sábado, 29 de abril de 2017

Capítulo 47 – COINCIDÊNCIAS

Nos relatos que passarei para vocês a partir de agora, meus caros leitores, terão e serão três coincidências dessas de cair o queixo, porém, a veracidade dos fatos ficará apenas na crença de que eu não teria motivos para mentir e que, portanto, a minha palavra e escrita é a única prova cabível. Se sou merecedor dessa confiança, desde já agradeço.
A primeira coincidência surpreendente deu-se no final dos anos setenta, início dos anos oitenta. Como escrevi nos primeiros capítulos, eu aprendi a tocar violão, sem nem ter o instrumento em casa. Foi preciso pedir um emprestado, recorrendo a uma namorada e, com a ajuda dela e do meu amigo guitarrista, ensaiei os primeiros acordes, me aplicando no treinamento. O meu maior interesse não era me tornar um virtuoso instrumentista, era simplesmente aprender o básico, que seria suficiente para compor. Eu desenvolvi mais a mão esquerda, a dos acordes, do que a direita, a do ritmo. Algumas músicas vinham do nada na minha mente, então, eu precisava saber tocar para de imediato construir a base para não as perder. Outras, eu conseguia construir dentro de uma combinação de acordes. A parte mais difícil e dolorosa, para mim, sempre foi a letra. Umas eu fiz por completo, outras eu começava a escrever, normalmente uma ou duas estrofes, aí empacava, então, era socorrido pelo meu parceiro guitarrista, que completava a letra sem desviar o sentido. Como sempre fui de trabalhar mais em compor novas melodias, as vezes recebia letras de amigos, se gostasse guardava por perto, de repente aparecia uma melodia que cabia direitinho, além de combinar com a letra. Pronto saia mais uma do forno. Certa vez acabara de compor uma melodia e, estava tocando-a várias vezes, para dar acabamento, mas sentia que ela podia e devia render uma segunda parte. Enquanto não saia o restante, me veio a letra na mente. Era um tema diferente, não era coisa de namorado apaixonado, sofrência ou amor impossível, era... vamos a ela: “Homens Estranhos” - “Um dia alguns homens estranhos chegaram a cidade – E logo a cidade ficou ciente de toda verdade – Que aqueles homens todos traziam consigo as suas máquinas – E o povo da cidade foi saber que iam erguer uma fábrica.” “E um dos homens veio dizer que aquilo era o progresso – E o povo da cidade foi ouvindo um tanto incertos – Ele dizia que toda a cidade teria emprego – E o povo da cidade aceitou com pouco de medo.” Como vocês podem perceber eu havia feito duas estrofes com quatro versos e a música colocada em cima, tanto da primeira, quanto da segunda estrofe era a mesma, daí a necessidade de uma outra parte, que eu tentava, mas não conseguia ajeitar a gosto. Numa breve visita a minha casa, mostrei ao amigo guitarrista, inclusive com o restante da letra e ele, como de costume, imediatamente aplicou uma melhora e para finalizar, depois de repeti-la algumas vezes, introduziu a segunda parte, que caiu como uma luva. Aqui o restante da letra: “E em poucos meses a fábrica só conseguia – Roubar o silêncio da cidade que antes dormia – E um por um de toda a cidade começou a partir – E formaram uma outra cidade bem longe dali.” Ficamos satisfeito, eu mais ainda, por tê-la finalmente terminado e incluímos no nosso repertório da banda. Agora, a coincidência surpreendente. Eu possuía e ainda possuo, graças aos deuses da escrita, sabedoria, conhecimento e poesia, como Atenas ou Calíope da mitologia grega, Tot da mitologia egípcia e Minerva da mitologia romana, um enorme gosto por literatura, que me permitiu o prazer de saborear histórias escritas por grandes autores literários, dentre esses eu descobrir um brasileiro, no meio de tantos famosos, José J. Veiga, que à primeira vista fui por curiosidade e depois me tornei fã. O primeiro que me caiu às mãos foi: Os Cavalinhos de Platiplanto. Fiquei encantado. Procurei mais. Encontrei o surpreendente: A hora dos ruminantes. Nesse livro foi que se revelou a grande coincidência e surpresa, não que fosse um a cópia do outro, mas a história misturava e apresentava características muito semelhantes com a ideia que havia escrito, claro que o livro dá de dez na minha pequena letra, mesmo porque ele desenvolve o tema da pacata cidade enfrentando, não só homens estranhos, como outras adversidades, mas quando acabei de ler, fiquei apavorado com a coincidência. Parecia que eu já havia lido o livro e resolvido fazer um resumo para musica-lo. Eita!
A segunda coincidência se deu num arranjo que eu fiz, ajeitando uma melhor maneira para tocar e cantar uma música da Legião Urbana. Dentre o belíssimo repertório da banda, eu havia pinçado algumas para ensaiar, mas no meio dessas tinha uma em especial, que eu tentei reproduzir dentro do ritmo da gravação, entretanto, as tentativas foram infrutíferas. Diante da dificuldade, não era tanto a dificuldade, era mais para o resultado final, que não me agradava, portanto, depois de ensaiar várias vezes e não gostar, estava quase desistindo, quando me veio uma ideia. Resolvi mudar completamente a andamento da música. É um rock. Tem sua cadência mais acelerada. Simplesmente tirei o pé do acelerador e toquei num compasso mais lento. O resultado de imediato me agradou. Eu não sabia como o público iria reagir, mas resolvi arriscar. Ensaiei muitas vezes, até ter certeza de que poderia apresenta-la sem erros. Desde a adolescência que eu curtia muito rock, principalmente o progressivo, era o que eu mais ouvia. Só que quando eu resolvi tocar e cantar a la banquinho e violão, dei preferência a nossa MPB, com algumas incursões em outros gêneros. A música da banda Legião Urbana, que resolvi mudar o andamento foi “Será”. Eu já havia feito esse tipo de interferência em outras obras, tendo obtido retorno positivo, então, não era uma novidade quanto a inovações, contudo, há tiros que sai pela culatra, sendo assim, antes preparei o público para uma leitura diferente da obra. Quando acabei de apresentar a minha versão, os puristas preferiam no original, mas gostaram, os demais acharam interessante e apoiaram. Precisar, precisar quanto tempo eu fiquei tocando antes de acontecer a coincidência, isso eu não sei exatamente, acredito que de um a dois meses. Foi quando a versão deixou de ser minha e, passou a ser a versão da Simone, grande intérprete da MPB, pois nas rádios a gravação dessa cantora justamente com o mesmo andamento que eu havia criado para a música da Legião, tocava a exaustão. Aí o que era uma novidade, passou a ser uma normalidade. Tenho certeza de que nem a cantora, quanto mais quem fez o novo arranjo para ela, jamais me ouviram. Tudo não passou de uma incrível coincidência. Agora, os meus amigos mais próximos aproveitaram para me zoar, comentando que eu havia arrumado um dinheiro em cima da gravação e que estaria escondendo o jogo. Uma coisa é certa, a partir desse acontecimento, eu tomei uma maior consciência do meu potencial criativo. O que antes, dentro da minha modéstia, encarava como forma de adaptação diante dos meus limites, agora enxergava como uma marca, um estilo, uma assinatura. Essa gravação, que coincidentemente era igual a minha criação, avalizou fortemente os meus instintos musicais.

