domingo, 25 de junho de 2017

Capítulo 54 – SAMBA, CARNAVAL E MUITO SUOR (SEGUNDA PARTE)

Terminado o trabalho com as faixas e as camisetas, fomos dormir e rezar para que a tal camiseta fosse bem aceita. Nós sempre íamos a noite, mesmo porque, alguns deles ainda trabalhavam e o ponto e horário de encontro no bar só acontecia a noite. Por pura coincidência o dia em que fomos fazer a entrega era uma sexta-feira, além dos mais conhecidos, estriam certamente mais gente reunida. Quando chegamos fomos saudados como se fossemos grandes empresários ou personalidades, mas era por causa do que nós carregávamos, eles estavam ansiosos feitos crianças à espera de um presente ou um doce. Abrimos a bolsa e retiramos, para delírio geral, as faixas e as camisetas, porém, naquele momento quem queria saber de faixa, o negócio eram as camisetas. Arredaram uma mesa especialmente para colocarmos a encomenda, conforme iam abrindo cada peça, apesar de serem iguais, cada um fazia uma observação, notamos que estávamos agradando, então veio uma voz solitária no meio da confusão, era o chato perguntando: “Cadê a minha camiseta? “ Meu amigo havia separado, para uma entrega particular, mesmo ali no meio de todos, vocês sabem o motivo, então, antes de entrega-la fez uma observação: “Nós demos um capricho especial, espero que você goste. ” Ninguém estava notando. Abriu a camiseta com a parte da frente virada para ele e rezou muito. Ao vê-la, um sorriso começou miúdo e foi se alargando até todos os dentes saltarem e junto, um grito retumbante que estremeceu o lugar, chamando atenção de todos: “Caralho! Ficou show de bola! “ Se redimiu, pediu desculpas pela desconfiança e abraçou meu amigo e eu, quase chorei, não pelo abraço, mas pelo alívio. Estávamos aproveitando o momento, quando todos reclamaram que queriam uma assim também. Foi preciso que meu amigo invocasse um parecer técnico, que sabia que eles não iam entender muito, mas que para a ocasião vinha a calhar para nos livrarmos da saia justa. Aceitaram numa boa. Saímos tarde de lá. Cansados, mas recompensados, havíamos recebido o pagamento restante, que era a maior parte. Vou falar para vocês uma curiosidade. Naquela noite ao invés de ter uma noite de sono leve, dos anjos, não é que tive um baita de um pesadelo, penso que foi a tensão envolvendo aquela peça do vestuário em particular. No dia seguinte, estávamos de novo no ponto dos compositores perscrutando na tentativa de conseguir mais alguma indicação e, não é que ela veio. Era para procurar o presidente de uma escola de samba da terceira divisão. Depois dessa indicação, que realizamos o serviço e que nos deu mais um ganho, recebemos mais outras indicações, agora em escola de samba do grupo especial, aí meu amigo a coisa se tornou um verdadeiro inferno. Nós, conseguíamos entrar sem pagar, até chegávamos a ser recebido, em algumas, pelo presidente ou assessor. Como o carnaval estava próximo, as escolas se encontravam em ensaio, ou seja, sempre lotadas, para não dizer em certos casos abarrotadas de gente, que mal conseguíamos nos mover, quanto mais encontrar alguém para conversar sobre o nosso trabalho e quando conseguíamos, esbarrávamos num sujeito que comandava essa parte de adereços e não deixava a gente faturar no seu lugar. Claro, que existe aí o fator desconhecidos, pelo qual nós nos encaixávamos perfeitamente e, sendo assim, nas grandes ficou notório que não iriamos conseguir nada. Olha, foi um ano em que eu conheci praticamente todas as escolas de samba chamada grande. Ir em seus ensaios virou uma rotina, era trabalho, mas serviu para sentir o clima, o ambiente, sinceramente não gostei