quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Capítulo 16 – A APRESENTAÇÃO


Em menos de trinta segundos o guitarrista começou a contagem e em seguida se espalhou pelo ar daquele ginásio, os primeiros acordes da introdução. A minha perna ainda continuava a tremer, mas assim que soltei a minha voz e o retorno me mostrou que eu estava no caminho certo, as coisas foram se acalmando e tanto eu quanto a banda estávamos em completa sintonia. Dava para sentir que nós acabávamos de assumir o domínio total sobre aquela massa; sobre a multidão. O artista sabe através do silêncio reinante, que a sua voz, a sua música, a sua apresentação, está sendo inteiramente absorvida e observada com muita atenção e gosto. Existe nessa resposta silenciosa uma afirmação de que o som produzido neste momento, causa interesse, de que é preciso ouvi-lo e com muita atenção. Os comentários são mínimos e sucintos para não se perder nenhum detalhe. Eu, que estava de cara para a galera, depois que me acalmei, pude observar, enquanto cantava, que até alguns dos jurados pegavam o fone para melhor ouvir. A plateia eram olhos e ouvidos voltados inteiramente para nós. Ser o centro da atenção de milhares de pessoas mesmo por alguns minutos, pode parecer uma coisa simples, corriqueira, talvez sim, para quem já esteja na estrada há muito tempo, mas, para nós e principalmente para mim, era uma sensação nova e, se não tivéssemos tempo determinado, penso que eu ficaria muito mais. Depois que o frio na barriga passou e também no meu caso a perna deixou de tremer, o canto ficou firme, seguro; a música e a letra eu que havia composto; sabia de cór, mesmo assim não se pode baixar a guarda, perder a concentração. Esse sempre fora o meu sonho, não esperava que de primeira fosse para tanta gente, mas, sempre sonhei em cantar minha música num palco com a atenção de um público. A exposição, no caso, saber que você está sendo observado por centenas ou milhares de gostos díspares, é uma coisa complicada, que pode ser gratificante ou não, mas se você quer ser um cantor, ou no mínimo cantar as suas composições, não existe outra maneira melhor do que o julgamento do público e sim, tem que se preparar e encarar. A música enquanto cantada seguia num tom e ritmo e no momento final o contrabaixo chamava a melodia para a introdução mostrando que o final se aproximava. Neste exato instante a plateia nem esperou os últimos acordes. Uma maioria esmagadora se levantou e aos berros e aplausos, mostravam todo o seu contentamento com a apresentação. Não consegui conter o arrepio que tomou conta do meu corpo, vendo tal manifestação. Indescritível! Imensurável! Agradeci reverenciando o público, como não podia ficar muito tempo no palco, aproveitei o máximo possível aquele instante de glória. Eu e meus companheiros saímos do palco e ao passarmos pela cortina e adentrarmos o recinto de espera, não nos contemos: sorrisos, abraços, lágrimas, gritos, pulos. Sabíamos que tínhamos feito uma apresentação irrepreensível, quanto aos jurados não podíamos prever, porém, o público, esse, não restava nenhuma dúvida: nós conquistamos! É um festival de música popular brasileira. É uma competição. Não requer pirotecnias, nem dança, nem dançarinos, tem que ser o conjunto da obra: boa música; boa letra; bom cantor; bom arranjo e claro, isso tudo junto e bem executado. Bem, a primeira etapa estava devidamente cumprida e diga-se de passagem: bem cumprida. Festejamos e alegres ficamos, até o momento da leitura das músicas que estariam classificadas para a reapresentação na final no domingo. O clima de apreensão passeava pela sala onde se encontrava todos os participantes da noite. Éramos todos ouvidos. A nós, agora só nos interessava a voz do apresentador. Ele, como todo profissional do ramo, sabia que esse momento era de expectativas imensas e claro, melhor do que ninguém ali, também sabia que era o centro das atenções, portanto o suspense fazia parte do show. Quando finalmente saboreou suficientemente aquele instante, por ser o portador da notícia onde milhares de pessoas esperavam quase que implorando, deixou que seus súditos fossem saciados pela lista dos classificados. Dentro da sala a alegria dos que foram para a final era linda e emocionante, menos para nós. A decepção com o resultado, nos