E para finalizar, a terceira coincidência. Essa foi um pouco mais assombrosa. Aconteceu antes de eu começar a tocar em bar. Ainda naquela fase de muita inspiração retida, prontas para aflorar e, que desde o convívio diário e entendimento entre eu e o violão, começaram a ocupar o espaço sonoro do meu apartamento. Eu estava bem mais rápido que os ratos, que levam 19 dias de gestação – definitivamente leitura é cultura. Só não dava para competir com o resultado final, pois cada ninhada vem em média 12 filhotes. Bem, deixando o mundo animal de lado, só sei dizer que eu estava compondo um número razoável por mês. O estilo era diversificado, com predominância no rock rural. Eu ouvia de tudo que possuísse qualidade, mas sempre com os ouvidos antenados no rock progressivo. Foi exatamente por estar sempre atento as novidades, aos lançamentos, das grandes bandas progressivas, que se deu a assombrosa surpresa. Ela veio no álbum “Wish You Were Here” do Pink Floyd e se chama “Have a Cigar”. Naquela época os lançamentos não eram simultâneos, isso provocava um hiato entre a data que teria sido lançado na Inglaterra e Estados Unidos, até chegar nas lojas daqui. No caso desse, foi em setembro de 1975, quando chegou efetivamente aqui não sei. A única coisa que eu sei, é que quando ouvi o disco pela primeira vez, me deparei com essa música, no meio das outras, que se destacava particularmente por possuir um trecho idêntico a uma composição minha. Eu poderia pular de alegria, porque afinal, os feras haviam composto uma ideia minha, mas não, eu fiquei foi muito preocupado, a partir daquele momento, fora os meus parceiros, as pessoas que acompanhavam a obra daquela banda, apontariam para um plágio, o que não era verdade, mas como provar o contrário? Passado o susto inicial, a música continua como foi feita e todas as vezes em que cantei em público nunca houve nenhuma menção ou uma mínima comparação, pelo menos na minha frente ou que eu saiba. Inté!

