terça-feira, 26 de dezembro de 2017


Capítulo 71 – CHEGA DE MÚSICAS PATÉTICAS
As músicas de hoje são, em sua maioria, destinadas apenas à dança. Mas nem sempre foi assim. Já houve tempos em que elas se valiam mais de suas vibrações para transmitir conteúdos que as palavras, sozinhas, não eram capazes de passar.
Entre uma nota e outra, até mesmo o silêncio denunciava a angústia de inúmeras pessoas que tiveram seus gritos de socorro sufocados durante períodos obscuros da história do Brasil. Elas, as poderosas músicas, já foram capazes de atrair multidões que lutavam pela liberdade e pelo fim de um regime cruel, traduzindo em belíssimas melodias os pensamentos de toda uma nação.
A falta de bons equipamentos nunca foi capaz de impedir a voz daqueles que a utilizavam como protesto, estimulando vidas que se deixavam desgastar em prol da liberdade de tantas outras. As palmas, os assobios e os clamores invadiam as ruas e formavam música como nunca antes tinha sido ouvida, deixando profundas marcas na pele e no coração daquelas pessoas.
Como um poderoso produto cultural, a música chegou aos nossos dias com características muito diferentes do que pode ser observado na história brasileira. Os tempos mudaram, é fato, mas ainda há muito para se lutar. É preciso tomar as rédeas e valorizar todos os benefícios que foram conquistados para nós.
Com conteúdo destinado apenas para dar prazer ao corpo por meio da dança, a música de hoje parece abandonar as suas inegáveis potencialidades. Mas não é nada com ela, e sim com aqueles que a produzem, visando atingir o maior número de pessoas possível. E atingem. As pessoas hoje se satisfazem com apenas um ritmo dançante, não se preocupando com o conteúdo e, muito menos, com a função inicial da música.
Ela é uma das grandes marcas de um tempo, de uma época, de uma sociedade, e, por isso, merece ser mais bem-composta, mais bem-apreciada, pois é uma das grandes representações do nosso amado Brasil. Mas quem gritará por ela? Quem rogará por canções que denunciem as mazelas de tantos brasileiros que parecem esquecidos pelo poder público? A educação, certamente, pois é nela que a criança, o jovem e o adulto têm a oportunidade de refletir sobre tudo o que os envolve diariamente.
No caminho para a casa, ao ir à padaria da esquina, ao ligar a televisão, ao passar por alguma loja no centro da cidade, enfim, a todo o momento, todos nós estamos envolvidos pela música. Esta, a exemplo do que aconteceu no passado, precisa fazer valer as suas mais altas qualidades e características.
Unidos, sons, silêncios, vozes, instrumentos e vibrações podem produzir sensações como as de um guerreiro, o qual não se curva diante das formas impostas por políticas desumanas. Um guerreiro como tantos outros que lutaram pela liberdade de que hoje desfrutamos, liberdade que, infelizmente, tem sido muito utilizada de modo equivocado.
A música, com todo o seu potencial, precisa assumir-se novamente em suas funções para a promoção do bem, da paz, da alegria e, enfim, da real liberdade.
"Como um anjo caído, fiz questão de esquecer que mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira", "Que só eu que podia dentro da tua orelha fria, dizer segredos de liquidificador", "Queixo-me às rosas, mas que bobagem as rosas não falam, simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti"...Bons tempos aqueles em que a música brasileira possuía bom compositores.

Bons tempos aqueles em que as músicas possuíam conteúdo, mensagens, poesia e rebeldia com justa causa. Quando andavam pelo Brasil compositores e cantores como Cartola, Tom Jobim, Renato Russo, Cazuza, entre outros gênios da música brazuca. Nesses tempos, você poderia dançar ou apenas curtir a música, se assim quisesse. Tempos em que artistas faziam canções; quando a música só era cantada por cantores de verdade. Mas hoje, as coisas estão um "pouquinho" diferentes aqui no nosso país.

Quem domina a música brasileira hoje são o axé, funk, brega, pagode e forró universitário. Temos agora um novo estilo de música, o "sertanejo universitário", seja lá o que isso signifique. Hoje, você não precisa mais ser artista para entrar no ramo de música; basta saber dançar, ter um corpo em forma e saber ler e escrever um pouco. Qualquer imbecil pode fazer sucesso na atual música brasileira. Músicas ridículas como "Rebolation", "Créu", são um pequeno exemplo do patético momento em que passa a música brasileira. Isso porque os ritmos que estão dominando o país são voltados para a dança, e consequentemente as letras ficam em segundo plano. Não que dançar seja ruim, mas não precisam colocar letras tão baixas, não é? São letras tão ridículas que as vezes fico surpreso como essas coisas que as pessoas chamam de "musica", podem fazer sucesso. Naturalmente, como não é preciso ser muito talentoso para fazer sucesso no atual momento da nossa música, o nível dos "artistas"(eles não são artistas, mas vou chama-los assim para mostrar um mínimo de respeito) cai drasticamente.

São raros os grandes cantores.

Para não dizer que nenhum presta, o axé baiano revelou Ivete Sangalo, que se não é compositora (competente), é uma bela cantora. Em termos de compositores, prefiro não falar muito para não ficar triste: basta ouvir as letras das músicas que estão fazendo sucesso ultimamente. Lixo. Mas porque estamos assim? Como chegamos nessa lama? Bom, a partir do momento em que os mercados da música, literatura e cinema ficaram multimilionários, os produtos precisaram ser vistos de duas maneiras: a comercial e a artística. Muitos cantores e bandas vendem seus produtos bem rápido, ou seja, são bons do ponto de vista comercial; todavia do ponto de vista artístico são um lixo. Veja o "rebolation" por exemplo. A música fez sucesso tão rápido e sumiu tão rápido. Ela nunca será lembrada daqui a dez anos. E porquê? Porque é um produto descartável.

Por outro lado, existem produtos que são bons do ponto de vista artístico, mas não ficam populares. Quantas músicas, filmes e livros bons você já viu que não fizeram muito sucesso? Vários, não é? E tem também aqueles mais incomuns, que são bons tanto artisticamente quanto comercialmente, como a Legião Urbana por exemplo. Infelizmente, o mercado de música brasileira está repleto de produtos que são bons do ponto de vista comercial, mas são patéticos do ponto de vista artístico.