muito não. O samba que tocavam era o do enredo, portanto tocavam a exaustão. Fora em pouquíssimas ocasiões em que ficamos em camarote, as outras me senti sufocado. Passado por quase todas, ainda veio uma indicação para irmos no bloco carnavalesco Cacique de Ramos, com recomendações para sermos recebidos pelo presidente. Nesse chegamos horas antes da chegada do grande público, que também lotava sua roda se samba. Fomos encaminhados educadamente para a sala do presidente e lá chegando pudemos conversar calmamente com uma pessoa extremamente cortês. Expusemos nossa ida com o mostruário das agremiações em que realizamos e finalizamos o trabalho. O presidente gostou muito, mas também ali, existia uma pessoa que tratava desse assunto e a diretoria não podia passar por cima dele. O nosso anfitrião nos convidou a visita-lo, se propondo a nos levar até ele e fazer as apresentações, aceitamos, fomos conduzidos a uma outra sala, depois das apresentações, o anfitrião nos propôs que assim que terminasse a reunião, voltássemos a procura-lo para conhecer a casa e tomar uma cerveja por conta da casa e saiu. Assim que saiu, o semblante do nosso entrevistador mudou completamente. Quando terminamos a apresentação, veio o que nós já esperávamos, a negativa. Quanto as explicações dadas para justificar, essas me recuso a descrever, tal a empáfia do sujeito e o menosprezo, nós não contra argumentamos, estávamos cansados. Como já havíamos conseguido um bom dinheiro com os serviços que fechamos, era bom senso nos darmos por satisfeito. Quando saímos, meu amigo queria ir embora, embora tínhamos prometido voltarmos a sala do presidente, mas ele pediu que se eu quisesse tudo bem, ele iria sozinho e, que eu me desculpasse por ele partir. Nos despedimos e eu fui tomar aquela cerveja. Não era final de semana, estávamos no meio da semana em que chamamos de comercial, ou seja, penso que era uma quarta-feira, mas o movimento na portaria quando eu passei de volta a sala do presidente era grande. Eu não sou o que se pode chamar de sambista, nem de longe, quanto mais um assíduo e profundo conhecedor do gênero, mas conhecia muitos sambas e cantores, só não era ouvinte e frequentador de roda se samba. Assim que cheguei, ao levantar a cabeça o presidente perguntou pelo amigo, dei as devidas explicações e sem mais conversas fomos para terreiro. Era um grande quintal. Havia uma parte do chão do terreno mesmo, com árvores, depois mais para os fundos uma parte coberta de cimento. As mesas ficavam espalhadas pelo terreno, guardando uma certa distância do lugar em que ficava a aparelhagem de som, num suposto palco, ao qual se apresentariam os sambistas cantores e compositores. Foi-me oferecida uma mesa, em seguida o pedido de uma cerveja com a recomendação de que era por conta da casa. Fiquei ali sozinho, acompanhado apenas da minha cerveja, ouvindo sambas cantados pelos compositores, sambas que jamais havia escutado. O que me impressionou, além do nível dos sambas, foi a criatividade nos temas, não eram composições que só falavam de amores perdidos e dores de cotovelo, não, eles faziam samba até de conversa de animais, só para citar um exemplo. Começava a ficar tarde, afinal eu estava em Ramos, longe da minha casa, então, resolvi me retirar, mas antes fui agradecer a hospitalidade do meu anfitrião, ele não só me perguntou se eu havia gostado, como me ofereceu entrada gratuita se eu voltasse outras vezes, de preferência, se eu pudesse, chegasse mais cedo, antes da abertura dos guichês. Perguntei-lhe como faria para acha-lo, respondeu-me que era só pedir, na entrada, para chama-lo, que ele iria até a portaria.