sábado, 22 de abril de 2017

Capítulo 46 -  FLORES E ESPINHOS
Ainda tocando na casa de festa.
No relato anterior, vocês leram que eu convidei alguns dos colegas mais chegados na empresa em que trabalhava e eles aceitaram irem até o local em que eu tocava e após constatarem que era e sempre foi verdade o que eu dizia, disseram que iam me contratar para uma apresentação aonde eles moravam. Pois bem, para maior compreensão, o bairro em que eles moravam era situado em outro município, ou seja, eu morava e cantava no município do Rio de Janeiro, eles moravam no município de Nova Iguaçu. A distância entre os bairros, em virtude da localização, era menor, igual ou pouca diferença que entre bairros do meu próprio município, mas mesmo assim são prefeituras diferentes e quando eu ia trabalhar, o ônibus tinha o preço diferenciado, pois se tratava de um coletivo intermunicipal. Não demorou muito - a notícia do funcionário cantor se espalhou rapidamente - para que viesse o convite para tocar num evento que juntava várias comemorações. Como eles sabiam que eu tocava sempre as sextas, escolheram um sábado para realizar o evento e assim poder contar com a minha presença. Era uma contratação, não uma gentileza, portanto o acerto financeiro se fazia presente. Eu de acordo com o lugar, o evento, aparelhagem a ser utilizada, locomoção e outros fatores, ajustava o valor a ser cobrado, normalmente justo, nada de olho grande. Acertamos sem constrangimentos ou choradeiras o valor a ser pago. Não visitei o local da apresentação, pois a pessoa que tratou tudo comigo, conhecia bem o seu tamanho, pois era dona do espaço. Era um pouco maior que o salão da casa de festa, pela metragem que me deram. Então, não foi difícil saber o que eu precisaria levar para ter um resultado bom.
Eu já volto na história aqui acima. Enquanto isso me permita interromper abrindo um parêntese para um relato curto e, como nem tudo são flores, desastroso. Minha amiga a dona da casa de festa, arrumou, através do bom conhecimento que possuía, uma oportunidade para um teste num bar muito chique no centro da cidade. O bar ficava num dos prédios mais refinados e luxuoso do centro. Era desses bares frequentados em sua maioria por executivos ou ocasionalmente por alguém que queria impressionar alguma dama ou, uma comemoração importante, mas no seu dia a dia a freguesia constante mais parecia com sócios de um clube. Nas prateleiras dezenas de garrafas de whisky, cada uma recebia uma etiqueta com o nome do seu proprietário, ou seja, o frequentador assíduo comprava uma garrafa de whisky que ficava guardada ali a sua disposição, assim toda a vez que ele fosse lá para beber algumas doses para descontrair depois de um dia estressante, bastava apresentar seu cartão de identificação, que o funcionário iria apanhar sua garrafa e junto trazia copo ou copos, caso houvesse um convidado, o que acontecia regularmente, pois o ambiente acolhedor fora do escritório era propício para negociar, isso demonstrava influência e poder em certas negociações. Quando fiquei sabendo aonde seria, de cara não gostei muito, mas para não ser desagradável aceitei. O lugar era suntuoso. Havia pouca gente naquele dia, afinal era uma segunda-feira, não que isso importasse para esse tipo de gente. A gerente nos recebeu, senti que havia muita cerimônia no tratar e, também que havia outro candidato para passar pelo teste. Convidou-nos a adentrar uma sala, que me parecia ser a sua sala, para algumas observações. Disse-nos que era um teste e que, portanto, não haveria cachê e, que não precisávamos nos alongar muito, uma hora de cada era suficiente. Concordamos. A partir daí se levantou e pediu que a seguíssemos, já fora da sala, nos mostrou o local em que poderíamos nos sentar, plugar o instrumento e ajeitar o microfone. Ligou a aparelhagem de som e nos deixou à vontade para decidir quem seria o primeiro, retirando-se em seguida. Eu como não havia gostado do lugar, cedi a vez para o colega. Juntei-me a minha amiga para esperar a minha vez, mas na verdade eu queria era ir embora. Ela me perguntou o que eu havia achado do lugar, aproveitando para me convencer de que além do cachê que era bom, era também um lugar com grandes oportunidades de voos mais altos. Naquele momento nada disso me motivava, então, fui sincero e falei para ela que não estava me sentindo à vontade e, se não fosse por ela eu iria embora sem tocar. O colega era bom, mas nada especial. Chegou a minha vez. O local aonde ficava o músico era meio escondidinho, para mim tudo bem, inclusive naquele momento. Fiquei vendido quando cheguei com o meu caderno e não tinha pedestal para colocá-lo. Eu sempre tive um pequeno problema, a harmonia eu sabia todas, mas as letras eu não guardava na memória, apenas poucas. Tentei arranjar um lugar, mas não deu certo, então, partir para o que eu sabia de cór. Mesmo assim, foi uma apresentação sem coração, emoção, fria, distante e menor que a do colega. Essa não foi a única vez que eu me apresentei mal, houveram outras, claro, cada uma com as suas circunstancias particulares, mas essa ficou na memória por ter sido a primeira que cantei sem querer cantar. Mesmo você fazendo o que gosta, surgirão dias em que tu não estarás bem. A causa pode ser gente, ambiente, outros fatores, ou, tudo junto farão um somatório de insatisfações que o deixarão desmotivado no local. Todas as coisas desagradáveis, servem, ou melhor, são extremamente úteis como reflexões para que no futuro você possa de antemão evita-las ou encara-las de uma forma com mais sapiência. Então, para não dizer que só falei de flores, existem espinhos no caminho.
Voltando ao primeiro relato. A apresentação estava marcada para começar as vinte horas. Cheguei com duas horas de antecedência para a instalação do som e também para a passagem do mesmo. Aproveitei para perguntar se era para tocar músicas que possibilitasse aos pares dançarem. A resposta me surpreendeu. Não, de maneira nenhuma, as pessoas iriam comparecer para festejar, mas na hora da música elas queriam assistir um show. Aumentou a responsabilidade, mas isso me deixou numa felicidade.... Tendo terminado de conferir todos os detalhes do som, fui convidado para fazer um lanche antes da hora do show. Tinha ainda pela frente uma hora para comer, concentrar e aquecer a voz, era tempo suficiente. O salão começou a encher devagarzinho. As pessoas chegavam, se cumprimentavam e procuravam assento junto a mesa. Faltando ainda uns dez minutos, me pareceu que faltavam pouquíssimas pessoas. Circulavam pelo salão apenas os garçons servindo nas mesas, bebidas e comidas. Me dirigi para o local aonde iria cantar. Ele ficava bem ao centro, num recuo próximo a parede, diante das pessoas que se espalhavam em cadeiras ao redor de mesas. Liguei o som. Estava na hora. Verifiquei a intensidade, todos os aparelhos já estavam ajustados dentro do previsto, porém nem sempre o previsto é o ideal, pois uma coisa é você passar o som num lugar vazio e, outra, com pessoas conversando, claro, que quando se trata de um show o pessoal silencia para ouvir, nesse caso aconteceu exatamente isso. Foi uma ocasião como poucas, onde além de me sentir super a vontade, a reciprocidade me motivava cada vez mais, durante todos os instantes em que cantei. É uma coisa paradoxal, se analisarmos que uma pessoa tímida possa ser o centro da atenção de dezenas ou centenas de pessoas, mas essa contradição é que fascina as pessoas que gostam de estudar comportamentos. Eu, de minha parte, só sei que apesar de ser tímido, me sinto muito bem e feliz quando estou tocando e cantando para as pessoas, ainda mais sentindo que estou agradando. Uma coisa é certa, não existem pessoas quando canto, existe apenas a música, a voz, o som. O lugar, o mundo, some e reaparece quando termino.     