deu um resto de noite escura e fria. Fomos consolados pelas meninas, que estavam revoltadas, o que amenizou a nossa tristeza, mas o gosto amargo persistia. Mais aí lembramos que nem tudo estava perdido, tínhamos uma outra chance no dia seguinte. Resignados, saímos para beber umas cervejas e espairecer. Na saída observamos que o nosso anonimato desapareceu, muita gente agora olhava diferente para nós, fomos abordados por alguns para cumprimentar e oferecer palavras de incentivos. Igualmente a este dia, teríamos que a tarde comparecer ao ginásio para a passagem do som, no dia seguinte, então, depois de muitas lamentações, nos despedimos das meninas e voltamos para o hotel. Elas solidárias, mostravam o tempo todo que estavam revoltadas com a desclassificação e que se pudessem não trabalhariam mais no festival. Apesar da música não passar para a fase final, nós havíamos passado no teste, esse sentimento, essa certeza, eram o nosso maior tesouro. A reciprocidade do público ratificava. O festival nos oferecia essa oportunidade. Ele era o fio condutor que nos proporcionava a chance de testar a qualidade da nossa música, diante de um público totalmente desconhecido. Nós percebemos isso. Antes de cada par se recolher para o quarto - sim, dois pares, porque o guitarra base tinha parentes e o nosso amigo conseguiu abrigo com um primo, então nós barganhamos um quarto com duas camas e assim formamos pares - nós conversamos e nos convencemos que o caminho era alcançar o público e, se classificássemos teríamos mais um dia para participar do show. Fomos dormir alegres e tranquilos. Nada como um dia após o outro.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Capítulo 15 – NOITE DE ESTRÉIA


Após uma pequena caminhada, ao chegarmos na praça, notamos grande movimentação em frente a porta de entrada do ginásio, onde iria acontecer o evento. A calçada estava apinhada de gente. Como era um acontecimento grandioso patrocinado pela prefeitura e anual no calendário da cidade, era justo que tivesse tanta gente e de todas as idades. Procuramos e encontramos as meninas que trabalhavam no evento, que providenciaram a nossa entrada por um acesso especial aos participantes do festival. Chegamos numa sala grande, onde se encontravam todos que iriam se apresentar naquela noite. Buscamos um lugar em que pudéssemos ficar agrupados e concentrados, tínhamos algumas coisas para conversar, afim de tentar melhorar o que fora a passagem de som.  Basicamente tentamos trazer para o festival um pouco da nossa descontração da garagem. O espírito do prazer de tocar, independentemente de ser ou não um festival. Os meses de ensaios, agora chegara a hora de mostrar o resultado e teria que ser melhor, pois tínhamos finalmente os recursos que tanto sonhamos. Tentamos com essas palavra e atitudes colocar os pés no chão, acalmar os nervos. Eu não sei quanto ao que passava na cabeça de cada um, mas, penso eu, não ser muito diferente do que acontecia na minha. A responsabilidade era igual, talvez um pouco mais para mim, afinal era eu que iria cantar e, eu, que até então não tinha parado par pensar nisso, me dei conta do tamanho da responsa. As meninas apareceram para passar informações do regulamento do festival, apesar de todos terem recebidos as instruções por escrito. Os dois primeiros dias, ou seja, sexta-feira e sábado seriam apresentações classificatórias para o domingo, quando aconteceria a grande final e seria anunciado os três vencedores ou seja: terceiro, segundo e primeiro lugar, no caso o grande vencedor. Além de prêmios em dinheiro para os três primeiros, havia também o de melhor intérprete. Cada música não poderia ultrapassar o tempo de três minutos e trinta segundos. O concorrente ao ser chamado teria trinta segundos para começar a apresentação, caso estourasse o tempo, estaria automaticamente desclassificado. Passada as informações, elas se certificaram de que não havia nenhuma dúvida e em seguida vieram papear conosco. Foi bom termos a companhia delas até a hora em que a música anunciou a abertura da primeira noite do festival. Elas como trabalhavam na recepção e preparação da entrada dos participantes, tiveram que se posicionar antes da cortina que servia de divisão entre a sala e o palco. Se fossemos dividir em três, nós estávamos