Capítulo 42 – PROMESSA POLÍTICA
Político nunca foi confiável, desde
os tempos do Justo Veríssimo, personagem do Chico Anísio, que já nos mostrava com
humor o terror que era essa gente. Agora, depois do mensalão, vivemos tempos
mais as claras, tão as claras, que nada mais surpreende. Mas eu não vou falar
de política, não é a minha praia, só vou relatar um causo, único, que
participei cantando um jingle de uma campanha política.
A sexta na casa de festa dava sinais
de esgotamento. Praticamente quase todos os finais de semana chovendo, as vezes
uma garoa, outras um pouco mais forte, era uma época do ano propícia, mas
parecia até macumba, isso fazia com que o bar deixasse de acontecer no espaço
enorme e o jeito era arrumar as mesas dentro do salão, ficava aconchegante, mas
diminuía o número de mesas e mesmo assim na maioria das vezes não lotava. A
minha amiga dona da casa de festa já começava a cogitar a possibilidade de
encerrar essa atividade e colocar o dia para aluguel também. O bar fora um
sonho realizado. Nunca houve grande interesse empresarial, mas não se pode
funcionar no vermelho, tirando dinheiro do bolso, o empreendimento tem que se
pagar, nem que seja, isso no caso dela que não precisava do lucro para viver,
só o suficiente para pagar as despesas, coisa que aconteceu algumas vezes, mas
daí a começar a funcionar no vermelho, isso ninguém aguenta. Eu trabalhei até o
pagar das luzes por definitivo, mesmo já tendo sido sondado e recebido ofertas
para outras casas. Deixou muita saudade.
Num desses convites, fui conferir se
ainda estava de pé a proposta feita anteriormente, o dono da casa me recebeu
com muita alegria e confirmou a proposta. A sexta-feira estava reservada para
mim. Ali, uma parte do meu público me seguiu, o que para a casa era bom, mas a
maioria eram formados por novos ouvidos. Nada que me assustasse. Com o decorrer
das semanas eu já havia conquistado praticamente a maior parte do público, não
vou dizer que todos, porque não existe unanimidade.
Tentei, mas não consegui lembrar o
ano, só sei que era ano de eleição para vereador e prefeito. Após terminar a
minha noite no bar, o dono me chamou e perguntou se eu poderia participar de
uma reunião no meio da semana a noite, precisamente na quarta-feira, que
aconteceria no sobrado do bar. Perguntei do que se tratava, ele me informou que
eu iria participar de um teste para gravar um jingle da campanha de um
candidato e se fosse aprovado receberia uma oferta em dinheiro pelo trabalho.
Aceitei, perguntei a hora que deveria chegar, ele informou que as 20 horas estava
de bom tamanho. Eu não era uma pessoa pública, portanto a minha imagem não
estaria vinculada ao candidato e nem era filiado de nenhum partido. Minha voz não era conhecida do grande público,
portanto acredito que ninguém iria me reconhecer cantando, ademais, uma
graninha extra caía bem. Como era só para colocar voz numa gravação, não achei
nada demais, se fosse para trabalhar na campanha, aí não precisava nem de
reunião, a recusa já fazia parte dos meus princípios. No dia marcado, antes um
pouco da hora combinada, eu já me apresentava. Meu chefe e dono do bar me
recebeu e pediu que esperássemos mais um bocadinho, que ele aguardava uma outra
pessoa. Passados alguns minutos chegou, para meu espanto, um amigo que também
era cantor e sem que eu soubesse iria participar do teste também. À primeira
vista fiquei chateado, por pensar que fosse escolha única, mas depois vi que
era besteira. O sobrado onde estávamos se tratava de um pequeno estúdio que o
dono do bar possuía, para gravações e outras finalidades, mas sem muito
recurso, só o básico, contudo para o proposto servia. Nos avisou que rodaria
uma gravação da música para nós nos familiarizássemos com a letra e melodia,
após, começaríamos as tentativas de reproduzi-la com as nossas vozes. A
gravação tinha sido feita pelo compositor, em seu estúdio, mas o candidato não
gostou da voz e foi aí que nós entramos. Ele tinha ela cantada e também o
playback para a nossa gravação. Inicialmente ouviríamos a cantada. Como não era
músico, não se deu ao trabalho de verificar se o tom na gravação era o ideal
para ambos, então lá fomos nós ouvi-la. Como se tratava de um jingle, era uma
música curta, primeira parte e refrão, só isso, o importante era o refrão, era
desses bem pegajoso. Ouvimos algumas vezes e já estávamos prontos para gravar. Havia
boa diferença entre as nossas vozes, isso ficava nítido quando ele reproduzia as
gravações. Ambas estavam bem cantadas e afinadas, agora era questão de gosto. Analisando
e pensando, ele pediu que gravássemos o refrão, apenas o refrão, em primeira e
segunda voz. Eu e meu amigo combinamos quem faria a segunda voz e fomos para a
gravação, ficou muito bom. Encerrado o trabalho fomos avisados por ele que a
resposta final seria do candidato, porém a opinião dele tinha peso e que por
ele usaria as duas vozes separadas na primeira parte e o refrão seria a dupla.