E enquanto ficarmos assim, não teremos grandes compositores, grandes cantores dando as caras por aí. Somente palhaços e palhaças com suas músicas vergonhosas. Esperamos que o rock, reggae, MPB e outros estilos que favorecem mais a inteligência e a poesia, voltem a brilhar no nosso país. Chega dessas músicas de nível baixo, feita para pessoas com pouca coisa na cabeça. Chega de músicas patéticas. Inté!

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Capítulo 70 – MPB e mpb (música pobre brasileira)

Para justificar qualquer escolha pessoal ou para evitar serem envolvidos por algum tipo de crítica, muitos escapam pela tangente usando a velha máxima “gosto não se discute”. Enquanto gosto continuar sem discussão, muito lixo vai sendo empurrado goela abaixo de quem pensa que quer e de quem não quer de jeito algum. Exemplo disso é o que vem sendo produzido e consumido no Brasil em termos de música desde meados da década de 80.
A Bahia, que já foi festejada pela safra nobre de grandes compositores, cantores e músicos, hoje consome e exporta o substrato do lixo chamado axé. Até mesmo as bandas de baile – que animavam as noites interioranas naquele estado – deixaram de lado os ousados repertórios com Beatles, Rolling Stones e outros grandes nomes da música nacional e internacional, para exibirem a mesma formação e proposta do “É o Tchan” e cia.
Busco na lembrança uns caras que criaram uma maneira divertida de levar ao palco, como se fosse uma peça ou apenas declamar como poema as letras das músicas do nosso cancioneiro populesco atual. Era de morrer de rir ouvir toda aquela baboseira (inclusive com todos os “Ô ô ô, aiê, aiô”) sem qualquer música, com os ritmos clonados uns dos outros. Enfim, há quem insista chamar o axé, o pagode, o breganejo ou o funk carioca de Música Popular Brasileira, mais conhecida como MPB. Concordo que tais estilos sejam até populares (afinal, quem consegue lutar contra o império da indústria fonográfica), mas MPB já virou sinônimo de um estilo musical bem mais trabalhado e marcado pela qualidade de letra e música.
Sendo assim, para diferenciar o joio do trigo, proponho que deixemos a MPB para o que a sigla já designa e coloquemos “mpb” (música pobre brasileira) para os sucessos descartáveis do momento. Basta grafar um estilo com letras maiúsculas e o outro com minúsculas e amenizaremos esta confusão. Realmente uma confusão de conceitos e de discurso, pois a mídia carioca já anuncia a exaustão da música baiana para o surgimento de um ritmo sucessor: o funk! É verdade, “tá tudo dominado”: rádios, programas de TV, festas, cartazes, lojas de CD, o boca-a-boca, os nossos ouvidos...
Bem que poderiam surgir várias versões daquela peça que eu citei acima, para trazer à tona as novíssimas poesias baiana, carioca, paulista, etc. Imagine só uma música chamada “Tchutchuca” com essa maravilha de refrão: “vem tchutchuca, vem aqui com o seu Tigrão... Vou te jogar na cama e te dar muita pressão”. Ou ainda “O Baile Todo”, do mesmo grupo funk, que é um verdadeiro atentado à gramática: “melhor tu se preparar que o Tigrão vai te ensinar! Agora é ruim de tu fugir que o Tigrão vai te engolir. Se tu corre por aqui eu te pego logo ali”. O “Créu”, então, seria um terrível monólogo, apenas com variações gestuais e guturais.
Em meio aos anos 60 a 90, as músicas eram o espelho da alma artística, movidas por grandes reflexões, protestos, questões ambientais, romantismo, ciclo familiar, situações do dia-a-dia. As composições transmitiam emoções, mensagens, sentimentos. Era algo enriquecedor, alegre, bom para os ouvintes. Muitos músicos sofreram pela censura de suas letras musicais, pela cor de sua pele, pelo modo de se expressar, pelo estilo das vestimentas e por ser músico.
A discriminação e o racismo continuam presentes no meio artístico, a maneira que olham para os músicos, ainda não enxergam como profissionais e sim como uma pessoa que não tem se quer um futuro promissor. Porém, hoje, a sociedade enxerga estes profissionais diferenciando-os entre os mesmos, famosos e não famosos. A desvalorização da profissão artística, derrubou diversos talentos, e levantou outros, entre estes, houve a ridicularização artística. Os músicos de qualidades, perderam o espaço de escolha musical, estilos e composições, itens qualitativos que predominam uma boa sonoridade.
Estes fatos, ocorrem por algumas circunstâncias econômicas, estrangeirismo, predominação social, autoridades governamentais e etc. A realidade que vivemos é triste. A liberdade de expressão tornou-se um fator vergonhoso, onde o objetivo das músicas elaboradas, vem desmoralizando a mulher, reforçando o vandalismo, a criminalidade e desfazendo de uma sociedade e de um país rico culturalmente, musicalmente e artisticamente. Sabe-se que a música tem um poder de mover a grande massa, pessoas de diversas classes sociais e diferentes culturas ou situações, isso tudo, através dos ritmos, compassos, letras e estilos musicais.
A MPB está em total decadência. O consumismo vem prevalecendo no meio artístico, tornando o capital, o principal motivo de uma apresentação ou evento, e não mais a paixão pelo o que se faz. Assim, os profissionais passaram a investir em estudos e trabalhos fora do ramo musical por um tempo, e outros para sempre. Por que deixar o mundo preto e branco se temos diversas cores? Estes artistas, que tanto lutam por uma posição digna, são as pessoas que mexem no mundo de modo a colorir e espalhar alegria por onde tocam e cantam.
Posterior a esta crise no meio artístico, houve uma transformação, a passagem de jovens talentos, novos ritmos e investimentos. Hoje vem alcançando a sociedade através das músicas sertaneja, arrocha e funk. Este nosso ciclo tem trazido músicas compostas de letras baseadas em traições, sofrimentos, infidelidade, ostentações, pornofônias e utilizando a figura feminina como símbolo sexual e objeto de prazer, além das letras que transmite aos ouvintes ofensas, agressões e gestos pornograficos  desvalorizando a mulher brasileira.
A proporção que a MPB não evolui da raiz existencial, nos faz pensar: são estas, as músicas que tenho para escutar, são estas palavras desrespeitosas que tenho para ouvir? As mulheres trabalhadoras, donas de casa, alicerce de sua família, que lutaram e lutam pela igualdade, liberdade e contra o preconceito, são estes, o retorno de suas conquistas e batalhas que devemos escutar nas rádios, internets, televisões e celulares?
Contudo apresentado, é vergonhoso o comparativo da censura sob as músicas que tanto agregavam a sociedade e a evolução cultural artística de antigamente, diante da liberdade de expressão vista nos últimos tempos, onde não há repúdio e nem legitimidade para a retirada destas canções que constrangem o povo, a conduta, a moral, a ética, as lutas, a história e a cultura brasileira, nordestina e da Bahia.