no início de terceiro terço, o que parecia excelente, pois a plateia já estaria ligada e aquecida, além do ginásio àquela altura se encontrar completamente lotado. A posição que iriamos ocupar no palco nós já sabíamos desde a tarde quando fomos passar o som. Após a cortina, havia uma rampa com duas direções: seguindo em frente subindo, ficava quem iria cantar. Bem de cara para o público. Que seria eu. Sozinho. Seguindo para a esquerda, num nível um pouco abaixo do palco do cantor, ficava a banda, na parte detrás. Naquela tarde após o ensaio, nós resolvemos que seria mais adequado, foi uma decisão unânime, de que deveríamos adotar dois nomes: um para o cantor e outro para a banda e, assim, procuramos as meninas, que nos levaram aos responsáveis e alteramos os nomes. Foi uma estratégia para podermos participar de duas premiações, a de música e intérprete. Nosso amigo já havia nos deixado, pois não podia permanecer no local e claro, ele também queria ver o festival. Ouvimos a voz possante e aveludada do apresentador cumprimentando a plateia, ao ouvi-la reconhecemos logo, era ninguém mais nem menos do que o grande J. Silvestre, apresentador de televisão muito conhecido. Comparado aos dias de hoje, seria um Raul Gil ou até Silvio Santos. Foi o precursor de programas com perguntas e respostas valendo no final, um prêmio espetacular em dinheiro. Pense em “Quem Quer Ser um Milionário? ”, filme britânico, adaptado do livro Q&A escrito por um indiano e ganhador do Oscar. Após a grande surpresa, sorrimos todos juntos e uníssonos exclamamos: “seremos anunciados pelo J. Silvestre! ”  A plateia reagiu aos gritos e aplausos, diante da chamada para receber os candidatos ao prêmio do grande festival, anunciado pelo apresentador, todos estavam ansiosos para que começasse logo. Foi chamado o primeiro participante. As meninas abriram a cortina para que ele pudesse passar. Segundos após ultrapassar a cortina, podemos ouvir a agitação do público, já que a cortina voltou a ser fechada, dando sinais de que ele já estava entregue as feras. Confesso que naquele momento senti um pouco de medo. Ninguém podia passar da cortina para olhar do outro lado, mas nós que já tínhamos um pouquinho de intimidade com as meninas, pedimos e fomos atendido, desde que fossemos rápidos e não mais que a cabeça para uma breve olhada. Não levamos mais de trinta segundos, o suficiente para termos uma leve ideia da quantidade de pessoas que estavam presentes. Mais tarde ficamos sabendo que o festival registrou uma média de público em torno de quatro a seis mil pessoas, entre sexta e domingo. Sem medo de errar, penso que naquele dia nossa prova de fogo seria para mais de quatro mil. Cada um lidava com a sua ansiedade e nervosismo a sua maneira, enquanto o tempo passava e a nossa vez se aproximava. Eu, quando estávamos próximo do momento, faltando apenas acabar o que estava cantando e o seguinte entrar, comecei a modificar a minha vestimenta. Nosso vestuário era muito simples: tênis, meião, calça jeans, camiseta e outra camisa por cima, agasalho, além disso, eu tinha um colete e uma boina de pele de guaxinim a la “Daniel Boone”, personagem de um seriado de tv. Bem, enrolei a calça da bainha até perto do joelho, ficando assim o meião que era azul e branco em listras horizontais a amostra, tirei o casaco e fiquei só de colete por cima da camisa por fora da calça, o tênis era azul acamurçado, então o visual com o Daniel Boone na cabeça ficou diferenciado. Os amigos gostaram e as meninas também e, esse pequeno detalhe me encorajou. Finalmente chamados, eu puxando o cordão, passei pela cortina e subi a rampa que me levaria até o palco principal. Uma assistente de palco ajeitou o microfone para minha altura, coisa rápida, olhei para trás, pros meus companheiros para saber se estavam prontos, pois tínhamos trinta segundos, e vi o guitarrista começar a contagem; minha perna não parava de tremer e eu para disfarçar ficava fazendo mais ou menos um pêndulo; não olhava fixo para ninguém, o meu olhos estavam para dentro, a única coisa que eu reparei foram os jurados, só porque estavam bem na minha frente. O público, principalmente os jovens, que se mostraram receptivos, agora guardavam silêncio, à espera do que viria. Vocês não sabem o que aconteceu, mas vão saber.     