Não conseguimos mais nenhum serviço, também o carnaval já estava a porta. Nossa empreitada rendeu um bom dinheiro e, em virtude desse sucesso, resolvemos apostar mais alto, se arrependimento matasse.... Bem, a sacada era o seguinte: Faríamos faixas com os nomes das escolas do grupo especial e levaríamos para avenida afim de vende-las para os turistas nacionais, internacionais e o grande público que comparece para assistir ao desfile. Santa ingenuidade. Antes sondamos, pois não daríamos conta, com amigos, quem estava disposto a trabalhar na avenida – ainda não havia o sambódromo – como camelô, vendendo faixas para a cabeça. Três toparam. Com o número de cinco no total, fabricamos noite adentro faixas e mais faixas para o dia DD (Dia do Desfile). Quando vimos o resultado tínhamos uma quantidade que se fossem todas, ou quase, vendidas, teríamos um retorno excelente, já contabilizando as comissões pagas. Só que a realidade é outra coisa. Na rua um sofreu uma blitz da fiscalização e perdeu toda a mercadoria. Acendeu a luz vermelha. Os outros dois no começo da madrugada pediram arrego. Tínhamos que virar a noite, afinal a folia só terminava ao amanhecer, mas os caras não aguentaram. Ficamos só eu e meu amigo. Conseguimos um ponto sossegado, bem em frente ao puteiro, meu amigo foi fazer uma visita as meninas e vendeu pra cassete, enquanto isso eu do lado de fora, bem no corredor que dava acesso a arquibancada, quase não dava conta de tanta gente em volte de mim, querendo uma faixa. Meu amigo retornou, aliviando o atendimento, agora éramos dois oferecendo a mercadoria. Ficamos uma meia hora, ou mais, com um sai e chega de gente, que quando refrescou um pouco, estávamos com os bolsos cheios de dinheiro e também com uns caras estranhos do outro lado da rua só observando. Notamos que o tempo ia fechar para o nosso lado, então, antes que acontecesse o pior, meu amigo falou: “Começa a gritar: Olha a faixa! E vai saindo de fininho andando para o lado do movimento na avenida, que eu vou bem atrás. ” Assim, comecei a fazer exatamente como me pediu e quando vimos, já estávamos a salvo, pois ao virarmos vimos os meliantes, que saíram da calçada e foram para o meio da rua, olhando para nós. Já na avenida, o movimento muito fraco, sentimos pelo adiantar da hora, que não conseguiríamos muito mais, seria só cansaço e perda de sono, então, resolvemos abandonar o barco. Barco que encalhou. Nosso rico dinheirinho, perdemos praticamente tudo. O que restou, depois que acertamos com os amigos, mal dava para comprar um nariz de palhaço, quanto mais a fantasia. “Olho grande não entra na china”, já dizia o grande filósofo chinês Ku Chai Chang.
Acabou o carnaval e para nós não foi só a quarta-feira de cinzas que chegou, veio outros dias cinzentos, mas foram poucos, pois na semana seguinte eu me lembrei do Cacique de Ramos, me ajeitei e parti para curtir um samba de primeira. Meu cálculo não deu muito certo, o ônibus demorou mais que o esperado e quando eu cheguei já havia uma multidão na frente da quadra. Fui pedindo licença aqui, ali, acolá, de repente estava diante de uma muralha humana à frente da porta. Virei-me para ele e disse: “Será que dá para eu entrar? Sou amigo do presidente. Pede para chamar ele. “ Como se essas palavras fosse comove-lo. Olhou para mim e balbuciou: “ Amigo, sei. “ Senti que a missão era quase impossível, mas tinha que tentar, então me preparei, mas não foi preciso, quando me ajeitava para tacar novamente o presidente passou bem na minha frente, pela grade gritei seu nome, quando me olhou, abriu um sorriso e falou para o grandão: “Deixa ele entrar e repare bem nele, pois toda a vez que ele vier tem passagem livre. ” Agradeci. Entrei e fui procurar uma mesa para poder tomar uma cerva, ouvir e ver os sambistas se apresentarem. Nessa roda de samba, que eu praticamente bati cartão toda semana por um bom tempo, vi muita gente boa de talento em início de carreira, que se tornaram grandes nomes do samba, assim como os que já naquela época estavam no patamar de cima. Eu gosto de música boa, seja ela qual for o estilo, claro, tenho minhas preferências, mas como diz a letra de um bonito samba: “Quem não gosta de samba, bom sujeito não é. É ruim da cabeça, ou doente do pé. Inté!  

