Capítulo 41 – À FRANCESA
Como eu já citei em relatos
anteriores, eu morava com a minha mãe. Era um apartamento, na verdade um
apertamento, de um cômodo só, ou seja, como chamam, era uma quitinete. A porta
de entrada, um pequeno corredor, nele a porta do banheiro, depois um salão, na
parede oposta à da frente onde ficava a janela, a cozinha, enfiada na parede.
Nela cabiam um fogão duas bocas e algum espaço para utensílios e alimentos não
perecíveis. A geladeira ficava no salão, próximo a cozinha, num canto. Colocados
no salão, tínhamos o guarda roupa, um sofá cama e uma cama de solteiro abaixo
da janela. Na maioria das vezes eu dormia nessa cama, mas como o orçamento
apertada vez por outra, quase sempre, minha mãe arrumava não sei aonde,
inquilinos que pagavam um aluguel para ter onde dormir, aí eu perdia a cama.
Esses apertamentos costumam ter umas baratinhas chamadas de francesas, são
pequenas, mas icomodam. Não sei ao certo, mas me parece que esse
inseto é dos mais resistentes que existem, ou então, as dedetizadoras usam um
produto com prazo de validade curto, pois não demorava muito lá estavam elas de
novo. Eu sei que pode parecer imundo, mas não é. Eu vi um filme que o
personagem convivia com baratas e, não eram pequenas não, eram aquelas bitolas,
então conviver com as francesinhas era mole. Elas apareciam, mas também não era
uma coisa assim de batalhão ou miríade ou colônia, procurando encontrei esse
nome para o coletivo das tais que não se deve ficar pronunciando. O apertamento
era um lugar mais para se dormir, afinal todos saiam cedo para o trabalho e só
retornavam a noite.
Certo dia um amigo que fora
inquilino, me convidou para assistir um show a 0800 num teatro em Copacabana.
Nele estariam pessoas ligadas a gravadoras entre artistas e produtores, seria
uma boa oportunidade para ampliar conhecimentos. Vesti a minha melhor roupa, já
que era um teatro e em Copacabana, calcei o único sapato elegante que eu tinha e
que estava a postos para essas ocasiões e fui. Existem duas curiosidades nesse
relato, uma que poderíamos aponta-la como uma piada, mas que só nos dois é que
sabíamos o motivo de assim considera-la, e a outra, uma revelação que só
daríamos conta futuramente. Não era nenhum desses teatros exuberantes, era um
mais antigo, que já tivera seu apogeu e agora funcionava ainda bem, mas sem
glamour. Chegamos em copa depois de uma pequena viagem de ônibus, meu amigo com os
convites, nos dirigimos para o local e adentramos. Como toda casa de
espetáculo, existe um espaço antes de você definitivamente se sentir dentro do
local onde estão enfileiradas as cadeiras para se acomodar e assistir ao
espetáculo. Nesse salão de espera, as pessoas conversam, encontram pares, são
apresentadas a amigos dos amigos, até serem avisadas, minutos antes de começar
o show, que podem se dirigir as cadeiras da plateia a frente do palco.
Normalmente para não haver confusão as cadeiras são numeradas e esse número vem
estampado no ingresso, convite ou o que seja. No salão, pude ver alguns
artistas que eu já conhecia, nada muito especial, mesmo porque o show era de um
que nunca tinha ouvido falar. Fui apresentado a algumas pessoas do meio
artístico. Pessoas mais da linha de produção, mas eram pessoas que faziam parte
da engrenagem. A minha timidez e a minha falta de vivência nesse meio, uniam-se
para me deixar um pouco amedrontado. Ouvi mais do que falei, mas isso era bom,
observar. Fomos avisados que poderíamos passar para as cadeiras na plateia.
Cada um se ajeitando conforme a letra que determinava a fileira e o número que
lhe pertencia o assento. Agora era só esperar o início do show. Não demorou
muito, começou um movimento no palco, eram os músicos, cada qual se colocando
no seu devido lugar, onde já o esperava o seu instrumento musical. Cada músico
já devidamente pronto, um estalo eletrônico aqui, outro ali e finalmente o som.