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Capítulo 14 –  ...DIIAA SÔ!

Animados e apreensivos, embarcamos nós os quatros (voz e viola, guitarra, baixo e bateria) e mais um amigo, que também tinha parente em Úba, em um ônibus rumo ao desconhecido. Era noite. Previsão de chegada: madrugada de sexta-feira. Depois de toda a euforia do embarque, ficamos um pouco preocupado se realmente haveria alguém nos esperando na chegada, já que a mesma se daria em plena madrugada. O silêncio no interior do ônibus e a pouca iluminação, aliado ao adiantar da hora, nos arrefeceu os ânimos e logo veio o sono que se prolongou até a chegada. 
Já de dentro do ônibus avistamos na rodoviária de Úba um grupinho de pessoas e entre elas o guitarra base. O comitê de recepção não poderia ser melhor, as meninas eram lindas. Assim que descemos para pegarmos toda a nossa tralha, levamos um susto de arrepiar, literalmente. A temperatura estava tão baixa em contraste ao interior do ônibus, que tivemos que nos apressar em procurar agasalho, antes de qualquer apresentação. Afinal, quaisquer 20 graus prum carioca é Sibéria. Feitas as apresentações, pudemos constatar a beleza das meninas e além disso eram supersimpáticas. Fomos conduzidos para um carro e avisados que seríamos levados para uma casa fora de centro da cidade para passar o resto da noite. Lá não encontraríamos conforto, era só para não pagarmos uma diária de hotel à toa e, assim que amanhecesse, nos buscaríamos para então darmos entrada na primeira diária do hotel afim de economizarmos. Nos despedimos das meninas, para que fossem à suas casas dormir, mas antes de partirem deixaram bem claro que seriam nossos anjos da guarda em Úba. Era o paraíso!  Subimos numa picape e saímos. O lugar não era perto. No caminho não dava pra ver nadica de nada, pois o breu era impenetrável, somente a luz do farol do carro é que iluminava a direção na estrada. Passados uns longos minutos, a ansiedade modifica o tempo, mas não tinha como não ser, todos tiveram a mesma sensação. De repente, o carro parou na estrada e fomos apresentados a casa que passaríamos a noite. Ah! Como é bom ser jovem, tudo é aventura e nada nos amedronta. Para começar, a casa estava em construção; tinha teto e paredes; o chão ainda era de cimento; já havia divisão de cômodos; janela, só o quadrado com madeira; luz nem pensar e havia uma tábua improvisada como porta. Bem, mas o guitarra base pensava em tudo, então nos passou uma caixa de velas e caixa de fósforo, depois pediu paciência e prometeu vir o mais cedo possível, assim que clareasse, para nos resgatar para a centro da cidade e partiu. Exploramos a pequena casa e encontramos um aposento pequeno, que parecia que seria um quarto, porém adequado para as nossas pretensões. Como havíamos dormido na viagem, estávamos sem sono, apenas com um pouco de fome, mas isso foi logo resolvido. O batera sacou de dentro da mochila um farnel que a sua querida mãezinha havia preparado para o filhinho, caso ele sentisse fome e, não é que ele agora e mais quatro estavam ávidos para por alguma coisa no estômago. Era o manjar dos deuses. Apesar de estar bem longe, essa senhora nunca foi tão elogiada e lembrada a cada mordida. Após, só nos restava uma coisa a fazer para passar a hora: sacar da viola e tocar e cantar até amanhecer. Momento mágico. Os cinco sentados no chão, tendo vela acesa como luz, dentro de uma casa em construção, no meio da madrugada, num lugar sabe lá aonde, cantando. São esses pequenos momentos que simbolizam e são reconhecidos com o nome de: "FELICIDADE".