Pediu que aguardássemos a decisão, que se fosse o que ele queria os dois
receberiam o cachê, caso contrário chamaria o escolhido. Passaram-se alguns
dias recebi um recado para comparecer lá no bar. Como ficara duas opções, não
dava para saber o que me esperava. Assim que cheguei fui saudado com alegria e
comunicado do resultado: A gravação escolhida para ser reproduzida para a
campanha seria aquela com as duas vozes. Para mim não havia problema nenhum, o
único senão, foi a conversa para reduzir o cachê pela metade. De cara não
concordei, aí entramos em negociação. Seus argumentos apelavam para um
orçamento apertado, que o candidato era do bairro, que faria melhorias, só
faltou pedir para não cobrar, tal a ladainha, tive a sensação de que foi
por pouco. Já meus argumentos foram diretos a questão de que primeiro ele não
havia me avisado que teria outro para a mesma proposta. Eu não conhecia o
candidato, sua proposta e sua índole, não era filiado ao seu partido e nem
estava em campanha e para finalizar, havíamos feito, mesmo que de boca, um
contrato de trabalho, quanto a ser o único ou dividir a gravação com outro não
tinha sido uma escolha minha. Ficamos nesse bate boca por alguns minutos e como
éramos amigos e eu trabalhava na casa cantando, acabei aceitando reduzir em 30%
o cachê. Sai dali e fui direto ao amigo que tinha participado da gravação para
saber se já tinha sido chamado e por quanto acertou. Não haveria diferença, ele também fecharia pelo mesmo valor quando fosse negociar no dia seguinte. Aproveitamos para conversar sobre o dia do pagamento. A
informação que tínhamos batia igual. Haveria o lançamento da campanha no final
de semana e como eu havia sido convidado, concluímos, que aconteceria o mesmo com ele, ser convidado para participar e presenciar o
lançamento do jingle e só depois é que receberíamos das mãos do nosso amigo
dono do bar. No dia, o local era um salão de uma dessas igrejas pentecostais,
com sistema de som, muitas cadeiras devidamente enfileiradas, no fundo do salão
um lugar acima do nível do chão, próprio para o discurso, muita propaganda em
papel e grandes cartazes com a foto do candidato e boa presença de público. Um
aspone veio e anunciou com grande entusiasmo o candidato. Aplausos! Com as mãos
levantadas saudava os presentes. Aprumou-se diante do microfone e... Valha-me
Deus! Se os candidatos tivessem que
fazer uma pequena prova de português, para qualquer posto político, penso que
os partidos teriam sérias dificuldades, mas como nesse caso, também penso, que
é melhor falar a língua do povo, então está tudo certo. Nós estávamos ali para
ouvir a gravação, mas antes tínhamos que passar por essa provação. Terminou o
discurso, ufa! Anunciaram o jingle da campanha. Grande expectativa. Falhou.
Como assim? Aconteceu algo que os engenheiros de som, nosso amigo do bar estava
lá, não conseguiam resolver e a música não saia nem a pau. O jeito foi sair em
carreata sem som. Nós ficamos frustrados, mas fazer o quê?
Os dias voaram e com eles todas as
nossas investidas para receber o cachê pela gravação. O nosso amigo do bar já
não tinha mais o que alegar para se desculpar, pois segundo ele, também havia
tomado uma volta. Vou dizer uma coisa para vocês, fora aquele dia o da
gravação, eu nunca ouvi como ficou o jingle. Aquele apelo para fazer de graça,
pois o orçamento era pequeno e o candidato era do bairro, acabou se realizando,
mas de uma maneira ortodoxia, bem a caráter. Sem querer generalizar, pois
existe uma parcela de políticos bons, mas o percentual é de 99,9% de
enganadores. Eu só vi a cara do indivíduo naquele dia do lançamento da
campanha, mas uma semana antes das eleições, estava eu em casa quando ouvi um
carro de som que passava por perto e reproduzia uma música, está fácil de
deduzir qual era música, justamente, a famigerada gravação com a minha voz e a
do meu amigo. FDP! A justiça as vezes falha, mas nesse caso, o cretino nem para
suplente serviu. Recebeu uma mixaria de votos. Inté!
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