MPB: tendência
ou movimento?
Uma das mais ricas do mundo, a música do Brasil sempre foi o
seu principal item de exportação cultural
Abril de 2002,
reunião do comitê de seleção do Grammy Latino, em São Paulo. Diretor da
gravadora Trama, também produtor musical e um dos membros votantes do prêmio,
João Marcello Bôscoli questiona os critérios de seus colegas na mesa, que até
então vinham catalogando no escaninho pop artistas como Fernanda Porto, Max de
Castro, Paulinho Moska, Pedro Mariano, Wado, Bossacucanova, Lenine, Zélia
Duncan… Segundo ele, essa geração, mesmo que usando novas sonoridades e ritmos
“de fora”, fazia MPB, e era nesse abrangente balaio da música popular
brasileira que deveriam estar. “A sigla MPB é muito forte, já ultrapassou as
nossas fronteiras, e não podemos deixar que se transforme numa coisa do
passado, só de artistas velhos”, argumentava o articulado filho de Elis Regina
e do letrista Ronaldo Bôscoli.
Sim, os argumentos
de João Marcello venceram, a partir daquela edição do Grammy Latino, esses
artistas – não só de sua gravadora, e ele deixou bem claro que não advogava em
causa própria – acabaram concorrendo no escaninho da MPB, ao lado de caetanos,
guingas, chicos, miltons…
Questão resolvida
ali, mas talvez não em outros prêmios, áreas, no abstrato mercado, junto aos
consumidores-colecionadores-pesquisadores. Ou seja, é uma discussão rica, que
continua rendendo.
Caetano Veloso, por
exemplo, já declarou muitas vezes detestar a sigla MPB – logo ele, que é
considerado um dos mestres do estilo. Já um compositor como Nei Lopes,
responsável por dezenas de sambas clássicos, escritor, pesquisador e pensador
da cultura afro-brasileira, ficara feliz ao ter seus discos incluídos no livro
Guia de MPB em CD, que o autor desse artigo preparara em 1999 para a editora
Jorge Zahar.
Para entender a
posição a princípio antagônica desses dois artistas que também estão entre os
pensadores, os ideólogos de sua arte, e avançar numa discussão do tema, é
necessário destrinchar melhor o significado dessas três letrinhas.
Em princípio, MPB
seriam as iniciais de Música Popular Brasileira, e esse foi o critério usado
para selecionar os artistas e os discos no tal Guia. Nesse sentido, trata-se,
portanto, de um abrangente leque, que pode ir do samba ao baião, e também do
pop tupiniquim ao sertanejo, da bossa nova ao axé. Mas numa definição mais
restrita – e aí fica mais fácil de entender o porquê do desconforto de Caetano
– a sigla MPB nasce em meados dos anos de1960, para rotular a produção
pós-bossa-novista, dos cantores e dos compositores revelados principalmente nos
grandes festivais competitivos que mobilizaram o país na época. É uma geração
de artistas na sua maioria de classe média, quase todos com passagem pela
universidade, gente que teve como régua e compasso a batida e o canto
revolucionários de João Gilberto, mas que logo passou a incorporar outros
ingredientes além do samba, que é a espinha dorsal da bossa nova. Cariocas como
Edu Lobo e Marcos Valle, por exemplo, foram buscar nos ritmos nordestinos – o
primeiro, no frevo e nas cirandas; o segundo, no baião e também no frevo –
fontes diferentes para suas composições. O samba ganhou novo fôlego a partir de
fins dos anos de 1960, nas mãos e mentes de gente como Paulinho da Viola e
Sidney Miller. E, a partir da década de 1970, uma safra de artistas do Nordeste
– de Alceu Valença a Zé Ramalho, passando por Fagner, Elba Ramalho, Geraldo
Azedo… – botou novamente na roda os ritmos de gente então ainda ativa como Luiz
Gonzaga, Jackson do Pandeiro e João do Vale.
Aí estavam alguns
dos principais ingredientes do caldeirão que caracterizou a MPB a partir de
meados dos anos 1970. Receita que, no entanto, nos anos de 1980, começou a
azedar. Independentemente da qualidade da produção de muitos dos artistas que
eram rotulados como MPB, percebia-se uma pasteurização e o esgotamento dessa
tal de música popular brasileira. É a época de deslumbradas produções nos
estúdios de Los Angeles e Londres, muitas vezes com instrumentistas e
arranjadores estrangeiros, que nada acrescentavam à música brasileira. Para um
disco como Native dancer, do saxofonista de jazz Wayne Shorter com Milton
Nascimento, tínhamos dezenas de álbuns insossos de Simone, Fagner, Roberto
Carlos…
Correndo contra
essa maré, pelo menos duas correntes se afirmam: a partir de fins dos anos de
1970, artistas radicados em São Paulo como Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e
Grupo Rumo avançaram na linha evolutiva que a Tropicália focara em 1968. Para
quem gosta de rótulos, essa safra, boa parte dela nascida em torno do teatro
Lira Paulistana, fazia uma MPBV: música popular brasileira de vanguarda. Com
pouco ou nenhum sucesso, esteticamente eles deixaram marcas.