O samba, o baião, o forró, o pagode alegre saudável, a MPB, fazem parte de uma história, de vários marcos sociais, de períodos da evolução do Brasil. E por isso, devem ser mantidas por gerações, respeitadas e engrandecidas, e não esquecidas ou substituídas por novos rits populares que desmerecem o povo e sua culturalidade por difamações e negligências verbas e dançantes. A cultura brasileira por vez, precisa ser continuada a rigor da sua evolução histórica e enriquecida de conhecimentos. É importante lembrar que ao exterminar a MPB, estarão extinguindo a história de um povo e a cultura de um país chamado Brasil. Inté!

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

MPB: tendência ou movimento?

Uma das mais ricas do mundo, a música do Brasil sempre foi o seu principal item de exportação cultural


Abril de 2002, reunião do comitê de seleção do Grammy Latino, em São Paulo. Diretor da gravadora Trama, também produtor musical e um dos membros votantes do prêmio, João Marcello Bôscoli questiona os critérios de seus colegas na mesa, que até então vinham catalogando no escaninho pop artistas como Fernanda Porto, Max de Castro, Paulinho Moska, Pedro Mariano, Wado, Bossacucanova, Lenine, Zélia Duncan… Segundo ele, essa geração, mesmo que usando novas sonoridades e ritmos “de fora”, fazia MPB, e era nesse abrangente balaio da música popular brasileira que deveriam estar. “A sigla MPB é muito forte, já ultrapassou as nossas fronteiras, e não podemos deixar que se transforme numa coisa do passado, só de artistas velhos”, argumentava o articulado filho de Elis Regina e do letrista Ronaldo Bôscoli.
Sim, os argumentos de João Marcello venceram, a partir daquela edição do Grammy Latino, esses artistas – não só de sua gravadora, e ele deixou bem claro que não advogava em causa própria – acabaram concorrendo no escaninho da MPB, ao lado de caetanos, guingas, chicos, miltons…
Questão resolvida ali, mas talvez não em outros prêmios, áreas, no abstrato mercado, junto aos consumidores-colecionadores-pesquisadores. Ou seja, é uma discussão rica, que continua rendendo.
Caetano Veloso, por exemplo, já declarou muitas vezes detestar a sigla MPB – logo ele, que é considerado um dos mestres do estilo. Já um compositor como Nei Lopes, responsável por dezenas de sambas clássicos, escritor, pesquisador e pensador da cultura afro-brasileira, ficara feliz ao ter seus discos incluídos no livro Guia de MPB em CD, que o autor desse artigo preparara em 1999 para a editora Jorge Zahar.
Para entender a posição a princípio antagônica desses dois artistas que também estão entre os pensadores, os ideólogos de sua arte, e avançar numa discussão do tema, é necessário destrinchar melhor o significado dessas três letrinhas.
Em princípio, MPB seriam as iniciais de Música Popular Brasileira, e esse foi o critério usado para selecionar os artistas e os discos no tal Guia. Nesse sentido, trata-se, portanto, de um abrangente leque, que pode ir do samba ao baião, e também do pop tupiniquim ao sertanejo, da bossa nova ao axé. Mas numa definição mais restrita – e aí fica mais fácil de entender o porquê do desconforto de Caetano – a sigla MPB nasce em meados dos anos de1960, para rotular a produção pós-bossa-novista, dos cantores e dos compositores revelados principalmente nos grandes festivais competitivos que mobilizaram o país na época. É uma geração de artistas na sua maioria de classe média, quase todos com passagem pela universidade, gente que teve como régua e compasso a batida e o canto revolucionários de João Gilberto, mas que logo passou a incorporar outros ingredientes além do samba, que é a espinha dorsal da bossa nova. Cariocas como Edu Lobo e Marcos Valle, por exemplo, foram buscar nos ritmos nordestinos – o primeiro, no frevo e nas cirandas; o segundo, no baião e também no frevo – fontes diferentes para suas composições. O samba ganhou novo fôlego a partir de fins dos anos de 1960, nas mãos e mentes de gente como Paulinho da Viola e Sidney Miller. E, a partir da década de 1970, uma safra de artistas do Nordeste – de Alceu Valença a Zé Ramalho, passando por Fagner, Elba Ramalho, Geraldo Azedo… – botou novamente na roda os ritmos de gente então ainda ativa como Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e João do Vale.
Aí estavam alguns dos principais ingredientes do caldeirão que caracterizou a MPB a partir de meados dos anos 1970. Receita que, no entanto, nos anos de 1980, começou a azedar. Independentemente da qualidade da produção de muitos dos artistas que eram rotulados como MPB, percebia-se uma pasteurização e o esgotamento dessa tal de música popular brasileira. É a época de deslumbradas produções nos estúdios de Los Angeles e Londres, muitas vezes com instrumentistas e arranjadores estrangeiros, que nada acrescentavam à música brasileira. Para um disco como Native dancer, do saxofonista de jazz Wayne Shorter com Milton Nascimento, tínhamos dezenas de álbuns insossos de Simone, Fagner, Roberto Carlos…
Correndo contra essa maré, pelo menos duas correntes se afirmam: a partir de fins dos anos de 1970, artistas radicados em São Paulo como Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e Grupo Rumo avançaram na linha evolutiva que a Tropicália focara em 1968. Para quem gosta de rótulos, essa safra, boa parte dela nascida em torno do teatro Lira Paulistana, fazia uma MPBV: música popular brasileira de vanguarda. Com pouco ou nenhum sucesso, esteticamente eles deixaram marcas.