domingo, 18 de junho de 2017

Capítulo 53 – SAMBA, CARNAVAL E MUITO SUOR

O ano havia acabado se tornando passado; acabara de ficar pelo caminho dando lugar a um novo. Estávamos em pleno começo do ano novo, ainda com a boca seca e ruminando gostos misturados de uma ressaca recente, quando a nossa frente já se vislumbrava uma outra festa, a do Rei Momo. Confesso, não sou chegado a esse festejo. Nunca tive vocação para folião. Sempre nessa data ou época do ano, eu, se aparecesse oportunidade, fugia para qualquer lugar longe dos tamborins. Incentivo quem goste e dou a maior força para os três dias sem parar, mas eu não. O máximo que eu chegava, era assistir, se não viajasse, ao desfile das escolas de samba. É, sem sombra de dúvidas, um espetáculo de grande magnitude e sem correr o risco de errar, uma das maiores e mais bonita festa popular do país, quiçá, do mundo.
Eu estava sempre junto ao um amigo, naquela época, que tinha como profissão, talento e dom, ponho tudo junto, pois era-lhe uma coisa nata, executar certos trabalhos em pequenos, médios e grandes cartazes, placas, portas, ou seja o que desse e lhe contratasse para escrever à mão livre. Tinha uma precisão milimétrica e uma técnica de dar inveja aos que saiam de qualquer curso, além de realizar trabalhos em silkscreen. Estávamos em plena Praça Tiradentes, lugar de compositores, mulher da vida fácil, travestis e jogadores. Nós nos posicionávamos entre os compositores e os jogadores de sinuca, mas não apostávamos, só gostávamos de jogar e diga-se de passagem eu jogava muito bem. Entre um cafezinho aqui e outro logo mais, sempre cruzávamos com um conhecido e num desses momentos, ficamos sabendo que haveria uma reunião com os diretores da Banda da Tiradentes, que sairia durante o carnaval. Vinham desde o meio do ano com um projeto para resgatar a tradição da Banda. Meu amigo me disse que iria participar da reunião, eu como não estava a fim, disse-lhe que iria para casa e que voltaríamos a nos ver no dia seguinte, assim fizemos.
Nos encontramos dia seguinte e ele veio com uma novidade surpreendente. Disse-me que no decorrer da reunião, um membro do conselho deu a ideia de se fazer um adorno, um adereço, que não seria carregado na mão e sim na cabeça, ou seja, uma faixa com o nome da banda. Então, diante desse fato e com a aprovação dos demais, ele se adiantou e disse que fazia. Depois que a reunião acabou, ficou para conversar a respeito de saber detalhes como: quantidade, cor, largura e, claro apresentar o orçamento. Agora, vinha a parte que eu estava doido para perguntar, mas ele não deu nem tempo. Já com tudo acertado, reuniu coragem e pediu adiantamento de cinquenta por cento, pois não tinha um puto para comprar o material. Disse que de cara o momento ficou tenso, mas havia um amigo que avalizou e garantiu que ele não iria aplicar nenhum golpe, mesmo porque se o fizesse... Diante do acontecido, virou-se para mim e perguntou: “Está sem trabalho? Precisando de uma grana? Então, vem me ajudar, que levarás um qualquer para passar bem o carnaval. ”  “Já é! Tamo junto! ”  Os dias transcorreram com a gente indo a diversos lugares para comprar o material mais em conta. Tudo comprado e a tela do silk pronta, começamos a fabricação. Eu ajudava em tudo que não fosse a arte final, ou seja, na preparação, como o corte do tamanho da fita, tira-las após a impressão para a secagem e por aí vai. Realmente dá um trabalhão. Sozinho, dava para fazer, mas demoraria bem mais para terminar o serviço, além de que o convite tinha a finalidade de me dar uma força, pois estava caído de dinheiro, ao contrário dele que durante o dia trabalhava para uma loja e o serviço quando pegou já sabia