sábado, 25 de março de 2017

Capítulo 42 – PROMESSA POLÍTICA
Político nunca foi confiável, desde os tempos do Justo Veríssimo, personagem do Chico Anísio, que já nos mostrava com humor o terror que era essa gente. Agora, depois do mensalão, vivemos tempos mais as claras, tão as claras, que nada mais surpreende. Mas eu não vou falar de política, não é a minha praia, só vou relatar um causo, único, que participei cantando um jingle de uma campanha política.
A sexta na casa de festa dava sinais de esgotamento. Praticamente quase todos os finais de semana chovendo, as vezes uma garoa, outras um pouco mais forte, era uma época do ano propícia, mas parecia até macumba, isso fazia com que o bar deixasse de acontecer no espaço enorme e o jeito era arrumar as mesas dentro do salão, ficava aconchegante, mas diminuía o número de mesas e mesmo assim na maioria das vezes não lotava. A minha amiga dona da casa de festa já começava a cogitar a possibilidade de encerrar essa atividade e colocar o dia para aluguel também. O bar fora um sonho realizado. Nunca houve grande interesse empresarial, mas não se pode funcionar no vermelho, tirando dinheiro do bolso, o empreendimento tem que se pagar, nem que seja, isso no caso dela que não precisava do lucro para viver, só o suficiente para pagar as despesas, coisa que aconteceu algumas vezes, mas daí a começar a funcionar no vermelho, isso ninguém aguenta. Eu trabalhei até o pagar das luzes por definitivo, mesmo já tendo sido sondado e recebido ofertas para outras casas. Deixou muita saudade.
Num desses convites, fui conferir se ainda estava de pé a proposta feita anteriormente, o dono da casa me recebeu com muita alegria e confirmou a proposta. A sexta-feira estava reservada para mim. Ali, uma parte do meu público me seguiu, o que para a casa era bom, mas a maioria eram formados por novos ouvidos. Nada que me assustasse. Com o decorrer das semanas eu já havia conquistado praticamente a maior parte do público, não vou dizer que todos, porque não existe unanimidade.
Tentei, mas não consegui lembrar o ano, só sei que era ano de eleição para vereador e prefeito. Após terminar a minha noite no bar, o dono me chamou e perguntou se eu poderia participar de uma reunião no meio da semana a noite, precisamente na quarta-feira, que aconteceria no sobrado do bar. Perguntei do que se tratava, ele me informou que eu iria participar de um teste para gravar um jingle da campanha de um candidato e se fosse aprovado receberia uma oferta em dinheiro pelo trabalho. Aceitei, perguntei a hora que deveria chegar, ele informou que as 20 horas estava de bom tamanho. Eu não era uma pessoa pública, portanto a minha imagem não estaria vinculada ao candidato e nem era filiado de nenhum partido. Minha voz não era conhecida do grande público, portanto acredito que ninguém iria me reconhecer cantando, ademais, uma graninha extra caía bem. Como era só para colocar voz numa gravação, não achei nada demais, se fosse para trabalhar na campanha, aí não precisava nem de reunião, a recusa já fazia parte dos meus princípios. No dia marcado, antes um pouco da hora combinada, eu já me apresentava. Meu chefe e dono do bar me recebeu e pediu que esperássemos mais um bocadinho, que ele aguardava uma outra pessoa. Passados alguns minutos chegou, para meu espanto, um amigo que também era cantor e sem que eu soubesse iria participar do teste também. À primeira vista fiquei chateado, por pensar que fosse escolha única, mas depois vi que era besteira. O sobrado onde estávamos se tratava de um pequeno estúdio que o dono do bar possuía, para gravações e outras finalidades, mas sem muito recurso, só o básico, contudo para o proposto servia. Nos avisou que rodaria uma gravação da música para nós nos familiarizássemos com a letra e melodia, após, começaríamos as tentativas de reproduzi-la com as nossas vozes. A gravação tinha sido feita pelo compositor, em seu estúdio, mas o candidato não gostou da voz e foi aí que nós entramos. Ele tinha ela cantada e também o playback para a nossa gravação. Inicialmente ouviríamos a cantada. Como não era músico, não se deu ao trabalho de verificar se o tom na gravação era o ideal para ambos, então lá fomos nós ouvi-la. Como se tratava de um jingle, era uma música curta, primeira parte e refrão, só isso, o importante era o refrão, era desses bem pegajoso. Ouvimos algumas vezes e já estávamos prontos para gravar. Havia boa diferença entre as nossas vozes, isso ficava nítido quando ele