Enquanto isso, o rock, que passara os anos 1970 no underground, ignorado pelos meios de comunicação de massa, ascende ao poder com a geração de Blitz, Lobão, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Titãs, Lulu Santos, Kid Abelha, RPM… Muito sucesso, por toda a década de 1980, legado estético próximo do zero. Catalogados também nessa praia roqueira, mas com trabalhos que mantinham elos com a MPB, estavam artistas como Marina Lima e
Eduardo Dussek, que, de certa forma, já faziam o que hoje podemos rotular de uma música popular brasileira contemporânea.
A partir da febre roqueira, o mercado de música brasileira enfrentaria outros surtos, que corriam à margem da chamada MPB. Todos eles incentivados pela indústria do disco, que, com uma política predatória de lucro rápido, apostava todas as suas fichas (e verba de marketing, jabá) em ondas: sertanejo, pagode, axé.
De uma dupla sertaneja que vem desde os anos 1980, mas chega à grande mídia a partir de meados da última década 1990, e que teve um recente repique de popularidade detonado pelo filme Dois filhos de Francisco, o articulado Zezé Di Camargo (do duo completado por seu irmão Luciano), batia nessa tecla: os medalhões da MPB já não fazem sucesso, a verdadeira música popular brasileira seria a feita por eles. Sob o aspecto meramente comercial, ele até pode ter alguma razão, mas musicalmente, o sertanejo tem cada vez menos do caipira, atropelado que é pela música country dos EUA.
Nos anos de 1990, a tal de MPB passa a ser chamada também de “emepebezona”, num tom pejorativo que sugere um gênero inchado, esgotado. É nesse período, no entanto, que focos de renovação, ou de inserção da canção brasileira na contemporaneidade, voltam a espocar. No Recife, a geração de músicos (e artistas plásticos, diretores de cinema e vídeo) que se autodenominou mangue bit – e que por uma falha de informação chegou à imprensa escrita como beat, de batida – daria a senha para parte considerável da produção dos jovens artistas do pop. Um pop – rock, eletrônico… – que remetia aos ritmos pernambucanos, como se verificou no trabalho de Chico Science & Nação Zumbi, mundo livre s/a, Mestre Ambrósio…
No Rio, gente que nos anos de1980 estivera mais ligada ao rock, também segue nessa direção, como se observa na música de Pedro Luís e a Parede, do pernambucano Lenine. Outros artistas, que no início de carreira transitaram num limiar entre a MPB e o pop, engrossam essa corrente, numa lista que passa por Marisa Monte, Ed Motta, Bebel Gilberto, Adriana Calcanhotto, Zélia Duncan, Chico César, Affonsinho, e desemboca mais recentemente em Vanessa da Matta, Lucas Santtana, Fernanda Porto, Max de Castro, Pedro Mariano, Jair Oliveira, Moreno Veloso, Kassin…
É uma turma que não renega o melhor da tradição da MPB, que, em muitos casos, é usada como base, referência.
Contemporaneidade que também impregna uma música popular brasileira que vinha rodando o planeta desde a bossa nova, nos anos de 1960, e que, num mundo cada vez mais disputado e globalizado, tem seu nicho garantido no século 21. Nesse processo, a MPBC se afirma graças a sua diversidade rítmica e melódica. Consumidores de música em Londres, Tóquio, Paris, Nova York descobrem de Tom Zé a Mutantes (que acabam de voltar, com Zélia Duncan no lugar de Rita Lee, mas recuperando o repertório de seu melhor período, em plena Tropicália), de Ed Motta a Azymuth, de Joyce a Marcos Valle, de João Donato a Marku Ribas, do grupo Bossacucanova a Céu.
Muitos desses artistas dialogam com as novas tendências do pop planetário e se impõem com uma original equação de ritmo, harmonia e melodia. Uma das mais ricas do mundo, a música do Brasil sempre foi o seu principal item de exportação cultural: de Carmen Miranda (com um repertório que passa por Ary Barroso, Dorival Caymmi, Assis Valente e companhia), que chegou a Hollywood no início dos anos de 1940, à geração da bossa nova, que conquistou o planeta a partir dos anos de 1960, não faltam exemplos. E nesse movimento, samba, baião, bossa nova, maracatu e afins se afirmaram, por sua excelência e sofisticação, muito além da macumba para turista que Oswald de Andrade já alertara há décadas.

Como Antonio Carlos Jobim sempre fez questão de afirmar, na música o Brasil sempre foi Primeiro Mundo. E rótulos e nacionalidades à parte, o jazzman Duke Ellington costumava dizer: “Só existem dois tipos de música, a boa e a ruim! ”.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Capitulo 68 – A CRISE DA NOSSA MPB

A música popular brasileira está em crise. Pelo menos aquela que se rotulou, na década de setenta, como MPB. A que se inscreveu na História como transgressora e libertária nos tempos da ditadura. Levando essa bandeira na era dos festivais no circuito Sampa-Rio.
Aliás, essa música, em 2007 comemorou 40 anos dos primeiros festivais, e este ano: 50 de Bossa-Nova.

Os compositores como Geraldo Vandré, Chico Buarque, Edu Lobo, Gonzaguinha, Paulo César Pinheiro, Tom Jobim e Milton Nascimento. Só para ficarmos com sete nomes expressivos dessa época. Apenas o último, o mineiro-carioca de mil tons, conseguiu se fixar, atualizando-se, no gosto da juventude de hoje.

Se não acredita, meu querido leitor, então faça o teste. Pergunte a jovens na faixa de dezesseis aos vinte e cinco anos quem é Edu Lobo, Marcos Valle, Taiguara, Geraldo Vandré? Agora, pasme! Sequer o ícone mais querido Chico Buarque é conhecido.

