Capítulo 47 – COINCIDÊNCIAS
Nos relatos que passarei para vocês a
partir de agora, meus caros leitores, terão e serão três coincidências dessas de
cair o queixo, porém, a veracidade dos fatos ficará apenas na crença de que eu
não teria motivos para mentir e que, portanto, a minha palavra e escrita é a
única prova cabível. Se sou merecedor dessa confiança, desde já agradeço.
A primeira coincidência surpreendente
deu-se no final dos anos setenta, início dos anos oitenta. Como escrevi nos
primeiros capítulos, eu aprendi a tocar violão, sem nem ter o instrumento em
casa. Foi preciso pedir um emprestado, recorrendo a uma namorada e, com a ajuda
dela e do meu amigo guitarrista, ensaiei os primeiros acordes, me aplicando no
treinamento. O meu maior interesse não era me tornar um virtuoso instrumentista,
era simplesmente aprender o básico, que seria suficiente para compor. Eu
desenvolvi mais a mão esquerda, a dos acordes, do que a direita, a do ritmo. Algumas
músicas vinham do nada na minha mente, então, eu precisava saber tocar para de
imediato construir a base para não as perder. Outras, eu conseguia construir dentro
de uma combinação de acordes. A parte mais difícil e dolorosa, para mim, sempre
foi a letra. Umas eu fiz por completo, outras eu começava a escrever,
normalmente uma ou duas estrofes, aí empacava, então, era socorrido pelo meu
parceiro guitarrista, que completava a letra sem desviar o sentido. Como sempre
fui de trabalhar mais em compor novas melodias, as vezes recebia letras de
amigos, se gostasse guardava por perto, de repente
aparecia uma melodia que cabia direitinho, além de combinar com a letra. Pronto
saia mais uma do forno. Certa vez acabara de compor uma melodia e, estava
tocando-a várias vezes, para dar acabamento, mas sentia que ela podia e devia
render uma segunda parte. Enquanto não saia o restante, me veio a letra na
mente. Era um tema diferente, não era coisa de namorado apaixonado, sofrência
ou amor impossível, era... vamos a ela: “Homens Estranhos” - “Um dia alguns
homens estranhos chegaram a cidade – E logo a cidade ficou ciente de toda
verdade – Que aqueles homens todos traziam consigo as suas máquinas – E o povo
da cidade foi saber que iam erguer uma fábrica.” “E um dos homens veio dizer
que aquilo era o progresso – E o povo da cidade foi ouvindo um tanto incertos –
Ele dizia que toda a cidade teria emprego – E o povo da cidade aceitou com pouco
de medo.” Como vocês podem perceber eu havia feito duas estrofes com quatro
versos e a música colocada em cima, tanto da primeira, quanto da segunda
estrofe era a mesma, daí a necessidade de uma outra parte, que eu tentava, mas
não conseguia ajeitar a gosto. Numa breve visita a minha casa, mostrei ao amigo
guitarrista, inclusive com o restante da letra e ele, como de costume,
imediatamente aplicou uma melhora e para finalizar, depois de repeti-la algumas
vezes, introduziu a segunda parte, que caiu como uma luva. Aqui o restante da
letra: “E em poucos meses a fábrica só conseguia – Roubar o silêncio da cidade
que antes dormia – E um por um de toda a cidade começou a partir – E formaram
uma outra cidade bem longe dali.” Ficamos satisfeito, eu mais ainda, por tê-la
finalmente terminado e incluímos no nosso repertório da banda. Agora, a
coincidência surpreendente. Eu possuía e ainda possuo, graças aos deuses da
escrita, sabedoria, conhecimento e poesia, como Atenas ou Calíope da mitologia
grega, Tot da mitologia egípcia e Minerva da mitologia romana, um enorme gosto
por literatura, que me permitiu o prazer de saborear histórias escritas por
grandes autores literários, dentre esses eu descobrir um brasileiro, no meio de
tantos famosos, José J. Veiga, que à primeira vista fui por curiosidade e
depois me tornei fã. O primeiro que me caiu às mãos foi: Os Cavalinhos de
Platiplanto. Fiquei encantado. Procurei mais. Encontrei o surpreendente: A hora
dos ruminantes. Nesse livro foi que se revelou a grande coincidência e
surpresa, não que fosse um a cópia do outro, mas a história misturava e
apresentava características muito semelhantes com a ideia que havia escrito,
claro que o livro dá de dez na minha pequena letra, mesmo porque ele desenvolve
o tema da pacata cidade enfrentando, não só homens estranhos, como outras
adversidades, mas quando acabei de ler, fiquei apavorado com a coincidência.
Parecia que eu já havia lido o livro e resolvido fazer um resumo para
musica-lo. Eita!