reproduzia as gravações. Ambas estavam bem cantadas e afinadas, agora era questão de gosto. Analisando e pensando, ele pediu que gravássemos o refrão, apenas o refrão, em primeira e segunda voz. Eu e meu amigo combinamos quem faria a segunda voz e fomos para a gravação, ficou muito bom. Encerrado o trabalho fomos avisados por ele que a resposta final seria do candidato, porém a opinião dele tinha peso e que por ele usaria as duas vozes separadas na primeira parte e o refrão seria a dupla. Pediu que aguardássemos a decisão, que se fosse o que ele queria os dois receberiam o cachê, caso contrário chamaria o escolhido. Passaram-se alguns dias recebi um recado para comparecer lá no bar. Como ficara duas opções, não dava para saber o que me esperava. Assim que cheguei fui saudado com alegria e comunicado do resultado: A gravação escolhida para ser reproduzida para a campanha seria aquela com as duas vozes. Para mim não havia problema nenhum, o único senão, foi a conversa para reduzir o cachê pela metade. De cara não concordei, aí entramos em negociação. Seus argumentos apelavam para um orçamento apertado, que o candidato era do bairro, que faria melhorias, só faltou pedir para não cobrar, tal a ladainha, tive a sensação de que foi por pouco. Já meus argumentos foram diretos a questão de que primeiro ele não havia me avisado que teria outro para a mesma proposta. Eu não conhecia o candidato, sua proposta e sua índole, não era filiado ao seu partido e nem estava em campanha e para finalizar, havíamos feito, mesmo que de boca, um contrato de trabalho, quanto a ser o único ou dividir a gravação com outro não tinha sido uma escolha minha. Ficamos nesse bate boca por alguns minutos e como éramos amigos e eu trabalhava na casa cantando, acabei aceitando reduzir em 30% o cachê. Sai dali e fui direto ao amigo que tinha participado da gravação para saber se já tinha sido chamado e por quanto acertou. Não haveria diferença, ele também fecharia pelo mesmo valor quando fosse negociar no dia seguinte. Aproveitamos para conversar sobre o dia do pagamento. A informação que tínhamos batia igual. Haveria o lançamento da campanha no final de semana e como eu havia sido convidado, concluímos, que aconteceria o mesmo com ele, ser convidado para participar e presenciar o lançamento do jingle e só depois é que receberíamos das mãos do nosso amigo dono do bar. No dia, o local era um salão de uma dessas igrejas pentecostais, com sistema de som, muitas cadeiras devidamente enfileiradas, no fundo do salão um lugar acima do nível do chão, próprio para o discurso, muita propaganda em papel e grandes cartazes com a foto do candidato e boa presença de público. Um aspone veio e anunciou com grande entusiasmo o candidato. Aplausos! Com as mãos levantadas saudava os presentes. Aprumou-se diante do microfone e... Valha-me Deus!  Se os candidatos tivessem que fazer uma pequena prova de português, para qualquer posto político, penso que os partidos teriam sérias dificuldades, mas como nesse caso, também penso, que é melhor falar a língua do povo, então está tudo certo. Nós estávamos ali para ouvir a gravação, mas antes tínhamos que passar por essa provação. Terminou o discurso, ufa! Anunciaram o jingle da campanha. Grande expectativa. Falhou. Como assim? Aconteceu algo que os engenheiros de som, nosso amigo do bar estava lá, não conseguiam resolver e a música não saia nem a pau. O jeito foi sair em carreata sem som. Nós ficamos frustrados, mas fazer o quê?
Os dias voaram e com eles todas as nossas investidas para receber o cachê pela gravação. O nosso amigo do bar já não tinha mais o que alegar para se desculpar, pois segundo ele, também havia tomado uma volta. Vou dizer uma coisa para vocês, fora aquele dia o da gravação, eu nunca ouvi como ficou o jingle. Aquele apelo para fazer de graça, pois o orçamento era pequeno e o candidato era do bairro, acabou se realizando, mas de uma maneira ortodoxia, bem a caráter. Sem querer generalizar, pois existe uma parcela de políticos bons, mas o percentual é de 99,9% de enganadores. Eu só vi a cara do indivíduo naquele dia do lançamento da campanha, mas uma semana antes das eleições, estava eu em casa quando ouvi um carro de som que passava por perto e reproduzia uma música, está fácil de deduzir qual era música, justamente, a famigerada gravação com a minha voz e a do meu amigo. FDP! A justiça as vezes falha, mas nesse caso, o cretino nem para suplente serviu. Recebeu uma mixaria de votos. Inté!