Clareou, e nem notamos a noite partir, mas a luminosidade do sol espalhando claridade por toda a parte, chegava anunciando a ineficiência da vela e descortinando um cenário digno de renomados pintores. Estávamos em plena natureza. O cheiro da manhã rodeado de arvores, plantas, matos, é de uma pureza que até fere os pulmões de quem não está acostumado. Agora podíamos ver exatamente aonde passamos a noite. Só com aquele breu mesmo, onde não enxergávamos nada, é que a gente aceitou ficar no meio do nada, num projeto de casa, entregue a sorte e a proteção divina. Não aguentamos ficar nem mais um minuto ali parado, esperando sabe-se lá quanto tempo, até que alguém lembrasse da gente. Avistamos uma pessoa que vinha pela estradinha e que passaria bem na frente do terreno, descemos para conseguir informação para que lado ficava o centro da cidade. Ao se aproximar exclamou: ...diiaa sô! Nós respondemos o comprimento e tiramos a nossa dúvida para que lado ficava a cidade. No caminho, íamos cruzando com outros homens e todos ao se aproximar exclamavam: ...diiaa sô! E nós respondíamos. O interessante é que não era “bom dia”, pronunciado por inteiro, era assim mesmo como estou tentando explicar pela escrita, a palavra “bom”, ficava meio que retida, sem som e, só vinha o “diiaa sô!”, acompanhado de um sotaque do interior, que nos damos conta que eram trabalhadores rurais e aquele horário, o raiá do dia e aquele caminho, os levaria para o roçado. Perdemos a conta de quantos “diiaa sô!”, pronunciamos até chegarmos a praça principal da cidade. Contudo, se tivéssemos mais uns 10 km, seria maravilhoso para o batera, pois ele ia na frente e antes dos passantes já se adiantava em cumprimentar.
Nosso primeiro dia em Úba, foi algo inesquecível. Ao chegarmos na praça, não tínhamos a mínima noção para onde ir, então, batera, baixista e o nosso amigo nos deixaram na praça e resolveram vasculhar a cidade, atrás de informação que os levasse até o guitarra base. Então para passar o tempo, pegamos o Del Vecchio e começamos a tocar e cantar. Não demorou nem cinco minutos, um rapaz empurrando um cadeirante, pararam bem próximo e ficaram escutando, logo em seguida mais um, depois mais dois e outras pessoas paravam, ouviam uma ou duas músicas e seguiam, mas o mais interessante é que sempre que partiam, elogiavam e se desculpavam por ter que sair. Houve até um em particular, que nos comoveu e nos fez refletir, diante da falta de costume em que nos habituamos a viver. Nós havíamos acabado de tocar uma música, quando ele se pronunciou, antes que iniciássemos a próxima, se desculpou por ter que sair, pois estava na hora de ir trabalhar, que nós não ficássemos aborrecidos com a sua retirada, mas era necessário, agradeceu o momento que passou conosco e sorrindo partiu. Ficamos arrasados com tamanha humildade, simplicidade e respeito para com o próximo. Aquelas pessoas não existiam. Não faziam parte do nosso mundo. Que diferença abissal.
Os três voltaram e com eles o guitarra base e as meninas. A cidade em si, não era muito grande. Tudo girava em torno daquela praça, isto é, para os jovens e as pessoas mais abastas, pois nós havíamos conhecidos pessoas que trabalhavam na roça e que provavelmente não frequentavam os bares e restaurantes em torno da praça e nem iriam ao festival, portanto, além daquele miolo existia um outro mundo, uma outra realidade. Partimos em direção ao hotel, afim de definir logo o problema da acomodação, descansar, almoçar e nos prepararmos para a tarde irmos ao ginásio passar o som para a noite de estreia. No horário acertado, estávamos dentro do ginásio esperando a nossa vez para a passagem de som. Era um espaço grande. Montaram um palco de grandes proporções. Espaço suficiente para grupos; um em especial para o cantor; instrumentos para uma média orquestra; vários microfones; um balcão virado para o palco, onde ficariam os jurados, em baias com cadeiras e fones; decoração de super evento; aparelhagem de primeira linha; engenheiros de som, enfim, aquela visão nos surpreendeu, mostrando que agora não era mais brincadeira de garagem. Tínhamos um tempo determinado, assim como todos os outros, para fazermos o reconhecimento do gramado. Não sei se por não estarmos acostumados a muito recurso ou puro nervosismo, só sei que a passagem foi uma frustração. Saímos do ginásio com a sensação de que estávamos aquém do compromisso assumido. O resto da tarde até a hora da apresentação, tentamos relaxar, mas o clima ficou tenso. Procuramos em conversa, achar aonde tínhamos errado, para não permitirmos que voltasse a acontecer a noite. A noite chegou inclemente. Um frio do cassete e o chuveiro do hotel não esquentava a água nem pelo c... e então, foda-se banho. Lava-se só as partes pudicas e completa com desodorante e perfume. Descemos à rua e respiramos fundo. Olhamos na direção do ginásio e depois um para o outro e, não pronunciamos nenhuma palavra, não precisava, estava explicito em cada semblante. O momento tão esperado estava próximo, era só fazer o que sabíamos. Era tudo ou nada!  