A segunda coincidência se deu num
arranjo que eu fiz, ajeitando uma melhor maneira para tocar e cantar uma música
da Legião Urbana. Dentre o belíssimo repertório da banda, eu havia pinçado
algumas para ensaiar, mas no meio dessas tinha uma em especial, que eu tentei
reproduzir dentro do ritmo da gravação, entretanto, as tentativas foram
infrutíferas. Diante da dificuldade, não era tanto a dificuldade, era mais para
o resultado final, que não me agradava, portanto, depois de ensaiar várias
vezes e não gostar, estava quase desistindo, quando me veio uma ideia. Resolvi
mudar completamente a andamento da música. É um rock. Tem sua cadência mais
acelerada. Simplesmente tirei o pé do acelerador e toquei num compasso mais
lento. O resultado de imediato me agradou. Eu não sabia como o público iria
reagir, mas resolvi arriscar. Ensaiei muitas vezes, até ter certeza de que
poderia apresenta-la sem erros. Desde a adolescência que eu curtia muito rock,
principalmente o progressivo, era o que eu mais ouvia. Só que quando eu resolvi
tocar e cantar a la banquinho e violão, dei preferência a nossa MPB, com
algumas incursões em outros gêneros. A música da banda Legião Urbana, que
resolvi mudar o andamento foi “Será”. Eu já havia feito esse tipo de
interferência em outras obras, tendo obtido retorno positivo, então, não era uma
novidade quanto a inovações, contudo, há tiros que sai pela culatra, sendo
assim, antes preparei o público para uma leitura diferente da obra. Quando
acabei de apresentar a minha versão, os puristas preferiam no original, mas
gostaram, os demais acharam interessante e apoiaram. Precisar, precisar quanto
tempo eu fiquei tocando antes de acontecer a coincidência, isso eu não sei
exatamente, acredito que de um a dois meses. Foi quando a versão deixou de ser
minha e, passou a ser a versão da Simone, grande intérprete da MPB, pois nas
rádios a gravação dessa cantora justamente com o mesmo andamento que eu havia
criado para a música da Legião, tocava a exaustão. Aí o que era uma novidade,
passou a ser uma normalidade. Tenho certeza de que nem a cantora, quanto mais
quem fez o novo arranjo para ela, jamais me ouviram. Tudo não passou de uma
incrível coincidência. Agora, os meus amigos mais próximos aproveitaram para me
zoar, comentando que eu havia arrumado um dinheiro em cima da gravação e que
estaria escondendo o jogo. Uma coisa é certa, a partir desse acontecimento, eu
tomei uma maior consciência do meu potencial criativo. O que antes, dentro da
minha modéstia, encarava como forma de adaptação diante dos meus limites, agora
enxergava como uma marca, um estilo, uma assinatura. Essa gravação, que
coincidentemente era igual a minha criação, avalizou fortemente os meus
instintos musicais.
E para finalizar, a terceira
coincidência. Essa foi um pouco mais assombrosa. Aconteceu antes de eu começar
a tocar em bar. Ainda naquela fase de muita inspiração retida, prontas para
aflorar e, que desde o convívio diário e entendimento entre eu e o violão,
começaram a ocupar o espaço sonoro do meu apartamento. Eu estava bem mais
rápido que os ratos, que levam 19 dias de gestação – definitivamente leitura é
cultura. Só não dava para competir com o resultado final, pois cada ninhada vem
em média 12 filhotes. Bem, deixando o mundo animal de lado, só sei dizer que eu
estava compondo um número razoável por mês. O estilo era diversificado, com
predominância no rock rural. Eu ouvia de tudo que possuísse qualidade, mas
sempre com os ouvidos antenados no rock progressivo. Foi exatamente por estar sempre
atento as novidades, aos lançamentos, das grandes bandas progressivas, que se
deu a assombrosa surpresa. Ela veio no álbum “Wish You Were Here” do Pink Floyd
e se chama “Have a Cigar”. Naquela época os lançamentos não eram simultâneos,
isso provocava um hiato entre a data que teria sido lançado na Inglaterra e
Estados Unidos, até chegar nas lojas daqui. No caso desse, foi em setembro de
1975, quando chegou efetivamente aqui não sei. A única coisa que eu sei, é que
quando ouvi o disco pela primeira vez, me deparei com essa música, no meio das
outras, que se destacava particularmente por possuir um trecho idêntico a uma
composição minha. Eu poderia pular de alegria, porque afinal, os feras haviam
composto uma ideia minha, mas não, eu fiquei foi muito preocupado, a partir
daquele momento, fora os meus parceiros, as pessoas que acompanhavam a obra
daquela banda, apontariam para um plágio, o que não era verdade, mas como
provar o contrário? Passado o susto inicial, a música continua como foi feita e
todas as vezes em que cantei em público nunca houve nenhuma menção ou uma
mínima comparação, pelo menos na minha frente ou que eu saiba. Inté!