terça-feira, 30 de maio de 2017
sábado, 27 de maio de 2017
Capítulo 27 – COMO GRAVAR CINCO MÚSICAS NUMA NOITE –
VOILÀ!
Saboreie por algum tempo o dia do festival. Também, os
amigos que foram ao festival não me deixavam esquecer. A vida seguiu e eu, como
não era um músico ou cantor profissional, segui minha rotina. A semana se
arrastava e, algumas poucas vezes passava mais rápida. Trabalhar só para ganhar
dinheiro é angustiante, não tenho a menor dúvida. A verdade é que você já começa
a segunda pensando na sexta à noite. No meu caso, agora com namorada e, morando
longe dela, na sexta à noite ou no sábado depois do almoço, poucas vezes, eu
chegava e ficava até domingo à noite. O meu final de semana, com a permissão
dos pais dela, passou a ser em sua casa. Ela com cinco irmãos, três mais novos
e dois mais velhos que ela, traduzia literalmente a frase da propaganda:
“sempre cabe mais um”. E aqui tenho que ressaltar: quando cheguei já haviam uns
agregados, que acampavam todo final de semana na humilde e pequena moradia, não
obstante, grande no acolhimento. Tanto seu pai, quanto sua mãe, sempre foram
desprovidos de qualquer mesquinharia. Penso, que por virem de famílias
numerosas do interior de minas, acostumados com casa cheia e mesa farta, dentro
do possível, aquele bando, davam a eles a alegria de ter a casa sempre cheia,
barulhenta, harmoniosa, apesar dos seis filhos, então cabia mais essa cambada
de filhos alheios. Além desses, que fiquei por longo tempo convivendo, pelas
ruas do bairro fui conhecendo e fazendo mais amizades e ampliando o meu fã
clube.
A banda se reuniu mais uma vez, a convite do irmão do
baixista, que nessa época tocava com o Sullivan, sempre tentando nos ajudar.
Ele tinha prazer em nos reunir para gravar. Tinha o sonho de nos produzir ou
pelo menos nos apresentar para oportunamente gravarmos. Gostava do nosso som,
das músicas, da minha voz. Arranjou um horário de uma noite no estúdio de
ensaio do Sullivan, levou aparelhagem de gravação: Nada sofisticado como hoje,
não existia computador, notebook; era um gravador de fita de rolo, junto com
outros apetrechos e lá fomos nós, sem o batera, mas com o apoio do conjunto que
ele tocava, passar uma madrugada gravando cinco músicas. Entramos no estúdio
por volta das 18 horas, levamos algum tempo para que ele ajeitasse os aparelhos
e nós os instrumentos, ainda tivemos que passar para os componentes da banda do
Sullivan as músicas, mas isso foi coisa rápida, afinal eram músicos calejados.
Acredito que lá pelas 20 horas, começamos as primeiras experiências. Eu já
estava me acostumando a gravar. Passada a limpo a primeira música, fomos para a
gravação. Gente, gravar é um processo demorado, tem que ter paciência, se você
quer um resultado bom, não tem como ser de outro jeito e, o irmão do baixista
tinha um excelente ouvido, nós achávamos que estava bom e lá vinha ele e
mandava repetir. Sem contar que aconteciam erros durante o trajeto, então
recomeçávamos. Para se ter uma ideia, cada música de pouco mais de três
minutos, levava mais de uma hora para ser gravada, então por aí vocês já podem
imaginar. Chegou a madrugada e nós ainda não havíamos terminado. Quando tudo
ficou pronto os músicos estavam exaustos e cheios de sono, porém nem tudo
estava pronto, o produtor veio até mim e perguntou: “Você consegue cantar do
mesmo jeito que foi gravado? ” Eu não tinha uma resposta precisa para essa
pergunta, então questionei: “Por que você está me perguntando isso? ” Ele
sabendo do meu cansaço, mas sem alternativa, mandou na lata: “Eu preciso que você
dobre a gravação ou seja, cante novamente em cima da sua voz do mesmo jeito que
cantou, porque a voz ficou baixa. ” Foi quando finamente eu entendi e para não
entrar em pânico, me servi de um gole de conhaque, me postei no microfone,
peguei o fone e fiz o sinal de positivo. Ele aproveitou para comunicar para a
galera que eles podiam dormir, se quisessem, havia espumas no estúdio, enquanto
terminava. O guitarrista aproveitou e pediu para incluir alguns solos e efeitos
durante e, o nosso companheiro baixista acompanharia solidariamente. Foi mais
uma das experiências vividas dentro da música. Eu tive que controlar bem os
meus sentidos: inicialmente os nervos; depois a audição; em seguida a voz,
tinha que ser a mesma o tempo todo e claro a memória, pois conforme a música ia
rolando, eu tinha que lembrar como havia usado a voz. Nenhuma música eu
consegui acertar de primeira, todas tiveram mais de uma tentativa, mas uma
delas em particular, quase que conseguiu me desestruturar. Virou uma batalha
particular. Passou a ser uma questão de honra. O pior é que quanto mais eu
tentava e não acertava, mais ansioso ficava. Às vezes me sentia aliviado
achando que estava certo, mas lá vinha o produtor e parava para dizer que
milimétricamente a voz estava adiantada ou atrasada. Já tínhamos feito todas,
só faltava essa. Se não me engano, depois de oito tentativas, evidentemente eu
estava esgotado, enquanto todos dormiam, só restavam eu e o produtor, puxei o
ar profundamente para me sentir vivo e acordado, pedi que começasse a introdução.
Ela veio como tinha vindo todas as outras vezes, quando chegou no momento de
entrar, deixei passar um pouco e pedi para repetir, uma, duas, três e,
finalmente pude ouvir a minha respiração na gravação antes de entrar e contar
mentalmente o tempo exato para encaixar bem em cima, quando soltei a voz o
produtor começou a fazer um sinal para que eu continuasse, ele não parava de
sinalizar e eu ganhando confiança segui até o final. Quando acabamos eu
desabei. Não posso me furtar, mesmo sendo uma constatação conhecida por quase
todos, a afirmar que quando realizamos algo do qual gostamos muito, o tempo, o
cansaço, o negativismo, são completamente esquecidos e substituídos pela
vontade, pelo prazer, pela doação, pela realização, pelo desapego, naquele
momento, a qualquer outra coisa, reunindo o seu potencial efetivamente e
reduzindo esse vasto mundo em um pequeno, porém infinito, momento de ocupação
prazerosa.
Quando abrimos a porta do estúdio, é que tivemos a
dimensão do tempo que ficamos envolvidos na gravação. A luz do sol nos pegou
tão de com força, que parecíamos vampiros prontos para desfigurar, tal a rejeição
visual, mas como o bálsamo da manhã sempre nos dá a alegria de um novo dia, foi
unanime a resposta à pergunta se queríamos tomar um café. Depois de 13 horas
enfurnado num cômodo, a padaria da esquina foi como um oásis no meio deserto,
tínhamos a nossa disposição: pão na chapa, joelho fresquinho, pão com
mortadela, café, coca, enfim, antes de irmos para casa dormir, pelo menos no
meu caso, podíamos saciar nossa fome.
Já no carro do baixista, podemos ouvir com calma as
músicas gravadas, seu irmão fez uma cópia numa fita cassete, enquanto ele
dirigia até a minha casa, fomos saboreando cada passagem, cada solo, vibrando
com o arranjo do baixo numa, da guitarra noutra, de como ficou a minha voz
dobrada, não dava nem para perceber, ficou excelente. Era o nosso trabalho
sendo registrado, as nossas composições, as nossas esperanças. Essa demo ia
visitar algumas gravadoras. Essa parte quem se responsabilizou foi o nosso
grande amigo e produtor, o irmão mais velho do baixista. Mas nessa vida nem
tudo são flores e a vida é uma caixinha de surpresas, quando muito se espera...
calma gente, ainda temos pela frente muitos desdobramentos, então, até o
próximo capítulo. Fuuuuiiiiii!
P.S. Fui surpreendido com uma notícia, que há tempo, e
põe tempo nisso, lutava para conseguir. As gravações feitas naquela noite
estavam perdidas, mas numa coincidência dessas incríveis, recebi uma ligação e
era o guitarrista me informando que havia recuperado todo o material, isso
ontem antes da publicação, portanto, vocês poderão ouvir o resultado musical da
longa madrugada. Não sei ainda, mais vou descobrir um jeito de colocar no Blog.
sábado, 20 de maio de 2017
CAPÍTULO 50 - O REFRÃO
Não faz tanto tempo assim, não havia internet e pouca gente tinha telefone fixo e, isso nunca foi um entrave, pelo contrário, vivíamos muito bem, quiçá melhor. Então, sem e-mail ou WhatsApp, ficamos esperando (funcionava muito bem) o correio nos trazer a correspondência que confirmaria as nossas convicções. Não demorou muito, chegou o convite oficial para participarmos do festival, estávamos classificados, como esperávamos. A partir daí o guitarrista foi confirmar com os rapazes se no dia da apresentação eles não teriam compromissos em algum evento. Feito a sondagem e, recebida a resposta de não haver impedimento, começamos os preparativos para a competição.