que teria de realiza-lo a noite, então, juntou a fome com a vontade de comer, um dinheirinho extra para ele e um para mim que estava precisando. Não demoramos muito para realizar o combinado. Entregamos o material, que fora minuciosamente analisado, que recebeu aprovação unanime. Pagamento feito e antes de nós nos despedirmos, o presidente da banda pediu para esperar um instante, foi até uma mesa, rabiscou num papel e quando voltou, entregou ao meu amigo dizendo-lhe: “Vai nesse endereço, é um bar, procura uma pessoa com esse nome e diz que foi eu que te mandei, entrega esse cartão, e diz a ele que você faz o que estão precisando, mas não demora, se puder vá amanhã. ”  Agradecemos muito e saímos dali eufóricos com a nova possibilidade. Daí veio a ideia de que ali no ponto dos compositores nós poderíamos arrumar mais serviço, principalmente essa das faixas de cabeça com o nome de banda, escola de samba, blocos, só tínhamos que conversar com alguns amigos sambistas que frequentavam o lugar. Mas antes de colocarmos em prática a nossa ideia, fomos ao tal endereço, encontrar o tal sujeito, a fim de fechar mais serviço. No local, um bar, era noite, perguntamos ao balconista pelo nome do sujeito, que apontou para o final do salão, onde se encontrava uns caras reunidos em duas mesas, repletas de garrafas de cervejas e uma de whisky. Quando nos aproximamos, ninguém se importou com a nossa presença, nós não tínhamos cara de qualquer ameaça, continuavam o papo animadamente, tivemos que pedir licença com a intenção de chamar a atenção e quando conseguimos, pedimos para falar com o indicado. Todos ali eram bem mais velhos que nós, eram senhores maduros, marcados pela vida, de repente virou-se um e disse ser ele e o que nós queríamos. Mostramos o cartão e desfiamos o nosso rosário. Ao terminarmos, ele perguntou se além das faixas nós também fazíamos camisetas com o brazão da Banda e o nome, meu amigo afirmou eu sim. Voltando-se para o grupo, parecia que ali se resolvia tudo, perguntou o que eles achavam, veio um monte de pergunta para ele e para nós e finalmente começaram a sondar qual seria o custo, para isso fora necessário fazermos anotações com a quantidade de camisetas, o Brazão, as palavras e o número de faixas. Recolhida as informações ficamos de voltar outro dia para a entrega do orçamento. Antes de partirmos, perguntamos se teríamos que comprar as camisetas ou eles as forneceriam; não teríamos que comprar, só estampar. Três dias depois nos encontrávamos no bar apresentando o orçamento, claro, que veio aquele famosa chorada, mas nós sabíamos que eles tinham dinheiro, então criamos uma série de alegações, mas no fim diminuímos um pouco. Bem, negócio fechado, agora é que vinha a pior parte, que não tinha como ser diferente, nós estávamos começando, portanto, cheios de dedos, escolhemos um e enfiamos na ferida, saiu o pedido de adiantamento. O tempo fechou. Alguns falavam com uma certa sutileza, mas havia um que era um grosso, não tinha papas na língua, seu linguajar detonava ofensas e deixava bem claro que nós iriamos aplicar um golpe. Nós sabíamos que não era fácil, mas fazer o quê? Sem adiantamento nada feito, então, o sujeito que fora indicado chamou-nos a sentar e, olhando dentro dos nossos falou pouco, mas disse tudo: “Escuta, eu vou dar o adiantamento, mas fiquem sabendo que seja lá aonde vocês morem, se não aparecerem com a encomenda eu acho vocês. Tá bom? ” Meteu a mão no bolso e tirou um maço de notas, contou e passou para a mão do meu amigo. Meio sem jeito nos despedimos, para começar com as faixas, as camisetas voltaríamos daqui a cinco dias para pega-las. O sem educação ainda quis nos atrapalhar, adjetivando-nos com