sábado, 11 de março de 2017

Capítulo 40 – ESCOLHAS

Vou aproveitar um pouco mais dessas reminiscências, para relatar uma outra passagem acontecida na mesma gravadora, que me divide até hoje se agimos certo ou errado. Se for possível, no final, gostaria muito de saber de vocês as vossas opiniões. Ainda dentro daquela rotina de frequentar o café para encontrar os conhecidos e conhecer novos aspirantes.
Dentre tantos casos, houve esse que participei, mesmo estando na época já ensaiando com a banda. Até então, eu pelo menos não tinha tido a sorte, só aquele convite que não conta, de conhecer, quanto mais ser convidado para uma pequena amostra. Mas havia um frequentador do café, que nós gostávamos muito da sua companhia. Não sei ao certo como se deu, mas ele confidenciou que estava próximo de conseguir uma audiência com um produtor. Como ele já sabia que eu estava ensaiando com uma banda, me levou num particular e perguntou como era a banda. Depois que expliquei que eu era o cantor e que havia um guitarrista, um contrabaixista e baterista e coisa e tal, ele quis saber se eu não apresentava os músicos a ele para melhorar a qualidade das músicas que pretendia apresentar. Disse-lhe que não sabia, mas podia sondar. Ficamos mais ou menos combinado assim: Nada definido. No primeiro ensaio, conversei com o guitarrista, que imediatamente quis saber se ia rolar uma grana, como não havia perguntado sobre esse assunto, sugeri que encontrasse o indivíduo e depois de saber o que ele queria, fizesse a proposta. Fiquei nessa situação, intermediando o encontro. Quando aconteceu, o aspira explicou que era compositor e que, portanto, queria nessa audiência mostrar o seu trabalho autoral junto com o canto, mas como não era bom instrumentista precisava de ajuda e se fosse possível, melhorar com um arranjo as músicas para apresentação. Houve acerto financeiro. Quanto ao tempo para a apresentação, tudo dependeria da evolução, mas tinha que ser o mais rápido possível, oportunidades dessas não podiam esperar muito tempo, além do que não havia tanto dinheiro para pagar por um período longo, tinha que ser cem metros rasos, no máximo, duzentos já sem fôlego. Combinamos na casa dele. Fomos os três, com um único violão. Inicialmente ele tocaria, nós ouviríamos e o guitarrista começaria a trabalhar um arranjo que deixasse a música mais atraente. Vocês já devem ter assistidos a esses programas te televisão sobre transformação, sim transformação, de todos os tipos, pode ser cabelo, pode ser o conjunto completo, pode ser sobre usar sempre o mesmo tipo de roupa e alguém, dos poucos que vi eram mulheres, uma amiga, uma filha, pede ajuda a esse programa e eles vão, dão um dinheiro bom, se a pessoa topar, para que vá as compras, claro sob a supervisão deles, dos profissionais do programa. Pois vou dizer-lhes uma coisa de arrepiar: as músicas eram tão ruins, que não dava para transformar, só cabia uma meia sola, na linguagem dos sapateiros. Fazer o quê? Ele tinha uma coleção, porém achamos melhor escolher as menos piores, que foram cinco e, trabalharmos em cima dessas. Claro que ele queria mais, mas o convencemos a guardar o resto do material para acrescentar mais na frente, se houvesse. Pessoal, não dava para ficar indo todos os dias na casa dele, então o arranjo foi o seguinte: separamos as cinco músicas; gravamos num cassete; pegamos as letras; levamos tudo para aprontar em casa. Quando estivesse pronto, marcaríamos os ensaios. Não houve milagre, mas o guitarrista conseguiu dar uma ajeitadinha. Aí que começou o verdadeiro martírio. O cara desafinava, após a introdução entrava atravessado e nem notava e, eram as músicas dele, imagina ele cantando de outros, imaginou? Fomos até aonde ele podia ir. Entre começa de novo, de novo, de novo, chegamos perto, perto porra nenhuma, chegamos aonde dava para chegar, mesmo porque a grana tinha acabado. Nessas horas por mais que você queira ser sincero, não cabe a você desestimular. Nós sabíamos que ele era muito fraco, mas era o nosso gosto e a nossa percepção e, se o produtor achasse que aquele tipo de música tinha público e que com muita boa vontade e ensaio, o resultado poderia ser aproveitável. Haja vista, que não seria uma exceção, pois até