sábado, 18 de março de 2017

Capítulo 41 – À FRANCESA

Como eu já citei em relatos anteriores, eu morava com a minha mãe. Era um apartamento, na verdade um apertamento, de um cômodo só, ou seja, como chamam, era uma quitinete. A porta de entrada, um pequeno corredor, nele a porta do banheiro, depois um salão, na parede oposta à da frente onde ficava a janela, a cozinha, enfiada na parede. Nela cabiam um fogão duas bocas e algum espaço para utensílios e alimentos não perecíveis. A geladeira ficava no salão, próximo a cozinha, num canto. Colocados no salão, tínhamos o guarda roupa, um sofá cama e uma cama de solteiro abaixo da janela. Na maioria das vezes eu dormia nessa cama, mas como o orçamento apertada vez por outra, quase sempre, minha mãe arrumava não sei aonde, inquilinos que pagavam um aluguel para ter onde dormir, aí eu perdia a cama. Esses apertamentos costumam ter umas baratinhas chamadas de francesas, são pequenas, mas icomodam. Não sei ao certo, mas me parece que esse inseto é dos mais resistentes que existem, ou então, as dedetizadoras usam um produto com prazo de validade curto, pois não demorava muito lá estavam elas de novo. Eu sei que pode parecer imundo, mas não é. Eu vi um filme que o personagem convivia com baratas e, não eram pequenas não, eram aquelas bitolas, então conviver com as francesinhas era mole. Elas apareciam, mas também não era uma coisa assim de batalhão ou miríade ou colônia, procurando encontrei esse nome para o coletivo das tais que não se deve ficar pronunciando. O apertamento era um lugar mais para se dormir, afinal todos saiam cedo para o trabalho e só retornavam a noite.
Certo dia um amigo que fora inquilino, me convidou para assistir um show a 0800 num teatro em Copacabana. Nele estariam pessoas ligadas a gravadoras entre artistas e produtores, seria uma boa oportunidade para ampliar conhecimentos. Vesti a minha melhor roupa, já que era um teatro e em Copacabana, calcei o único sapato elegante que eu tinha e que estava a postos para essas ocasiões e fui. Existem duas curiosidades nesse relato, uma que poderíamos aponta-la como uma piada, mas que só nos dois é que sabíamos o motivo de assim considera-la, e a outra, uma revelação que só daríamos conta futuramente. Não era nenhum desses teatros exuberantes, era um mais antigo, que já tivera seu apogeu e agora funcionava ainda bem, mas sem glamour. Chegamos em copa depois de uma pequena viagem de ônibus, meu amigo com os convites, nos dirigimos para o local e adentramos. Como toda casa de espetáculo, existe um espaço antes de você definitivamente se sentir dentro do local onde estão enfileiradas as cadeiras para se acomodar e assistir ao espetáculo. Nesse salão de espera, as pessoas conversam, encontram pares, são apresentadas a amigos dos amigos, até serem avisadas, minutos antes de começar o show, que podem se dirigir as cadeiras da plateia a frente do palco. Normalmente para não haver confusão as cadeiras são numeradas e esse número vem estampado no ingresso, convite ou o que seja. No salão, pude ver alguns artistas que eu já conhecia, nada muito especial, mesmo porque o show era de um que nunca tinha ouvido falar. Fui apresentado a algumas pessoas do meio artístico. Pessoas mais da linha de produção, mas eram pessoas que faziam parte da engrenagem. A minha timidez e a minha falta de vivência nesse meio, uniam-se para me deixar um pouco amedrontado. Ouvi mais do que falei, mas isso era bom, observar. Fomos avisados que poderíamos passar para as cadeiras na plateia. Cada um se ajeitando conforme a letra que determinava a fileira e o número que lhe pertencia o assento. Agora era só esperar o início do show. Não demorou muito, começou um movimento no palco, eram os músicos, cada qual se colocando no seu devido lugar, onde já o esperava o seu instrumento musical. Cada músico já devidamente pronto, um estalo eletrônico aqui, outro ali e finalmente o som. Todos tocavam, unindo-se a eles a voz do cantor que apareceu vindo dos bastidores já cantando a melodia que era acompanhada pela banda. Eu já havia assistido a alguns shows, não muitos, mas além disso eu tinha sensibilidade suficiente para pensar aqui com os meus botões, que o que eu via estava uma merda. A banda abriu o volume sem se