No parêntese que abri, o meu propósito era externar diferenças de sentimentos numa mesma função. No meu caso eu sempre fui intuitivo, pura emoção, sentimento, nunca consegui representar, sempre fui autêntico e as minhas raízes sempre foram e falaram mais fortes. Penso que uma vez alcançado o estrelato e, eu não tivesse mais o controle em minhas mãos, teria que engolir alguns sapos e consequentemente ser um realizado infeliz. O que para alguns, transparecer simpático e cortês, quando na verdade é só uma máscara escondendo frieza e indiferença, atitude considerada ossos do ofício, para mim seria um pesadelo. Dizem que depende, pois, todos e tudo têm um preço. Eu não acredito, talvez alguns, mas nem tudo e todos. Inté! 

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Capítulo 45 -  KARAOKÊ

Ainda na casa de festa.
Como havia prometido a vocês, faço agora o relato da ideia que o papagaio de pirata me deu. Quem leu o capítulo anterior sabe do que eu estou falando quando me refiro ao papagaio de pirata. Era um amigo que gostava de ficar atrás de mim, por cima do ombro direito e colado ao ouvido, enquanto lia a letra da música no caderno ao pedestal, cantando junto comigo, só que fora do tom e desafinado, no início quase que me atrapalho, mas depois tirava de letra. E esse impulso dele, me deu uma ideia que resolvi executa-la, mas para isso me reuni com a dona da casa, explicando o que seria e o que ela teria que fazer. Bem, todo mundo sabe o que é um karaokê, pois bem, era isso, só que ao invés de ser com o CD, seria ao violão e as músicas para escolha, do caderno de trabalho. Quanto a dona da casa, ela teria que arrumar brindes, para premiar os três melhores colocados, que seriam escolhidos por um corpo de jurados que iriamos escolher a dedo. Começaríamos a divulgação na sexta anterior com os fregueses presentes, inclusive já com os brindes, mostrando que a brincadeira teria premiação. Ela gostou da ideia e resolveu investir nos brindes. Tudo devidamente acertado, resolvemos colocar em prática a ideia. Primeiro é claro fizemos promessas e acertamos com São Pedro que nos desse trégua por duas semaninhas para que pudéssemos realizar a brincadeira no espaço aberto, o de fora. Ele aceitou. Na sexta-feira o céu estava firme, assim nos foi permitida a abertura do bar no grande espaço externo. Divulgamos como combinado e, no mesmo dia podemos escolher e convidar quase todos os jurados, o que deixava adiantado boa parte. Agora, era esperar que na próxima sexta a casa enchesse. Aonde eu trabalhava os mais chegados sabiam que eu tocava toda a noite de sexta e, já algum tempo queriam fazer uma visita, então, aproveitei o evento para convida-los. Na quinta, véspera do dia, me informaram que eu podia contar com eles e que reservasse umas três mesas perto do cantor, no caso eu; expliquei que normalmente a casa não trabalhava com reservas, mas que para eles tentaria junto a gerência abrir uma exceção, já que eram um público vindo de longe do local a meu convite, não sem antes, estabelecermos um horário limite, caso acontecesse alguma coisa impedindo-os de comparecer, as mesas seriam liberadas.

