sábado, 25 de fevereiro de 2017

Capítulo 38 – ESTRANHO NO NINHO

Para um público esperado inicialmente de 160 pessoas, pois as mesas vendidas antecipadas traduziam isso, com mais as cinco na reserva, teríamos 180 pessoas, mas o inesperado derruba tudo isso. Não dá para precisar, mas acredito que quando chegou a hora do show, depois da confusão na entrada, da permissão da entrada por cabeça, nós estávamos com a casa lotada, diria abarrotada, de mais ou menos umas 250 a 280 pessoas. Para o espaço e para o show, passou da conta, mas fazer o quê? Não sei explicar, como apareceu tanta gente. Será que eu subestimei o meu prestígio? Não. Penso que estava mais para uma carência de opções. Talvez esteja sendo modesto, mas a prudência me impede de pensar de outra forma. Com a aglomeração veio o barulho. Com o barulho das vozes, uma certa dificuldade em conseguir controlar a situação, por causa desse pequeno detalhe, não foi possível começar no horário. Ainda tivemos que ajeitar as pessoas que estavam em pé, para que não atrapalhassem a visão dos que estavam sentados, já que haviam pagos para assistir a um show. Por mais que ajeitássemos, não tínhamos como evitar que vez por outra, pessoas passassem atrapalhando a visão, quando essa pessoa queria trocar de lugar ou então descobria um grupo de amigos em outra parte do espaço. Não havia camarim, portanto eu participava de todo essa confusão. Vocês podem imaginar. É só visualizar, quem já esteve, um circo, mas sem as cortinas, era mais ou menos assim, o sujeito que iria de daqui a pouco apresentar um pretenso show, que seria sem palco, quase colado com o público, estava ainda ajeitando acomodações e circulando no meio do pessoal, era assim mesmo, mas já dizia a música cantada pelo meu queridíssimo Milton Nascimento: “ Todo artista tem de ir aonde o povo está”, foi exatamente essa situação que eu havia criado. Então, vamos ao show!
Chegamos à conclusão que começar o show seria a melhor forma de acalmar o ambiente. Assumi meu posto, verifiquei o som, enquanto meu diretor se preocupava com a iluminação. A improvisação, mas muito criativa, do tema estampado num pano atrás de mim, dava ares de produção. Cortamos um pouco a iluminação da casa, para sobressair a luz que me iluminava. Com algumas partes do texto decorado e outras precisando de leitura, por isso o pedestal com o texto e as músicas estavam a minha frente, comecei. Todas as músicas escolhidas eram conhecidas e de grande sucesso. O texto que antecedia cada música, era uma pequena descrição ou melhor, era um detalhamento dos pensamentos femininos, dos sofrimentos, das angústias, que só uma mulher saberia transmitir, mas que fora escrito por homens que enxergaram esses sentimentos, que de alguma forma se colocaram ou pensaram como elas. Você, enquanto homem, escrever o que sentes, o que sonhas, o que desejas, o que esperas, o que sofres, é quase autobiografar, se não for na maioria das vezes, mas escrever o pensamento de outra pessoa e ainda por cima do sexo oposto, com propriedade e aprovação feminina, aí é de se tirar o chapéu. Fiz uma pequena introdução no violão, logo em seguida abri o show com a introdução do texto, expondo o que viria a seguir. Continuando com o texto, agora já sobre a música a seguir, eu ao terminar, entrava com a música que o texto tão bem descrevia. Realmente o burburinho diminuiu, mas havia tanta gente encontrando amigos que não viam a muito tempo, que era impossível obter silêncio por completo. Essas pessoas eram justamente as que estavam em pé. Sem arrependimentos, mas se fizesse outro, não abriria mão de receber só os que estavam programados. Não houve condições para uma concentração plena, pois vez por outra eu tinha que chamar atenção. O que seria uma hora e meia de espetáculo, passou de duas horas, devido as pequenas, mas inúmeras interrupções. Apesar disso, eu consegui. As pessoas que foram para ver e ouvir, gostaram, elogiaram e ficaram satisfeitas. Se você quiser ter uma ideia do que eu cantei, vou te dar uma faísca do repertório, se você não souber como é a letra, procure no google, aqui vai: “Atrás da porta”, “Bilhete”, “Olhos nos olhos”, “Tatuagem”, “Explode coração”, “Recado (Meu Namorado) ” e por aí foi.  
