Capítulo 27 – COMO GRAVAR CINCO MÚSICAS NUMA NOITE –
VOILÀ!
Saboreie por algum tempo o dia do festival. Também, os
amigos que foram ao festival não me deixavam esquecer. A vida seguiu e eu, como
não era um músico ou cantor profissional, segui minha rotina. A semana se
arrastava e, algumas poucas vezes passava mais rápida. Trabalhar só para ganhar
dinheiro é angustiante, não tenho a menor dúvida. A verdade é que você já começa
a segunda pensando na sexta à noite. No meu caso, agora com namorada e, morando
longe dela, na sexta à noite ou no sábado depois do almoço, poucas vezes, eu
chegava e ficava até domingo à noite. O meu final de semana, com a permissão
dos pais dela, passou a ser em sua casa. Ela com cinco irmãos, três mais novos
e dois mais velhos que ela, traduzia literalmente a frase da propaganda:
“sempre cabe mais um”. E aqui tenho que ressaltar: quando cheguei já haviam uns
agregados, que acampavam todo final de semana na humilde e pequena moradia, não
obstante, grande no acolhimento. Tanto seu pai, quanto sua mãe, sempre foram
desprovidos de qualquer mesquinharia. Penso, que por virem de famílias
numerosas do interior de minas, acostumados com casa cheia e mesa farta, dentro
do possível, aquele bando, davam a eles a alegria de ter a casa sempre cheia,
barulhenta, harmoniosa, apesar dos seis filhos, então cabia mais essa cambada
de filhos alheios. Além desses, que fiquei por longo tempo convivendo, pelas
ruas do bairro fui conhecendo e fazendo mais amizades e ampliando o meu fã
clube.
A banda se reuniu mais uma vez, a convite do irmão do
baixista, que nessa época tocava com o Sullivan, sempre tentando nos ajudar.
Ele tinha prazer em nos reunir para gravar. Tinha o sonho de nos produzir ou
pelo menos nos apresentar para oportunamente gravarmos. Gostava do nosso som,
das músicas, da minha voz. Arranjou um horário de uma noite no estúdio de
ensaio do Sullivan, levou aparelhagem de gravação: Nada sofisticado como hoje,
não existia computador, notebook; era um gravador de fita de rolo, junto com
outros apetrechos e lá fomos nós, sem o batera, mas com o apoio do conjunto que
ele tocava, passar uma madrugada gravando cinco músicas. Entramos no estúdio
por volta das 18 horas, levamos algum tempo para que ele ajeitasse os aparelhos
e nós os instrumentos, ainda tivemos que passar para os componentes da banda do
Sullivan as músicas, mas isso foi coisa rápida, afinal eram músicos calejados.
Acredito que lá pelas 20 horas, começamos as primeiras experiências. Eu já
estava me acostumando a gravar. Passada a limpo a primeira música, fomos para a
gravação. Gente, gravar é um processo demorado, tem que ter paciência, se você
quer um resultado bom, não tem como ser de outro jeito e, o irmão do baixista
tinha um excelente ouvido, nós achávamos que estava bom e lá vinha ele e
mandava repetir. Sem contar que aconteciam erros durante o trajeto, então
recomeçávamos. Para se ter uma ideia, cada música de pouco mais de três
minutos, levava mais de uma hora para ser gravada, então por aí vocês já podem
imaginar. Chegou a madrugada e nós ainda não havíamos terminado. Quando tudo
ficou pronto os músicos estavam exaustos e cheios de sono, porém nem tudo
estava pronto, o produtor veio até mim e perguntou: “Você consegue cantar do
mesmo jeito que foi gravado? ” Eu não tinha uma resposta precisa para essa
pergunta, então questionei: “Por que você está me perguntando isso? ” Ele
sabendo do meu cansaço, mas sem alternativa, mandou na lata: “Eu preciso que você
dobre a gravação ou seja, cante novamente em cima da sua voz do mesmo jeito que
cantou, porque a voz ficou baixa. ” Foi quando finamente eu entendi e para não
entrar em pânico, me servi de um gole de conhaque, me postei no microfone,
peguei o fone e fiz o sinal de positivo. Ele aproveitou para comunicar para a
galera que eles podiam dormir, se quisessem, havia espumas no estúdio, enquanto
terminava. O guitarrista aproveitou e pediu para incluir alguns solos e efeitos
durante e, o nosso companheiro baixista acompanharia solidariamente. Foi mais
uma das experiências vividas dentro da música. Eu tive que controlar bem os
meus sentidos: inicialmente os nervos; depois a audição; em seguida a voz,
tinha que ser a mesma o tempo todo e claro a memória, pois conforme a música ia
rolando, eu tinha que lembrar como havia usado a voz. Nenhuma música eu
consegui acertar de primeira, todas tiveram mais de uma tentativa, mas uma
delas em particular, quase que conseguiu me desestruturar. Virou uma batalha
particular. Passou a ser uma questão de honra. O pior é que quanto mais eu
tentava e não acertava, mais ansioso ficava. Às vezes me sentia aliviado
achando que estava certo, mas lá vinha o produtor e parava para dizer que
milimétricamente a voz estava adiantada ou atrasada. Já tínhamos feito todas,
só faltava essa. Se não me engano, depois de oito tentativas, evidentemente eu
estava esgotado, enquanto todos dormiam, só restavam eu e o produtor, puxei o
ar profundamente para me sentir vivo e acordado, pedi que começasse a introdução.