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Capítulo 13 – PRIMEIRA CANÇAO NA ESTRADA

A notícia chegou, baixou e saravou. Incrédulos, paralisados, estarrecidos, boquiabertos, essas foram algumas das nossas reações, após tal pronunciamento feito pelo guitarra base. Refeitos da surpresa, queríamos explicações. Todos em cima, feito urubu na carniça, ávidos por informações e, ele, saboreando o momento, fazendo doce, isso lá era hora de sacanear! Depois de quase levar uma surra, falou: Nós havíamos feito algumas incursões por estúdios, que o irmão do baixista, que gostava muito do nosso som, havia arrumado e, nesses foram feitas algumas gravações, que depois copiadas em cassete, passaram para as nossas mãos e, levadas para curtir com os amigos. Ele, foi mais além, sabedor de um festival em Úba, aonde tinha parentes e sempre viaja para lá, resolveu as escondidas mandar uma fita cassete com duas das nossas músicas, eram elas: “MOTIVOS” E “VAI TUDO BEM”. Fez as escondidas para não criar nenhuma expectativa e quiçá decepção. Assim foi. Só que a resposta, foi maravilhosa e estávamos classificados com as duas. Uma seria apresentada numa sexta-feira e a outra no sábado e, caso classificássemos, voltaríamos ao palco na final no domingo. Estávamos no final do mês e o festival seria após a primeira quinzena do mês seguinte. Quando a nossa curiosidade e perplexidade foi totalmente preenchida e dissipada e, passada toda euforia, nos damos conta que nunca tínhamos saído da nossa zona de conforto e que além disso teríamos que ter recursos para bancar a viagem, hospedagem e alimentação. Indagamos o amigo, de quanto mais ou menos teríamos que dispor para tal empreitada. Ele assim que soube, já havia adiantado algumas coisas com uma ex e amigas que estavam na organização do evento, como por exemplo: na nossa chegada, que teria que ser na quinta-feira à noite, teríamos um comitê de recepção na rodoviária para nos levar até um lugar para ficarmos até amanhecer. Depois seríamos levados até o hotel, já com as reservas feitas, onde nos hospedaríamos, claro tudo dentro de um orçamento super apertado. Ali tomaríamos banho, trocaríamos de roupa, procuraríamos uma pensão para comer, pois à tarde já teríamos o compromisso de passar o som no ginásio, onde aconteceria a primeira noite de apresentações. Depois, era mais ou menos seguir este mesmo roteiro até domingo. Na teoria tudo é tão simples e fácil de resolver, agora na prática... a maior dificuldade começava em arrumar o arame, o capim, a bufunfa, faz-me rir, din din, capilé, fora o guitarra base que tinha parentes na cidade e sua despesa seria só a passagem, e aí vocês vão se perguntar: não dava para ficar na casa dos parentes do guitarra base? Já havíamos levantado essa possibilidade e ele explicou que a casa era pequena e que seu tio não concordou quando sondou a viabilidade. Então além dele, sabíamos que o baterista, que não trabalhava, não teria grandes problemas pois os pais bancariam, nós os três pobres mortais durango kid é que teríamos pela frente a árdua tarefa de cavar em terreno árido. Combinamos de que teríamos de arrumar o máximo possível e fatalmente economizar o máximo. Uma coisa era certa: além da passagem de ida, teríamos que comprar a de volta logo que chegássemos, assim a grana restante seria para as despesas no local e o nosso retorno já estaria garantido para o final da noite de domingo ou início da madrugada de segunda-feira. Deu-se início, pelo menos para nós três, uma verdadeira corrida ao ouro, literalmente. Cada um, dentro das suas possibilidades e até fora mesmo, pois para se seguir