Aquele sábado foi comentado durante um bom tempo, tanto que o pessoal queria que eu fizesse um novo espetáculo, mas não dava para agendar o espaço ao custo de 0800 e mesmo pagando, ficou bem claro que falta, dentro daquela estrutura, muita coisa. Eu engavetei e até hoje são reminiscências. De minha parte, apesar de não ficar completamente satisfeito, o saldo foi positivo, já o meu camarada que ficou com a responsabilidade do bar, não obteve o lucro esperado, quase que sai no prejú, podemos até dizer que ficou, pois, a trabalheira não compensou. Fiquei chateado e de certa forma me senti responsável, dentre um dos motivos, foi justamente o excesso de gente. Isso prejudicou o atendimento das mesas: demora em repor e atender pedidos; o número de atendentes ficou pequeno para tanta gente; muita gente consegui sair sem pagar. Contabilizando no final, se fizéssemos outro teríamos agora muita experiência que certamente não cometeríamos os erros que cometemos, mas é assim mesmo que se prende, errando, contudo, foi uma noite exaustiva, mas maravilhosa, principalmente no aspecto de que ali era um território fértil para esse tipo de empreitada. Um bairro com pouquíssimas opções de lazer noturno, ainda mais musical.
Já na semana seguinte, na sexta-feira, lá estava eu no meu banquinho tocando como se nada tivesse acontecido. Mas a vida é uma caixinha de surpresas! Quando você pensa que o mar vai ficar eternamente uma calmaria, é pego de supetão por uma desavisada onda fora do contexto que balança a sua embarcação, levando você para rodamoinho. O que fazer nessa hora?  Encarar o novo desafio que a vida lhe apresenta. Quando dei por mim, estava sendo convidado por um amigo do amigo do amigo para substituir um músico amigo de um dos amigos, em caráter urgente, simplesmente no Hotel Meridien em Copacabana. Iria cobrir o amigo que tinha recebido um desses convites irrecusáveis para tocar num outro lugar por um dia, com um bom cachê, então eu quebraria o galho de não deixar a casa sem músico para os gringos. Coisa simples, tocar umas duas horas de bossa nova. Era no sábado, ambiente tranquilo, público educado, gosto refinado, cachê caprichado. Seria mais uma experiência, além do marketing. Faria mais amigos e consequentemente abriria mais o meu leque de opções, claro, tudo dependeria do meu desempenho, mas quanto a isso eu não tinha nenhuma insegurança. Podem anotar aí, foi uma experiência prazerosa, diferente e compensadora. Foi uma virada de 360 graus no ambiente, no som, no público, na comida, no dinheiro, enfim, em tudo. Como eu gostaria de ficar para sempre. Não fiquei com inveja, longe disso, o lugar era do outro músico, mas aquilo me abriu os olhos para saber que as possibilidades são infinitas como o céu.
Voltando para minha realidade, para o meu público, aquele que toda sexta ia me ouvir, pude refletir que lá onde eu estive, tudo era muito bonito, chique, mas tinha uma grande diferença, talvez não só grande, importante: Era frio, distante, não era minha gente, não havia calor humano, gente gritando: “Toca Raul! ” Falando assim parece coisa de maluco, mas né não, essa zorra onde eu toco é muito mais gostoso. Eu sou vira-lata! Que venham os bêbados, os chatos, os papagaios de piratas, os malas, não são muitos e eu não vivo sem eles. Eu não que ser um estranho no ninho. Inté!                                                           

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Capítulo 37 – ELAS POR ELES

No dia seguinte, após a grande noite, pude finalmente comemorar com os meus de casa e mais à frente com os amigos na sexta na casa de festa. Eu não havia, como falei anteriormente, feito alarde quanto a participar de um festival, então, quando comuniquei o acontecido, foi uma enorme surpresa. Senti que todos ficaram felizes com a minha vitória. Já conheciam a música, mas diante da notícia, pediram que a primeira fosse a vitoriosa do festival. Assim rolou mais uma agradável noite de banquinho e violão.
