quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Capítulo 16 – A APRESENTAÇÃO


Em menos de trinta segundos o guitarrista começou a contagem e em seguida se espalhou pelo ar daquele ginásio, os primeiros acordes da introdução. A minha perna ainda continuava a tremer, mas assim que soltei a minha voz e o retorno me mostrou que eu estava no caminho certo, as coisas foram se acalmando e tanto eu quanto a banda estávamos em completa sintonia. Dava para sentir que nós acabávamos de assumir o domínio total sobre aquela massa; sobre a multidão. O artista sabe através do silêncio reinante, que a sua voz, a sua música, a sua apresentação, está sendo inteiramente absorvida e observada com muita atenção e gosto. Existe nessa resposta silenciosa uma afirmação de que o som produzido neste momento, causa interesse, de que é preciso ouvi-lo e com muita atenção. Os comentários são mínimos e sucintos para não se perder nenhum detalhe. Eu, que estava de cara para a galera, depois que me acalmei, pude observar, enquanto cantava, que até alguns dos jurados pegavam o fone para melhor ouvir. A plateia eram olhos e ouvidos voltados inteiramente para nós. Ser o centro da atenção de milhares de pessoas mesmo por alguns minutos, pode parecer uma coisa simples, corriqueira, talvez sim, para quem já esteja na estrada há muito tempo, mas, para nós e principalmente para mim, era uma sensação nova e, se não tivéssemos tempo determinado, penso que eu ficaria muito mais. Depois que o frio na barriga passou e também no meu caso a perna deixou de tremer, o canto ficou firme, seguro; a música e a letra eu que havia composto; sabia de cór, mesmo assim não se pode baixar a guarda, perder a concentração. Esse sempre fora o meu sonho, não esperava que de primeira fosse para tanta gente, mas, sempre sonhei em cantar minha música num palco com a atenção de um público. A exposição, no caso, saber que você está sendo observado por centenas ou milhares de gostos díspares, é uma coisa complicada, que pode ser gratificante ou não, mas se você quer ser um cantor, ou no mínimo cantar as suas composições, não existe outra maneira melhor do que o julgamento do público e sim, tem que se preparar e encarar. A música enquanto cantada seguia num tom e ritmo e no momento final o contrabaixo chamava a melodia para a introdução mostrando que o final se aproximava. Neste exato instante a plateia nem esperou os últimos acordes. Uma maioria esmagadora se levantou e aos berros e aplausos, mostravam todo o seu contentamento com a apresentação. Não consegui conter o arrepio que tomou conta do meu corpo, vendo tal manifestação. Indescritível! Imensurável! Agradeci reverenciando o público, como não podia ficar muito tempo no palco, aproveitei o máximo possível aquele instante de glória. Eu e meus companheiros saímos do palco e ao passarmos pela cortina e adentrarmos o recinto de espera, não nos contemos: sorrisos, abraços, lágrimas, gritos, pulos. Sabíamos que tínhamos feito uma apresentação irrepreensível, quanto aos jurados não podíamos prever, porém, o público, esse, não restava nenhuma dúvida: nós conquistamos! É um festival de música popular brasileira. É uma competição. Não requer pirotecnias, nem dança, nem dançarinos, tem que ser o conjunto da obra: boa música; boa letra; bom cantor; bom arranjo e claro, isso tudo junto e bem executado. Bem, a primeira etapa estava devidamente cumprida e diga-se de passagem: bem cumprida. Festejamos e alegres ficamos, até o momento da leitura das músicas que estariam classificadas para a reapresentação na final no domingo. O clima de apreensão passeava pela sala onde se encontrava todos os participantes da noite. Éramos todos ouvidos. A nós, agora só nos interessava a voz do apresentador. Ele, como todo profissional do ramo, sabia que esse momento era de expectativas imensas e claro, melhor do que ninguém ali, também sabia que era o centro das atenções, portanto o suspense fazia parte do show. Quando finalmente saboreou suficientemente aquele instante, por ser o portador da notícia onde milhares de pessoas esperavam quase que implorando, deixou que seus súditos fossem saciados pela lista dos classificados. Dentro da sala a alegria dos que foram para a final era linda e emocionante, menos para nós. A decepção com o resultado, nos deu um resto de noite escura e fria. Fomos consolados pelas meninas, que estavam revoltadas, o que amenizou a nossa tristeza, mas o gosto amargo persistia. Mais aí lembramos que nem tudo estava perdido, tínhamos uma outra chance no dia seguinte. Resignados, saímos para beber umas cervejas e espairecer. Na saída observamos que o nosso anonimato desapareceu, muita gente agora olhava diferente para nós, fomos abordados por alguns para cumprimentar e oferecer palavras de incentivos. Igualmente a este dia, teríamos que a tarde comparecer ao ginásio para a passagem do som, no dia seguinte, então, depois de muitas lamentações, nos despedimos das meninas e voltamos para o hotel. Elas solidárias, mostravam o tempo todo que estavam revoltadas com a desclassificação e que se pudessem não trabalhariam mais no festival. Apesar da música não passar para a fase final, nós havíamos passado no teste, esse sentimento, essa certeza, eram o nosso maior tesouro. A reciprocidade do público ratificava. O festival nos oferecia essa oportunidade. Ele era o fio condutor que nos proporcionava a chance de testar a qualidade da nossa música, diante de um público totalmente desconhecido. Nós percebemos isso. Antes de cada par se recolher para o quarto - sim, dois pares, porque o guitarra base tinha parentes e o nosso amigo conseguiu abrigo com um primo, então nós barganhamos um quarto com duas camas e assim formamos pares - nós conversamos e nos convencemos que o caminho era alcançar o público e, se classificássemos teríamos mais um dia para participar do show. Fomos dormir alegres e tranquilos. Nada como um dia após o outro.

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