A culpa é de quem? Das rádios que não tocam mais esses compositores? Não creio. Deve haver outro fator endógeno no meio do caminho como a pedra do poeta itabirano.

O brasileiro padece da enfermidade inquieta do nihilismo. Tudo acaba em nada. Ás vezes dá um tempo como chuva de verão, só para “deixa ficar, que eu quero ver aonde vai dar esse chove não molha”. 

Como se joga fora, descartando-a como passadista, a BOSSA NOVA? O movimento musical mais expressivo da música popular da nossa história. A música que levou o Brasil mundo afora até hoje.
Os que viajam para América do Norte USA, Canadá e México sabem disso. Se for para a Europa aí é que ela continua tocando. Marcos Valle está muito bem obrigado em Londres.

A Tropicália dos baianos ainda sobrevive porque Gil e Caetano sempre tiveram proximidade maior junto aos jovens músicos, aos anseios dos ouvidos mais roqueiros e pops. Hoje você pode escutar hits dos dois até hoje sendo tocados em releitura por bandas de rock.

A minha tese é a de que os grandes compositores da era dos festivais se acomodaram. O público brasileiro, exigente, também descartou essa turma talentosa. Colocando-os como os “órfãos da MPB”. Não há mais milicos atravancando as nossas liberdades para um clima de música de protesto. Por isso mesmo a fórmula dos velhos festivais se exauriu. Muitos, da minha geração sessentinha, se exilaram, também órfãos de Marx, migrando para o esotérico. Na música para a NEW AGE, na literatura para o recontar sufi-bíblico-alcorânico de Paulo Coelho. Muito melhor como parceiro de Raulzito, sem dúvida.

E aonde buscar uma saída? Creio que o exemplo mais expressivo, está na proposta de Chico Science e Mestre Ambrósio em Pernambuco, por exemplo. Há outros indícios de mudança nos recantos mais escondidos do nosso Brasilzão..

Não podemos nos dar o luxo de jogar no lixo boas propostas. Pela nossa riqueza rítmica e cultural. Essa diversidade que encanta estrangeiros ao ponto de aqui virem buscar as nossas batidas e transformá-las, pela beleza e pelo marketing, num batuque universal.

Fica a pergunta em tom de provocação. Espicaçar para traçar uma reta. Antes que acusem o nosso espaço sistêmico pela culpa da pirataria e pela programação das rádios. A Internet é mais embaixo.
Nos versos da música “Alegria, Alegria” cantados e entoados por décadas na voz de Caetano Veloso, o compositor falava dos tempos difíceis e massacrantes do período de repressão da ditadura civil militar que condenou o Brasil durante 21 anos, vitimando milhares de pessoas. Apesar de intitulada “Alegria, Alegria”, sua letra e sentido lírico não denotam em nada momentos de felicidade e satisfação. Caetano magistralmente buscou apresentar toda sua revolta e dor com o cenário político-social da época. Falou através da música, pois era uma das únicas formas que existia para expressar sua opinião sem ser censurado e, consequentemente, preso, torturado e/ou morto. Foram tempos difíceis. Época onde o alcance dos gritos de liberdade e luta eram de difícil abrangência. Tempos em que o advento da informação era limitado e os que existiam eram claramente tendenciosos e apoiadores do regime ditatorial. Artistas como Caetano, Chico Buarque, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Elis Regina, Milton Nascimento, dentre outros, cantaram suas vivências e indignações em canções de sentidos diretos e/ou indiretos.
“Esses artistas procuraram observar de que maneira a situação sociopolítica – censura, controle, repressão, cerceamento de liberdades – imposta pela ditadura foi determinante na forma e nas escolhas discursivas, sendo capaz de fazer surgir um novo gênero musical – o gênero de protesto”(Calazans, 2016).
Justificaram seu povo, sua época e as aflições que nela existiam. Tudo isso sem advento das tecnologias e a extensão que a informação tem nos dias atuais. Isso era 1964. Hoje, 52 anos depois, temos uma velocidade na informação que transpassa o pensar e sua dimensão é imensurável. As situações políticas e sociais não são as mesmas e, consequentemente, com a liberdade política e de expressão, uma paleta de opiniões e pensamentos é tão próxima da existência plena que chega a ser tateável. Com isso, poderíamos dizer que aquela situação de 1964 estaria certamente extinta, ou seja, não haveria espaço jamais para que uma ditadura pudesse impor suas mãos de “chumbo” sobre a opinião alheia e, por conseguinte, influenciar no discurso de quem quer que seja. Pois é, não é bem assim.
Vivemos em nosso país um tremendo estado político-social de preocupação quanto aos inúmeros direitos políticos conquistados a duras lutas e, muitas vezes, banhados a sangue de inocentes. Não quero entrar diretamente no nicho político da questão, até porque esse é bem amplo e complexo. Quero falar do comparativo dos cenários de 1964 e 2016, quanto à representatividade da música e a opinião político-social dos que hoje são os “grandes nomes da música brasileira” e, portanto, fazer um parâmetro do acesso de informações e sua abrangência. Quero falar do artista como uma representação de sua época e seu público.
O ano é 2016 e a visibilidade, seja em qual campo for, é infinitamente maior. Os “15 minutos de fama” nunca se justificaram tanto quanto nos dias atuais. Diariamente surgem inúmeros novos “artistas” e a amplitude do alcance de sua voz (e opinião), é estrondoso. O artista, por si só, é um formador de opiniões, um direcionador social. Sendo assim, entende-se que no cenário político atual muitos dos maiores nomes da música brasileira no momento estariam, com sua popularidade, expressando sua opinião quanto aos atuais acontecimentos, certo?! Não é bem assim. O que existe dessa galerinha é apenas um silêncio quase que ensurdecedor.