No sábado recebi a visita do meu compadre. Matando a saudade, passamos a tarde bebendo uma gelada e colocando o papo em dia. Ele fazia faculdade de direção de artes, preste a terminar, aproveitando, no meio da conversa coloquei para ele que estava com uma ideia ousada e queria saber se podia contar com a sua colaboração. "Dependeria da ideia." me disse ele. Expus o meu projeto. Queria realizar um show, ali mesmo na casa de festa, que o conteúdo fossem músicas com letras escritas por autores masculinos, mas, retratando o universo feminino. Seus amores e paixões, desilusões, traições, enfim, seus sentimentos. Alguns autores tiveram essa grande sensibilidade. Na mesma hora ele começou a imaginar o título e a desenvolver ideias, isso incluía as músicas escolhidas, para que pudesse desenvolver o texto. Eu já tinha em mente o repertório. Entreguei-lhe as músicas e ficamos combinado que cada música teria um pequeno texto para ser lido antes da apresentação. Esses textos ficaram por conta e inteira responsabilidade dele. Enquanto ele criava o clima, eu me empenhava no ensaio exclusivo das músicas.
Na sexta-feira, quando cheguei para trabalhar, antes de começar a tocar, fui sondar com a dona quanto custava o aluguel do espaço só de fora, mais a cozinha, para que eu pudesse botar em prática a minha ideia. Era evidente na minha cabeça, que eu esperava um preço especial, pela nossa amizade, mas o que veio quando eu descrevi a minha ideia, foi super especial. Ela me ofereceu a casa de graça, só com a condição de entrega-la limpa, conforme eu a encontraria, portanto eu teria de contratar o pessoal da limpeza ou eu mesmo limpar, mas era melhor contratar. Fomos consultar a agenda de compromissos da casa para ver se achávamos um sábado livre. Houve uma circunstância que calhou, caiu, encaixou como uma luva. Dali a quatro semanas ela ia viajar, em virtude disso não abriria na sexta-feira daquela semana, como também não havia alugado a casa, eu poderia muito bem realizar a minha empreitada. Fechamos. Na agenda ficou reservado o sábado para mim. Saí satisfeito, assumi meu lugar e toquei como nunca.
No sábado, corri para ter com o meu compadre, havia novidades e era preciso que ele corresse com os textos. Quando nos encontramos, ele praticamente já havia terminado, naquele momento estava fazendo a revisão. Eu havia escolhido umas músicas, que juntando com os textos, teríamos aí um espetáculo de uma hora e meia no máximo. O título do espetáculo também já estava escolhido, se chamava: ELAS POR ELES. Tínhamos as músicas, o texto, o nome do show, o dia, faltava pouca coisa, tais como: divulgação; eu já havia pensado, mas precisava conversar com a pessoa que eu queria propor ser o dono do bar e cozinha no dia; contar o número de mesas com quatro cadeiras; tinha em mente umas quarenta mesas, o valor por mesa, a filipeta para venda antecipada; um reforço no som, meu compadre queria iluminação direta em mim com painel atrás; tinha que contratar um porteiro, enfim, eu tinha muito trabalho a fazer. Comecei naquele sábado mesmo pelo meu amigo que usava o quintal da frente da sua casa, onde espalhava algumas mesas e fazia lugar de encontro da rapaziada para uma conversa fora, regada a cerveja, refrigerante mais salgados e petiscos. Ele topou na hora. O esquema seria o mesmo que ele já estava habituado, porém com uma proporção maior de público, mas a presença era certa. Essa parte deixei na mão de quem entendia e eu não queria nada, quando digo nada, me refiro a questão de dinheiro, seria tudo por conta dele, a despesa e o lucro. Corri para resolver as outras coisas. Vou dizer uma coisa, que talvez alguns saibam na carne, mas acredito que muita gente que acompanha esses relatos nunca se envolvera numa empreitada dessas, porém deve fazer pelo menos uma ideia. Um artista quando está começando, não vou nem dizer independente, pois mesmo assim, alguns já contam com ajuda, mas o que está realmente começando sozinho, além do seu repertório, tem que saber fazer um pouco de cada das coisas que antecedem o espetáculo, caso contrário não acontece. O artista tem que saber administrar o tempo, para poder dividi-lo entre ensaios e as outras coisas. O estruturado possui uma equipe que cuida de tudo, ele só chega para passar o som antes e depois na hora, se apresentar. Não é o meu caso, tinha muita ralação para botar o bloco na rua. O dia do show se aproximava com uma velocidade, contudo, as coisas se ajustavam. Com uma semana de antecedência, as mesas estavam todas vendidas. Isso era muito bom por um lado, por outro a responsabilidade aumentava, agora não tinha mais volta. Qualquer desistência seria um desastre, um desabono no meu currículo. Todas as necessidades estavam bem encaminhadas. Agora era uma questão de ajeitar a execução para o dia.