o seu vocabulário chulo, mas o major, é, essa era a patente do homem, não deu ouvidos. Dentro do ônibus conseguimos relaxar um pouco, contudo a lembrança recente nos deixava assustados. Ainda, mais tarde, brincamos imitando o Zé do Contra, coisa rápida, pois a responsa era eminente. Entramos em ação imediatamente. Os dias passaram rapidamente, enquanto fazíamos as faixas, tão rápido que já estava na hora de buscar as camisetas. Como já tínhamos um bom número de faixas, levamos conosco para adoçar a boca principalmente do Zé do Contra. Quando mostramos o trabalho, todos ficaram animados, quer dizer quase todos, mas também não ouve reclamação, agora foi recomendação, ao nos entregarem as camisetas, a do sujeitinho era diferente, ele havia comprado a dele num outro tecido e um pouco diferente e fez questão de entrega-la de suas próprias mãos, com a recomendação para que caprichássemos. Deixamos os meninos brincando com as faixas e voltamos para o ateliê, tínhamos muito trabalho para realizar. Terminamos as faixas. Agora começava o trabalho mais apurado. Preparada as telas, partimos para impressão. Eram duas impressões, então tínhamos que realizar a primeira e esperar que secasse para vir e terminar o serviço com a segunda impressão. Como eu falei anteriormente, nós trabalhávamos a noite, as vezes íamos até de madrugada, tal o ritmo que resolvemos empregar. Como todas a camisetas eram iguais, com exceção da do sujeitinho, então, deixamos ela por último. Acabamos a impressão de todas e aí meu amigo pegou a tal camiseta e colocou para faze-la, só que ela receberia uma tinta diferente, mas distraidamente ele sapecou a mesma tinta das outras, quando levantou a tela e viu, quase enfartou, justo a dele, aquilo era muito castigo. Acendemos um cigarro cada um e fomos fumar enquanto ela secava. Na nossa cabeça só víamos a imagem do sujeito descarregando sua fúria em cima de nós. Enquanto fumávamos, meu amigo teve uma ideia um tanto arriscada, mas que poderia dar certo, ele teria que ter muita precisão, porem era uma saída. Voltamos a atenção para a camisa, ela já havia secado, daí ele pegou a peça, colocou em posição de uma nova impressão, ainda perguntei: “Vai imprimir em cima da impressão? É isso? ” No que me respondeu que sim, faria por cima, bem em cima, cobrindo a tinta anterior. Ajustou milimetricamente, baixou a tela e sapecou a tinta certa, olhou pro céu e pediu a Deus que desse certo. Ao levantar a tela o resultado foi outro, para espanto nosso as duas tintas fizeram com que o erro ficasse lindo, diferente, elas não se sobrepuseram, ao contrário, ficaram ladeadas e isso provocou um efeito que certamente, como observou bem meu amigo, jamais seria repetido, porém, ainda assim, não tínhamos certeza de que o chato ficaria satisfeito ou puto. Bem amigos, como essa história se prolonga um pouco mais que as demais, terei de faze-la em duas partes, então, peço paciência e marcamos um novo encontro, para terminarmos esse papo, na semana que vem. Inté!  

sábado, 10 de junho de 2017

Capítulo 52 -  SERENATA

Surgiu uma oportunidade irrecusável para um final de semana de descanso, na verdade seria mais para distrair a mente, do que propriamente descanso, ou seja, coisas que trazem prazer não cansam, por mais que você tire poucas horas para dormir. Como a minha amiga cantora de sábado me devia um dia, por eu ter ficado no meu dia e no dela, quando precisou se ausentar para ganhar um dim dim maior em outras paragens, não foi nada difícil cobrar a dívida. Assim, o convite para viajar até uma cidade no interior de Minas ficou de boa. Eram só três dias, precisamente, três noites e dois dias. Sendo que na primeira noite nós praticamente