Estamos falando de artistas com um enorme público. Aqueles que detêm milhões de seguidores nas redes sociais e que, com isso, teriam suas opiniões alcançadas numa dimensão assombrosa. Afinal, momento mais propício para levar sua fala quanto a sua relação político-social não haveria. Isso só vem a provar que não há engajamento político e social desses artistas. São apenas “business and business”.
É triste enxergar que uma ferramenta tão importante e agregadora como a música brasileira está entregue nas mãos de artistas que tem uma visibilidade enorme, como Ivete Sangalo, Wesley Safadão, Cláudia Leitte, Anitta, mas que, na contramão, nenhum desses faz uso da imagem e alcance que tem para lutar por causas sociais e políticas necessárias. Preferem o “muro” como morada, para não decepcionar nenhum dos lados e não perder parcelas de seu “fiel” público. O campo de batalha não os pertence. Na verdade, não os merece. Não se pede deles uma opinião formada sobre determinado “lado”, mas que expressem de alguma forma o conhecimento do momento, seu povo e o cenário onde atuam. Pede-se que opinem através de suas músicas.
Não é apenas saudosismo, eu juro, mas é inevitável não desejar a presença tão ávida de um Chico, um Caetano, uma Elis, um Gil. E são esses artistas, no seio de um turbilhão de acontecimentos, que estão vindo a público expor suas ideologias e opiniões diversas. São artistas que convergem e comungam de veias sociais e que, diante da conjuntura atual, não se calam e expõem aquilo que pensam (uns mais que os outros). A sociedade precisa se sentir representada na música, pois esse também é um dos inúmeros papéis que esse importante instrumento oferece (não apenas o entretenimento, mas, e principalmente, o cunho político social). Mas tá difícil, viu!
O bom disso tudo é saber que mesmo sem a enorme popularidade “desses artistas” (Ivete, Cláudia, Wesley e outros), temos nomes como Otto, Tico Santa Cruz, Lirinha, Chico César, Thaíde, Criolo, Racionais Mc’s, Mc Carol, Karol Conca, dentre outros, que puxam as correntes das causas sociais e trazem para o debate aberto os temas mais relevantes e necessários do cotidiano. Afinal, Mc Carol já dizia nos versos de Delação Premiada:
“Troca de plantão a bala come é fera
Ontem teve arrego
Rolou baile na favela
Sete da manhã
Muito tiro de meiota
Mataram uma criança indo pra escola…
 …afastamento da polícia é o único resultado
Não existe justiça
Se assassino tá fardado.
Na televisão
A verdade não importa
É negro, favelado, então tava de pistola…”

Essa é a hora. A hora de fazer a revolução também através da música, portanto, play no Spotify e vamos à luta, amigos e amigas…

domingo, 12 de novembro de 2017

Capítulo 67 - O cenário atual da música brasileira enche o saco

 

Ok, isso é um belo de um vespeiro.