Dia do show. O meu amigo do bar preparava tudo para atender devidamente o público. Eu e meu compadre ajeitávamos o som, o palco, a luz, enfim, as coisas que fariam acontecer a apresentação. Eu havia vendido quarenta mesas, mas a casa possuía quarenta e cinco, então, arrumei junto com as outras, essas cinco, caso aparecesse pessoas querendo entradas na hora, eu as teria para oferecer. Alertei o meu porteiro que havia essa sobra, portanto se interessados aparecessem, negócio fechado. A venda das mesas já era o meu cachê e dele eu pagava o porteiro, meu compadre não quis dinheiro nenhum, fazia por gosto e grande amizade. Antes de anoitecer, com tudo preparado para receber o grande público, fui me arrumar. A noite chegou e junto veio a ansiedade e aquele fantasma do medo de alguma coisa sair errado, é natural, qualquer evento que você queira realizar para, mesmo um pequeno público, outras pessoas, até que seja de graça, durante as horas, os minutos, segundos que antecedem o espetáculo, sempre vai pairar a insegurança. Às vezes até uma ponta de arrependimento. Claro, você poderia ter evitado todo esse sofrimento, mas aí qual é a graça, a vida é feita de desafios. Isso nos alimenta. Nos motiva. Nos faz sentir vivos.
Eu recepcionei os primeiros que chegaram, mas depois fui tratar de inspecionar as minhas coisas. O show estava marcado para começar as vinte e uma horas e eu não iria atrasar de jeito nenhum, tivessem todos presentes ou não. Meia hora antes, até as cinco mesas reservas estavam ocupadas e na portaria havia muita gente querendo entrar mesmo que fosse para ficar em pé. O porteiro estava desesperado, sem saber o que fazer, mesmo porque ele era conhecido por todos e simplesmente dizer que não podia entrar não era aceito pelos conhecidos. Foi quando eu cometi uma loucura. Dei a ordem para que fosse cobrado por cabeça e assim permitir que entrasse todos que estavam incomodando o meu amigo porteiro. Talvez essa atitude tenha carregado um pouco mais o tempero, levando a equipe da cozinha a ter que se reestruturar para dar conta de tanta gente. Se vocês me perguntarem, eu não saberei responder ou explicar como chegou a essa proporção. A minha divulgação se restringiu as pessoas que eu procurei, já sabendo que comprariam para me assistir cantar. O excesso, foi uma incógnita que perdura até hoje. Tomei a atitude também num impulso para me ver livre desse imbróglio, pois tinha que me concentrar no espetáculo. Livre dessas aporrinhações, era hora do show. Diminuímos um pouco a iluminação, para que o facho de luz em minha direção obtivesse êxito, chamando a atenção. Ligado o som, fiz uma pequena introdução, agradecendo as pessoas que prestigiaram de pronto a iniciativa e a eles eu oferecia o espetáculo, dizendo que a direção e toda a parte do texto que seria apresentado durante o show era de autoria do meu compadre; acrescentei que com o desenrolar do show eles iriam entender o propósito, a intenção, a finalidade, o projeto musical.
Mais uma vez apelo para a paciência de vocês, pois como é um blog e não um livro, há que se respeitar limites de caracteres, para não ficar longo, cansativo, ou como alguns dizem: “muito texto e pouco diálogo. ”  E eu como gosto de recebe-los semanalmente, prefiro que seja em doses homeopáticas, assim podemos ficar mais tempo juntos. Inté!                                                      

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Capítulo 36 –  UMA DOSE DE FELICIDADE

