Capítulo 49 – EU SOU TÍMIDO
Depois que definitivamente acabou a casa de
festa, eu fui convidado a tocar num bar chamado “esquina do vinho”, era no
mesmo bairro, três quarteirões de distância. Já citei em capítulos anteriores,
mas é sempre bom lembrar. A diferença apesar de existir, não era gritante,
apenas diferente. O espaço era menor; o som era melhor; o público misturado;
muitos conhecidos foram e a casa já possuía basicamente fregueses cativos,
então, o grande desafio foi conquistar os novos ouvintes. Com o passar do tempo
já me encontrava familiarizado, tirando um ou outro esporádico pedido que eu
não gostava, com quase cem por cento do público aprovando o que ouvia. Com
relação aos pedidos que eu não gostava, evidentemente que eu não sabia também,
em virtude da primeira alegação, eu, assim como cada um, tinha um jeito de sair
da saia justa, procurava sair sem provocar suscetibilidades. Quem trabalha com
arte tem que estar sempre em processo de renovação, mas nunca, jamais, esquecer
daqueles que se tornaram eternos. Uma releitura bem-feita sempre será
bem-vinda, mas também mantê-la no original se fores capaz, melhor ainda.
Afinal, preservar ainda é melhor do que mexer, mudar, descaracterizar. Em se
tratando de música, tirando a música clássica e folclórica, que eu me lembre assim
de momento, ou seja, música popular, sempre teremos vários arranjos de acordo
com o cantor e seu estilo. Aparecia uma novidade tocando nas rádios, era quase
uma obrigação aprende-la, contudo, pelo menos no meu caso, havia limites quanto
ao estilo. Não se trata de falha, trata-se de personalidade. Nem tudo que reluz
é ouro. Existe o ouro de tolo. Apesar de ser um sucesso nacional até os dias de
hoje, eu praticamente, e olha que a quantidade de música é grande, não tocava
músicas do Roberto Carlos. Quando digo praticamente, é porque eu cantava umas
duas ou três e só. Já Caetano, Gil, Chico, Djavan, Milton, Lô, Beto, Venturini,
Ivan, Sá, Rodrix e Guarabira, Guilherme, Raul, Lulu, Zé, Geraldinho, Alceu,
Toquinho, Vinícius, Tom, Cazuza, só para citar alguns, eu cantava quase o
repertório completo. Com tantos estilos distintos, alguns músicos cantavam
próximo do original, eu não, para cada música eu colocava a minha assinatura.
Isso dava certo. As pessoas ouviam as músicas que conheciam e passavam a
conhecer e gostar do intérprete que ali estava. A maioria das casas que
funcionam a noite, algumas até durante o dia, voltadas para um público que
frequenta com a finalidade de apenas petiscar, beber e conversar, mesmo que
tenha uma data comemorativa, costumam colocar música ao vivo. Uma boa parte dos
profissionais da noite, acabam arregimentando uma legião de fãs. Quando isso
acontece, esse profissional acaba sendo disputado e, consequentemente eleva o
seu cachê. As formas de pagamentos para essa finalidade diferem de acordo com o
acordo. Pode ser por Couvert artístico: isso significa que ao chegar na casa,
você já saberá que na hora de pagar, a conta virá acrescida de um determinado valor
correspondente a atração musical; pode ser preço fixo: independentemente da
quantidade de gente, mesmo porque a casa é a atração principal, oferecendo
ótima gastronomia e variedades etílicas, entre nacionais e importados; pode ser
consumação mínima: A casa estipula um valor mínimo, já na entrada, para você
consumir, se por acaso sua consumação for inferior, problema seu, o valor
mínimo estipulado tem que ser pago e, pagamento as vezes não é nem para um
músico e sim para um DJ, claro que isso depende do lugar. Eu não posso falar
sobre grupos de samba, bandas, atrações onde existe mais de um componente,
porque nesse caso todos têm que receber igual, dividindo o cachê. Só posso
falar do cantor solo. No decorrer do tempo em que toquei, com rasíssimas ocasiões,
sempre acordei antes quanto seria o cachê, fechando um valor, mesmo que a casa
tivesse gente em pé, por faltar lugar para sentar, eu não me importava, porque
isso significava que o show estava bom. Tenho amigos que vivem desse
expediente, exclusivamente, outros, para complementar renda tocam só nos fins
de semana. Eu tocava, mas não tinha interesse nem em um nem outro. O que fazia
eu sair de casa para tocar e cantar era a luz da ribalta; o prazer de me
transformar naquele instante; o sabor das palavras carinhosas; o barulho do
aplauso; a transposição de um mundo para um outro, porque é isso que acontece
quando estamos cantando, atuando, dançando, tocando, pintando, escrevendo.