importar muito com o cantor, o que para mim já era uma sacanagem, por outro lado o cantor não reclamou, então toma barulho atrás de barulho, que para mim estava insuportável. Um sujeito cabeludo, com um grosso bigode, uma voz meio de conterrâneo, cantando uns rocks, blues, mas que não dava para entender uma vírgula do que ele cantava. Quando acabou, o meu pavilhão auricular agradeceu. Sabe aqueles caras que trabalham com aquela máquina furando o chão, que faz um esporro do cassete e que quando param você sente um alívio, te dando a sensação de que seu raciocínio voltou, pois é, mais ou menos por aí. Fiquei uns minutos com um zumbido me incomodando. Como havia um grupo muito grande de convidados e gente do meio artístico musical, após a apresentação, na sala de espera, houve uma grande reunião para amenidades, todos se conheciam. Eu e meu amigo nos sentamos para observar e também para comentar o show, quando olhando para o chão ao lado do meu sapato vislumbrei uma baratinha francesa, meu amigo também viu, coloquei o sapato em cima dela, apertei e girei, quando tirei a bicha andou, refiz o movimento com maior intensidade, mas a bicha continuava viva, a culpa era do carpete, muito fofo, tentei a terceira vez, sem sucesso, pisei e fiquei com sapato parado em cima dela, do meu lado prendendo a gargalhada o meu amigo falou: “ Foi você quem trouxe, agora não adianta maltratar. “ Eu retruquei: “Como é que você sabe que é lá de casa? E se for, eu não convidei. Além do mais esse teatro também pode muito bem ter esse traste. “ Pode. Mas olha em volta, só tem essa que está aí em baixo do teu sapato, então... “ Aí fiquei puto. “ Estamos esperando mais o quê? Vamos embora! “ Ele se levantou já se dirigindo a porta de saída, sem qualquer trocadilho, mas foi uma saída à francesa, quando eu o alcancei na calçada a gargalhada contida se espalhou pelo ar. Ainda houve tempo para uma observação: “ Vai deixar a bichinha aí sozinha, perdida? “ Foi a gota d’água. “Vai se f....”
Passado algum tempo, nas rádios pipocava uma canção cantada pela minha querida e maravilhosa Elis Regina, intitulada “Como nossos pais”. Música bonita, letra diferente, gravação com todos os adjetivos que essa diva merece, sucesso estrondoso. LP com 10 faixas intitulado “Falso Brilhante”, sendo primeira faixa “Como Nossos Pais” e a segunda faixa “Velha Roupa Colorida”. Quando comprei o disco foi que eu pude ver os compositores, não é que as duas primeiras faixas eram daquele cabeludo com bigode grosso e sotaque de conterrâneo que eu havia assistido no teatro. Juro que não me lembro de ter ouvido nenhuma delas, mas vocês sabem porque, afinal a altura do som abafava a voz do cantor e eu não consegui entender nenhuma letra, mas agora era outra coisa. Eu gosto de algumas cantoras, mas Elis foi paixão à primeira vista no festival da Record. Para mim ela sempre foi muito além da curva e além da excepcional intérprete, era de uma generosidade com os compositores sem igual. Através dela, só para se ter uma ideia, que eu me lembre, fomos apresentados ao: Belchior, João Bosco/Aldir Blanc, Renato Teixeira, Tunai, Zé Rodrix, Guilherme Arantes e por aí vai. Compositores talentosíssimos que se tornaram conhecidos do grande público pela voz da Elis e depois em suas carreiras artísticas. Logo depois do sucesso no disco “Falso Brilhante”, o bigode grosso lançaria seu primeiro disco e faria muito sucesso.

É aquilo que já falei em outros relatos, o artista sozinho tem que entender de tudo para que o resultado final saia bom, caso contrário, perde-se oportunidades. Um produtor bom faz falta, um bom engenheiro de som também e por aí vai, equipamentos, arranjos, muito ensaio, etc.. Mas não adianta juntar isso tudo sem talento e boa música. Pode até acontecer, em virtude de muito marketing e jabá, mas será efêmero, não perpetuar-se-á jamais. Inté! 

sábado, 11 de março de 2017

Capítulo 40 – ESCOLHAS

Vou aproveitar um pouco mais dessas reminiscências, para relatar uma outra passagem acontecida na mesma gravadora, que me divide até hoje se agimos certo ou errado. Se for possível, no final, gostaria muito de saber de vocês as vossas opiniões. Ainda dentro daquela rotina de frequentar o café para encontrar os conhecidos e conhecer novos aspirantes.