O festival era um incentivo cultural da prefeitura de Duque de Caxias e, como responsável estava à frente, participando da secretária de cultura, o nosso personagem central: Chico Chicão. Homem de cultura e incentivador das várias formas de expressão dentro das artes. A música era seu combustível maior. Músico, compositor, cantor, produtor, arranjador e, principalmente incentivador de novos talentos, bandas e cantores independentes. Um festival organizado por uma pessoa dessas, estava fadado ao sucesso, sem sombra de dúvida. Fomos convidados para uma reunião só para os participantes e a equipe organizadora e, depois da reunião ficamos um pouco mais, aproveitando que o nível da conversa havia sido gratificante, fizemos uma boa amizade com o Chico. Ficamos, depois da reunião, horas papeando sobre música; sobre suas atividades; sobre o festival, que ele queria transforma-lo numa referência, ficamos encantados com a pessoa e o sentimento era recíproco e, ali nascia uma grande amizade.
O festival seria realizado na câmara dos vereadores, espaço com sistema de som e acústica adequados, precisando apenas de alguns ajustes, mas com capacidade para receber um bom número de público. O evento recebeu grande divulgação pelos meios de comunicação do município: Rádios locais, faixas, carros de som, enfim, tudo o que se podia usar para convidar a comunidade. Os jurados foram escolhidos a dedo; pessoas que viviam para e de arte: Professor de música, músico, escritor, diretor teatral, professor da língua portuguesa, enfim, uma baita seleção. Como estava perto do meu quintal, pude contar com uma pequena torcida, que antecedendo o dia da apresentação já se movimentava em pequenos detalhes para chegar na hora e produzir apoio. Quando lá cheguei para a primeira fase, pude confirmar, no meio do público, os meus amigos e fãs, apostos, prontos para me incentivar. Era a fase classificatória, eu já havia passado por essa agonia, sabia que a decisão estaria nas mãos dos jurados, mas tudo dependia de como nos saíssemos no palco. Eu já trazia uma certa experiência nesse tipo de apresentação, agora as pernas não tremeriam mais, mas o frio na barriga ainda existia, essa sensação eu penso que não é medo, pelo contrário, é uma enorme vontade de subir no palco e mostrar tudo aquilo que você ensaiou, talvez até tirar um coelho da cartola e se surpreender, mostrando principalmente a você mesmo que céu é o limite. Sair da zona de conforto, normalmente é um incômodo, não que seja para todo mundo, mas para muitos é sim. Tem gente que gosta de se exibir, isso é outra coisa. Tem gente que sente bem sendo sempre o observador, jamais se admite no lugar do observado, essas pessoas nessa situação travam. Eu, não sou nem o exibido, nem apenas o observador, sou por natureza provido do que se pode chamar de observido ou exibador, tenho um pouco de cada dentro de mim, numa proporção equilibrada que me faz observar aprendendo e quando sinto o terreno firme que me permite roubar a cena, me lanço sem medo e me exibo. Não sou nenhum fenômeno, mas percebi que consigo entreter uma plateia.
O palco começava a ser a extensão dos meus sonhos, do meu quarto, do meu quintal em dias de violada, das reuniões com os amigos e com os amigos dos amigos e de repente eram pessoas completamente desconhecidas e que certamente fariam seus próprios julgamentos. A unanimidade nunca existiria, mas a graça está justamente aí, na diferença de gostos. Por outro lado, receber a atenção e o afago da maioria, fora do seu terreno, é sinal de que o seu trabalho foi bem realizado. Mais uma vez estávamos prontos para descobrir e descortinar o futuro. Me coloquei no centro do palco a frente dos meus companheiros, me preparando assim para a apresentação. Certos cantores ou cantoras ao se apresentarem diante do público costumam usar uma roupa elegante, mesmo num festival, eu não havia preparado nada diferente ou especial, apesar de haver camarim para o artista se arrumar. A introdução foi realizada a contento e quando soltei a minha voz o retorno veio satisfatório. Cantei a primeira parte me preparando para o refrão, que eu sabia que seria algo que mudaria radicalmente o comportamento da plateia; seria como se estivesse distraído e algo provocasse repentinamente toda a sua atenção. Não deu outra, assim que acabei de cantar o referido refrão, o público quase silenciou e passou a me observar. Continuando e agora cantando a segunda parte, eu já comecei a imaginar o gestual que faria quando chegasse no refrão. Nada exagerado, apenas um pouco de interpretação teatral, usando de expressão corporal o que a letra subentendia. Dessa vez, a plateia veio ao delírio. A música foi para um pequeno solo, ao término eu voltaria para repetir a segunda parte e todos já esperavam eu finalizar com o refrão. A partir desse momento eu era o centro das atenções, o microfone estava fora do pedestal, sendo empunhado por mim, que dominava completamente a plateia e os conduzia com maestria. No Grand finale a plateia uníssona me acompanhava. Apresentação feita, a consagração veio através da manifestação calorosa que o público demostrou. Missão comprida.
Depois, passeando no meio do pessoal, era abordado por alguns, eles repetiam o refrão como forma de reconhecimento, pude observar um pouco mais do festival e sentir o que estávamos enfrentando, para saber se tínhamos alguma chance de classificação. Bem, vocês não estão nem um tantinho curiosos para saber que porra de refrão é esse que causou tanto...?
Vivíamos na época um regime militar, portanto qualquer manifestação contrária, por menor que fosse, poderia ser considerada Antigoverno e, isso poderia resultar em sérios problemas. Nós não participávamos de nenhum movimento, mas também não éramos pró-governo, o que fazíamos era tentar ser feliz mesmo diante de tal situação. Quando o guitarrista compôs a música, ele escreveu uma letra subentendida, com traços de insatisfação, mas para apresentar ao público tivera que amenizar, então tínhamos a seguinte situação: “Pois nessa vida sem vida, nós somos ébrios quaisquer, estranho final num porão, chorando por uma mulher, e o arlequim que passa, com tanta alegria e tal, me faz ver que a tristeza termina no carnaval. AAAAAIIIIIIII! Meus foliões, meus foliões, meus foliões. E depois de muito andar, agora sei o que é, estranho final numa prisão, morrendo pelo que quer, e os homens que agora passam, com tanta frieza e tal, me faz ver que a opressão continua depois do carnaval. AAAAIIIIII! Meus foliões, meus foliões, meus foliões”. Para amenizar um pouquinho, só retiramos a palavra “opressão” que tem como definição: tirania, mão de ferro, abuso, despotismo e colocamos “tristeza”, mas o refrão, este, quando cantado, se confundia com: “AAAAIIII! Meus culhões, meus culhões, meus culhões”.
Quando acabaram as apresentações, ficamos à espera da lista dos classificados, que retornariam no próximo sábado. Enquanto os jurados se reuniam, surgiu não sei de onde, um boato de que eu estaria cotadíssimo para o prêmio de melhor intérprete. A princípio era apenas uma tênue possibilidade, mas conforme foi avançando o tempo e assim que saiu a lista dos classificados e nós estávamos entre os citados, o boato ganhou força ao ponto de me fazer acreditar sim nessa possibilidade. Saímos do local felizes pela classificação, ainda ouvindo o refrão sendo cantado por alguém na multidão e fomos bebemorar que ninguém é de ferro. Já na volta, me veio à cabeça que eu devia fazer alguma coisa diferente para incrementar mais ainda a apresentação, mas o quê? Fiquei entre os amigos, brincando, lembrando, bebendo, gargalhando, mas no meio disso tudo a ideia vinha e voltava a sumir como uma aparição, muda, vazia, enevoada, foi assim até que, voltou e aos poucos foi se revelando e quando dei por mim estava diante do maior cantor, que dizem ser de origem francesa, uruguaia e argentina, não importa, o que importa é que ele foi o maior intérprete de tango que eu nem conhecera, mas que conhecia a sua história ou parte, pelo menos, contada pelos mais velhos, livros e revistas: “Carlos Gardel”. Quando contei para o pessoal, uns não sabiam quem foi; outros pouco sabiam, mas sabiam e um mínimo já haviam lido sobre. Comecei ali mesmo a construir para a minha pequena plateia, o que seria e o que eu precisaria para minha transformação: Gardel era branco, assim como eu; era magro, eu também; tinha o cabelo cheio, mas cortado acima da orelha e feito o pé, para amansá-lo usava muito gel e repartia ao lado, mas não muito do lado, aí existia uma grande diferença, eu tinha, assim como praticamente todos, uma vasta cabeleira e além disso ele era muito elegante, só se apresentava de terno, gravata e chapéu e eu nunca havia usado ou colocado um, quanto mais o outro. Feita a apresentação da transformação, meus amigos quiseram saber como eu faria para conseguir juntar tudo. Bem, eu argumentei, que só restavam dois obstáculos, mas que o primeiro era simples, o cabelo. Eu ia pesquisar o corte e cortá-lo, quanto ao terno e o chapéu precisava de ajuda. Alguém lembrou que o pai da minha namorada, certamente teria um terno e que ele era magrinho assim como eu. Guardei na memória e continuamos procurando mais opções. Dentro do grupo que ali se encontrava, só o guitarrista foi quem levantou a hipótese de possuir uma outra alternativa. Ele me lembrou que um amigo em comum, vizinho, que vez por outra, nós éramos convidados a sua residência para tocarmos violão, jogar conversa fora, cerveja, enfim, confraternizar uma noite inteira até amanhecer e que seu pai que também participava até uma certa hora da violada, talvez tivesse esse tipo de vestimenta, o manequim não era tão distante. Concordei, mas esperava resolver já na primeira tentativa.