Todos tocavam, unindo-se a eles a voz do cantor que apareceu vindo dos
bastidores já cantando a melodia que era acompanhada pela banda. Eu já havia
assistido a alguns shows, não muitos, mas além disso eu tinha sensibilidade
suficiente para pensar aqui com os meus botões, que o que eu via estava uma
merda. A banda abriu o volume sem se importar muito com o cantor, o que para
mim já era uma sacanagem, por outro lado o cantor não reclamou, então toma
barulho atrás de barulho, que para mim estava insuportável. Um sujeito
cabeludo, com um grosso bigode, uma voz meio de conterrâneo, cantando uns
rocks, blues, mas que não dava para entender uma vírgula do que ele cantava.
Quando acabou, o meu pavilhão auricular agradeceu. Sabe aqueles caras que
trabalham com aquela máquina furando o chão, que faz um esporro do cassete e
que quando param você sente um alívio, te dando a sensação de que seu
raciocínio voltou, pois é, mais ou menos por aí. Fiquei uns minutos com um zumbido
me incomodando. Como havia um grupo muito grande de convidados e gente do meio
artístico musical, após a apresentação, na sala de espera, houve uma grande
reunião para amenidades, todos se conheciam. Eu e meu amigo nos sentamos para
observar e também para comentar o show, quando olhando para o chão ao lado do
meu sapato vislumbrei uma baratinha francesa, meu amigo também viu, coloquei o
sapato em cima dela, apertei e girei, quando tirei a bicha andou, refiz o
movimento com maior intensidade, mas a bicha continuava viva, a culpa era do
carpete, muito fofo, tentei a terceira vez, sem sucesso, pisei e fiquei com
sapato parado em cima dela, do meu lado prendendo a gargalhada o meu amigo
falou: “ Foi você quem trouxe, agora não adianta maltratar. “ Eu retruquei:
“Como é que você sabe que é lá de casa? E se for, eu não convidei. Além do mais
esse teatro também pode muito bem ter esse traste. “ Pode. Mas olha em volta,
só tem essa que está aí em baixo do teu sapato, então... “ Aí fiquei puto. “
Estamos esperando mais o quê? Vamos embora! “ Ele se levantou já se dirigindo a
porta de saída, sem qualquer trocadilho, mas foi uma saída à francesa, quando
eu o alcancei na calçada a gargalhada contida se espalhou pelo ar. Ainda houve
tempo para uma observação: “ Vai deixar a bichinha aí sozinha, perdida? “ Foi a
gota d’água. “Vai se f....”
Passado algum tempo, nas rádios
pipocava uma canção cantada pela minha querida e maravilhosa Elis Regina,
intitulada “Como nossos pais”. Música bonita, letra diferente, gravação com
todos os adjetivos que essa diva merece, sucesso estrondoso. LP com 10 faixas
intitulado “Falso Brilhante”, sendo primeira faixa “Como Nossos Pais” e a
segunda faixa “Velha Roupa Colorida”. Quando comprei o disco foi que eu pude
ver os compositores, não é que as duas primeiras faixas eram daquele cabeludo
com bigode grosso e sotaque de conterrâneo que eu havia assistido no teatro.
Juro que não me lembro de ter ouvido nenhuma delas, mas vocês sabem porque,
afinal a altura do som abafava a voz do cantor e eu não consegui entender
nenhuma letra, mas agora era outra coisa. Eu gosto de algumas cantoras, mas
Elis foi paixão à primeira vista no festival da Record. Para mim ela sempre foi
muito além da curva e além da excepcional intérprete, era de uma generosidade
com os compositores sem igual. Através dela, só para se ter uma ideia, que eu
me lembre, fomos apresentados ao: Belchior, João Bosco/Aldir Blanc, Renato
Teixeira, Tunai, Zé Rodrix, Guilherme Arantes e por aí vai. Compositores
talentosíssimos que se tornaram conhecidos do grande público pela voz da Elis e
depois em suas carreiras artísticas. Logo depois do sucesso no disco “Falso
Brilhante”, o bigode grosso lançaria seu primeiro disco e faria muito sucesso.
É aquilo que já falei em outros
relatos, o artista sozinho tem que entender de tudo para que o resultado final saia bom, caso contrário, perde-se oportunidades. Um produtor bom faz falta, um bom
engenheiro de som também e por aí vai, equipamentos, arranjos, muito ensaio,
etc.. Mas não adianta juntar isso tudo sem talento e boa música. Pode até
acontecer, em virtude de muito marketing e jabá, mas será efêmero, não
perpetuar-se-á jamais. Inté!
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