Dentre tantos casos, houve esse que participei, mesmo estando na época já ensaiando com a banda. Até então, eu pelo menos não tinha tido a sorte, só aquele convite que não conta, de conhecer, quanto mais ser convidado para uma pequena amostra. Mas havia um frequentador do café, que nós gostávamos muito da sua companhia. Não sei ao certo como se deu, mas ele confidenciou que estava próximo de conseguir uma audiência com um produtor. Como ele já sabia que eu estava ensaiando com uma banda, me levou num particular e perguntou como era a banda. Depois que expliquei que eu era o cantor e que havia um guitarrista, um contrabaixista e baterista e coisa e tal, ele quis saber se eu não apresentava os músicos a ele para melhorar a qualidade das músicas que pretendia apresentar. Disse-lhe que não sabia, mas podia sondar. Ficamos mais ou menos combinado assim: Nada definido. No primeiro ensaio, conversei com o guitarrista, que imediatamente quis saber se ia rolar uma grana, como não havia perguntado sobre esse assunto, sugeri que encontrasse o indivíduo e depois de saber o que ele queria, fizesse a proposta. Fiquei nessa situação, intermediando o encontro. Quando aconteceu, o aspira explicou que era compositor e que, portanto, queria nessa audiência mostrar o seu trabalho autoral junto com o canto, mas como não era bom instrumentista precisava de ajuda e se fosse possível, melhorar com um arranjo as músicas para apresentação. Houve acerto financeiro. Quanto ao tempo para a apresentação, tudo dependeria da evolução, mas tinha que ser o mais rápido possível, oportunidades dessas não podiam esperar muito tempo, além do que não havia tanto dinheiro para pagar por um período longo, tinha que ser cem metros rasos, no máximo, duzentos já sem fôlego. Combinamos na casa dele. Fomos os três, com um único violão. Inicialmente ele tocaria, nós ouviríamos e o guitarrista começaria a trabalhar um arranjo que deixasse a música mais atraente. Vocês já devem ter assistidos a esses programas te televisão sobre transformação, sim transformação, de todos os tipos, pode ser cabelo, pode ser o conjunto completo, pode ser sobre usar sempre o mesmo tipo de roupa e alguém, dos poucos que vi eram mulheres, uma amiga, uma filha, pede ajuda a esse programa e eles vão, dão um dinheiro bom, se a pessoa topar, para que vá as compras, claro sob a supervisão deles, dos profissionais do programa. Pois vou dizer-lhes uma coisa de arrepiar: as músicas eram tão ruins, que não dava para transformar, só cabia uma meia sola, na linguagem dos sapateiros. Fazer o quê? Ele tinha uma coleção, porém achamos melhor escolher as menos piores, que foram cinco e, trabalharmos em cima dessas. Claro que ele queria mais, mas o convencemos a guardar o resto do material para acrescentar mais na frente, se houvesse. Pessoal, não dava para ficar indo todos os dias na casa dele, então o arranjo foi o seguinte: separamos as cinco músicas; gravamos num cassete; pegamos as letras; levamos tudo para aprontar em casa. Quando estivesse pronto, marcaríamos os ensaios. Não houve milagre, mas o guitarrista conseguiu dar uma ajeitadinha. Aí que começou o verdadeiro martírio. O cara desafinava, após a introdução entrava atravessado e nem notava e, eram as músicas dele, imagina ele cantando de outros, imaginou? Fomos até aonde ele podia ir. Entre começa de novo, de novo, de novo, chegamos perto, perto porra nenhuma, chegamos aonde dava para chegar, mesmo porque a grana tinha acabado. Nessas horas por mais que você queira ser sincero, não cabe a você desestimular. Nós sabíamos que ele era muito fraco, mas era o nosso gosto e a nossa percepção e, se o produtor achasse que aquele tipo de música tinha público e que com muita boa vontade e ensaio, o resultado poderia ser aproveitável. Haja vista, que não seria uma exceção, pois até hoje se ouve cada coisa de arrepiar. Ele ficou de nos avisar qual seria o dia da audiência. Não demorou muito, o aviso veio, claro através de mim, para que fossemos no dia tal, no horário tal, a recepção da gravadora. Era uma tarde, de um dia da semana de expediente, já algumas horas após o almoço, quando chegamos e já encontramos