hoje se ouve cada coisa de arrepiar. Ele ficou de nos avisar qual seria o dia da audiência. Não demorou muito, o aviso veio, claro através de mim, para que fossemos no dia tal, no horário tal, a recepção da gravadora. Era uma tarde, de um dia da semana de expediente, já algumas horas após o almoço, quando chegamos e já encontramos sentado na recepção o nosso artista. Assim que chegamos, ele se dirigiu a recepcionista e pediu que anunciasse a sua presença ao produtor. Feito o anuncio, ficamos esperando ser chamados. Esperar é sempre ruim, né? Pior ainda quando vale o seu futuro. Dá uma aflição. Imagina ele. Fomos finalmente chamados. Entramos com a porta sendo aberta pelo produtor, que nos cumprimentou e pediu que o acompanhasse. Mais à frente abriu uma porta a direita no corredor largo em que andávamos e nos convidou a entrar. Vou dizer sinceramente, esperávamos um pouco mais, já que a sala era na verdade uma saleta, não sei se por sermos quatro, mas mesmo assim era um lugar muito acanhado. Havia uma mesa com uma cadeira, que o produtor se sentou e nós ficamos em pé a sua frente, quase não dando para nos movermos. Então, sem mais de longas, o indivíduo se dirigiu ao aspirante e colocou as cartas na mesa: “Bem, você queria uma oportunidade, não queria? Então pode começar. “ O guitarrista estava em pé atrás do aspira segurando o violão, pronto para começar e, eu e o contrabaixista estávamos ao seu lado. Ele virou-se para o guitarrista e pediu tal música. Foi executada a introdução, como no ensaio, e o filha da p... entrou errado e ia continuar errado, mas sentiu que estava errado e pediu para voltar. Que belo começo. Nesse momento o produtor abaixou a cabeça e pôs as mãos sobre a nuca. Esse gesto nos incomodou e acredito, mesmo não demostrando, que ao aspira também, porque dali para frente foram erros bobos sucessivos e, quanto mais ele tentava consertar, mais piorava, a essa altura o nervosismo já tomara conta. O produtor não saia dessa posição. Foi quando terminando mais uma, mal cantada, que o guitarrista resolveu, de raiva, fazer um improviso no violão por conta dele, que o produtor levantou a cabeça como quem diz existe luz no fim do túnel. Naquele instante nós sentimos que poderíamos virar o jogo apresentando uma das nossas. Olhamos um para o outro e cruzamos com o olhar do aspira, que parecia implorar para não humilharmos ainda mais, levamos alguns segundos, talvez mais que um minuto, o produtor de cabeça erguida, para tomarmos a decisão que tomamos. Viola no saco, audiência encerrada, já do lado de fora, consolamos o aspira de todas as formas. Ele tão cedo não teria outra oportunidade como aquela e nós? Ao entrarmos no ônibus e sentarmos, começamos uma discussão a respeito da decisão. Mas a pergunta que não calava era: tínhamos o direito de atropelar a audiência do aspira? Tomamos a decisão certa? Se concordávamos em nossas respostas, então, tínhamos que cavar a nossa própria audiência, caso contrário perdemos uma grande oportunidade. Passado aquele primeiro momento, não discutimos mais e nem lamentamos, donde se conclui que se fizéssemos diferente, até poderia ser considerado certo, tiraríamos proveito de uma coisa que não fomos nós que arrumamos. Penso, que mesmo nessa situação, prevaleceu a educação que recebemos, que até então, nada daquele meio ou de outro tinha nos transformado. Havia uma coisa boa dentro de nós, mesmo que tenhamos balançado por segundos, permaneceu, foi mais forte e prevaleceu. Nós conseguimos encontrar o produtor em outras oportunidades, em todas elas ele foi resoluto, não abriu sequer uma brechinha de esperança para nós. Nos negou todas as vezes, deixando bem claro que com ele não aconteceria de novo. Até que foi admitido em outra gravadora mais importante, aí ficou muito mais difícil para nós, pois era o único que conhecíamos, mesmo não sendo um conhecimento estreito, recomendado.
E então o que vocês acham, fizemos a coisa certa ou deveríamos chutar o balde e tomar a frente do aspira apresentando nossas composições?

No final do relato existe um link: “Um comentário: “ utilize-o e poste apenas sim ou não, só isso será suficiente para entender a sua opinião. Inté!

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