No dia, céu novamente firme, temperatura agradável, casa pronta para receber o público, som devidamente instalado, só naquele momento, quando entraram os primeiros fregueses, foi que me dei conta de um pequeno, mas, incomodo detalhe. As músicas que as pessoas iriam escolher para cantar no “karaokê” eram as músicas que eu normalmente cantava, as que estavam nos cadernos, só que elas estavam cifradas no meu tom e cada pessoa possui o seu próprio tom, então, após a música ser escolhida eu teria de descobrir, de uma certa maneira rápido, qual seria o tom do candidato. Ora, para um músico profissional era uma tarefa simples. MÚSICO PROFISSIONAL! O que não era o meu caso. Eu era apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior, quero dizer, apenas um compositor cantor, que para compor e poder cantar sem precisar de ajuda, aprendeu meio que na marra, sendo autodidata, sem formação acadêmica, portanto ia ser um grande desafio, isso se não fosse um fiasco. Como sempre fora movido pela intuição, a minha, naquele momento me dizia que vinha tempestade pela frente, mas por outro lado, tinha certeza que poderia passar por esse mar revolto, não sem avarias, mesmo sem experiência, contudo, com sabedoria. Enquanto refletia sobre esse por menor, a casa ia lotando. A brincadeira começaria só quando tivéssemos um número razoável de candidatos, que esperávamos conseguir rapidamente. Esse trabalho de inscrever candidatos, uma amiga da dona ficou encarregada, durante esse tempo eu tocaria normalmente e aproveitaria para reforçar o convite aos presentes a participar da brincadeira. Quando terminei a primeira etapa da minha apresentação, fui ter com o pessoal, para saber se já podíamos começar. Já tínhamos número suficiente para dar início a competição musical. Fiz meu intervalo e aproveitei para acrescentar mais um detalhe: Que fosse copiado para um pedaço de papel pequeno o nome de cada participante, embrulhado e colocado dentro de um saco, para que pudéssemos sortear a ordem de apresentação. Voltando para o meu posto, mostramos os brindes mais uma vez para a galera e anunciamos que começaríamos a brincadeira sorteando os participantes do primeiro aos dois últimos, aproveitamos para apresentar os jurados que iriam pontuar de 1 a 10 a nota da apresentação. Mão no saco e lá veio o primeiro. A música já havia sido escolhida, mas o tom, esse, confesso, tive que me virar, pois a pessoa, descobrir durante a execução, além de desentoada, era desafinada, aí nem músico profissional dá jeito. Depois que acabou, fiquei pensando se os próximos seriam todos assim, não podia crer, havia esperança que a maioria conseguisse cantar razoavelmente. Não estávamos ali para revelar nenhum cantor ou um grande intérprete, era uma brincadeira, mas carecia do mínimo, afinação, os desafinados ou desentoados, eram atração à parte, tinham sua graça, faziam a festa dos amigos, eram motivos de zoação. Cada participante tinha as suas particularidades, como disse no texto lá atrás, as avarias aconteceriam, mas foram poucas, para ser mais exato foram duas que eu não consegui achar o tom direito. Mas venhamos e convenhamos, mesmo eu, quando começava a aprender uma música nova para acrescentar no repertório me deparava com o tom, o que parecia simples quando eu tocava aquele monte de músicas no bar, na verdade me dava um tremendo trabalho para ajustar de acordo com o meu tom ou meu alcance vocal, assim mesmo, eu só apresentava a música depois de muito ensaio, então, aquelas pessoas que ali estavam e que não tinham nenhuma noção qual seria o se tom, mesmo eu pedindo para que cantassem um pedacinho do início da música, ninguém entrava no tom certo e muitos nem afinados, participavam de uma brincadeira e era assim que deveria ser encarado. Ainda bem que todos entenderam o espírito da coisa, assim não houve nenhum constrangimento, pelo contrário, tanto os que participavam, como os que ouviam estavam se divertindo. Houve quem começou com uma e pulou para outra, não haviam regras, para quê? Houve quem pediu para cantar outra vez, pois tinha feito a escolha errada e queria melhorar a pontuação para tentar ganhar um dos prêmios, mas mesmo assim o problema não estava na música escolhida e sim na pessoa. O karaokê terminou, enquanto faziam as contas eu pude descansar e tirar o peso das costas. O resultado saiu, foram premiados os três melhores da noite sob aplausos e gritarias. A diversão era a tônica daquela noite, momento de pura confraternização, digna de pertencer ao rol das boas lembranças. Eu, voltei a ocupar o meu posto, prosseguindo com a programação da casa, para mais um tempo de boa MPB para deleite dos presentes. Meus amigos do trabalho estavam encantados com o local e claro, impressionados com a minha performance. Eles ouviam eu falar a respeito, mas achavam que era só gogó. A partir daquele dia passaram a me chamar para tocar em eventos no bairro em que eles moravam. Então, nos próximos relatos trarei para vocês uma ou duas das mais interessantes ou relevantes apresentações nesse novo território. O bom nessas oportunidades, é que o artista tem contato com novas pessoas, novos ouvidos, e assim, começa a ampliar sua identidade e consequentemente sua lista de fãs. Vocês devem estar curiosos para saber se o papagaio de pirata cantou, não, porque ele não foi, estava viajando. E pensar que tudo começou por causa dele. Inté!                         

sábado, 8 de abril de 2017

Capítulo 44 – MÁQUINA INFERNAL

Ainda na casa de festa.

Estávamos, como eu disse em relatos anteriores, naquela fase de quase todo fim de semana, um sim e outro também, chover; as vezes forte, as vezes fraca, mas intermitente e as vezes como naquele dia, garoava. O pessoal que frequentava tanto para me ouvir quanto para confraternizar, já sabia que nessas condições o bar funcionava no salão ao invés do espaço externo. Havia alguns inconvenientes, fardos pela proximidade aos ouvintes. Como um frequentador que cismava em dar uma de papagaio de pirata; ele ficava atrás de mim e por cima do ombro colado ao meu ouvido, podia ler a letra no caderno no pedestal e cantar, só que ele era desafinado e fora do tom, então a minha concentração tinha que ser dobrada, para não me deixar influenciar por sua voz e assim arruinar a minha apresentação. No início fiquei um pouco incomodado, mas com o tempo fui conhecendo a pessoa, tanto que acabamos amigos, tal era sua simpatia, alegria, generosidade, ou seja, aquele que podemos chamar de gente boa, sem medo de errar. Esta pequena inconveniência, que se tornara um hábito aceitável, acontecia quando a música escolhida era uma das suas preferidas e esse impulso me deu uma ideia, que se der tempo ainda neste texto eu conto o que fiz.