Eu deveria ficar com minha boca fechada, pra não arrumar confusão. Mas não aguento, então gostaria apenas de pontuar que, daqui pra frente, é opinião, opinião e opinião. Não sou nem um crítico gabaritado, sou somente um sujeito de gosta de música. Beleza?
Críticos gostam de falar de cenários. O cenário atual do pop, o cenário atual do Rock. A cena do underground. Bom, se a analogia é com artes cênicas, eu creio que a música nacional está passando pelos dias de teatro do absurdo. Por um lado, temos uma indústria totalmente profissional, movimentando montanhas de grana pra produzir merda. Seria como o Gerald Thomas on drugs produzindo uma versão teatral de Chaves. E do outro, lado atores profissionais interpretando Hamlet, mas com cenários produzidos pelas tias do Colégio Primário Toquinho de Gente.
Quando eu era moleque, 80% do que a gente ouvia vinha de fora. E os músicos reclamavam, nos chamavam de colonizados, de alienados, de vendidos aos ianques. Pois corta pra 2016, e hoje mais de 70% do que se ouve é nacional. Bom, né?
Será?
Não vou entrar em juízo de valor. Talvez o caminho seja esse mesmo. 50 anos tentando descobrir quais seriam nossas impressões digitais musicais para chegar a conclusão de que aquilo que nos representa mesmo são duplas de sujeitos gritando com vozes agudas, calças apertadas e chapeus de vaqueiro. Mas como isso cansa.
Eu me encontro bem de mau com a música nacional. Não tenho saco, não tenho paciência, tudo me causa náusea, sono, revolta ou os três juntos, o que é quase um daqueles episódios de Pokemon que despertavam epilepsia.
Não aguento ouvir falar de mais uma música sertaneja cujo refrão é alguma expressão idiomática levemente modificada, ou alguma onomatopeia. Não aguento mais saber que eles gostam tanto de cerveja, mulher e alguma outra coisa aleatória, estou cagando para o fato de que eles levaram um chifre e estão tristes, mas vão superar e dar a volta por cima. Não quero mais mistura de guitarra com sanfona.
Não consigo acreditar que ainda existam variações de temas para cantar como Salvador no Carnaval é bom. Que existam formas novas de falar “tererê-tê-TÊ-rê-RÊ!” em axés, nem maneiras físicas de “sair do chão” e “quero ver as mãos” que a lei da gravidade e da anatomia permitam.
Por outro lado, grande parte da chamada Nova MPB me dá sono. Primeiro, porque tudo que eu falei até o momento deveria ser MPB, já que é popular, e bem, infelizmente é brasileiro, mas como não faz parte desse clube de gente chique e com cara de quem acordou e não penteou o cabelo, fica de fora. Mas me falem a verdade, as pessoas precisam ter nascido com uma paciência de Jó para aguentar a quantidade absurda de “iáiás e iôiôs” e “shimbalauês” dessa galera. É muita fofinhice, muito complexo de emoticon, muita bundamolice. A MPB séria perdeu os dentes, e vive cantando o quanto sopa de água com amor é lindo.
Aliás, gente, que tanto amor é esse? Ok, como diria o Paul McCartney, eu gosto de tanto de “tolas canções de amor” quanto qualquer um, mas pra tudo há um limite. Eu não sei o que se esgotou, se foi o assunto, a coragem para falar dele ou a minha paciência. Mas sinto que essa galera supernhóim não quer muito ficar colocando o dedo em feridas que podem desagradar uns e/ou outros. E dessa forma, vai ficar difícil alguém escrever um novo “Como nossos pais”, ou um “De Frente pro Crime”. É tudo gostosinho, melódico, suave e brocha.
O lado contrário disso é o funk, que, segundo algumas correntes ideológicas, eu deveria respeitar, porque é música do povo, pelo povo e para o povo, mas catzo, como eu acho ruim, primário, tosco. Pra mim o funk (a corrente carioca do funk, que fique claro) é uma piada que alguém levou a sério. As primeiras vezes que ouvi era quase uma atividade humorística. Alguém tinha um CD de proibidão para ouvir os caras gritando barbaridades como quem tem uma fita do Costinha ou do Manhoso no carro. Era zueira. Mas parece que alguém levou a sério, porque agora tem gente que ouve funk mesmo. Assim, direto, playlist com 200 músicas seguidas no celular, para ouvir no talo enquanto trabalha. Ou no ônibus, no alto falante do carro, em qualquer lugar, desde que todo mundo ouça junto, queira ou não.
Os temas são de uma diversidade de impressionar qualquer boteco. A julgar por essa produção cultural, a favela (desculpem se parece reducionista, mas todos os funks que eu ouço falam somente da favela) só quer saber de transar com as novinha, de usar droga e detonar a polícia. Nas vertentes femininas, a situação se inverte, mas não o teor. Há quem diga que é música do povo. Eu acho bem triste se for. Ver rico ouvindo essa música como se isso, por si só, fosse um movimento de contra cultura é apenas patético. Tenho saudade da época que qualquer pessoa precisava se curvar à genialidade de um Cartola. Sinto que esse espasmo de boçalidade possa estar eclipsando o aparecimento de novos talentos genuínos, indispensáveis.
Há pouco tempo eu assisti a uma velha entrevista do Cazuza num programa da Marília Gabriela, e fiquei pensando: que sujeito interessante. Quantas opiniões diversas, surpreendentes, que inteligência. Mesmo quando eu não concordava com ele, era admirável a facilidade e soltura que ele exprimia suas opiniões, com aquela cara de foda-se se você não gostar. Livre. Não era só ele: corra no Youtube, e assista qualquer entrevista de TV concedidas nos anos 80 e 90. Não é uma questão de nostalgia, parece que havia mais o que falar.
Hoje, quando vejo as musas da música nacional falarem mais de 3 frases, elas estão sempre sendo juradas de algum programa que premia quem canta mais tempo em contralto qualquer coisa com a entonação de uma Whitney Houston da Bahia, ou estão dizendo qual demaquilante ou creme antirrugas elas usam para deixar a pele como seda após os shows. Raro quando alguma declaração me faz parar por mais de cinco minutos para ouvir.
E os “musos” da música nacional? Quem são? Se alguém souber, me fala por favor. Mas tem que ser alguém que não vá comentar sobre plantação de tomate ou sobre o pôr do sol em Cuiabá. Me diz alguém como o Caetano, por favor. Alguém que tenha mais o que dizer.
Talvez porque eles só se pronunciem através dos assessores de Social Media deles. E só se vistam através dos Personal Stylists. Em entrevistas com pautas pré-decididas, com fotos grandes, em praias desertas. E mesmo assim, alguns desses gênios ainda conseguem dizer que “se pegassem tal repórter gostosinha, a quebraria no meio”. Que decepcionante isso vindo de um país que tinha um Vinícius de Moraes, que conquistava com suas namoradas com poesias. E olha só que coisa demodê (ainda se fala demodê?), casava com elas.
É triste perceber que até o momento não falei do rock. É que por decisão editorial, prefiro falar sobre quem ainda está entre nós. Os defuntos, esses é que não movem moinhos mesmo. De uma forma triste, o rock parece uma planta mais rara. Não consegue viver num cenário de desolação tão absoluta.
Mas pra não dizer que não falei das flores, é justamente dele que sinto mais falta. Na minha juventude, era do Rock que vinham as vozes que diziam o que eu não tinha maturidade pra dizer. Eram os Renatos Russos, Lobões, Leos Jaimes e Cazuzas que traduziam nossas angústias, fossem elas políticas, sexuais ou amorosas. Eram eles que sentiam o que eu não sabia em dar nome. Eles eram nossa voz. Hoje meu filho bem que procura, mas acaba encontrando seus temas nas mesmas vozes que eu encontrei há tanto tempo.
Curiosamente, o que (literalmente) movimenta os jovens de hoje é a música eletrônica, e seus festivais (literalmente) intermináveis, com horas e horas e horas de som ininterrupto batendo sem dó na cabeça do povo. Não que eu entenda, mas costumo ver os eletrônicos com mais simpatia, porque pelo menos parecem estar experimentando mais, brincando mais, se atirando de maneira menos corporativa e mais corajosa. Porém, veja que interessante, a grande maioria das músicas não tem nem letra.

A julgar pelo silêncio no horizonte da música popular, ou essa geração não tem problemas, ou nasceu muda. Inté!