No dia seguinte, acordei cheio de esperança; havia dormido na casa da minha namorada. Mal acabei de tomar café, fui ter com o meu futuro sogro para saber se ele possuía um terno escuro. A resposta não poderia ser melhor, tinha até dois. Alegou que eram antigos, penso que não poderia ser mais adequado, fato que concordou quando expliquei para o que eu queria. Trouxe ambos, mas já no primeiro, eu arrefeci quando vesti o paletó, havia esquecido desse detalhe, ele era menor do que eu, portanto, tanto o paletó quanto a calça ficavam curtos. Agora só me restava o pai do nosso amigo, mas para isso eu teria que esperar, pois ele morava distante dali, mas perto da minha casa, então, só no dia seguinte ou outro dia. Enquanto isso, aproveitei para pesquisar com o pai da minha namorada sobre o Gardel, as informações foram muito detalhadas, é, não tínhamos o google para isso. Ele trouxe vinil para ouvirmos e algumas fotos. A semana começou e eu me encontrei com o guitarrista, que me informou já ter conversado com o pai do nosso amigo e que ele estava me esperando a qualquer hora. Não demorei muito, pois o tempo era curto e se não desse certo eu ficaria encurralado. Ele me recebeu com o seu sorriso e alegria de costume, convidou-me para entrar e logo avisou que iria buscar o terno, não sem antes me confidenciar que era o terno do seu casamento, que o havia guardado esses anos todos e que eu não me preocupasse, que apesar da barriga, na época ele era fininho, portanto, achava que cairia como uma luva. Fiquei na sala esperançoso. Ao regressar, pude ver que o terno era preto, o que era bom, tirou do cabide e abrindo-o me convidou a colocar o primeiro braço, após, enfiei o segundo por dentro do paletó e ajudado por ele fomos ajeita-lo no corpo. Não experimentei nem a calça, se o paletó ficara bom, a outra peça não me deixaria na mão. Agradeci muito, perguntei se precisa lavar e prometi devolve-lo sem avarias. Parti para casa com uma alegria imensa por dentro, com uma vontade de mostra-la a todos, mas ainda bem que não o fiz, pois ninguém ia entender. Em casa verifiquei que a calça ficava um pouco larga, mas nada que um cinto não resolvesse a questão. No dia seguinte dei uma chegada na barbearia, é, ele também tem família e fiz as pazes com o barbeiro. Cortei minha juba sem dó nem piedade, como se diz. Pedi que ele fizesse o corte o mais parecido possível com grande artista do tango, o resultado final ficou excelente, eu é que estranhei para cacete a falta do cabelão. O traje estava completo, quer dizer quase, faltava o chapéu, que não deu mesmo e, sendo assim e por falta também do sapato no verniz, eu resolvi dar um toque sutil que representasse os tempos atuais e, separei como complemento um tênis como calçado.
No dia da apresentação, eu levei tudo dentro de uma bolsa: terno, camisa branca social, gravata preta, cinto, pente, gumex – Como já dizia Ary Barroso: “Dura lex sed lex, no cabelo só Gumex” - o tênis já estava nos pés. Eu deixei para me preparar no camarim, assim ninguém me veria antes do momento, até para o meu pequeno fã clube seria surpresa e, reservei uma estratégia que me veio à cabeça ainda no camarim, que seria....
Bem, recordando um pouco: Depois de ter a ideia, batalhar e conseguir juntar os apetrechos que dariam forma a personagem, finalmente chegara o dia e eu agora me encontrava no apertado camarim, disputando espaço para ficar pronto antes da chamada. O festival já havia começado e, como a entrada para o palco era um pequeno corredor colado ao camarim, a movimentação era intensa, mas havia organização, só ficavam de três em três participantes anteriores ao do palco. O que tornava o espaço apertado, eram as bandas, que nesse caso tinham mais de uma pessoa para entrar. Eu me preparava, enquanto meus companheiros esperavam e claro me ajudavam. Tiro a roupa do corpo, coloco a roupa da apresentação, ajeito a gravata – detalhe que eu não sabia, mas aprendi, dar o nó na gravata – umedeço o cabelo e aplico o fixador, pego o pente e faço o penteado idêntico ao do grande cantor, me olho no espelho e vejo Gardel, olho para o chão e me vejo através do tênis, mas agora não sou mais eu e sim “CARLOS GARDEL! ”. Nesse momento me veio à cabeça a tal estratégia. Chamei o guitarrista e avisei-o de que não entraria junto com a banda, ele por alguns segundos se espantou, mas logo tranquilizei-o explicando o motivo: Naquele instante eu vislumbrei a possibilidade de algo maior; eles entrariam após a chamada do apresentador e ele pediria ao mesmo que levasse a entrada do palco o microfone até as minhas mãos; a banda faria a introdução e eu começaria a cantar ainda atrás da cortina em direção ao palco, isso certamente causaria um choque, visto que eu estaria todo transformado. Ele captou a ideia de imediato, comunicou aos outros, que de cara aprovaram e assim ficou combinado. Eu estava muito nervoso, mas como já falei, não com medo, apenas ansioso para pisar no palco e desempenhar o que havia desenhado na cabeça. Não seria um improviso, pois já havia me apresentado, mas caracterizado seria o diferencial. Havia estudado um pouco, não muito, o gestual de um cantor de tango, principalmente Gardel, contudo teria que improvisar, pois nada sabia sobre a milonga, teria que ser na expressão corporal. A milonga, culturalmente não era nosso, então, sem muita informação o melhor era misturar com o nosso gingado do malandro de samba.
A voz do apresentador anunciava que era a nossa vez. Assim que acabou, a banda entrou e guitarrista foi ter com ele para que levasse o microfone até onde eu estava, na entrada para o palco atrás da cortina nos bastidores. Enquanto a banda se arrumava, ouvia-se um murmúrio vindo da plateia, que eu já supunha ser a grande interrogação que pairava sobre suas cabeças, latejando intermitentemente a respeito da minha ausência. Eu havia desligado o microfone, para não escapulir nenhum ruído e só ligaria quando tudo estivesse pronto. Instrumentos plugados, som na medida, todos prontos, começa a contagem. A introdução veio em seguida ao término da contagem, aproveitei para ligar o microfone e quando chegou no acorde que indicava a minha entrada, comecei a cantar ainda sem aparecer e fui lentamente me dirigindo ao centro do palco. Quando a minha voz soou, já expulsei a interrogação, quando a minha presença descortinou, a plateia não se conteve e a reação viera a confirmar o que eu havia desenhado na minha cabeça. Eram assobios, aplausos; mais da metade de pé; os jurados sorriam e, eu saboreando todo aquele momento. O artista as vezes, em grandes momentos de interpretação, acaba colocando a música em segundo plano, mas não foi o meu caso, pois todos estavam esperando ansiosamente pelo refrão. Claro que eu tenho méritos, a música por si só era pequena. Eu desenvolvi toda uma apresentação a partir do apelo de um refrão, então, o que poderia passar batido se tornou um hit, mas, não fosse a minha voz, desenvoltura, inventividade, tudo teria sido apenas normal. Do primeiro refrão cantado, até o último, o público participou entusiasticamente. Foram minutos de muita felicidade, longe de qualquer vaidade.
Terminada a apresentação, sob aplausos mil, me retirei com a sensação do objetivo mais que alcançado. Depois de me desconstruir; de me acalmar; de normalizar o batimento cardíaco; de descer das nuvens, é que reuni condições para comemorar com os meus amigos a nossa performance. Os músicos, exceto o guitarrista, tinham compromisso para tocar e, já estavam com o tempo contado, por isso, em seguida, se despediram de nós desejando o melhor e lamentavam não poder ficar para ver o resultado. Os caras contribuíram por amizade e amor a música, sem ganhar nada, sem pedir nada em troca, nós procuramos demonstrar quão importante fora essa doação; palavras, abraços, palavras, sorrisos, palavras, tudo parecia pouco, para nós, para eles, estava tudo certo. Na simplicidade está a beleza da vida. Complicar é uma criação humana. Eu não sou um filósofo, historiador, pensador, longe disso, mas penso, portanto, existo e por existir e pensar, é que as vezes me pego refletindo a natureza humana. Nascemos completamente despidos, não só de roupas, mas principalmente de conceitos. Nunca seremos perfeitos, mas a perfeição nos habita. A máquina que faz o ser humano funcionar é perfeita. Divaguei. Resumindo: o ser humano entre tantas virtudes, em contrapartida aos pecados, tem essa disponibilidade, esse desprendimento, esse sentimento, esse instinto, além de se auto preservar, de auxiliar, de ajudar, de contribuir para o próximo, então quando acontece nós agradecemos muito, por não ser, como deveria ser, uma ação tão normal quanto respirar. Ainda bem que tínhamos amigos na plateia, não deu para ficar com a sensação de abandono, nos juntamos rapidamente ao grupo e fomos assistir o que restava do festival e, esperarmos o veredicto. Até chegarmos aonde estavam os nossos amigos, muitas pessoas me pararam para me cumprimentar, quase todos cantavam um pouco do refrão e, parabenizavam entusiasmados, mostrando admiração. A sensação era boa, apesar de tudo conspirar a favor, eu não queria colocar a carroça a frente dos burros, então, me desliguei desse pensamento e fui apreciar os meus concorrentes. O nível era bom e nós comentávamos, a cada música, que ganhar o festival seria muito difícil. No intervalo entre uma música e outra, todos tinham a mesma sensação, era praticamente unânime a questão, o que todos se agarravam e torciam era pelo outro prêmio, havia uma possibilidade bem forte, então não nos restava muito a fazer, se não esperar.