Enquanto isso, o
rock, que passara os anos 1970 no underground, ignorado pelos meios de
comunicação de massa, ascende ao poder com a geração de Blitz, Lobão, Barão
Vermelho, Paralamas do Sucesso, Titãs, Lulu Santos, Kid Abelha, RPM… Muito
sucesso, por toda a década de 1980, legado estético próximo do zero.
Catalogados também nessa praia roqueira, mas com trabalhos que mantinham elos
com a MPB, estavam artistas como Marina Lima e
Eduardo Dussek, que, de certa forma, já faziam o que hoje podemos rotular de uma música popular brasileira contemporânea.
Eduardo Dussek, que, de certa forma, já faziam o que hoje podemos rotular de uma música popular brasileira contemporânea.
A partir da febre
roqueira, o mercado de música brasileira enfrentaria outros surtos, que corriam
à margem da chamada MPB. Todos eles incentivados pela indústria do disco, que,
com uma política predatória de lucro rápido, apostava todas as suas fichas (e
verba de marketing, jabá) em ondas: sertanejo, pagode, axé.
De uma dupla
sertaneja que vem desde os anos 1980, mas chega à grande mídia a partir de
meados da última década 1990, e que teve um recente repique de popularidade
detonado pelo filme Dois filhos de Francisco, o articulado Zezé Di Camargo (do
duo completado por seu irmão Luciano), batia nessa tecla: os medalhões da MPB
já não fazem sucesso, a verdadeira música popular brasileira seria a feita por
eles. Sob o aspecto meramente comercial, ele até pode ter alguma razão, mas
musicalmente, o sertanejo tem cada vez menos do caipira, atropelado que é pela
música country dos EUA.
Nos anos de 1990, a
tal de MPB passa a ser chamada também de “emepebezona”, num tom pejorativo que
sugere um gênero inchado, esgotado. É nesse período, no entanto, que focos de
renovação, ou de inserção da canção brasileira na contemporaneidade, voltam a
espocar. No Recife, a geração de músicos (e artistas plásticos, diretores de
cinema e vídeo) que se autodenominou mangue bit – e que por uma falha de
informação chegou à imprensa escrita como beat, de batida – daria a senha para
parte considerável da produção dos jovens artistas do pop. Um pop – rock,
eletrônico… – que remetia aos ritmos pernambucanos, como se verificou no
trabalho de Chico Science & Nação Zumbi, mundo livre s/a, Mestre Ambrósio…
No Rio, gente que
nos anos de1980 estivera mais ligada ao rock, também segue nessa direção, como
se observa na música de Pedro Luís e a Parede, do pernambucano Lenine. Outros
artistas, que no início de carreira transitaram num limiar entre a MPB e o pop,
engrossam essa corrente, numa lista que passa por Marisa Monte, Ed Motta, Bebel
Gilberto, Adriana Calcanhotto, Zélia Duncan, Chico César, Affonsinho, e
desemboca mais recentemente em Vanessa da Matta, Lucas Santtana, Fernanda
Porto, Max de Castro, Pedro Mariano, Jair Oliveira, Moreno Veloso, Kassin…
É uma turma que não
renega o melhor da tradição da MPB, que, em muitos casos, é usada como base,
referência.
Contemporaneidade
que também impregna uma música popular brasileira que vinha rodando o planeta
desde a bossa nova, nos anos de 1960, e que, num mundo cada vez mais disputado
e globalizado, tem seu nicho garantido no século 21. Nesse processo, a MPBC se afirma
graças a sua diversidade rítmica e melódica. Consumidores de música em Londres,
Tóquio, Paris, Nova York descobrem de Tom Zé a Mutantes (que acabam de voltar,
com Zélia Duncan no lugar de Rita Lee, mas recuperando o repertório de seu
melhor período, em plena Tropicália), de Ed Motta a Azymuth, de Joyce a Marcos
Valle, de João Donato a Marku Ribas, do grupo Bossacucanova a Céu.
Muitos desses
artistas dialogam com as novas tendências do pop planetário e se impõem com uma
original equação de ritmo, harmonia e melodia. Uma das mais ricas do mundo, a
música do Brasil sempre foi o seu principal item de exportação cultural: de
Carmen Miranda (com um repertório que passa por Ary Barroso, Dorival Caymmi,
Assis Valente e companhia), que chegou a Hollywood no início dos anos de 1940,
à geração da bossa nova, que conquistou o planeta a partir dos anos de 1960,
não faltam exemplos. E nesse movimento, samba, baião, bossa nova, maracatu e
afins se afirmaram, por sua excelência e sofisticação, muito além da macumba para
turista que Oswald de Andrade já alertara há décadas.
Como Antonio Carlos
Jobim sempre fez questão de afirmar, na música o Brasil sempre foi Primeiro
Mundo. E rótulos e nacionalidades à parte, o jazzman Duke Ellington costumava
dizer: “Só existem dois tipos de música, a boa e a ruim! ”.
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