das atenções,
portanto o suspense fazia parte do show. Quando finalmente saboreou
suficientemente aquele instante, por ser o portador da notícia onde milhares de
pessoas esperavam quase que implorando, deixou que seus súditos fossem saciados
pela lista dos classificados. Dentro da sala a alegria dos que foram para a
final era linda e emocionante, menos para nós. A decepção com o resultado, nos
deu um resto de noite escura e fria. Fomos consolados pelas meninas, que
estavam revoltadas, o que amenizou a nossa tristeza, mas o gosto amargo
persistia. Mais aí lembramos que nem tudo estava perdido, tínhamos uma outra
chance no dia seguinte. Resignados, saímos para beber umas cervejas e
espairecer. Na saída observamos que o nosso anonimato desapareceu, muita gente
agora olhava diferente para nós, fomos abordados por alguns para cumprimentar e
oferecer palavras de incentivos. Igualmente a este dia, teríamos que a tarde
comparecer ao ginásio para a passagem do som, no dia seguinte, então, depois de
muitas lamentações, nos despedimos das meninas e voltamos para o hotel. Elas solidárias,
mostravam o tempo todo que estavam revoltadas com a desclassificação e que se
pudessem não trabalhariam mais no festival. Apesar da música não passar para a
fase final, nós havíamos passado no teste, esse sentimento, essa certeza, eram
o nosso maior tesouro. A reciprocidade do público ratificava. O festival nos
oferecia essa oportunidade. Ele era o fio condutor que nos proporcionava a
chance de testar a qualidade da nossa música, diante de um público totalmente
desconhecido. Nós percebemos isso. Antes de cada par se recolher para o quarto
- sim, dois pares, porque o guitarra base tinha parentes e o nosso amigo
conseguiu abrigo com um primo, então nós barganhamos um quarto com duas camas e
assim formamos pares - nós conversamos e nos convencemos que o caminho era
alcançar o público e, se classificássemos teríamos mais um dia para participar
do show. Fomos dormir alegres e tranquilos. Nada como um dia após o outro.