ficaríamos por conta dos nossos anfitriões. A viagem foi tranquila e chegamos bem no final da tarde e comecinho da noite de sexta-feira. Como eu disse, tiramos a noite para descarregar as malas e desfaze-las, conhecer a casa e onde iríamos dormir, além de matar a saudade dos nossos anfitriões e conhecer o restante da família, que consistia, além do casal, de mais duas lindas e maravilhosas crianças. Não eram pequeninas, se não me engano o menino tinha uns sete ou oito anos e a menina uns doze ou treze anos. Lanchamos, tomamos umas cervejas e claro pinga mineira, também aproveitamos para conhecer a discografia do dono da casa, que era fabulosa. Tinha jazz, blues, rock, mpb, tudo da melhor qualidade, desde os mais antigos e lendários, até os mais recentes, isso tudo ocupando um quarto só para ouvir música, ou seja, um compartimento da casa especialmente construído e equipado, do som ao conforto, para se passar o tempo viajando pelas ondas sonoras dos mais variados estilos. Para mim era quase o paraíso, eu digo quase, porque não era um estúdio, se fosse seria o paraíso. Acabou que fomos dormir tarde da noite, portanto, acordar cedo nem pensar, ficamos no meio termo, por volta das dez, afinal juntou o cansaço da viagem com a cachaça da noite e nós ébrios adormecemos. Nossos amigos já haviam levantados e estavam de café tomado, mas como bons anfitriões puseram à mesa que estava a nossa espera. O queijo minas em Minas é outra coisa. Enquanto terminávamos, fomos traçando um roteiro para o dia, a noite e o dia posterior. Dentre alguns lugares, foram escalados o alambique para o dia posterior, pois ele ficava um pouco afastado da cidade e a fábrica de fumo de rolo que era caminho de volta. Para o momento, como havíamos acordado tarde e não queríamos incomodar ninguém com coisas da cozinha, veio em boa hora um convite para irmos a uma pequena cidade vizinha almoçarmos, o menu era peixe frito pescado na hora nos fundos do restaurante, regado com uma deliciosa cerveja bem gelada. Iriamos sem hora para voltar. Ficamos o resto da manhã no quarto de música. Quando deu a hora, botamos o carro na estrada e em alguns minutos estávamos na cidade estacionando em frente ao restaurante. O dia estava maravilhoso, iluminado por um sol nada quente e muito amigável. Escolhemos ficar nas mesas na calçada, sentindo o ar puro do lugar e a temperatura ambiente. Praticamente tomamos conta da calçada juntando as mesas para acomodar todos. Nossos amigos mineiros já sabiam o que iam pedir, então nem nos preocupamos com essa parte, fomos direto para a cerveja, enquanto os peixes seriam preparados. Assim que chegaram as geladas, nos servimos e brindamos o momento. Não demorou muito aterrissou bem a nossa frente duas bandejas repletas de peixe frito e acompanhamentos que nem prestamos atenção, tão hipnotizados que estávamos com os tucunarés. Manjar dos deuses. Se existe, claro que existe, coisas boas na vida, uma delas é uma boa comida, ou seja, uma comida bem feita, aquele peixe estava no ponto da fritura, além de fresco, era saboroso, com limão então, sem palavras, só ruídos de satisfação. Nos refastelamos. Depois de saciados, ficamos papeando até... O sol começa a deixar saudades quando resolvemos voltar, já havíamos aproveitado para combinar o que faríamos a noite, a boa era um bar que era frequentado pela rapeize do local. Chegamos e tínhamos ainda um bom tempo para nos arrumarmos para a noitada. Adivinha aonde fomos descansar? Acertou se falou no quarto de música. A casa era grande, mas o quarto se transformou no nosso point. Deu até para um cochilo ao som de Paulinho Pedra Azul. O movimento no bar só ficava bom mais tarde, então não havia pressa.