Foi questão de segundos. Quando passei a palheta pelas cordas da viola e soou o primeiro acorde da introdução, o burburinho que ainda se ouvia cessou, fez-se um silêncio sepulcral, agora só o som da viola, chorando sob meus dedos que freneticamente executava a introdução, se ouvia. O delay proporcionava a resposta exata que eu esperava. Com o silêncio, o som tomou conta do ambiente como se fosse o dono, dominando cada ouvido, cada olhar. Me aproximei do microfone, já terminando a introdução, soltei a voz e, ao ouvi-la no retorno senti que dali para frente, só dependia de mim, pois tudo estava extremamente perfeito. A música é aquela que eu já citei num capítulo passado, que caiu como um raio na minha cabeça, inteira, ou seja, música e letra, que eu segurei para não perder até pegar no violão e escrever a harmonia. Me atrevo a dizer, que não era uma simples participação num festival, estava mais para um pocket show. Eu senti que desde do início, o engenheiro de som ia melhorando a qualidade, tanto, que quando eu entrei com a voz, guardada as proporções, parecia uma pororoca musical, o encontro da voz com a viola produzia harmoniosamente um efeito avassalador. A plateia flutuava. Quando terminei a primeira parte cantada e voltei a tocar a harmonia da introdução, novamente fazendo a viola chorar, pela primeira vez o público se manifestou aplaudindo. Nesse momento eu aproveitei e de soslaio rapidamente olhei os jurados, não é que eles também aplaudiam. Gente, é tudo que um artista deseja, aprovação. Eu não costumo olhar o público, nessa hora a concentração é tamanha que eu me transporto para um outro patamar. Mas eu ouço. Ouço o silêncio da multidão. Esse silêncio que sinaliza que a apresentação está tão certinha, mas tão certinha, que ninguém ousa sequer desenrolar um papel de bala para não interferir. Eu volto a cantar, agora a sequência final, quase uma cópia da primeira parte. É importante continuar aquilo que foi exaustivamente ensaiado, nada de atrevimentos ou improvisos, não é hora de correr riscos desnecessários. Chegando na parte fina, claro, havia uma pequena variação, que demonstrava o encerramento da apresentação. Quando a palheta escorreu pelas cordas da viola soando o último acorde, a plateia se levantou entusiasticamente, demonstrando através de aplausos longos que estavam muitos satisfeitos com o que acabavam de ver e ouvir. Eu me curvava em agradecimento, sorvia e saboreava cada gota, como se o som das palmas houvesse se transformado num líquido precioso, ofertado como brinde aos momentos de prazer proporcionado. Sai de cena transbordando de alegria, tão emocionado que levei um pouco mais de tempo para desvestir o personagem. Enquanto caminhava de volta a poltrona ao lado do meu amigo, ia acontecendo a metamorfose. Quando cheguei, fui recebido com largo sorriso, um forte abraço e uma afirmação: “Se não houver marmelada, esse prêmio é seu. ” Senti firmeza nas palavras e para inflar mais o meu ego, perguntei: “ Tu achas mesmo? Foi tão bom assim? ” Ele era meu amigo, não meu baba ovo e, também como os outros fora pego de surpresa, pois não sabia o que eu havia ensaiado, apenas tinha consciência do meu potencial, então decretou: “To falando sério, eu observei a plateia, eles ficaram impressionados, tua apresentação apagou todo o resto do festival. ” Não vou negar, que lá em cima, no palco, eu senti que estava voando alto, acima dos demais, mas como quando você faz, a sua percepção é diferente de quando você vê, então não conseguia mensurar com exatidão. Agora, ouvindo meu amigo falar com tanta propriedade, me veio aquela sensação novamente. Enquanto eu estava a caminho, o apresentador anunciou que os jurados iriam se retirar para conferir as notas e daqui a alguns minutos seriam proclamados os três primeiros lugares e o melhor intérprete.

Meu amigo segurava o pedal enquanto eu encapava a viola, depois da recepção calorosa e das palavras de incentivo, foi então que notei que estávamos no intervalo esperando o resultado. Para uma noite em que a grande maioria ali presente iria trabalhar no dia seguinte, já começava a ficar tarde, os organizadores sabiam disso, portanto não demorou muito e o som do microfone fez com que todos prestassem atenção, afinal, seria finalmente anunciado o resultado final. O apresentador começou pelo terceiro colocado. Uma torcida a parte se manifestou com enunciado. Eu me virei para o amigo e falei: “Agora só me restam duas ou nada. ” Após uma pequena cerimônia em que uma personalidade vinda do corpo de jurados entregou o troféu, o apresentador chamou o segundo colocado. Mais uma vez houve manifestação a parte na plateia para o enunciado. Seus