sentado na recepção o nosso artista. Assim que chegamos, ele se dirigiu a recepcionista e pediu que anunciasse a sua presença ao produtor. Feito o anuncio, ficamos esperando ser chamados. Esperar é sempre ruim, né? Pior ainda quando vale o seu futuro. Dá uma aflição. Imagina ele. Fomos finalmente chamados. Entramos com a porta sendo aberta pelo produtor, que nos cumprimentou e pediu que o acompanhasse. Mais à frente abriu uma porta a direita no corredor largo em que andávamos e nos convidou a entrar. Vou dizer sinceramente, esperávamos um pouco mais, já que a sala era na verdade uma saleta, não sei se por sermos quatro, mas mesmo assim era um lugar muito acanhado. Havia uma mesa com uma cadeira, que o produtor se sentou e nós ficamos em pé a sua frente, quase não dando para nos movermos. Então, sem mais de longas, o indivíduo se dirigiu ao aspirante e colocou as cartas na mesa: “Bem, você queria uma oportunidade, não queria? Então pode começar. “ O guitarrista estava em pé atrás do aspira segurando o violão, pronto para começar e, eu e o contrabaixista estávamos ao seu lado. Ele virou-se para o guitarrista e pediu tal música. Foi executada a introdução, como no ensaio, e o filha da p... entrou errado e ia continuar errado, mas sentiu que estava errado e pediu para voltar. Que belo começo. Nesse momento o produtor abaixou a cabeça e pôs as mãos sobre a nuca. Esse gesto nos incomodou e acredito, mesmo não demostrando, que ao aspira também, porque dali para frente foram erros bobos sucessivos e, quanto mais ele tentava consertar, mais piorava, a essa altura o nervosismo já tomara conta. O produtor não saia dessa posição. Foi quando terminando mais uma, mal cantada, que o guitarrista resolveu, de raiva, fazer um improviso no violão por conta dele, que o produtor levantou a cabeça como quem diz existe luz no fim do túnel. Naquele instante nós sentimos que poderíamos virar o jogo apresentando uma das nossas. Olhamos um para o outro e cruzamos com o olhar do aspira, que parecia implorar para não humilharmos ainda mais, levamos alguns segundos, talvez mais que um minuto, o produtor de cabeça erguida, para tomarmos a decisão que tomamos. Viola no saco, audiência encerrada, já do lado de fora, consolamos o aspira de todas as formas. Ele tão cedo não teria outra oportunidade como aquela e nós? Ao entrarmos no ônibus e sentarmos, começamos uma discussão a respeito da decisão. Mas a pergunta que não calava era: tínhamos o direito de atropelar a audiência do aspira? Tomamos a decisão certa? Se concordávamos em nossas respostas, então, tínhamos que cavar a nossa própria audiência, caso contrário perdemos uma grande oportunidade. Passado aquele primeiro momento, não discutimos mais e nem lamentamos, donde se conclui que se fizéssemos diferente, até poderia ser considerado certo, tiraríamos proveito de uma coisa que não fomos nós que arrumamos. Penso, que mesmo nessa situação, prevaleceu a educação que recebemos, que até então, nada daquele meio ou de outro tinha nos transformado. Havia uma coisa boa dentro de nós, mesmo que tenhamos balançado por segundos, permaneceu, foi mais forte e prevaleceu. Nós conseguimos encontrar o produtor em outras oportunidades, em todas elas ele foi resoluto, não abriu sequer uma brechinha de esperança para nós. Nos negou todas as vezes, deixando bem claro que com ele não aconteceria de novo. Até que foi admitido em outra gravadora mais importante, aí ficou muito mais difícil para nós, pois era o único que conhecíamos, mesmo não sendo um conhecimento estreito, recomendado.
E então o que vocês acham, fizemos a coisa certa ou deveríamos chutar o balde e tomar a frente do aspira apresentando nossas composições?

No final do relato existe um link: “Um comentário: “ utilize-o e poste apenas sim ou não, só isso será suficiente para entender a sua opinião. Inté!

sábado, 4 de março de 2017

Capítulo 39 –  CAMINHOS

Meus queridos leitores, eu sei que estamos numa cronologia do passado para o presente, mas gostaria de participar a vocês um relato interessante do começo, lá do comecinho, antes mesmo da banda, que modificaria ou não o meu destino, mas certamente a minha vida.