Ela veio como tinha vindo todas as outras vezes, quando chegou no momento de
entrar, deixei passar um pouco e pedi para repetir, uma, duas, três e,
finalmente pude ouvir a minha respiração na gravação antes de entrar e contar
mentalmente o tempo exato para encaixar bem em cima, quando soltei a voz o
produtor começou a fazer um sinal para que eu continuasse, ele não parava de
sinalizar e eu ganhando confiança segui até o final. Quando acabamos eu
desabei. Não posso me furtar, mesmo sendo uma constatação conhecida por quase
todos, a afirmar que quando realizamos algo do qual gostamos muito, o tempo, o
cansaço, o negativismo, são completamente esquecidos e substituídos pela
vontade, pelo prazer, pela doação, pela realização, pelo desapego, naquele
momento, a qualquer outra coisa, reunindo o seu potencial efetivamente e
reduzindo esse vasto mundo em um pequeno, porém infinito, momento de ocupação
prazerosa.
Quando abrimos a porta do estúdio, é que tivemos a
dimensão do tempo que ficamos envolvidos na gravação. A luz do sol nos pegou
tão de com força, que parecíamos vampiros prontos para desfigurar, tal a rejeição
visual, mas como o bálsamo da manhã sempre nos dá a alegria de um novo dia, foi
unanime a resposta à pergunta se queríamos tomar um café. Depois de 13 horas
enfurnado num cômodo, a padaria da esquina foi como um oásis no meio deserto,
tínhamos a nossa disposição: pão na chapa, joelho fresquinho, pão com
mortadela, café, coca, enfim, antes de irmos para casa dormir, pelo menos no
meu caso, podíamos saciar nossa fome.
Já no carro do baixista, podemos ouvir com calma as
músicas gravadas, seu irmão fez uma cópia numa fita cassete, enquanto ele
dirigia até a minha casa, fomos saboreando cada passagem, cada solo, vibrando
com o arranjo do baixo numa, da guitarra noutra, de como ficou a minha voz
dobrada, não dava nem para perceber, ficou excelente. Era o nosso trabalho
sendo registrado, as nossas composições, as nossas esperanças. Essa demo ia
visitar algumas gravadoras. Essa parte quem se responsabilizou foi o nosso
grande amigo e produtor, o irmão mais velho do baixista. Mas nessa vida nem
tudo são flores e a vida é uma caixinha de surpresas, quando muito se espera...
calma gente, ainda temos pela frente muitos desdobramentos, então, até o
próximo capítulo. Fuuuuiiiiii!
P.S. Fui surpreendido com uma notícia, que há tempo, e
põe tempo nisso, lutava para conseguir. As gravações feitas naquela noite
estavam perdidas, mas numa coincidência dessas incríveis, recebi uma ligação e
era o guitarrista me informando que havia recuperado todo o material, isso
ontem antes da publicação, portanto, vocês poderão ouvir o resultado musical da
longa madrugada. Não sei ainda, mais vou descobrir um jeito de colocar no Blog.
Nenhum comentário:
Postar um comentário