sábado, 18 de março de 2017

Capítulo 41 – À FRANCESA

Como eu já citei em relatos anteriores, eu morava com a minha mãe. Era um apartamento, na verdade um apertamento, de um cômodo só, ou seja, como chamam, era uma quitinete. A porta de entrada, um pequeno corredor, nele a porta do banheiro, depois um salão, na parede oposta à da frente onde ficava a janela, a cozinha, enfiada na parede. Nela cabiam um fogão duas bocas e algum espaço para utensílios e alimentos não perecíveis. A geladeira ficava no salão, próximo a cozinha, num canto. Colocados no salão, tínhamos o guarda roupa, um sofá cama e uma cama de solteiro abaixo da janela. Na maioria das vezes eu dormia nessa cama, mas como o orçamento apertada vez por outra, quase sempre, minha mãe arrumava não sei aonde, inquilinos que pagavam um aluguel para ter onde dormir, aí eu perdia a cama. Esses apertamentos costumam ter umas baratinhas chamadas de francesas, são pequenas, mas icomodam. Não sei ao certo, mas me parece que esse inseto é dos mais resistentes que existem, ou então, as dedetizadoras usam um produto com prazo de validade curto, pois não demorava muito lá estavam elas de novo. Eu sei que pode parecer imundo, mas não é. Eu vi um filme que o personagem convivia com baratas e, não eram pequenas não, eram aquelas bitolas, então conviver com as francesinhas era mole. Elas apareciam, mas também não era uma coisa assim de batalhão ou miríade ou colônia, procurando encontrei esse nome para o coletivo das tais que não se deve ficar pronunciando. O apertamento era um lugar mais para se dormir, afinal todos saiam cedo para o trabalho e só retornavam a noite.
Certo dia um amigo que fora inquilino, me convidou para assistir um show a 0800 num teatro em Copacabana. Nele estariam pessoas ligadas a gravadoras entre artistas e produtores, seria uma boa oportunidade para ampliar conhecimentos. Vesti a minha melhor roupa, já que era um teatro e em Copacabana, calcei o único sapato elegante que eu tinha e que estava a postos para essas ocasiões e fui. Existem duas curiosidades nesse relato, uma que poderíamos aponta-la como uma piada, mas que só nos dois é que sabíamos o motivo de assim considera-la, e a outra, uma revelação que só daríamos conta futuramente. Não era nenhum desses teatros exuberantes, era um mais antigo, que já tivera seu apogeu e agora funcionava ainda bem, mas sem glamour. Chegamos em copa depois de uma pequena viagem de ônibus, meu amigo com os convites, nos dirigimos para o local e adentramos. Como toda casa de espetáculo, existe um espaço antes de você definitivamente se sentir dentro do local onde estão enfileiradas as cadeiras para se acomodar e assistir ao espetáculo. Nesse salão de espera, as pessoas conversam, encontram pares, são apresentadas a amigos dos amigos, até serem avisadas, minutos antes de começar o show, que podem se dirigir as cadeiras da plateia a frente do palco. Normalmente para não haver confusão as cadeiras são numeradas e esse número vem estampado no ingresso, convite ou o que seja. No salão, pude ver alguns artistas que eu já conhecia, nada muito especial, mesmo porque o show era de um que nunca tinha ouvido falar. Fui apresentado a algumas pessoas do meio artístico. Pessoas mais da linha de produção, mas eram pessoas que faziam parte da engrenagem. A minha timidez e a minha falta de vivência nesse meio, uniam-se para me deixar um pouco amedrontado. Ouvi mais do que falei, mas isso era bom, observar. Fomos avisados que poderíamos passar para as cadeiras na plateia. Cada um se ajeitando conforme a letra que determinava a fileira e o número que lhe pertencia o assento. Agora era só esperar o início do show. Não demorou muito, começou um movimento no palco, eram os músicos, cada qual se colocando no seu devido lugar, onde já o esperava o seu instrumento musical. Cada músico já devidamente pronto, um estalo eletrônico aqui, outro ali e finalmente o som. Todos tocavam, unindo-se a eles a voz do cantor que apareceu vindo dos bastidores já cantando a melodia que era acompanhada pela banda. Eu já havia assistido a alguns