Capítulo 40 – ESCOLHAS
Vou aproveitar um pouco mais dessas
reminiscências, para relatar uma outra passagem acontecida na mesma gravadora, que
me divide até hoje se agimos certo ou errado. Se for possível, no final,
gostaria muito de saber de vocês as vossas opiniões. Ainda dentro daquela
rotina de frequentar o café para encontrar os conhecidos e conhecer novos
aspirantes.
Dentre tantos casos, houve esse que
participei, mesmo estando na época já ensaiando com a banda. Até então, eu pelo
menos não tinha tido a sorte, só aquele convite que não conta, de conhecer,
quanto mais ser convidado para uma pequena amostra. Mas havia um frequentador
do café, que nós gostávamos muito da sua companhia. Não sei ao certo como se
deu, mas ele confidenciou que estava próximo de conseguir uma audiência com um
produtor. Como ele já sabia que eu estava ensaiando com uma banda, me levou num
particular e perguntou como era a banda. Depois que expliquei que eu era o
cantor e que havia um guitarrista, um contrabaixista e baterista e coisa e tal,
ele quis saber se eu não apresentava os músicos a ele para melhorar a qualidade
das músicas que pretendia apresentar. Disse-lhe que não sabia, mas podia
sondar. Ficamos mais ou menos combinado assim: Nada definido. No primeiro
ensaio, conversei com o guitarrista, que imediatamente quis saber se ia rolar
uma grana, como não havia perguntado sobre esse assunto, sugeri que encontrasse
o indivíduo e depois de saber o que ele queria, fizesse a proposta. Fiquei
nessa situação, intermediando o encontro. Quando aconteceu, o aspira explicou
que era compositor e que, portanto, queria nessa audiência mostrar o seu
trabalho autoral junto com o canto, mas como não era bom instrumentista
precisava de ajuda e se fosse possível, melhorar com um arranjo as músicas para
apresentação. Houve acerto financeiro. Quanto ao tempo para a apresentação,
tudo dependeria da evolução, mas tinha que ser o mais rápido possível,
oportunidades dessas não podiam esperar muito tempo, além do que não havia
tanto dinheiro para pagar por um período longo, tinha que ser cem metros rasos,
no máximo, duzentos já sem fôlego. Combinamos na casa dele. Fomos os três, com
um único violão. Inicialmente ele tocaria, nós ouviríamos e o guitarrista
começaria a trabalhar um arranjo que deixasse a música mais atraente. Vocês já
devem ter assistidos a esses programas te televisão sobre transformação, sim
transformação, de todos os tipos, pode ser cabelo, pode ser o conjunto
completo, pode ser sobre usar sempre o mesmo tipo de roupa e alguém, dos poucos
que vi eram mulheres, uma amiga, uma filha, pede ajuda a esse programa e eles
vão, dão um dinheiro bom, se a pessoa topar, para que vá as compras, claro sob
a supervisão deles, dos profissionais do programa. Pois vou dizer-lhes uma
coisa de arrepiar: as músicas eram tão ruins, que não dava para transformar, só
cabia uma meia sola, na linguagem dos sapateiros. Fazer o quê? Ele tinha uma
coleção, porém achamos melhor escolher as menos piores, que foram cinco e,
trabalharmos em cima dessas. Claro que ele queria mais, mas o convencemos a
guardar o resto do material para acrescentar mais na frente, se houvesse.
Pessoal, não dava para ficar indo todos os dias na casa dele, então o arranjo
foi o seguinte: separamos as cinco músicas; gravamos num cassete; pegamos as
letras; levamos tudo para aprontar em casa. Quando estivesse pronto,
marcaríamos os ensaios. Não houve milagre, mas o guitarrista conseguiu dar uma
ajeitadinha. Aí que começou o verdadeiro martírio. O cara desafinava, após a
introdução entrava atravessado e nem notava e, eram as músicas dele, imagina
ele cantando de outros, imaginou? Fomos até aonde ele podia ir. Entre começa de
novo, de novo, de novo, chegamos perto, perto porra nenhuma, chegamos aonde
dava para chegar, mesmo porque a grana tinha acabado. Nessas horas por mais que
você queira ser sincero, não cabe a você desestimular. Nós sabíamos que ele era
muito fraco, mas era o nosso gosto e a nossa percepção e, se o produtor achasse
que aquele tipo de música tinha público e que com muita boa vontade e ensaio, o
resultado poderia ser aproveitável. Haja vista, que não seria uma exceção, pois
até hoje se ouve cada coisa de arrepiar. Ele ficou de nos avisar qual seria o
dia da audiência. Não demorou muito, o aviso veio, claro através de mim, para
que fossemos no dia tal, no horário tal, a recepção da gravadora. Era uma
tarde, de um dia da semana de expediente, já algumas horas após o almoço,
quando chegamos e já encontramos sentado na recepção o nosso artista. Assim que
chegamos, ele se dirigiu a recepcionista e pediu que anunciasse a sua presença
ao produtor. Feito o anuncio, ficamos esperando ser chamados. Esperar é sempre
ruim, né? Pior ainda quando vale o seu futuro. Dá uma aflição. Imagina ele.