As apresentações chegavam ao seu final, faltavam poucos e, daqui a instantes todos os participantes entrariam no processo de expectativas. Cada um no seu íntimo, tinha uma sensação, apreensão diferente, mas o pensamento derradeiro era praticamente o mesmo. Num festival de música o vencedor nem sempre é a melhor música. Lendo assim de prima soa como uma incoerência, mas você sabe que eu não estou longe da verdade. É chato ter que escrever isso, mas eu não posso fugir a verdade, você talvez discorde, tem todo o direito. Eu penso que muitas, mas nem todas as formas de competições, podem sofrer interferência de terceiros e ter resultado final injusto. Eu já presenciei vários que foram verdadeiros desastres, cominando nessa injustiça. Eu escrevo sobre esse assunto, mas eu mesmo não entro em festival para ganhar, outra incoerência... não... eu explico: Para mim o festival serve para avaliar o trabalho musical e a performance; para interagir com outros músicos, compositores e cantores; para sentir a receptividade da plateia e, para ganharmos mais experiência. Tá legal, existem prêmios em dinheiro e é muito bom ganhá-los, mas é bem melhor quando a gente consegue unir a apresentação e o público numa mesma sintonia. Aí meu caro leitor, é o orgasmo musical. Diversas vezes eu pude ver isso acontecer e ver cantores e compositores, quando o mesmo não exerce a mesma função, sendo aclamados pala plateia após ser anunciado o resultado final. Nesses casos, mesmo quem estava torcendo por um outro concorrente, reconhece o vencedor merecedor do prêmio. Bem, vou parar por aqui, pois os jurados acabam de retornar aos seus lugares e, isso indica que será anunciado os vencedores nas seguintes condições e seus respectivos prêmios: 3º, 2º, e 1º lugar, o vencedor, além do prêmio de melhor intérprete. O terceiro e o segundo lugar receberão apenas um troféu cada, mas o primeiro lugar e o melhor intérprete, a esses, além do troféu, estava reservado um prêmio em dinheiro.
O apresentador comunicou que já estava com lista na mão, portanto daria início a chamada, mas antes lembrou que como o regulamento previa, seriam chamados o terceiro lugar e o segundo lugar e, antes do vencedor, seria anunciado o melhor intérprete que além do prêmio, faria uma breve apresentação para o público e só depois viria o primeiro lugar e a respectiva apresentação, finalizando assim o festival. Não sem antes ser ressaltada a importância dos colaboradores e organizadores e, demais incentivos para realização do evento. Ele pigarreou fora do microfone, era o sinal de que começaria, todos estavam voltados para o palco, momento de grande expectativa. Posicionando-se frente ao microfone proferiu a primeira sentença, anunciando, chamou o terceiro lugar, aplausos, seguido da cerimônia de entrega do respectivo prêmio. Voltou-se, após suas duas assistentes retirarem o premiado, e de novo diante do microfone anunciou o segundo lugar, de certa forma se repetiu o ritual anterior. Não menosprezando os anteriores, mas agora começava a fase de maior importância, por isso, diante de tal, o apresentador aproveitou para fazer charme, brincadeiras, a plateia delirava ansiosamente e, finalmente empertigando-se anunciou o melhor intérprete: Eu. Eu fui o escolhido, o premiado. O público aplaudia, gritava. Não cabia em mim tanta felicidade. Saltei do banco, com dezenas de mãos me batendo no corpo, em direção ao palco, esse momento era meu, único. As assistentes me recepcionaram e me passaram os prêmios. O público gritava pedindo para eu cantar. O apresentador me felicitou, me estendeu o microfone e fazendo um gesto com a mão, apontou para a plateia. Eu não tinha discurso preparado, então foi no improviso. Primeiro agradeci a escolha, depois ao público, posteriormente aos meus companheiros e aproveitei para informar que a banda não estava completamente presente, pois os músicos tinham compromissos e então só restavam eu e o guitarrista, mas que eu não deixaria de cantar, só que seria voz e guitarra. Meu companheiro subiu, plugou o instrumento e depois de testar som e afinação, virou-se para mim mostrando que estava tudo certo.
A partir desse momento, achar palavras para descrever sentimentos múltiplos, torna-se para mim uma tarefa árdua. Como explicar que eu saltei do posto de cantor para o de regente de coral em fração de segundos. Só dizendo em poucas palavras, que eu não cantei uma vez sequer o refrão, pois a plateia o fazia sob a minha batuta, obedecendo cada movimento como se tivéssemos ensaiado há meses. Cantar acompanhado só da guitarra, tornou a apresentação mais íntima, aconchegante, claro que com o prêmio debaixo do braço, o corpo e a mente mais leves, os erros agora podiam até acontecer e, as falhas na voz embargada pela emoção, seriam compreendidas, contudo, eu me mantive firme e junto com a plateia fizemos um espetáculo maravilhoso. Essa resposta vinda do público é para o artista o apogeu. Sim, me senti nos braços da galera. Que me perdoem, não é falta de modéstia, mas a música que ganhou, merecidamente, o festival, foi ofuscada pela minha premiação e apresentação, tal a identificação do público comigo. Eu roubei a cena. Fazer o quê? Era o meu momento.
Não faz tanto tempo assim, não havia internet e pouca gente tinha telefone fixo e, isso nunca foi um entrave, pelo contrário, vivíamos muito bem, quiçá melhor. Então, sem e-mail ou WhatsApp, ficamos esperando (funcionava muito bem) o correio nos trazer a correspondência que confirmaria as nossas convicções. Não demorou muito, chegou o convite oficial para participarmos do festival, estávamos classificados, como esperávamos. A partir daí o guitarrista foi confirmar com os rapazes se no dia da apresentação eles não teriam compromissos em algum evento. Feito a sondagem e, recebida a resposta de não haver impedimento, começamos os preparativos para a competição.
O festival era um incentivo cultural da prefeitura de Duque de Caxias e, como responsável estava à frente, participando da secretária de cultura, o nosso personagem central: Chico Chicão. Homem de cultura e incentivador das várias formas de expressão dentro das artes. A música era seu combustível maior. Músico, compositor, cantor, produtor, arranjador e, principalmente incentivador de novos talentos, bandas e cantores independentes. Um festival organizado por uma pessoa dessas, estava fadado ao sucesso, sem sombra de dúvida. Fomos convidados para uma reunião só para os participantes e a equipe organizadora e, depois da reunião ficamos um pouco mais, aproveitando que o nível da conversa havia sido gratificante, fizemos uma boa amizade com o Chico. Ficamos, depois da reunião, horas papeando sobre música; sobre suas atividades; sobre o festival, que ele queria transforma-lo numa referência, ficamos encantados com a pessoa e o sentimento era recíproco e, ali nascia uma grande amizade.
O festival seria realizado na câmara dos vereadores, espaço com sistema de som e acústica adequados, precisando apenas de alguns ajustes, mas com capacidade para receber um bom número de público. O evento recebeu grande divulgação pelos meios de comunicação do município: Rádios locais, faixas, carros de som, enfim, tudo o que se podia usar para convidar a comunidade. Os jurados foram escolhidos a dedo; pessoas que viviam para e de arte: Professor de música, músico, escritor, diretor teatral, professor da língua portuguesa, enfim, uma baita seleção. Como estava perto do meu quintal, pude contar com uma pequena torcida, que antecedendo o dia da apresentação já se movimentava em pequenos detalhes para chegar na hora e produzir apoio. Quando lá cheguei para a primeira fase, pude confirmar, no meio do público, os meus amigos e fãs, apostos, prontos para me incentivar. Era a fase classificatória, eu já havia passado por essa agonia, sabia que a decisão estaria nas mãos dos jurados, mas tudo dependia de como nos saíssemos no palco. Eu já trazia uma certa experiência nesse tipo de apresentação, agora as pernas não tremeriam mais, mas o frio na barriga ainda existia, essa sensação eu penso que não é medo, pelo contrário, é uma enorme vontade de subir no palco e mostrar tudo aquilo que você ensaiou, talvez até tirar um coelho da cartola e se surpreender, mostrando principalmente a você mesmo que céu é o limite. Sair da zona de conforto, normalmente é um incômodo, não que seja para todo mundo, mas para muitos é sim. Tem gente que gosta de se exibir, isso é outra coisa. Tem gente que sente bem sendo sempre o observador, jamais se admite no lugar do observado, essas pessoas nessa situação travam. Eu, não sou nem o exibido, nem apenas o observador, sou por natureza provido do que se pode chamar de observido ou exibador, tenho um pouco de cada dentro de mim, numa proporção equilibrada que me faz observar aprendendo e quando sinto o terreno firme que me permite roubar a cena, me lanço sem medo e me exibo. Não sou nenhum fenômeno, mas percebi que consigo entreter uma plateia.
O palco começava a ser a extensão dos meus sonhos, do meu quarto, do meu quintal em dias de violada, das reuniões com os amigos e com os amigos dos amigos e de repente eram pessoas completamente desconhecidas e que certamente fariam seus próprios julgamentos. A unanimidade nunca existiria, mas a graça está justamente aí, na diferença de gostos. Por outro lado, receber a atenção e o afago da maioria, fora do seu terreno, é sinal de que o seu trabalho foi bem realizado. Mais uma vez estávamos prontos para descobrir e descortinar o futuro. Me coloquei no centro do palco a frente dos meus companheiros, me preparando assim para a apresentação. Certos cantores ou cantoras ao se apresentarem diante do público costumam usar uma roupa elegante, mesmo num festival, eu não havia preparado nada diferente ou especial, apesar de haver camarim para o artista se arrumar. A introdução foi realizada a contento e quando soltei a minha voz o retorno veio satisfatório. Cantei a primeira parte me preparando para o refrão, que eu sabia que seria algo que mudaria radicalmente o comportamento da plateia; seria como se estivesse distraído e algo provocasse repentinamente toda a sua atenção. Não deu outra, assim que acabei de cantar o referido refrão, o público quase silenciou e passou a me observar. Continuando e agora cantando a segunda parte, eu já comecei a imaginar o gestual que faria quando chegasse no refrão. Nada exagerado, apenas um pouco de interpretação teatral, usando de expressão corporal o que a letra subentendia. Dessa vez, a plateia veio ao delírio. A música foi para um pequeno solo, ao término eu voltaria para repetir a segunda parte e todos já esperavam eu finalizar com o refrão. A partir desse momento eu era o centro das atenções, o microfone estava fora do pedestal, sendo empunhado por mim, que dominava completamente a plateia e os conduzia com maestria. No Grand finale a plateia uníssona me acompanhava. Apresentação feita, a consagração veio através da manifestação calorosa que o público demostrou. Missão comprida.