shows, não muitos, mas além disso eu tinha sensibilidade suficiente para pensar aqui com os meus botões, que o que eu via estava uma merda. A banda abriu o volume sem se importar muito com o cantor, o que para mim já era uma sacanagem, por outro lado o cantor não reclamou, então toma barulho atrás de barulho, que para mim estava insuportável. Um sujeito cabeludo, com um grosso bigode, uma voz meio de conterrâneo, cantando uns rocks, blues, mas que não dava para entender uma vírgula do que ele cantava. Quando acabou, o meu pavilhão auricular agradeceu. Sabe aqueles caras que trabalham com aquela máquina furando o chão, que faz um esporro do cassete e que quando param você sente um alívio, te dando a sensação de que seu raciocínio voltou, pois é, mais ou menos por aí. Fiquei uns minutos com um zumbido me incomodando. Como havia um grupo muito grande de convidados e gente do meio artístico musical, após a apresentação, na sala de espera, houve uma grande reunião para amenidades, todos se conheciam. Eu e meu amigo nos sentamos para observar e também para comentar o show, quando olhando para o chão ao lado do meu sapato vislumbrei uma baratinha francesa, meu amigo também viu, coloquei o sapato em cima dela, apertei e girei, quando tirei a bicha andou, refiz o movimento com maior intensidade, mas a bicha continuava viva, a culpa era do carpete, muito fofo, tentei a terceira vez, sem sucesso, pisei e fiquei com sapato parado em cima dela, do meu lado prendendo a gargalhada o meu amigo falou: “ Foi você quem trouxe, agora não adianta maltratar. “ Eu retruquei: “Como é que você sabe que é lá de casa? E se for, eu não convidei. Além do mais esse teatro também pode muito bem ter esse traste. “ Pode. Mas olha em volta, só tem essa que está aí em baixo do teu sapato, então... “ Aí fiquei puto. “ Estamos esperando mais o quê? Vamos embora! “ Ele se levantou já se dirigindo a porta de saída, sem qualquer trocadilho, mas foi uma saída à francesa, quando eu o alcancei na calçada a gargalhada contida se espalhou pelo ar. Ainda houve tempo para uma observação: “ Vai deixar a bichinha aí sozinha, perdida? “ Foi a gota d’água. “Vai se f....”
Passado algum tempo, nas rádios pipocava uma canção cantada pela minha querida e maravilhosa Elis Regina, intitulada “Como nossos pais”. Música bonita, letra diferente, gravação com todos os adjetivos que essa diva merece, sucesso estrondoso. LP com 10 faixas intitulado “Falso Brilhante”, sendo primeira faixa “Como Nossos Pais” e a segunda faixa “Velha Roupa Colorida”. Quando comprei o disco foi que eu pude ver os compositores, não é que as duas primeiras faixas eram daquele cabeludo com bigode grosso e sotaque de conterrâneo que eu havia assistido no teatro. Juro que não me lembro de ter ouvido nenhuma delas, mas vocês sabem porque, afinal a altura do som abafava a voz do cantor e eu não consegui entender nenhuma letra, mas agora era outra coisa. Eu gosto de algumas cantoras, mas Elis foi paixão à primeira vista no festival da Record. Para mim ela sempre foi muito além da curva e além da excepcional intérprete, era de uma generosidade com os compositores sem igual. Através dela, só para se ter uma ideia, que eu me lembre, fomos apresentados ao: Belchior, João Bosco/Aldir Blanc, Renato Teixeira, Tunai, Zé Rodrix, Guilherme Arantes e por aí vai. Compositores talentosíssimos que se tornaram conhecidos do grande público pela voz da Elis e depois em suas carreiras artísticas. Logo depois do sucesso no disco “Falso Brilhante”, o bigode grosso lançaria seu primeiro disco e faria muito sucesso.

É aquilo que já falei em outros relatos, o artista sozinho tem que entender de tudo para que o resultado final saia bom, caso contrário, perde-se oportunidades. Um produtor bom faz falta, um bom engenheiro de som também e por aí vai, equipamentos, arranjos, muito ensaio, etc.. Mas não adianta juntar isso tudo sem talento e boa música. Pode até acontecer, em virtude de muito marketing e jabá, mas será efêmero, não perpetuar-se-á jamais. Inté! 

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