Havia acabado de chegar com as minhas coisas, para me arrumar num canto do salão afim de começar a tocar, quando fomos surpreendidos, eu e a dona, por um casal conhecidos dela, junto a eles o seu filho, vindos sei lá de que bairro, pessoas que a dona não via há tempos e, portanto, a surpresa, mas após as saudações, explicaram o motivo da visita: Através de amigos em comum, tinham tomado conhecimento que a amiga estava com uma casa funcionando como bar e com música ao vivo, como seu filho era músico e cantor, estavam ali para oferecer os préstimos do rapaz. Eu estava bem próximo arrumando a aparelhagem e não tinha como não ouvir. A dona alegava que já possuía um cantor, até apontava para mim, que estava mais que satisfeita, porém o casal era insistente, pediam que ouvisse seu filho pelo menos um pouco, ela irredutível mantinha-se firme, sem deixar de ser educada, afirmando que era desnecessário. Interrompi a conversa para avisar a dona que um cabo não estava funcionando e que eu teria que ir até em casa para buscar outro, coisa que seria ir num pé e voltar noutro. Não levei mais que vinte minutos, quando cheguei me deparei com a barraca toda armada. O garoto estava atrás de um teclado, usando o meu microfone, tocando e cantando como se fosse o artista da casa. Normalmente quando eu reconhecia entre os fregueses um amigo músico ou se por acaso alguém indicava que entre eles havia um músico, eu sempre perguntava se o colega gostaria de nos honrar com a sua presença nos dando uma canja. Eu dificilmente aceitava quando era reconhecido, não por desfeita, mas porque naquele momento sempre estava bebendo e como me encontrava num momento de lazer, sem concentração, procurava evitar algum desastre. Agora, ali era outra situação, era o que podíamos chamar de invasão de domicílio. Procurei a dona, ela estava na porta da cozinha gesticulando para que eu a visse, quando a avistei, me chamou. Assim que ficamos próximos, me informou que foi tão rápido e ela sem querer ser grosseira deixou. Pediu que eu relaxasse, que mesmo que o garoto ficasse a noite inteira, o que não acreditava, o meu cachê estava garantido, trabalhando ou não. Me assentei junto a uns amigos para apreciar a performance do postulante a vaga, que não existia, de músico da casa. Do que via e ouvia darei a minha opinião imparcial como músico e frequentador da casa. O rapaz tinha boa desenvoltura, habilidade no teclado e o canto, nada especial, dava para o gasto. Diferentemente do violão, o teclado eletrônico possuía uma programação de ritmos, que bem ensaiado com a harmonia fornecia um resultado bom, era o que nós no particular chamávamos de máquina infernal. No caso especifico dele, havia apenas um senão, o repertório. Como era um jovem, seu repertório era formado majoritariamente por músicas pop, inclusive em inglês, se fosse em outro lugar, com outro público, ele certamente seria uma atração, mas ali o pessoal gostava mesmo era de uma boa dose de MPB de qualidade. Além do que, a maneira como os pais usaram para colocar seu pimpolho em evidência já o tinha condenado. A dona do bar, por educação e para não criar um clima tenso não interrompeu, mas não aprovou a atitude tomada por eles sem sua autorização. Quando tudo aconteceu, havia muito pouca gente dentro do recinto, então, conforme iam chegando, as pessoas estranhavam num primeiro instante, achando que eu havia saído, mas depois que se assentavam, na primeira oportunidade perguntavam por mim, ouviam que nada tinha mudado, era só uma canja, que daqui há pouco eu tocaria. Assim como a casa era procurada por músicos oferecendo seus préstimos, eu também recebia convites para trocar de lugar, mas ambos estávamos harmoniosamente satisfeitos, então, não trocávamos nossa boa parceria. O rapaz ficou mais de uma hora cantando, mas não agradou. Enquanto ele desmontava e guardava suas coisas, a dona foi educadamente agradecer a ele e aos pais e participa-los de que o lugar já se encontrava preenchido e que para o momento não havia nenhum interesse. Durante a conversa, eu fui me posicionando, ligando o que era preciso, testando e antes mesmo deles partirem já estava executando uma música. Eles ficaram ainda por algum tempo, suficiente para me ouvir cantar umas cinco músicas, depois partiram sem deixar saudades. Desde do início, quando eu voltei de casa e me deparei com a situação, nós dois, eu e a dona, já conversávamos sobre. Ela estava tão surpreendida quanto eu, pois enquanto eu ia buscar um cabo, ela foi chamada na cozinha e lá de dentro ouviu o som se espalhar pelo salão, foi quando se deu conta de que eles haviam armado para cima dela. Ficou puta, mas manteve a pose. Houveram explicações que não deu nem ouvidos, ela não era boba, já havia sacado a jogada, só deixou bem claro que assim que eu voltasse e quisesse tocar, ele pararia. Mas aí entramos num acordo e deixamos o garoto tocar o quanto ele quisesse. A partir do momento que os pais ficaram sabendo que aquilo estava sendo considerado como teste e que, portanto, não haveria cachê, mesmo que ele tocasse a noite toda, a estratégia deles mudou. Não sou um músico formado, portanto, nem sindicalizado, mas havia, e me parece ser do sindicato, uma indicação, quanto ao tempo a ser trabalhado pelo artista nos estabelecimentos, coisa que variava dependo do acerto ou da exploração, cada um sabe de si, mas o normal, penso, eram três tempos de 45 minutos ou um pouquinho mais, com intervalo de 15 minutos e a forma de pagamento, aí que variava muito, ia desde o valor já acertado, independentemente se a casa enchia ou não, até o famoso Couvert artístico, valor que as casas acrescentavam ao valor da conta pela apresentação musical. Apropriando-me desse raciocínio, informo-lhes que o rapaz cessou sua apresentação ao fim do primeiro tempo, deixando para mim os outros dois. Foram pouquíssimas vezes em que eu usei rigorosamente essa tabela, com o intuito de me livrar rapidamente da tarefa, justamente quando o momento deixou de ser prazeroso e se tornou tarefa, fora isso, alguém próximo – esposa, amigo, a dona – é que vinha me lembrar de dar uma paradinha, aí é que eu notava muitas vezes que já estava cantando há duas horas direto. Não resta dúvida que temos de ter disciplina, não confundir com indiferença, mas, como recusar um, dois, três pedidos a mais quando estamos para terminar e o público quer ouvir um pouco mais, não tem como negar, mesmo porque isso me deixava lisonjeado, o jeito é atender usando três músicas que sejam bem conhecidas e admiradas, fazendo a plateia canta-la, deixando sua voz desaquecer aos poucos ali mesmo no banquinho.  O papagaio de pirata já estava para lá de inconformado, achando que não teria sua vez. Por falar nisso, lá em cima no começo do relato, disse-lhes que havia tido uma ideia e que compartilharia com vocês, se desse tempo. Como o relato se alongou, fico devendo, mas é coisa rápida, já na próxima semana trarei o relato da ideia na íntegra, promessa é dívida. Inté!