segunda-feira, 30 de outubro de 2017

CAPÍTULO 66 - MPB: JÁ CHEGAMOS AO FIM DO POÇO?
(Parte 3- Final da série)
Esse “poço” parece não ter fim. A capacidade de produção de música ruim é proporcional ao apetite de gravadoras, mídias e produtoras de faturar. Entramos em um círculo vicioso: oferece-se a música que o povo quer, aumenta o “ibope”, todo mundo fatura… ou o povo gosta porque é o que oferecem a ele…(Tostines é fresquinho porque vende mais ou vende mais porque é fresquinho?” )
Vai ser difícil romper o círculo quando todos os seus mantenedores estão satisfeitos. Como convencer, por exemplo, a Globo a colocar na sua grade de programação, em horário nobre, MPB de qualidade? Dirão: não vai ter “ibope”. Já o fizeram há vários anos (houve até um programa comandado por Chico e Caetano). Recentemente produziram uma série de programas dedicados aos grandes compositores da MPB. Puseram-nos na madrugada, após o Programa do Jô, certamente para não prejudicar o “ibope”. O “Altas Horas”, quando era de madrugada (altas horas mesmo), trazia boas músicas. Depois que passou a ser transmitido mais cedo, virou uma repetição do “Domingão do Faustão” e de outros “domingueiros” com um desfile de “sertanejos universitários” , pagodeiros, funkeiros etc. “A força da grana que ergue e destrói coisas belas”.
Não há muita chance de mudar isso. Boni, ex todo poderoso da Globo, defende que a tevê deveria dar um pouco mais ao povo, melhorando o nível gradativamente. Afinal como apreciar a ótima música de Noel se não o damos por conhecer? Como saber da existência de Lenine se não o pomos na grande mídia?
Poderia haver contra-argumentações (sempre bem recebidas). “A fila anda; temos que produzir coisas novas; o que passou passou…” Ponderaria ,reproduzindo mais ou menos o que ouvi de Paulinho da Viola: não sinto nostalgia nem saudade porque o passado está presente em mim. A música de Cartola é atual. E, depois, temos que “andar” evoluindo, não retrocedendo. Mas aí vem aquela frase matadoura, para encerrar o papo: gosto não se discute. E eu me permito contra-argumentar: de fato, gosto não se discute, mas qualidade sim.
Enquanto isso, para ouvir música de qualidade,vamos nos contentando com circuitos alternativos, infelizmente não acessíveis a todo mundo. Auditórios e certas casas noturnas de algumas capitais mantêm programação com grandes nomes da MPB. Em geral lotam. Para shows de Betânia, SimoneChico, Caetano, Paulinho da Viola entre outros há necessidade de compra antecipada de ingressos.
A boa música brasileira continua aí sempre nascendo e renascendo nas vozes de Marisa Monte, Zélia DuncanRoberta Sá, Tereza Cristina, Mariene de Castro, Adriana Calcanhoto, Vanessa da Mata, Tulipa Ruiz, Mariana Aydar,  Monica Salmaso, Paula Lima, Céu, Fabiana Cozza e tantas outras e outros que não deixam a peteca cair. Continuam presentes e atuais todos os grandes compositores e intérpretes brasileiros. Continuarei ouvindo no meu carro todos eles e os que por falta de espaço e esquecimento não citei nos artigos anteriores. Certamente entre esses estará o mestre do bandolim Jacó, a  “divina” Elizeth, a notável Elis, Clara, Paulinho , João Nogueira, Gonzaguinha, Tim Maia, Jorge Ben (sem o Jor), Milton Nascimento, Nelson Gonçalves, Orlando Silva, Raul Seixas, João Bosco, Nana Caymmi, Fagner, Altemar Dutra e…
Senão, dando uma chegadinha no exterior, poderei ouvir uma boa Música Popular Brasileira.
EXEMPLOS DE LETRAS DE MÚSICA- (Pequenos trechos catados sem muito esforço)
1-De Paulinho da Viola 
Teu olhar iluminava
O mar que havia no meu coração
Meu barco de sonhos
Tranqüilo
Navegava em meu delírio
Entregue em tuas mãos
Mas o tempo sempre apaga
O fogo de qualquer paixão
E lança, sem pena,
As flores que restaram
Nas águas da desilusão
2-De Vinicius de Moraes
Ai, vontade de ficar mas tendo que ir embora
Ai, que amar é se ir morrendo pela vida afora
É refletir na lágrima um momento breve
De uma estrela pura
Cuja luz morreu
Numa noite escura
Triste como eu
3-De Caetano Veloso
O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim
4-De Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito
Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor

5 De Orestes Barbosa
E a lua furando nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão.
Tu pisavas nos astros distraída…

6-De Lenine
Daqui desse momento
Do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem
A sombra do futuro
A sobra do passado
Assombram a paisagem

7-De Emicida
Hoje cedo
Quando eu acordei e não te vi
Eu pensei em tanta coisa
Tive medo
Ah, como eu chorei, eu sofri
Em segredo
Tudo isso
Hoje cedo

8- De Chico Buarque
Amaram o amor urgente
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar

A música brasileira dos dias de hoje e sua triste realidade!

A indústria musical hoje no Brasil busca novidades que agradam ao ouvido da população e da mídia em geral. Mas o que leva a uma grave preocupação é que a boa música de algumas décadas atrás foi praticamente esquecida pelas gravadoras e trocada por produções de baixa qualidade musical, que facilmente agrada os ouvintes atualmente.

Composições vazias e sem conteúdo relevante é o que gera lucro para os empresários da música, logo o espaço que poderia ser divulgado novos talentos e relembrado grandes clássicos são exclusivos de artistas com qualidade musical totalmente limitada. Isso sem levar em consideração também o fato de que, músicos que possuem obras superiores tecnicamente, ou em qualquer outra questão, ficam sem espaço na grande mídia. Estes acabam restritos aos fãs mais fiéis e a alguns ouvintes que buscam obras bem produzidas, os quais são, obviamente, mais sensatos que os adoradores do baixo nível.

Se for preciso citar alguns gêneros que entopem as rádios e emissoras de TV com lixos industriais, com certeza o faremos. Qualquer pessoa que consiga compreender algo totalmente básico em uma obra artística e não a aprecie apenas superficialmente, logo perceberá que o Funk brasileiro, os chamados Sertanejos Universitários, entre outros, espalham músicas sem nenhum conteúdo relevante. Porém o que acontece? A grande massa gera lucro para estilos como estes, deixando grandes composições de MPB e do velho Rock Nacional, principalmente da década de 70 e 80, cada vez mais esquecidos e menos valorizados.

Artistas que produzem “enlatados”, ou seja, obras que já vêm prontas e são fáceis de engolir, ganham inúmeros prêmios, como de melhor banda, melhor música, melhor cantor etc. E os dinossauros da música brasileira estão sendo fortemente abandonados por grande parte do público e pela mídia.

É necessário ressaltar também que o capitalismo além de matar muitas pessoas, está matando e quer enterrar, sem piedade, a boa música. Esta afirmação existe baseada principalmente em uma concepção, um dos fatores primordiais deste sistema, o dinheiro. Atualmente as gravadoras se preocupam essencialmente com o lucro, ao invés da qualidade das obras. Essa triste realidade acaba fazendo com que os artistas fiquem sem opções de escolha, em outras palavras, ou você aceita que o mais importante na música hoje é o lucro, ou contente-se com a cena underground.

Felipe Ferraz