um sonho e vê-lo realizado é necessário esforço e põe esforço nisso. Eu, como já falei em relatos passados, tinha um trabalho com horário flexível, mas para poder realizar essa oportunidade, dobrei, tripliquei a jornada, afim de colher resultados financeiros acima do normal, mesmo assim fui obrigado a recorrer, poucos dias antes da viagem, a um empréstimo na empresa, para garantir que não houvesse imprevistos. Bem, finalmente chegou o dia do embarque. Além de roupas, nos foi recomendado que levássemos bastante agasalhos, levaríamos o meu Del Vecchio e o baixista fez questão de levar seu contrabaixo novo. O festival era grandioso, um grande  acontecimento todo ano na cidade, portanto teríamos toda uma estrutura bem montada a nossa disposição. Estávamos ansiosos, não só pela possibilidade de tocar em outra cidade, mas também pela viagem, pois nunca tínhamos saído do nosso quintal. Era para nós uma grande aventura, um grande desafio. Apesar de sermos jovens, talvez essa fosse a nossa grande virtude, e talvez por isso aceitamos de cara sem medirmos consequências. Então, saímos em busca, no primeiro momento de nada em especial, mas no intimo, de novas experiências; de poder pular o muro e correr na rua; de abraçar novas possibilidades, enfim, de cair na estrada e definitivamente poder mostrar o nosso trabalho musical e saber se o que produzíamos teríamos feedback positivo por parte do público. Partimos!                    
      

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Capítulo 12 –  PRIMEIRA APRESENTAÇÃO

Eu já estava pensando em colocar a comida para esquentar, quando tocou a campainha, no que abri a porta, para minha surpresa era o meu amigo que me visitava no seu horário de almoço do trabalho. Rapidamente quis mostrar a novidade a ele. Peguei o Del Vecchio e estendi em sua direção, para que pudesse tocá-lo e emitir sua opinião. Primeiro esboçou umas expressões impróprias para o decorrer da leitura, vou deixar na imaginação de vocês, depois, sentou-se ávido para sentir a sonoridade, teve que antes acertar a afinação que havia cedido, e por fim, usou e abusou do instrumento. Eu, ansioso esperava seu comentário, sobre a minha aquisição. Passados alguns minutos, parou e virando-se para mim sentenciou: “Cara, aonde você arrumou essa preciosidade? O som é do ca£*#§! ”. Aproveitei a aprovação e falei que havia feito duas novas composições com ele. Quis ouvir e pediu que eu as tocasse. Não precisava pedir duas vezes, eu estava doido para mostrar para alguém, ainda mais se fosse o ouvinte um músico, eu teria uma opinião mais apurada. Quando acabei, a crítica foi melhor do que eu esperava. Pedindo o violão, pediu que eu cantasse a primeira, “Vai Tudo Bem”, que ele iria tocar a base. Enquanto eu cantava, a música recebia novos acordes e acabamento (arranjo), ela começou a ficar mais encorpada, com mais brilho, ia ganhando forma, personalidade, sendo lapidada com carinho. O tempo era curto, quando ele notou já estava até um pouco atrasado em seu retorno ao trabalho, mas seu entusiasmo ficou claro, quando, mesmo saindo às pressas, afirmou que terminaria em casa a primeira e que para a segunda já tinha na cabeça algumas ideias, mas tudo teria que ficar para manhã ou outro dia se não pudesse vir. Partiu. Me lembrei do almoço, fiquei na dúvida entre tocar e comer, mas optei pela segunda, então, esquentei a comida e enquanto comia, me veio a sensação de que aquele dia, mesmo ainda não tendo posto o nariz pro lado de fora, estava maravilhoso, independente de fatores climáticos, a sensação era ali, ao meu redor, no meu espaço, o meu interior.