sábado, 1 de abril de 2017

Capítulo 43 – FESTA NA PARÓQUIA

Ainda na época da casa de festa.
Andava eu numa correria danada. Além de sexta-feira ter que tocar, em virtude dessa pequena exposição, chovia convite para eventos: casamentos, confraternização de funcionários, aniversários, a maioria era na casa de festa mesmo. Um desses convites, porém, que não seria na casa de festa, foi o de um Monsenhor que era pároco numa igreja em outro bairro, mas que exercia em nossa paróquia participação na administração. Haviam lhe recomendado os meus préstimos, para tocar numa festa que a sua paróquia iria realizar. Ele me procurou para saber se para o dia eu estaria disponível e se o convite seria aceito. Eu não só estaria disponível, como o faria sem cobrar um tostão. A princípio achou que não era justo, mas eu ponderei e não arredei pé. Estávamos combinados. Procurei saber dele se a paróquia tinha um sistema de som adequado para reproduzir um bom som no lugar aonde iria acontecer a festa, não me garantiu e chegamos à conclusão de que seria melhor levar um de minha confiança. Comentei que para esses casos, normalmente eu apelava para um paroquiano conhecido nosso que trabalhava com som, realizando festas e que já tinha até ideia do que seria suficiente, pois em outras ocasiões, parecida com essa, utilizei a aparelhagem.
Naquele mesmo dia, como era um sábado, fui procurar o nosso amigo com a intenção de me antecipar para não haver imprevisto, agendando e reservando a aparelhagem para o dia. Para essas coisas, mesmo sendo gratuito, o compromisso assumido deveria ser honrado, então como teria coisas, que fugiria do controle, em minhas mãos, se fazia necessário garantir com antecedência para não correr nenhum risco. Encontrei-o em casa e após os comprimentos fui direto ao ponto. Descrevi a situação dando-lhe dia e horário, para quem seria a gentileza e o que eu precisaria. Concluímos que uma caixa só de boa potência no amplificador e um bom alto-falante bastaria. Me convidou para entrar, saímos do quintal da frente e fomos para os fundos, onde ele possuía um quarto especialmente para guardar os aparelhos, chegando lá me mostrou uma que para ele era suficiente. No momento imaginei como faria a distribuição do som e concordei que era suficiente. Não custa lembrar que era um empréstimo e não um aluguel, pois como eu não cobraria, apelei para que ele por conhecer também o Monsenhor não cobrasse, desde de que não fizesse falta para ele. Como seria para dali há duas semanas, pedi-lhe para anotar na agenda, mas garantiu-me que não era necessário, já estava agendado na sua memória. Nos despedimos e eu voltei para casa mais tranquilo, por ter resolvido já com antecedência essa parte.
As duas semanas passaram normalmente. Toquei, como sempre, na sexta na casa de festa, tendo como único diferencial uma contratação para um evento, mas como seria para o mesmo dia da festa da paróquia, não pude aceitar. No sábado do compromisso a tarde, não me lembro o que me levou, mas fui resolver alguma coisa perto da casa do amigo da aparelhagem e quando voltava para casa andando pela calçada, não havia outro caminho melhor, onde ficava a dele, me deparei com o próprio para minha surpresa, em seu portão carregando o espaço da caçamba de uma camionete, com a ajuda de dois sujeitos, com algumas caixas de som enormes. Aproveitei para confirmar o nosso compromisso e avisar que viria as 18:30 h com o meu carro para buscar a aparelhagem. Ele confirmou, mas avisou que não precisava ir buscar o som, que entre 18:30 e 19:00 horas ele passaria na porta da paróquia do nosso bairro que ficava na mesma rua onde eu morava, pois poderia fazer este caminho sem atrapalha-lo em seu trabalho e ali me entregaria o som. Falou e disse! Mais para o final da tarde comecei a arrumar a minha mala com os apetrechos que possuía: Pedestal para o caderno de músicas, caderno com as músicas, pedestal para o microfone, microfone, pedaleira, alguns cabos, encordoamento reserva, juntei a mala ao case com o violão e deixei tudo preparado, era só pegar e colocar no carro. Mais próximo do horário tomei meu banho, me arrumei, coloquei tudo no carro e quando chegou a hora desci a rua até a frente da paróquia para esperar o nosso amigo passar para entregar o som. Cheguei dez minutos antes do combinado para não atrasar, porém, deu 18:30, 18:40, 18:50, 19:00 horas e nada, comecei a ficar preocupado. Esperei até as 19:30, aí não aguentei mais, liguei o carro e fui até a casa dele. A casa estava escura, mas assim mesmo do portão gritei o seu nome várias vezes, até que finalmente sua filha veio me atender. Pediu-me desculpas pela demora, mas é que estava nos fundos vendo televisão e só agora é que ouviu. Perguntei-lhe pelo pai e expliquei o motivo de estar ali. Ela não sabia de nada, o pai havia saído para trabalhar numa festa. Ainda argumentei se por acaso não estaria separado o som que havíamos combinado e deixado no quarto que ficava nos fundos onde guardava as caixas. Desesperado fiz uma leve pressão para que me deixasse entrar e olhar. Ela não se opôs, entramos e quando chegamos, após abrir a porta, constatamos que não havia nada, o local estava vazio, o mesmo que eu havia visitado e visto cheio de caixa de som, agora se encontrava as moscas. Acendeu o pisca alerta da cabeça aos pés, o desespero tomou conta de mim. Agradeci, ela não tinha culpa de nada, voltei para o carro e me dirigi para a frente da paróquia. Olhei para o relógio, já passava das 20:00 horas, mais precisamente eram 20:20 minutos e agora o que fazer? Com essa eu não contava. Que situação! Pensar, pensar, PQP! Lembrei-me da casa de festa, dali aonde estava dava para vê-la, estava fechada, não tinha sido alugada, poderia pegar o som de lá. Fui até a casa da dona, mas minhas esperanças foram assassinadas, não havia ninguém em casa, tinham saído. Engraçado como de acordo com a situação a hora passa lentamente ou voa, no meu caso voava, já eram 21:00 horas, para um compromisso marcado para as 20:00 horas, se eu chegasse agora, não afetaria tanto, mas eu ainda nem havia resolvido o imbróglio que me encontrava. Pensar, pensar, PQP! Recorri a alguns amigos, dos que estavam em casa, poucos, ninguém tinha o que eu precisava, os outros eu não encontrei, afinal era um sábado à noite, normalmente as pessoas saiam. Me rendi, não havia solução, mas também não era hora para covardia, por falar em hora, a maldita já estava encostando em 22:00 horas, o jeito era partir para o local e me desculpar com o Monsenhor e os seus fiéis, foi o que eu fiz.