assistentes de palco esperaram a presença de um representante do júri para a entrega do troféu ao segundo colocado. Novamente me virei para o amigo e disse: “Se sua profecia estiver certa sou eu, se não for vais continuar com a afirmação de marmelada? “ Antes de pronunciar o vencedor, o apresentador convidou até o palco o presidente do júri, que era o Lobo, presidente e organizador. Passou o microfone para ele. Ele foi agradecendo a todos que se entregaram de corpo e alma para que acontecesse o evento; a direção da casa por dispor um dia daquele belíssimo espaço, o Teatro do SESC; aos participantes que levaram e elevaram ainda mais o nível do festival; ao público, que respeitou a casa ocupando os seus lugares e, dos seus lugares torceram incentivando seus amigos participantes e respeitando a torcida do concorrente. O apresentador veio até ele, entregou-lhe um papel e afastou-se, ele olhou para aquele papel em sua mão, levantou a cabeça, ali estava o resultado, todos sabiam, só não sabiam qual seria o primeiro, provavelmente o melhor intérprete, e diante da imensa plateia ansiosa, começou afirmando que nunca antes havia acontecido no festival do SESC uma decisão tão unânime como essa e que também nunca haviam premiado com os dois maiores prêmios o mesmo participante. Diante do anunciado proferiu a sentença: “ Convido ao palco para receber o prêmio de melhor intérprete e também de melhor música o compositor e intérprete Carlos Henrique! ” Dei um salto da poltrona, como se tivesse levado um choque, tamanho o impacto das suas palavras. Caminhei apressadamente pelo corredor, carinhosamente aplaudido pela plateia, até o palco. Fui recebido por um Lobo nada mau, ao contrário, benevolente e com ar de satisfação, me passando a premiação. Os outros jurados se juntaram a nós, aglomerando um pouco o espaço, mas era hora de confraternizar e receber elogios e cumprimentos. Lobo ainda tentou que eu tocasse a música, mas a plateia estava se retirando e aí ele sentiu que não ia rolar, já era tarde da noite, todos estavam querendo mesmo era ir para casa dormir. Demorei um pouco para sair, mas assim que foi possível, estávamos só nós dois no ponto do ônibus, além da viola, troféus e o mais importante, cheques. Meu amigo ainda não estava trabalhando, o que nos tornava uma bela dupla, já que eu me encontrava desempregado. A propósito! O dinheiro da premiação veio na hora certa. Chegamos no bairro, nos despedimos, cada um para sua casa. Em casa, todos dormiam, entrei e tive que me conter, está certo que a casa era de poucos metros quadrados, mas mesmo que fosse de muitos não caberia tanta felicidade que emanava de mim e só, naquele momento e sem poder fazer barulho, extravasar, era uma sensação esquisita, diria frustrante. Sem interromper o sono de ninguém, fui até o meu pequeno quarto de ensaio deixar as coisas. Dentro do quarto sentei-me um pouco antes de me prepara para dormir, o cansaço já dava sinais, mas a minha mente não parava de funcionar, igual a uma máquina de rodar filmes, passando o tempo todo lembranças tão recentes que pareciam que estavam ali comigo dentro do quarto. Era um turbilhão de imagens, que certamente levaria alguns dias para irem embora. Talvez tenha sido a comemoração mais sem comemoração, pelo menos que eu tenha conhecimento. A luz da ribalta se apagou. O espetáculo chegou ao fim. A plateia se retirou. O artista se transforma num individuo comum que dentro do mundo, como tal, é apenas mais um. A felicidade para mim, não há dinheiro que a compre, pois ela não existe por inteiro, apesar de já ser uma felicidade ser um ser vivo, contudo, como a vida se apresenta entre altos e baixos, bons e maus momentos, então, tenho a leve impressão que a felicidade são breves, as vezes longos, mas sempre intensos os momentos. Ela vem em doses entre um intervalo e outro, pode até demorar, mas vem. Essa noite eu recebi a minha dose, que vou saboreá-la até a última gota. Inté!                                 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Capítulo 35 – OS ÚLTIMOS SERÃO OS PRIMEIROS, SERÁ?