Depois, passeando no meio do pessoal, era abordado por alguns, eles repetiam o refrão como forma de reconhecimento, pude observar um pouco mais do festival e sentir o que estávamos enfrentando, para saber se tínhamos alguma chance de classificação. Bem, vocês não estão nem um tantinho curiosos para saber que porra de refrão é esse que causou tanto...?
Vivíamos na época um regime militar, portanto qualquer manifestação contrária, por menor que fosse, poderia ser considerada Antigoverno e, isso poderia resultar em sérios problemas. Nós não participávamos de nenhum movimento, mas também não éramos pró-governo, o que fazíamos era tentar ser feliz mesmo diante de tal situação. Quando o guitarrista compôs a música, ele escreveu uma letra subentendida, com traços de insatisfação, mas para apresentar ao público tivera que amenizar, então tínhamos a seguinte situação: “Pois nessa vida sem vida, nós somos ébrios quaisquer, estranho final num porão, chorando por uma mulher, e o arlequim que passa, com tanta alegria e tal, me faz ver que a tristeza termina no carnaval. AAAAAIIIIIIII! Meus foliões, meus foliões, meus foliões. E depois de muito andar, agora sei o que é, estranho final numa prisão, morrendo pelo que quer, e os homens que agora passam, com tanta frieza e tal, me faz ver que a opressão continua depois do carnaval. AAAAIIIIII! Meus foliões, meus foliões, meus foliões”. Para amenizar um pouquinho, só retiramos a palavra “opressão” que tem como definição: tirania, mão de ferro, abuso, despotismo e colocamos “tristeza”, mas o refrão, este, quando cantado, se confundia com: “AAAAIIII! Meus culhões, meus culhões, meus culhões”.
Quando acabaram as apresentações, ficamos à espera da lista dos classificados, que retornariam no próximo sábado. Enquanto os jurados se reuniam, surgiu não sei de onde, um boato de que eu estaria cotadíssimo para o prêmio de melhor intérprete. A princípio era apenas uma tênue possibilidade, mas conforme foi avançando o tempo e assim que saiu a lista dos classificados e nós estávamos entre os citados, o boato ganhou força ao ponto de me fazer acreditar sim nessa possibilidade. Saímos do local felizes pela classificação, ainda ouvindo o refrão sendo cantado por alguém na multidão e fomos bebemorar que ninguém é de ferro. Já na volta, me veio à cabeça que eu devia fazer alguma coisa diferente para incrementar mais ainda a apresentação, mas o quê? Fiquei entre os amigos, brincando, lembrando, bebendo, gargalhando, mas no meio disso tudo a ideia vinha e voltava a sumir como uma aparição, muda, vazia, enevoada, foi assim até que, voltou e aos poucos foi se revelando e quando dei por mim estava diante do maior cantor, que dizem ser de origem francesa, uruguaia e argentina, não importa, o que importa é que ele foi o maior intérprete de tango que eu nem conhecera, mas que conhecia a sua história ou parte, pelo menos, contada pelos mais velhos, livros e revistas: “Carlos Gardel”. Quando contei para o pessoal, uns não sabiam quem foi; outros pouco sabiam, mas sabiam e um mínimo já haviam lido sobre. Comecei ali mesmo a construir para a minha pequena plateia, o que seria e o que eu precisaria para minha transformação: Gardel era branco, assim como eu; era magro, eu também; tinha o cabelo cheio, mas cortado acima da orelha e feito o pé, para amansá-lo usava muito gel e repartia ao lado, mas não muito do lado, aí existia uma grande diferença, eu tinha, assim como praticamente todos, uma vasta cabeleira e além disso ele era muito elegante, só se apresentava de terno, gravata e chapéu e eu nunca havia usado ou colocado um, quanto mais o outro. Feita a apresentação da transformação, meus amigos quiseram saber como eu faria para conseguir juntar tudo. Bem, eu argumentei, que só restavam dois obstáculos, mas que o primeiro era simples, o cabelo. Eu ia pesquisar o corte e cortá-lo, quanto ao terno e o chapéu precisava de ajuda. Alguém lembrou que o pai da minha namorada, certamente teria um terno e que ele era magrinho assim como eu. Guardei na memória e continuamos procurando mais opções. Dentro do grupo que ali se encontrava, só o guitarrista foi quem levantou a hipótese de possuir uma outra alternativa. Ele me lembrou que um amigo em comum, vizinho, que vez por outra, nós éramos convidados a sua residência para tocarmos violão, jogar conversa fora, cerveja, enfim, confraternizar uma noite inteira até amanhecer e que seu pai que também participava até uma certa hora da violada, talvez tivesse esse tipo de vestimenta, o manequim não era tão distante. Concordei, mas esperava resolver já na primeira tentativa.
No dia seguinte, acordei cheio de esperança; havia dormido na casa da minha namorada. Mal acabei de tomar café, fui ter com o meu futuro sogro para saber se ele possuía um terno escuro. A resposta não poderia ser melhor, tinha até dois. Alegou que eram antigos, penso que não poderia ser mais adequado, fato que concordou quando expliquei para o que eu queria. Trouxe ambos, mas já no primeiro, eu arrefeci quando vesti o paletó, havia esquecido desse detalhe, ele era menor do que eu, portanto, tanto o paletó quanto a calça ficavam curtos. Agora só me restava o pai do nosso amigo, mas para isso eu teria que esperar, pois ele morava distante dali, mas perto da minha casa, então, só no dia seguinte ou outro dia. Enquanto isso, aproveitei para pesquisar com o pai da minha namorada sobre o Gardel, as informações foram muito detalhadas, é, não tínhamos o google para isso. Ele trouxe vinil para ouvirmos e algumas fotos. A semana começou e eu me encontrei com o guitarrista, que me informou já ter conversado com o pai do nosso amigo e que ele estava me esperando a qualquer hora. Não demorei muito, pois o tempo era curto e se não desse certo eu ficaria encurralado. Ele me recebeu com o seu sorriso e alegria de costume, convidou-me para entrar e logo avisou que iria buscar o terno, não sem antes me confidenciar que era o terno do seu casamento, que o havia guardado esses anos todos e que eu não me preocupasse, que apesar da barriga, na época ele era fininho, portanto, achava que cairia como uma luva. Fiquei na sala esperançoso. Ao regressar, pude ver que o terno era preto, o que era bom, tirou do cabide e abrindo-o me convidou a colocar o primeiro braço, após, enfiei o segundo por dentro do paletó e ajudado por ele fomos ajeita-lo no corpo. Não experimentei nem a calça, se o paletó ficara bom, a outra peça não me deixaria na mão. Agradeci muito, perguntei se precisa lavar e prometi devolve-lo sem avarias. Parti para casa com uma alegria imensa por dentro, com uma vontade de mostra-la a todos, mas ainda bem que não o fiz, pois ninguém ia entender. Em casa verifiquei que a calça ficava um pouco larga, mas nada que um cinto não resolvesse a questão. No dia seguinte dei uma chegada na barbearia, é, ele também tem família e fiz as pazes com o barbeiro. Cortei minha juba sem dó nem piedade, como se diz. Pedi que ele fizesse o corte o mais parecido possível com grande artista do tango, o resultado final ficou excelente, eu é que estranhei para cacete a falta do cabelão. O traje estava completo, quer dizer quase, faltava o chapéu, que não deu mesmo e, sendo assim e por falta também do sapato no verniz, eu resolvi dar um toque sutil que representasse os tempos atuais e, separei como complemento um tênis como calçado.
No dia da apresentação, eu levei tudo dentro de uma bolsa: terno, camisa branca social, gravata preta, cinto, pente, gumex – Como já dizia Ary Barroso: “Dura lex sed lex, no cabelo só Gumex” - o tênis já estava nos pés. Eu deixei para me preparar no camarim, assim ninguém me veria antes do momento, até para o meu pequeno fã clube seria surpresa e, reservei uma estratégia que me veio à cabeça ainda no camarim, que seria....