Ao chegar já passava das dez, mais precisamente beirando dez e meia, meu amigo Monsenhor estava preocupadíssimo, não com atraso para a festa e sim se havia ocorrido algum acidente ou defeito envolvendo o meu carro, até pediu a uns jovens paroquianos que pegassem o carro da paróquia e dessem uma boa volta em torno e um pouco mais afim de verificar. Ficou feliz em ver que estava tudo certo, mas quis saber o motivo da demora. Depois de toda a explicação e da vergonha em que me encontrava, Monsenhor mostrando toda a sua benevolência, calma diante de situações adversas, experiência e sabedoria suficientes para passar por cima dessas pequenas coisas sem se abalar, lamentou eu não ter tomado a decisão de ir já na primeira hora de atraso, pois o que importava era a confraternização, claro que todos esperavam a atração que fora anunciada, mas a festa aconteceria com ou sem a música ao vivo. Me informou que àquela hora muita gente já havia se retirado, porém, ainda havia gente suficiente para me ouvir e me perguntou o que eu havia levado. Descrevi o que eu tinha dentro do carro, ele então chamou alguns jovens e pediu que providenciasse ou até improvisasse meios para que eu pudesse tocar. Peguei minhas coisas, me levaram para um salão onde se encontravam mesas espalhadas com um número razoável de pessoas, imaginei que deveria, no horário marcado, ter o triplo. Os meninos me mostraram o que tinham, trouxeram um amplificador, eu olhei e reparei que havia um sistema de som com caixas pequenas espalhadas bem próximas ao teto, puxaram a fiação das caixas e verificamos as entradas e saídas para podermos ligar o microfone e o violão e termos saída de som para as caixas. Depois de uns vinte a meia hora de trabalho, estava eu sentado pronto para tocar. Testei o som cantando logo uma música, o retorno não era dos melhores, mas satisfazia e, prossegui. Em dado momento, me veio um paroquiano e ao pé do ouvido me fez um pedido: “Moço, será que dá para tocar música para gente dançar? ” Era uma situação inusitada para mim, nunca tinham feito esse pedido, mas ao mesmo tempo era bom, pois ele não especificou um gênero. Fazendo uma breve analise das pessoas presentes, conclui que poderia ser forró, xaxado, samba canção e até bossa nova. Confesso a vocês, meu repertório de forró e xaxado era muito pequeno, então, lasquei um samba canção e enveredei pela bossa nova, como o pessoal encheu o salão aos pares tirei coelho da cartola para satisfazê-los o máximo possível. Fiquei cantando quase duas horas direto. A festa não iria até tarde, se eu tivesse chegado dentro horário, muita gente foi embora antes não por cansar de me esperar, foram porque dormem cedo e também porque participam da missa das sete da manhã no domingo. Monsenhor viu que quem ficou estava se divertindo e permitiu que se alongasse um pouco mais. Para mim foi um alívio, ver que apesar de todo sufoco, eu pude oferecer algumas horas de alegria. Ao final me ofereceram um lanche, eu havia até esquecido o que era fome, tamanha a preocupação. Me despedi de todos os meninos que me ajudaram, em particular do Monsenhor, com a consciência mais tranquila, entrei no carro e me dirigi para casa. No meio do caminho cheguei a uma conclusão: O amigo que me deixou na mão, isso não se faz, acabou me mostrando uma realidade que até então eu não tinha atentado para esse detalhe. Se era de minha vontade continuar aceitando compromissos como esses, eu deveria providenciar um equipamento próprio, meu, só meu, que não dependesse de ninguém, eu sabia que custava caro, mas estava na hora de começar a fazer uma poupança e me tornar independente. Cheguei em casa com essa resolução, que poria em prática já a partir da próxima semana. Quanto ao sujeito, não me procurou para maiores explicações, o que evidenciou culpa e eu pelo meu lado nunca mais o vi. Inté!