Durante a semana as duas músicas ficaram prontas, ou seja, receberam os arranjos e não houve necessidade de mexer numa só virgula e nem na melodia. No sábado, haveria um ensaio do grupo na garagem do baterista e lá, eu iria cantar já com a formação toda: guitarra (duas), baixo e bateria. Assim que chegamos, todos foram informados que faríamos um ensaio com duas músicas novas. Daí para frente, depois de ligados os instrumentos, o meu amigo começou a passar os acordes e andamentos da primeira música para o outro guitarrista e também para o contrabaixista e, já deixando os dois se familiarizando, virou-se para o baterista e gesticulando, junto ao som feito pela boca, foi mostrando como ele gostaria da batida. Detalhe muito importante: os instrumentos, apesar de precários, tinham amplificador e caixa de som, agora eu, tinha que ser só no gogó. Haja gogó! As músicas foram se transformando gradativamente e, cada vez ficando mais fácil de executar. Quem passava pela garagem ia gostando e aprovando.
Certo dia fomos surpreendidos pelo baterista, que nos trazia uma notícia surreal: estávamos inscritos para participar em um programa de televisão, um desses de calouros e, iríamos poder tocar uma de nossas músicas. Não me lembro bem quem foi que arrumou essa apresentação, bem, não era bem uma apresentação, mas para nós era, afinal poderíamos tocar e cantar pela primeira vez fora da garagem, mesmo que fosse num programa de calouros na extinta TV RIO. Fomos avisados que só precisaríamos levar os instrumentos, só isso já era o máximo e, eu cantaria num microfone, além de nós aparecermos na televisão. Que maravilha! Escolhemos “MOTIVOS” para apresentação. No dia, era uma tarde linda, mesmo que não fosse, para nós era. Dentro do estúdio, parecíamos gente do interior na cidade grande, olhos arregalados e meio que perdidos na correria das dançarinas, cada mulherão, para se posicionar, pois o programa iria começar. Veio ao nosso encontro um cara com uma prancheta, confirmou o nome do conjunto ou banda, como queira, e que ficássemos atentos, não podíamos perder a chamada, ou seja, atrasar, tudo era feito ao vivo. Ficamos no corredor, assistindo por uma fresta o desenrolar, até que fomos chamados. Nos dirigimos ao palco para nos posicionar, eu que não tinha que plugar nenhum aparelho, pude observar a plateia, para minha surpresa, não passava de umas trinta a quarenta pessoas, dentre elas a irmã do meu amigo guitarrista, pulando aos gritos e tentando contagiar as outras meninas. Tudo certo, nos apresentamos, fomos julgados como calouros, iniciantes, postulantes ao estrelato. Para nós, não foi nada disso. Serviu para avaliarmos nossos ensaios e entrosamento. Saímos satisfeito e convictos de que estávamos no caminho certo. Todos que viram, mesmo sendo nossos amigos e incentivadores, falaram muito bem. Que a voz saiu legal; que o vocal ficou certinho; enfim, nos saímos bem.

Voltamos aos nossos ensaios aos sábados e, não demorou muito fomos de novo surpreendidos. Dessa vez foi o guitarra base que trouxe a notícia: estávamos classificados para participar do festival de música da cidade de ÚBA/MG. Agora fudeu! 

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

VECCHIO NOVO

Amor sem pé, nem cabeça
Que vive dentro de nós
Explode tão facilmente
E sem mais nos esquece sós
Quantos e tantos presságios
Que por instantes nos faz
Sentir-se forte e moleque
E estranhamente encarar
Um belo poema novo
Vecchio de tanto amor, amar
Vecchio, encanto novo
Sempre aqui onde está
Ah! Se eu pudesse abarcar
A força d´alma vadia
Como um costume leal
Eu até que não brincaria
Como um poema novo
Vecchio de tanto amor, amar
vecchio, encanto novo
Sempre aqui onde está
Amor sem pé, nem cabeça
Que vive dentro de nós
Explode tão sutilmente

E maroto nos deixa sós, sós

Elis Regina - Vecchio Novo