Fomos finalmente chamados. Entramos com a porta sendo aberta pelo produtor, que
nos cumprimentou e pediu que o acompanhasse. Mais à frente abriu uma porta a
direita no corredor largo em que andávamos e nos convidou a entrar. Vou dizer
sinceramente, esperávamos um pouco mais, já que a sala era na verdade uma
saleta, não sei se por sermos quatro, mas mesmo assim era um lugar muito
acanhado. Havia uma mesa com uma cadeira, que o produtor se sentou e nós ficamos
em pé a sua frente, quase não dando para nos movermos. Então, sem mais de
longas, o indivíduo se dirigiu ao aspirante e colocou as cartas na mesa: “Bem,
você queria uma oportunidade, não queria? Então pode começar. “ O guitarrista
estava em pé atrás do aspira segurando o violão, pronto para começar e, eu e o
contrabaixista estávamos ao seu lado. Ele virou-se para o guitarrista e pediu
tal música. Foi executada a introdução, como no ensaio, e o filha da p...
entrou errado e ia continuar errado, mas sentiu que estava errado e pediu para
voltar. Que belo começo. Nesse momento o produtor abaixou a cabeça e pôs as
mãos sobre a nuca. Esse gesto nos incomodou e acredito, mesmo não demostrando,
que ao aspira também, porque dali para frente foram erros bobos sucessivos e,
quanto mais ele tentava consertar, mais piorava, a essa altura o nervosismo já
tomara conta. O produtor não saia dessa posição. Foi quando terminando mais
uma, mal cantada, que o guitarrista resolveu, de raiva, fazer um improviso no
violão por conta dele, que o produtor levantou a cabeça como quem diz existe
luz no fim do túnel. Naquele instante nós sentimos que poderíamos virar o jogo
apresentando uma das nossas. Olhamos um para o outro e cruzamos com o olhar do
aspira, que parecia implorar para não humilharmos ainda mais, levamos alguns
segundos, talvez mais que um minuto, o produtor de cabeça erguida, para
tomarmos a decisão que tomamos. Viola no saco, audiência encerrada, já do lado
de fora, consolamos o aspira de todas as formas. Ele tão cedo não teria outra
oportunidade como aquela e nós? Ao entrarmos no ônibus e sentarmos, começamos
uma discussão a respeito da decisão. Mas a pergunta que não calava era:
tínhamos o direito de atropelar a audiência do aspira? Tomamos a decisão certa?
Se concordávamos em nossas respostas, então, tínhamos que cavar a nossa própria
audiência, caso contrário perdemos uma grande oportunidade. Passado aquele
primeiro momento, não discutimos mais e nem lamentamos, donde se conclui que se
fizéssemos diferente, até poderia ser considerado certo, tiraríamos proveito de
uma coisa que não fomos nós que arrumamos. Penso, que mesmo nessa situação,
prevaleceu a educação que recebemos, que até então, nada daquele meio ou de
outro tinha nos transformado. Havia uma coisa boa dentro de nós, mesmo que
tenhamos balançado por segundos, permaneceu, foi mais forte e prevaleceu. Nós
conseguimos encontrar o produtor em outras oportunidades, em todas elas ele foi
resoluto, não abriu sequer uma brechinha de esperança para nós. Nos negou todas
as vezes, deixando bem claro que com ele não aconteceria de novo. Até que foi
admitido em outra gravadora mais importante, aí ficou muito mais difícil para
nós, pois era o único que conhecíamos, mesmo não sendo um conhecimento estreito, recomendado.
E então o que vocês acham, fizemos a
coisa certa ou deveríamos chutar o balde e tomar a frente do aspira
apresentando nossas composições?
No final do relato existe um link:
“Um comentário: “ utilize-o e poste apenas sim ou não, só isso será suficiente para
entender a sua opinião. Inté!
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