No dia marcado para saber o resultado das músicas escolhidas para participar do festival do SESC, logo pela manhã, tu achas que eu ia aguentar ficar até o final do dia para saber, peguei o telefone e liguei, me atendeu a telefonista, pedi que me transferisse para o departamento responsável pelo evento, atendeu-me a assistente do Lobo, obedecendo o protocolo das boas maneiras, dei bom dia e fui em seguida ao que me afligia: “Escuta, saiu a lista dos classificados para o festival? ” Tentei mostrar indiferença, àquela hora, deveria ser o primeiro. “ Sim. Qual a música ou o autor? ” “Como escrevi duas, vamos pelo nome. ” Pediu-me um momento, era uma eternidade, voltando perguntou o nome novamente, quer me matar e finalmente proferiu as palavras mágicas: “Classificou uma, a de nome “Motivos” e aproveitando gostaria de lembra-lo que teremos hoje uma reunião as vinte horas para os devidos acertos e o sorteio para definir a ordem de apresentação. ” “ Pode confirmar minha presença, estarei aí no horário. ” Desliguei o telefone com um sorriso que mal cabia no meu rosto, mas a vontade era mesmo de gritar. O dia começava maravilhosamente. A notícia me animou tanto que senti uma vontade imensa de trabalhar, brincadeira, o trampo chamava e o dia, ainda bem, havia vários compromissos. Vire e mexe, entre uma e outra visita, principalmente dentro de um ônibus, vinha a lembrança das palavras da assistente. O dia foi saindo de cena e dando lugar a noite que chegava de mansinho. Trinta minutos antes do combinado, eu já estava adentrando a recepção do SESC, avistei a assistente, nos cumprimentamos com um aceno e ao procurar me acomodar para esperar ser chamado, me dei conta de que havia chegado mais um participante, praticamente juntos, coisa de segundos, sentamos e imediatamente após as apresentações, dialogamos. Conforme o tempo ia passando e se aproximando mais do horário marcado, mais pessoas chegavam. Faltando ainda cinco minutos, a assistente abriu a porta que nos separava, passando para o mesmo espaço em que nos encontrávamos, cumprimentou a todos e pediu que a acompanhasse. Fomos então conduzidos para o andar de cima, após chegarmos ela abriu uma porta no corredor convidam-nos a entrar, já dentro, vislumbramos um ambiente amplo, era uma grande sala, postas em círculo, partindo de uma cadeira diferente e terminando na mesma, contava-se doze lugares. Na tal cadeira diferente estava a sua frente em pé o Lobo, com um grande sorriso aproximou-se para cumprimentar um a um e pediu-nos que sentássemos. Assim que todos estavam devidamente acomodados, tomou a palavra e explicou que daria quinze minutos de tolerância para os atrasados, não mais que isso, para começar o papo. Bem, passados os quinze minutos, faltava apenas um, que chegou cinco minutos depois, mas não perdeu nada, porque nada importante ainda tinha sido dito. Lobo realizou a introdução, mostrando a importância de termos o teatro a nossa disposição: infraestrutura profissional, com a mesa de som sendo operada pelo mesmo profissional que trabalhava para casa há anos; espaço no palco para banda de rock, grupo de pagode, grupo vocal; acústica do teatro; retorno profissional; condições para plugar bom número de instrumentos; microfones suficientes. Agora, como a casa tinha uma agenda de espetáculo já tomada, o festival iria ser realizado numa quarta-feira, já na próxima semana e, portanto, também não tinha como oferecer aos participantes um dia para a passagem de som. O engenheiro de som ficaria encarregado dos ajustes na hora e no palco teríamos gente experiente par auxiliar na arrumação tanto dos cantores, como dos instrumentistas. Perguntou se tínhamos alguma pergunta pertinente. Teve que trocar o pertinente por outra palavra, pois começou a chover no molhado. Tudo entendido, faltava apenas saber quem seria o primeiro a pisar no palco, que eu rezei para não ser eu, pois abrir festival é horrível. Lobo pegou uma caixa, sacudiu, mostrando que ali estavam todos os nomes das músicas escritas num pedaço de cartolina e que ele pegaria um a um, passando a informação para todos, mas também para sua assistente, afim de registrar a ordem sorteada. E assim foi. Vocês não fazem nem ideia em que posição eu fiquei na lista de apresentação. Tinha lá seus prós e contras. Vou primeiro falar da posição, depois eu explico o porquê dos prós e contras. Eu fiquei, fiquei, fiquei em último lugar. Fecharia o festival. A favor: poderia ver quase todos, só deixaria de ver o penúltimo, os concorrentes e assim poder avaliar. Contra: Avaliando e percebendo que havia concorrente muito superior, poderia me abater. Já sei o que vocês vão falar que é só deixar de assistir, pera aí que eu não sou covarde, eu me a garanto. Saímos da reunião com tudo resolvido, portanto tínhamos menos de uma semana para nos prepararmos para o embate.