Existem duas características, as pessoas desinibidas e as inibidas, as
extrovertidas e as introvertidas, os ousados e os tímidos. Não sou psicólogo e
nem estudo psicologia. Talvez até esteja enganado no que vou dizer, mas vamos
lá. Penso que, os extrovertidos, ousados, procuram constantemente plateia para
as suas peripécias, se alimentam e alimentam o seu ego de público, já o
introvertido, tímido, esse quando não bate em retirada, usa de um artifício,
que depois de vencida a primeira etapa, que é conseguir enfrentar um público,
seja ele pequeno ou grande, tanto faz, ele transforma e se transporta para o
seu pequeno mundo, só seu e, ali seguro e feliz, entrega, sem perceber, as
pessoas toda a sua sensibilidade, toda a sua magia, tornando o momento lúdico e
transparente. Eu sempre fui tímido e sei que é uma característica
contraditória, para quem se dispôs a ser o centro das atenções, porém, nem todo
tímido vivi escondido. Existe uma multidão de tímidos talentosos que conseguem
exibir a suas obras. Pense na seguinte cena: Num apartamento acontece uma
pequena reunião de amigos e convidados dos amigos, dentre eles existem pessoas
mais extrovertidas e outras menos. Um violão é sacado e começa a cantoria,
todos cantam, de repente um desinibido com boa afinação resolve se mostrar e
chamar a atenção para si, todos se calam e o admiram, porém, num intervalo
alguém lembra que uma outra pessoa presente que também canta muito bem, não,
ele jamais falaria por si, é preciso um empurrão. Nesse momento o tímido se
encolhe, pois já sabe que terá que mostrar os seus dotes. Depois de ser
anunciado. Uníssonos todos pedem que cante. Não tem como fugir, apesar de
algumas desculpas, pois agora ninguém quer saber disso, todos querem o
anunciado. Como não tem saída, pede o violão, coloca-se em posição e nesse
exato momento se dá a metamorfose. A pessoa tímida continua tímida, a que está
ali tocando e cantando, acaba de ser dominada, não por outra personalidade, mas
pelo talento que possui e que agora se revela para essas pessoas. Existem
exceções, mas normalmente elas acabam sendo o grande acontecimento da noite.
Certa
vez fui convidado por amigo de trabalho, para que fosse num bar em que ele
fazia uma brincadeira com o público presente, cantando e sorteando brindes. Me
disse, ele, que enchia e que o ambiente era muito divertido. Aceitei e, no
sábado à noite estava eu lá. Ele sabia, já havia mencionado, que eu cantava, mas
nunca tinha me visto. Realmente a noite foi divertida, diferente do que eu
fazia. Ele e um outro, mais ele, cantavam em karaokê para uma plateia, quase na
sua totalidade de jovens. Com um microfone sem fio, passeavam pela plateia cantando
e vez por outra colocava à disposição o microfone para que um participante
cantasse, alguns recusavam, outros encaravam, levando na brincadeira, o que
afinal era o intuito. Não era a minha praia, mas valeu a diversão. Em
contrapartida, convidei-o para ir ao “esquina do vinho” me assistir. Assentiu plenamente
e combinamos o dia. No dia marcado, quando cheguei, dei de cara com o amigo.
Estava bem acomodado, próximo do que podemos chamar de palco, retribui a
gentileza, pedindo a casa que lhe servisse duas cervejas na minha conta e fui
para o posto trabalhar. Fiz o primeiro intervalo e fui sentar-me com o amigo.
Ele estava impressionado com o meu nível e não poupou elogios, até questionou
que ali não era o lugar para mim, nada contra o lugar, mas para ele eu merecia
coisa melhor. Eu lhe disse que não costumava procurar o lugar, o lugar é que
normalmente me procurava e que se por acaso ele soubesse de algum que pudesse
me apresentar até aceitaria, só que eu não possuía infraestrutura, teria que
ser um lugar que já oferecesse esse item. Antes de voltar a cantar, nos
despedimos, pois morava longe e já estava tarde e sem carro, portanto todo
cuidado é pouco. Falou para eu pensar no assunto e foi. Voltei para os braços
do meu povo e fui ser feliz mais uma vez. Inté!
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