Bem, recordando um pouco: Depois de ter a ideia, batalhar e conseguir juntar os apetrechos que dariam forma a personagem, finalmente chegara o dia e eu agora me encontrava no apertado camarim, disputando espaço para ficar pronto antes da chamada. O festival já havia começado e, como a entrada para o palco era um pequeno corredor colado ao camarim, a movimentação era intensa, mas havia organização, só ficavam de três em três participantes anteriores ao do palco. O que tornava o espaço apertado, eram as bandas, que nesse caso tinham mais de uma pessoa para entrar. Eu me preparava, enquanto meus companheiros esperavam e claro me ajudavam. Tiro a roupa do corpo, coloco a roupa da apresentação, ajeito a gravata – detalhe que eu não sabia, mas aprendi, dar o nó na gravata – umedeço o cabelo e aplico o fixador, pego o pente e faço o penteado idêntico ao do grande cantor, me olho no espelho e vejo Gardel, olho para o chão e me vejo através do tênis, mas agora não sou mais eu e sim “CARLOS GARDEL! ”. Nesse momento me veio à cabeça a tal estratégia. Chamei o guitarrista e avisei-o de que não entraria junto com a banda, ele por alguns segundos se espantou, mas logo tranquilizei-o explicando o motivo: Naquele instante eu vislumbrei a possibilidade de algo maior; eles entrariam após a chamada do apresentador e ele pediria ao mesmo que levasse a entrada do palco o microfone até as minhas mãos; a banda faria a introdução e eu começaria a cantar ainda atrás da cortina em direção ao palco, isso certamente causaria um choque, visto que eu estaria todo transformado. Ele captou a ideia de imediato, comunicou aos outros, que de cara aprovaram e assim ficou combinado. Eu estava muito nervoso, mas como já falei, não com medo, apenas ansioso para pisar no palco e desempenhar o que havia desenhado na cabeça. Não seria um improviso, pois já havia me apresentado, mas caracterizado seria o diferencial. Havia estudado um pouco, não muito, o gestual de um cantor de tango, principalmente Gardel, contudo teria que improvisar, pois nada sabia sobre a milonga, teria que ser na expressão corporal. A milonga, culturalmente não era nosso, então, sem muita informação o melhor era misturar com o nosso gingado do malandro de samba.
A voz do apresentador anunciava que era a nossa vez. Assim que acabou, a banda entrou e guitarrista foi ter com ele para que levasse o microfone até onde eu estava, na entrada para o palco atrás da cortina nos bastidores. Enquanto a banda se arrumava, ouvia-se um murmúrio vindo da plateia, que eu já supunha ser a grande interrogação que pairava sobre suas cabeças, latejando intermitentemente a respeito da minha ausência. Eu havia desligado o microfone, para não escapulir nenhum ruído e só ligaria quando tudo estivesse pronto. Instrumentos plugados, som na medida, todos prontos, começa a contagem. A introdução veio em seguida ao término da contagem, aproveitei para ligar o microfone e quando chegou no acorde que indicava a minha entrada, comecei a cantar ainda sem aparecer e fui lentamente me dirigindo ao centro do palco. Quando a minha voz soou, já expulsei a interrogação, quando a minha presença descortinou, a plateia não se conteve e a reação viera a confirmar o que eu havia desenhado na minha cabeça. Eram assobios, aplausos; mais da metade de pé; os jurados sorriam e, eu saboreando todo aquele momento. O artista as vezes, em grandes momentos de interpretação, acaba colocando a música em segundo plano, mas não foi o meu caso, pois todos estavam esperando ansiosamente pelo refrão. Claro que eu tenho méritos, a música por si só era pequena. Eu desenvolvi toda uma apresentação a partir do apelo de um refrão, então, o que poderia passar batido se tornou um hit, mas, não fosse a minha voz, desenvoltura, inventividade, tudo teria sido apenas normal. Do primeiro refrão cantado, até o último, o público participou entusiasticamente. Foram minutos de muita felicidade, longe de qualquer vaidade.
Terminada a apresentação, sob aplausos mil, me retirei com a sensação do objetivo mais que alcançado. Depois de me desconstruir; de me acalmar; de normalizar o batimento cardíaco; de descer das nuvens, é que reuni condições para comemorar com os meus amigos a nossa performance. Os músicos, exceto o guitarrista, tinham compromisso para tocar e, já estavam com o tempo contado, por isso, em seguida, se despediram de nós desejando o melhor e lamentavam não poder ficar para ver o resultado. Os caras contribuíram por amizade e amor a música, sem ganhar nada, sem pedir nada em troca, nós procuramos demonstrar quão importante fora essa doação; palavras, abraços, palavras, sorrisos, palavras, tudo parecia pouco, para nós, para eles, estava tudo certo. Na simplicidade está a beleza da vida. Complicar é uma criação humana. Eu não sou um filósofo, historiador, pensador, longe disso, mas penso, portanto, existo e por existir e pensar, é que as vezes me pego refletindo a natureza humana. Nascemos completamente despidos, não só de roupas, mas principalmente de conceitos. Nunca seremos perfeitos, mas a perfeição nos habita. A máquina que faz o ser humano funcionar é perfeita. Divaguei. Resumindo: o ser humano entre tantas virtudes, em contrapartida aos pecados, tem essa disponibilidade, esse desprendimento, esse sentimento, esse instinto, além de se auto preservar, de auxiliar, de ajudar, de contribuir para o próximo, então quando acontece nós agradecemos muito, por não ser, como deveria ser, uma ação tão normal quanto respirar. Ainda bem que tínhamos amigos na plateia, não deu para ficar com a sensação de abandono, nos juntamos rapidamente ao grupo e fomos assistir o que restava do festival e, esperarmos o veredicto. Até chegarmos aonde estavam os nossos amigos, muitas pessoas me pararam para me cumprimentar, quase todos cantavam um pouco do refrão e, parabenizavam entusiasmados, mostrando admiração. A sensação era boa, apesar de tudo conspirar a favor, eu não queria colocar a carroça a frente dos burros, então, me desliguei desse pensamento e fui apreciar os meus concorrentes. O nível era bom e nós comentávamos, a cada música, que ganhar o festival seria muito difícil. No intervalo entre uma música e outra, todos tinham a mesma sensação, era praticamente unânime a questão, o que todos se agarravam e torciam era pelo outro prêmio, havia uma possibilidade bem forte, então não nos restava muito a fazer, se não esperar.
As apresentações chegavam ao seu final, faltavam poucos e, daqui a instantes todos os participantes entrariam no processo de expectativas. Cada um no seu íntimo, tinha uma sensação, apreensão diferente, mas o pensamento derradeiro era praticamente o mesmo. Num festival de música o vencedor nem sempre é a melhor música. Lendo assim de prima soa como uma incoerência, mas você sabe que eu não estou longe da verdade. É chato ter que escrever isso, mas eu não posso fugir a verdade, você talvez discorde, tem todo o direito. Eu penso que muitas, mas nem todas as formas de competições, podem sofrer interferência de terceiros e ter resultado final injusto. Eu já presenciei vários que foram verdadeiros desastres, cominando nessa injustiça. Eu escrevo sobre esse assunto, mas eu mesmo não entro em festival para ganhar, outra incoerência... não... eu explico: Para mim o festival serve para avaliar o trabalho musical e a performance; para interagir com outros músicos, compositores e cantores; para sentir a receptividade da plateia e, para ganharmos mais experiência. Tá legal, existem prêmios em dinheiro e é muito bom ganhá-los, mas é bem melhor quando a gente consegue unir a apresentação e o público numa mesma sintonia. Aí meu caro leitor, é o orgasmo musical. Diversas vezes eu pude ver isso acontecer e ver cantores e compositores, quando o mesmo não exerce a mesma função, sendo aclamados pala plateia após ser anunciado o resultado final. Nesses casos, mesmo quem estava torcendo por um outro concorrente, reconhece o vencedor merecedor do prêmio. Bem, vou parar por aqui, pois os jurados acabam de retornar aos seus lugares e, isso indica que será anunciado os vencedores nas seguintes condições e seus respectivos prêmios: 3º, 2º, e 1º lugar, o vencedor, além do prêmio de melhor intérprete. O terceiro e o segundo lugar receberão apenas um troféu cada, mas o primeiro lugar e o melhor intérprete, a esses, além do troféu, estava reservado um prêmio em dinheiro.
O apresentador comunicou que já estava com lista na mão, portanto daria início a chamada, mas antes lembrou que como o regulamento previa, seriam chamados o terceiro lugar e o segundo lugar e, antes do vencedor, seria anunciado o melhor intérprete que além do prêmio, faria uma breve apresentação para o público e só depois viria o primeiro lugar e a respectiva apresentação, finalizando assim o festival. Não sem antes ser ressaltada a importância dos colaboradores e organizadores e, demais incentivos para realização do evento. Ele pigarreou fora do microfone, era o sinal de que começaria, todos estavam voltados para o palco, momento de grande expectativa. Posicionando-se frente ao microfone proferiu a primeira sentença, anunciando, chamou o terceiro lugar, aplausos, seguido da cerimônia de entrega do respectivo prêmio. Voltou-se, após suas duas assistentes retirarem o premiado, e de novo diante do microfone anunciou o segundo lugar, de certa forma se repetiu o ritual anterior. Não menosprezando os anteriores, mas agora começava a fase de maior importância, por isso, diante de tal, o apresentador aproveitou para fazer charme, brincadeiras, a plateia delirava ansiosamente e, finalmente empertigando-se anunciou o melhor intérprete: Eu. Eu fui o escolhido, o premiado. O público aplaudia, gritava. Não cabia em mim tanta felicidade. Saltei do banco, com dezenas de mãos me batendo no corpo, em direção ao palco, esse momento era meu, único. As assistentes me recepcionaram e me passaram os prêmios. O público gritava pedindo para eu cantar. O apresentador me felicitou, me estendeu o microfone e fazendo um gesto com a mão, apontou para a plateia. Eu não tinha discurso preparado, então foi no improviso. Primeiro agradeci a escolha, depois ao público, posteriormente aos meus companheiros e aproveitei para informar que a banda não estava completamente presente, pois os músicos tinham compromissos e então só restavam eu e o guitarrista, mas que eu não deixaria de cantar, só que seria voz e guitarra. Meu companheiro subiu, plugou o instrumento e depois de testar som e afinação, virou-se para mim mostrando que estava tudo certo.