Dessa vez eu não tinha mais aquela turma que me acompanhava aos festivais, eram outros tempos, uns deixaram o bairro e outros, os compromissos familiares passaram a fazer parte de sua caminhada. Por outro lado, eu também não fiz muito alarde, apenas os de casa e um pequeno, pequeno mesmo, grupo de amigos ficaram sabendo. Desse pequeno grupo, um amigo apenas me garantiu que iria, os outros talvez. No dia, fiquei sabendo que de casa ninguém, então, fomos eu e o meu amigo. Ao chegarmos notei que quem tinha a menor torcida era eu, depois conforme lotou confirmei. Meu amigo, era bem mais novo, jovem, solteiro, começando a tocar, participava de todas as rodas de violão, penso que aquele ambiente deve ter lhe causado um grande impacto; casa lotada, torcidas gritando o nome do concorrente, para quem não está acostumado dá um grande frio na barriga. A mim não incomodava, já tinha passado em outras oportunidades por essa situação. Estávamos sentados, procurei ficar na primeira poltrona no corredor, numa fileira no meio da plateia. Éramos três ocupando duas poltronas, eu, meu amigo e junto a mim minha viola Del Vecchio acompanhada de um pedal Delay. Como sempre em todo festival tem um apresentador. Ele chegou, cumprimentou a plateia e sem mais delongas foi anunciando a primeira atração da noite. A partir daquele instante pudemos observar como realmente cada concorrente havia levado torcida, uns mais que outros, mas todos, com a minha exceção, possuíam torcida. Eu prestava atenção, não tinha como não ouvir os gritos, inteiramente na apresentação. Fomos acompanhando um após outro, separando mentalmente o que podemos chamar de concorrente ao prêmio e quando finalmente chegou no décimo, eu desencapei a viola, peguei o pedal, esperei até um pouco depois do que eu considerei a metade da música e virando-me para o meu amigo decretei: “Está na hora, vou me concentrar no camarim. Até logo! ” Levantei, já me posicionando no corredor em direção oposta ao palco, me dirigi até o camarim. Lá chegando encontrei uma banda de rock que seriam os penúltimos, procurei e achei uma cadeira, sentei e comecei a conferir corda por corda a afinação da viola. O barulho atrapalhava um pouco, mas havia tempo. Os garotos deram seu grito de guerra quando foram chamados para subirem, estava na hora deles. Havia uma escada caracol que levava a coxia, (para quem não sabe: coxia é um espaço dentro do palco, mas fora de cena. Por analogia, é qualquer espaço situado fora de cena, em que os atores aguardam sua entrada) chegando neste ponto, era só esperar a sua vez, que o locutor anunciaria pela ordem numérica, nome da música e quem iria cantar. Ficando sozinho no camarim, como esse abafava um pouco o som que vinha do público e enquanto a banda não começava, eu pude conferir a afinação agora com mais apuro. Eu estava pronto. Controlei a ansiedade e fui aquecendo devagar a voz. Essa é a pior parte. A hora que antecede a apresentação. Ali, pertinho da hora. Quem não aguenta foge, mas aí não nasceu para isso. Gente, eu sei que não sou intérprete. Intérprete é Maria Bethânia, Ney Matogrosso, Elis Regina, artistas que transmitem para você através de gestos, tonalidades, expressões sejam corporal ou facial, a canção que cantam e vivem, traduzindo através da letra da música de outros, sentimentos poéticos que vão lhe atingir. Sou apenas cantor das minhas obras. Por elas eu me transformo, pois nelas eu coloquei parte da minha história. Como sou afinado e bem ensaiado sempre fiz a diferença, poderia dizer que bem produzido alcançaria grandes voos. Fui chamado. Subi e ao chegar a coxia fiquei esperando a banda terminar. Logo que saíram do palco o locutor imediatamente anunciou aquela que seria a última apresentação, o último concorrente, a derradeira atração da noite e, agora no palco para vocês...
Eu não tinha torcida. Meu amigo não ia pagar mico me aplaudindo sozinho. Então, quando passei pela cortina, com minha viola pendurada e o pedal de efeito na mão, só ouvi, sem dar muita atenção, vozes. Um rapaz me ajudou a plugar o pedal, enquanto eu ajeitava o delay, já com o cabo plugado na viola, me voltei para o microfone, onde fui ajudado a ajustar na melhor posição, conferi se já estava com som, olhei para o engenheiro de som em sua cabine e fiz um sinal perguntando se estava tudo certo, recebi um gesto de afirmativo. Cumprimentei a plateia, o corpo de jurados, brinquei com público que era uma honra fechar o festival, me afastei um pouco do microfone, já havia conferido o som da viola, respirei fundo e...
Vou que deixar a descrição da apresentação para o próximo capítulo. Parafraseando Roberto Carlos: Foram tantas emoções!