Devia eu ter uns 18 para 19 anos. Praticamente todas as noites nós, eu fazia parte de um grupo de aspirante ao estrelato, nos reuníamos num restaurante, mas não ficávamos dentro dele, ficávamos na porta, precisamente no balcão do café. Esse recinto tinha apenas um posto de gasolina não muito grande entre a gravadora, só havia uma porta que era a principal, e nós que não podíamos ficar na porta, então, ficávamos no café. Ali ficavam e passavam, compositores querendo entregar uma fita demo para ver a possibilidade de algum artista da casa gravar a sua obra e cantores com a esperança de poderem conseguir uma audiência com um produtor, que era na época o caça talento. Esses, eram indivíduos, que nunca deixaram de ser, inacessíveis, mas como o vento a favor já havia soprado para outros, existia uma tênue esperança. Dentre essa turma que ficava ali, havia de todos os tipos, na maioria eram de outros estados e, portanto, sem família, alguns exerciam alguma atividade remunerada, mas outros subsistiam. Todos tinham a mesma finalidade: Se não conseguissem o estrelato, então, que pudessem viver de música.
Vou destacar dois casos e os chamarei de caso 1 e caso 2, ok?
Caso 1 - Eu havia estreitado amizade com um mineirinho muito gente boa. Ele já havia gravado com artistas que no Sudeste ninguém conhecia, mas que no Nordeste eles vendiam bem, então, praticamente ele só vinha para o Rio em época de escolha de repertório ou para receber direitos autorais, que acontecia de três em três meses. Essas duas situações as vezes coincidiam. Todas as vezes ficava hospedado num hotel barato e perto da gravadora. Esbanjar não era a sua. Ficava um pouco, gastava pouco, fazia o que tinha que fazer e retornava para sua cidade em Minas. Nós éramos parceiros de sinuca, então, todas as vezes que ele aparecia era certo um desafio. Nosso jogo era em alto nível. Eu frequentava os salões de sinuca já algum tempo, depois de ter aprendido através de um instrutor as manhas do jogo, penso que ele só se dispôs a ensinar por ter vislumbrado talento, mesmo porque foi me oferecido de graça. Meu parceiro, em sua cidade era rotina esse jogo, que também juntando ao talento foi jogando, vendo e aprendendo com os mais experientes as manhas. Tínhamos um respeito mútuo. Havia muita felicidade quando nos encontrávamos. Normalmente essa parte a do jogo, nós reservávamos para a parte da noite; sinceramente, existem coisas que não dá para fazer durante o dia, mesmo que eu não estivesse trabalhando, consequentemente ocupando o meu dia. Durante o dia, ele que tinha acesso a gravadora, procurava os seus contatos para entregar material já com o destino certo ou seja, cada música tinha a característica do cantor que normalmente gravava naquele estilo. Eu trabalhava num tipo de serviço que me possibilitava a escolha do horário, em virtude disso, cansei de atender ao chamado da campainha abrindo a porta e me deparando com o meu amigo desesperado, precisando de um violão, pois estavam recolhendo material para tal cantor e ele não tinha ou não era suficiente, então entrava e em questão de minutos fazia música e letra. Eu assistia aquela fabricação estupefato. Não havia inspiração, só respiração. Era uma cria sem sentimento, era uma montagem, mas funcionava assim, fazer o quê? Em menos de meia hora, saia a colcha de retalhos que faria parte de um LP de algum cantor. Quando eu falava alguma coisa sobre o processo criativo, ele sorria e levava a mão aos lábios como se pudesse esconder o sarcasmo. Esse era um dos meios de se fazer dinheiro dentro do ambiente musical, um dos.... Nunca pedi a ele que me apresentasse nenhum dos seus contatos, não era a minha. Sua estada não chegava a um mês, foram raríssimas as vezes.
Caso 2 – Havia um outro compositor, não sei de que lugar do Brasil, que frequentava a esquina, mas em determinados períodos da vida dele, noutros nós não conseguíamos ficar perto dele. Eu explico: diferentemente do primeiro caso, as suas composições não eram fabricadas, eram pura inspiração e de excelente qualidade. Eu mesmo ouvir algumas, poucas, não todas, mas o suficiente para perceber o potencial, contudo, os contatos dele se davam de uma outra forma. Penso eu, que começou assim e assim ficara. Ele também não tinha casa e nem família no Rio, então também se hospedava pelas imediações quando entrava o faz-me rir. Eu não estou aqui para fazer revelações bombásticas e nem denegri ninguém, muito menos apontar para aquilo que eu não ouvi. Eu só relato o que o próprio afirmava sem muitos detalhes, mesmo porque era seu ganha pão, e se o fizesse perderia. Se fossemos mensurar em cima do período de um ano, eu diria que mais da metade ele passava necessidades, ficando sem moradia e, portanto, sem o básico. Coloco aqui no básico a “higiene. ”  Quando ele conseguia sucesso com os seus contatos, aparecia com roupa nova, banho tomado, tinha lugar para dormir e gostava de ser generoso, era uma alegria só. Muitos se aproveitavam, nessas horas o que têm de deitão. Claro, que não demorava muito o faz-me rir acabava, aí voltava tudo como antes no quartel de Abrantes. A roupa nova passava a ser permanente. Diferente do meu amigo, que bebia moderadamente, esse, enfiava o pé na jaca e acrescentava outros ingredientes. Essa montanha russa era a sua vida. Suas músicas eram gravadas, mas não com o seu nome como compositor, portanto, tinha que produzir sempre uma promessa de sucesso, para poder transforma-la em dinheiro. As coisas também acontecem assim. Business!  