A partir desse momento, achar palavras para descrever sentimentos múltiplos, torna-se para mim uma tarefa árdua. Como explicar que eu saltei do posto de cantor para o de regente de coral em fração de segundos. Só dizendo em poucas palavras, que eu não cantei uma vez sequer o refrão, pois a plateia o fazia sob a minha batuta, obedecendo cada movimento como se tivéssemos ensaiado há meses. Cantar acompanhado só da guitarra, tornou a apresentação mais íntima, aconchegante, claro que com o prêmio debaixo do braço, o corpo e a mente mais leves, os erros agora podiam até acontecer e, as falhas na voz embargada pela emoção, seriam compreendidas, contudo, eu me mantive firme e junto com a plateia fizemos um espetáculo maravilhoso. Essa resposta vinda do público é para o artista o apogeu. Sim, me senti nos braços da galera. Que me perdoem, não é falta de modéstia, mas a música que ganhou, merecidamente, o festival, foi ofuscada pela minha premiação e apresentação, tal a identificação do público comigo. Eu roubei a cena. Fazer o quê? Era o meu momento.
sábado, 13 de maio de 2017
Capítulo 49 – EU SOU TÍMIDO
Depois que definitivamente acabou a casa de
festa, eu fui convidado a tocar num bar chamado “esquina do vinho”, era no
mesmo bairro, três quarteirões de distância. Já citei em capítulos anteriores,
mas é sempre bom lembrar. A diferença apesar de existir, não era gritante,
apenas diferente. O espaço era menor; o som era melhor; o público misturado;
muitos conhecidos foram e a casa já possuía basicamente fregueses cativos,
então, o grande desafio foi conquistar os novos ouvintes. Com o passar do tempo
já me encontrava familiarizado, tirando um ou outro esporádico pedido que eu
não gostava, com quase cem por cento do público aprovando o que ouvia. Com
relação aos pedidos que eu não gostava, evidentemente que eu não sabia também,
em virtude da primeira alegação, eu, assim como cada um, tinha um jeito de sair
da saia justa, procurava sair sem provocar suscetibilidades. Quem trabalha com
arte tem que estar sempre em processo de renovação, mas nunca, jamais, esquecer
daqueles que se tornaram eternos. Uma releitura bem-feita sempre será
bem-vinda, mas também mantê-la no original se fores capaz, melhor ainda.
Afinal, preservar ainda é melhor do que mexer, mudar, descaracterizar. Em se
tratando de música, tirando a música clássica e folclórica, que eu me lembre assim
de momento, ou seja, música popular, sempre teremos vários arranjos de acordo
com o cantor e seu estilo. Aparecia uma novidade tocando nas rádios, era quase
uma obrigação aprende-la, contudo, pelo menos no meu caso, havia limites quanto
ao estilo. Não se trata de falha, trata-se de personalidade. Nem tudo que reluz
é ouro. Existe o ouro de tolo. Apesar de ser um sucesso nacional até os dias de
hoje, eu praticamente, e olha que a quantidade de música é grande, não tocava
músicas do Roberto Carlos. Quando digo praticamente, é porque eu cantava umas
duas ou três e só. Já Caetano, Gil, Chico, Djavan, Milton, Lô, Beto, Venturini,
Ivan, Sá, Rodrix e Guarabira, Guilherme, Raul, Lulu, Zé, Geraldinho, Alceu,
Toquinho, Vinícius, Tom, Cazuza, só para citar alguns, eu cantava quase o
repertório completo. Com tantos estilos distintos, alguns músicos cantavam
próximo do original, eu não, para cada música eu colocava a minha assinatura.
Isso dava certo. As pessoas ouviam as músicas que conheciam e passavam a
conhecer e gostar do intérprete que ali estava. A maioria das casas que
funcionam a noite, algumas até durante o dia, voltadas para um público que
frequenta com a finalidade de apenas petiscar, beber e conversar, mesmo que
tenha uma data comemorativa, costumam colocar música ao vivo. Uma boa parte dos
profissionais da noite, acabam arregimentando uma legião de fãs. Quando isso
acontece, esse profissional acaba sendo disputado e, consequentemente eleva o
seu cachê. As formas de pagamentos para essa finalidade diferem de acordo com o
acordo. Pode ser por Couvert artístico: isso significa que ao chegar na casa,
você já saberá que na hora de pagar, a conta virá acrescida de um determinado valor
correspondente a atração musical; pode ser preço fixo: independentemente da
quantidade de gente, mesmo porque a casa é a atração principal, oferecendo
ótima gastronomia e variedades etílicas, entre nacionais e importados; pode ser
consumação mínima: A casa estipula um valor mínimo, já na entrada, para você
consumir, se por acaso sua consumação for inferior, problema seu, o valor
mínimo estipulado tem que ser pago e, pagamento as vezes não é nem para um
músico e sim para um DJ, claro que isso depende do lugar. Eu não posso falar
sobre grupos de samba, bandas, atrações onde existe mais de um componente,
porque nesse caso todos têm que receber igual, dividindo o cachê. Só posso
falar do cantor solo. No decorrer do tempo em que toquei, com rasíssimas ocasiões,
sempre acordei antes quanto seria o cachê, fechando um valor, mesmo que a casa
tivesse gente em pé, por faltar lugar para sentar, eu não me importava, porque
isso significava que o show estava bom. Tenho amigos que vivem desse
expediente, exclusivamente, outros, para complementar renda tocam só nos fins
de semana. Eu tocava, mas não tinha interesse nem em um nem outro. O que fazia
eu sair de casa para tocar e cantar era a luz da ribalta; o prazer de me
transformar naquele instante; o sabor das palavras carinhosas; o barulho do
aplauso; a transposição de um mundo para um outro, porque é isso que acontece
quando estamos cantando, atuando, dançando, tocando, pintando, escrevendo.
Existem duas características, as pessoas desinibidas e as inibidas, as
extrovertidas e as introvertidas, os ousados e os tímidos. Não sou psicólogo e
nem estudo psicologia. Talvez até esteja enganado no que vou dizer, mas vamos
lá. Penso que, os extrovertidos, ousados, procuram constantemente plateia para
as suas peripécias, se alimentam e alimentam o seu ego de público, já o
introvertido, tímido, esse quando não bate em retirada, usa de um artifício,
que depois de vencida a primeira etapa, que é conseguir enfrentar um público,
seja ele pequeno ou grande, tanto faz, ele transforma e se transporta para o
seu pequeno mundo, só seu e, ali seguro e feliz, entrega, sem perceber, as
pessoas toda a sua sensibilidade, toda a sua magia, tornando o momento lúdico e
transparente. Eu sempre fui tímido e sei que é uma característica
contraditória, para quem se dispôs a ser o centro das atenções, porém, nem todo
tímido vivi escondido. Existe uma multidão de tímidos talentosos que conseguem
exibir a suas obras. Pense na seguinte cena: Num apartamento acontece uma
pequena reunião de amigos e convidados dos amigos, dentre eles existem pessoas
mais extrovertidas e outras menos. Um violão é sacado e começa a cantoria,
todos cantam, de repente um desinibido com boa afinação resolve se mostrar e
chamar a atenção para si, todos se calam e o admiram, porém, num intervalo
alguém lembra que uma outra pessoa presente que também canta muito bem, não,
ele jamais falaria por si, é preciso um empurrão. Nesse momento o tímido se
encolhe, pois já sabe que terá que mostrar os seus dotes. Depois de ser
anunciado. Uníssonos todos pedem que cante. Não tem como fugir, apesar de
algumas desculpas, pois agora ninguém quer saber disso, todos querem o
anunciado. Como não tem saída, pede o violão, coloca-se em posição e nesse
exato momento se dá a metamorfose. A pessoa tímida continua tímida, a que está
ali tocando e cantando, acaba de ser dominada, não por outra personalidade, mas
pelo talento que possui e que agora se revela para essas pessoas. Existem
exceções, mas normalmente elas acabam sendo o grande acontecimento da noite.
Certa
vez fui convidado por amigo de trabalho, para que fosse num bar em que ele
fazia uma brincadeira com o público presente, cantando e sorteando brindes. Me
disse, ele, que enchia e que o ambiente era muito divertido. Aceitei e, no
sábado à noite estava eu lá. Ele sabia, já havia mencionado, que eu cantava, mas
nunca tinha me visto. Realmente a noite foi divertida, diferente do que eu
fazia. Ele e um outro, mais ele, cantavam em karaokê para uma plateia, quase na
sua totalidade de jovens. Com um microfone sem fio, passeavam pela plateia cantando
e vez por outra colocava à disposição o microfone para que um participante
cantasse, alguns recusavam, outros encaravam, levando na brincadeira, o que
afinal era o intuito. Não era a minha praia, mas valeu a diversão. Em
contrapartida, convidei-o para ir ao “esquina do vinho” me assistir. Assentiu plenamente
e combinamos o dia. No dia marcado, quando cheguei, dei de cara com o amigo.
Estava bem acomodado, próximo do que podemos chamar de palco, retribui a
gentileza, pedindo a casa que lhe servisse duas cervejas na minha conta e fui
para o posto trabalhar. Fiz o primeiro intervalo e fui sentar-me com o amigo.