Agora tenho um relato particular. Quase que rotineiramente, havia um produtor que passava no café. Ele vinha, falava com todos, tomava o seu café, aproveitava e convidava o pessoal e pagava geral. Falando assim nada demais, só que a intenção era outra, não era socializar. Se tivesse carne fresca e bonita, ali estaria o seu interesse. Homossexual assumido, usava da sua posição para atrair. Da primeira vez que me viu deixou bem claro as suas pretensões, a galera aproveitava para me sacanear quando ele ia embora: “ Vai fundo que você grava! ” “ Vai ser disco de ouro! Sem duplo sentido. “ Eu garoto novo, sem muito traquejo para lidar com essa situação, toda vez que ele se dirigia para o café, eu começava a ficar nervoso. O assédio era descarado. Os dias iam passando e com isso a minha insegurança ia se dissipando, mostrando a ele que eu não era mais um garotinho assustado, tanto, que no dia em que ele estacionou um lançamento automobilístico de uma dessas marcas conhecidas e se ofereceu para me levar em casa, mesmo eu morando bem próximo, eu resolvi aceitar para esclarecer de uma vez qual era a minha opinião. O pessoal ficou de queixo caído. Não rodamos muito. Em poucos minutos estávamos na rua onde eu morava. Carro parado, desligado, veio a já esperada cantada. “Você sabe que eu sou produtor? ” “Sim. Sei. ” “E você quer gravar um disco? ” “É, até que eu gostaria. “ “Então, eu posso providenciar isso, claro, você terá que fazer um teste de estúdio, mas isso é coisa simples. “ “E quando aconteceria isso. “ “Bem, você mora com quem? “ “Com a minha mãe. “ “Aí, você teria que se mudar para o meu apartamento e morar comigo. “ “Ah! Já entendi. Você não leve a mal, mas eu prefiro continuar morando com a minha mãe. “ “Mas, e a gravação? “ “Esquece. Nessas condições sem chances. “ “Quer um tempo para pensar? “ “Não. Não é preciso tempo, a resposta é essa. “ Virei a maçaneta, a porta se abriu, pulei para fora, fechei-a e segui para a entrada do prédio onde eu morava com a minha mãe. No dia seguinte, a galera veio para cima de mim, cheios das sacanagens, mas o que eles queriam saber mesmo era o que tinha rolado. Falei o que aconteceu e sem brincadeiras todos concordaram, cada qual com uma observação de indignação. Isso acontece até hoje, com mulheres e homens, em vários setores. Muita gente faz contrato com o capeta para conseguir o tal sucesso. Cada um sabe de si. Eu não me arrependo. É um problema quando você envereda por um caminho sem volta, mesmo sabendo que não é o seu caminho, achando que mais na frente você vai achar atalhos para se livrar e eles não existem. Aí nesse momento você para aplacar a sua dor, o seu sofrimento, a sua solidão, o seu arrependimento, refugia-se, protagonizado por algum meio, em algum lugar fora da terra.

Hoje não houve aplausos, nem espetáculo. Mas, o show continua, afinal a música está acima desses contratempos. Não vou colocar os gênios na balança, esses seres são extraterrestres, vou apenas me ater aos normais: Se temos, mesmo uma pequena, sensibilidade musical para discernirmos o que têm valor artístico do que não presta, já podemos nos considerar abençoados, mas feliz não, feliz é aquele que gosta de qualquer porcaria, seja ela um enlatado, industrializado, mal-acabado, atravessado, desafinado, esse desprovido de qualquer sentimento criterioso, por ignorância, gosta daquilo que se identifica com o seu mundo. Hoje a massificação num país ou no mundo, depende de quem são os interessados, torna um reles refrãozinho fruto de uma brincadeira, num tsunami. É vida de gado. Povo feliz! Inté!