Ele estava impressionado com o meu nível e não poupou elogios, até questionou
que ali não era o lugar para mim, nada contra o lugar, mas para ele eu merecia
coisa melhor. Eu lhe disse que não costumava procurar o lugar, o lugar é que
normalmente me procurava e que se por acaso ele soubesse de algum que pudesse
me apresentar até aceitaria, só que eu não possuía infraestrutura, teria que
ser um lugar que já oferecesse esse item. Antes de voltar a cantar, nos
despedimos, pois morava longe e já estava tarde e sem carro, portanto todo
cuidado é pouco. Falou para eu pensar no assunto e foi. Voltei para os braços
do meu povo e fui ser feliz mais uma vez. Inté!
sábado, 6 de maio de 2017
Capítulo 48 – JABACULÊ
Me lembrei agora de um causo
interessante ainda na época da banda. Havíamos feito algumas gravações num
estúdio e queríamos mostrar o resultado em alguma gravadora. Duas músicas
tinham a participação do tecladista Ricardo Feghali, posteriormente integrante
da banda Roupa Nova, sucesso até hoje. Começamos por aquela, onde recebi uma
proposta para gravar – leiam capítulo 39 “Caminhos” – sob condições, que
digamos, bastante recusável. Nós não conhecíamos ninguém que poderia ser o
nosso Q.I., apenas conhecíamos dois produtores em que sabíamos o seus nomes e
fisionomias. O primeiro, havíamos sido abordados em MG por olheiros dele, pelo
menos foi assim que eles se apresentaram, quando pediram uma fita nossa para
levar ao tal. Como morávamos no RJ, ficamos nós mesmo de fazer esse trabalho,
mas não foi bem assim, tão simples. O cara disse que não conhecia ninguém com
os nomes citados e não deu nenhuma chance. O outro, nós acompanhamos um amigo -
lembram do capítulo 40 “Escolhas” – que tivera uma chance, mas a perdeu e com
ele nós também, pois por mais que esbarrássemos com o sujeito e tentávamos
fazê-lo entender que o nosso som era outra coisa, ele não nos dava atenção. Estávamos
meio que desanimando, quando o pai de um amigo nosso, que era mecânico de uma
oficina de carros, próximo a uma gravadora bem conhecida, mandou um recado para
mim, através de seu filho, pois foi através do mesmo que ele soube da nossa
peregrinação, para que fossemos até a oficina, que ele nos levaria até uns
conhecidos na gravadora. Fomos eu e o guitarrista. Eu já o conhecia,
apresentei-lhe o parceiro e ele não enrolou, imediatamente avisou que iria sair
um instante aos colegas de trabalho e voltando-se para nós pediu-nos que o
acompanhasse. Saímos da oficina, andamos uns cem metros e chegamos até a
portaria da gravadora. Ele estava com o macacão de trabalho cheio de manchas de
graxa, mas quando chegamos a recepcionista o avistou, sem nenhum receio,
cumprimentou e ouviu dele com quem ele queria falar. Após ligar e anuncia-lo,
voltou-se para nós e disse-nos que podíamos entrar. Ficamos espantados com a
facilidade e rapidez. Assim que passamos pela portaria, adentramos num ambiente
aonde prevalecia salas envidraçadas, cada qual com a sua função. O nosso amigo
mecânico, não conhecia nenhum produtor, quer dizer, conhecer, conhecia, mas,
sabe como é, produtor não se pode incomodar assim se você não for uma pessoa muito
íntima, então, chegamos numa sala que após passarmos pela porta, descobrimos
que se tratava dos caras que editavam as músicas antes de serem gravadas. Eles
pegavam a fita, ouviam e se o produto fosse viável, providenciavam um contrato
de edição, assegurando que mesmo que as músicas não fossem gravadas por aquela
gravadora, eles receberiam pela edição, muito espertos. Nós não tínhamos noção
do tamanho da encrenca. Parecia que ali, sendo aprovado, teríamos a grande
chance de ser chamado por um produtor, então, depois de algumas semanas
assinamos o contrato que chegou para nós já todo preenchido, com os títulos das
músicas todas. Eu e o guitarrista havíamos feito um pacto, apesar de haver
música gravada de autoria de um só, colocamos todas em parceria. Naquele
momento achávamos que conseguiríamos o nosso objetivo ali mesmo. Ledo engano. Mas,
como diz o ditado: “Quem não morre, não vê Deus. ”
A parte do estúdio de gravações e as
salas dos produtores ficavam numa outra área do terreno, bem atrás e, esse
pessoal entrava pela entrada da garagem com os seus carrões, onde havia uma
proteção com porteiro e seguranças de empresa particular, devidamente
uniformizados. Afinal, eram pessoas que não deveriam ser incomodadas por
postulantes a carreira de cantor. Nós ficávamos
restritos só a parte da frente. Com as idas e vindas, ficamos conhecidos da
recepcionista, nos dando uma certa liberdade para irmos até a sala dos caras da
edição. Eu, que morava mais próximo, ia praticamente uma vez por semana, a
intenção, além de acompanhar o processo funcional da casa, era que talvez, quem
sabe, pudesse esbarrar com algum produtor e ser apresentado. As músicas,
segundo os novos amigos, foram apresentadas junto com outras, para uma
avaliação de pretensão a lista de apresentação para o repertório de algum
artista da casa, mas nenhuma notícia favorável veio a aparecer. Com o convívio
na gravadora, fui aos poucos sendo apresentado a outros departamentos. Um em
particular me chamou atenção: Numa sala, ficavam mesas perfiladas e, em cada
mesa um funcionário sentado diante de um aparelho de rádio, ligado numa
determinada estação, com um fone de ouvido e uma prancheta. Eu fui parar nessa
sala sozinho, estava eu passeando pelas dependências, quando de repente me vi
diante dessa cena. A princípio, não entendi absolutamente nada, mas como fiquei
olhando, sem que os funcionários, absortos em suas funções, me notassem,
procurava entender o que acontecia ali, até que um japonês saído sei lá da
onde, acredito que da sua sala particular, chegou, me viu, mas não ligou e nem
perguntou e, entrando na sala se dirigiu até um funcionário, pegando a
prancheta, depois de uma breve olhada, voltou-se para o rapaz e proferiu a
sentença: “até a essa hora só tocou esse número de vezes? ” Ele se referia a
uma determinada música. Ao que o rapaz respondeu: “sim chefe, só. ” Aí veio a
réplica impositiva: “Então está errado. Liga para a rádio, porque nós pagamos
para tocar x vezes e nesse ritmo não vão cumprir o acordo. Manda eles
obedecerem a planilha. ” Depois se dirigiu a outras mesas e só mais uma é que
estava na mesma situação, então a recomendação foi a mesma. Retirou-se avisando
que voltaria mais tarde e queria os resultados acertados. Passou por mim meio
puto, se dirigindo a sua sala. Fiquei observando os dois funcionários ligarem
para as rádios, cada um para a estação da sua prancheta e, depois o diálogo que
transcorreu com o mesmo tom do chefe. Naquele momento, conheci, mais que isso,
eu vi, um procedimento, que já havia escutado que funcionava, mas não fazia
ideia como. O cantor/compositor ou só cantor, gravava um disco. Durante o
processo de escolha do repertório ou depois das gravações, escolhiam uma música
que chamariam de: “música de trabalho” Essa música que recebia essa alcunha
teria a obrigação de estourar e carregar as outras participantes do disco. Para
isso o departamento de marketing trabalhava na divulgação e, entre as várias
maneiras, claro que o rádio tinha um peso enorme, só que para isso acontecer e
se tornar um retorno financeiro, era preciso investir primeiro. Esse investimento
nas rádios recebia o singelo nome de “jabá”, que é uma abreviação de
“jabaculê"¹, também utilizado nos programas de auditórios nas tevês, porém
com intensidade maior nas emissoras de rádio. O valor do investimento variava
de acordo com o número de vezes que se acertava para tocar e, também variava de
artista para artista. Ainda hoje, ouço falar nesse nome ou se preferir
expressão. Na oportunidade o que me chamou muito atenção, foi eu ter
presenciado “in loco” a execução desse sistema, com estrutura formalizada e
monitoramento constante. Até hoje, quando, mesmo não ouvindo, fico sabendo que
certa música toca muitas vezes durante o dia em várias rádios, me lembro
daquele departamento. Acredito que com o passar dos anos alguma coisa se
modificou, mas a expressão “jabá” é guerreira, continua, persisti. Em tempos de
mediocridade, podemos dizer que frequências ressonantes oscilam em máxima
amplitude, atingindo seus objetivos pela lei da repetição. “Água mole em pedra
dura, tanto bate até que fura. ” Eu
não julgo, apenas relato. O julgamento, se quiserem faze-lo, fica por conta de
vocês, mas antecipadamente vos lembro que julgar não nos compete. Inté!
¹Jabaculê, também conhecido como jabá, é um termo utilizado na
indústria da música brasileira para denominar uma espécie de suborno em que
gravadoras pagam a emissoras de rádio ou TV pela execução de determinada música
de um artista. Não se sabe exatamente a origem do termo ou quando ele passou a
ser amplamente usado no meio. Uma das versões seria a que um jornalista,
apaixonado pela culinária nordestina, ao receber uma certa quantia para
divulgar uma dupla de cantores, teria exclamado na presença de alguns colegas,
"O jabá do almoço de hoje está garantido". Dali em diante, esses
colegas passaram a utilizar a palavra com o sentido que tem hoje nos meios de
comunicação. Jabaculê seria uma corruptela da expressão, ao que se sabe, também
cunhada nesse sentido pelo mesmo autor.
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