Já era noite, passava das nove horas, quando resolvemos ir até o point da cidade. Falaram que eu poderia levar o violão, pois havia espaço para apresentações, dentro da programação do bar. Normalmente a galera aproveitava para mostrar seus dotes musicais nesse momento e o ambiente ficava maneiro. Realmente o lugar era muito frequentado, principalmente pelos filhos da classe média alta do lugar. Uma garotada bonita, alegre, antenada, porém pressa numa cidade pequena, doidos para voos mais altos e longos. Não foi difícil nos enturmarmos, primeiro porque sermos estranhos o que aguçou a curiosidade e, depois quando souberam que éramos cariocas, aí a aproximação foi grande. Bem, resumindo tudo, bebemos, cantamos, dançamos, foi uma noite muito alegre, mas não terminou ali. O bar tinha um horário para fechar, ele não ficava aberto até o amanhecer, como em certos lugares que já fui. Quando convidados a nos retirar, alguém que morava perto e que havia ido até em casa, voltou com uma garrafa de pinga e uma proposta. Ao sairmos, quem disse que me deixaram ir dormir. Não, foi aí que veio a proposta inusitada, pelo menos para mim. Eles tinham umas meninas que cada um tinha uma queda, já haviam tidos uns pegas, mas sabe como é bêbado, inventa cada merda. Me chamaram e pediram que os acompanhassem para uma fazer uma serenata na janela de cada uma das meninas, a princípio achei que daria merda, mas eles me garantiram que seria tudo tranquilo, então fomos. Começou uma garoa para se juntar e aumentar a queda de temperatura naquela madrugada, mas nós tínhamos a garrafa de pinga para aquecer, então, chegamos na primeira janela. O candidato sacou que da alçada ficaríamos na chuvinha e longa da janela, então, pulamos o muro e na varanda em baixo da mesma me pus a cantar. Minutos depois a mineirinha abriu a janela e com um largo sorriso agradeceu, mas pediu que fossemos embora logo, senão, a coisa ia ficar feia, nos damos por satisfeito e saímos. Vendo o resultado, a disputa de quem seria a vez ficou acirrada. Acertaram lá do jeito deles a sequência, a mim restava atender o pedido e beber um gole de pinga. Só para deixar bem claro, os anfitriões foram para casa dormir, mas avisaram que deixariam a porta destrancada, lá podia. Foi uma pequena maratona, algumas eu, como a primeira, só cantava um pedaço e, depois de aberta a janela rolava um aceno ou se desse para alcançar até um beijo. Quando terminamos, terminou também a pinga e também a nossa resistência, estávamos embriagados de todas as formas; por cachaça, por felicidade, por momentos únicos, mas mesmo assim ainda fomos pela rua tocando e cantando até a porta da casa aonde eu estava hospedado. Subi a rampa que me levaria até a porta de entrada, no meio da subida ainda virei-me e vi aquele grupo de pinguço, um agarrado no outro, penso que para manter todos de pé, balançando de um lado para o outro, escrevendo certo por linhas completamente tortas a derradeira caminhada daquela noite. A noite é uma criança! Exclamação de todos aqueles que aproveitam a luz do luar, para ... bem... só completando com outra: De noite todos os gatos são pardos. Inté!                            

sábado, 3 de junho de 2017

Capítulo 51 - FASCINAÇÃO 
  
Certa vez recebi uma proposta para tocar num casamento. A priori fiquei desconfiado de poderia ser uma roubada, como se diz e, botei minha barba de molho. Como assim tocar num casamento? Banquinho e violão? Pedi para conversar com a noiva, mas nem precisei, me disseram que fora ela quem pedira a minha contratação. Então, pensei melhor e antes de aceitar, queria saber aonde se da noiva que daria o evento e se eu podia ver o espaço num todo e onde eu ficaria. Não era nada especial, era até simples, não diria acanhado, simples mesmo, me deixou mais animado e menos temeroso. O local já havia sido alugado há bastante tempo, a resolução quanto a minha contratação é que se deu próximo de celebração. Havia sido um pedido da noiva. Olha que coisa linda de saber. A mãe da que conversou comigo, foi quem me disse, fiquei lisonjeado. Ela também achou a ideia maravilhosa. Nessa conversa agradável, firmamos o custo do  compromisso e eu não fui nem um pouco olho grande, ajustei exatamente o justo, que pelo que se seguiu pareceu-me dentro do esperado, pois em seguida ao valor mencionado, ela pediu-me pra esperar, momentaneamente se retirou do recinto e voltou me surpreendendo com o valor inteiro em dinheiro vivo, nota sobre nota, ainda aleguei que era desnecessário, bastava um adiantamento, mas recebi de volta uma repreensão: “Deixe de besteira! Nós confiamos em você e no seu trabalho. Temos certeza de que os convidados ficarão surpresos.” Depois dessa, só me restou prometer que faria o máximo para corresponder as expectativas. Nos despedimos calorosamente. No dia do casamento, cheguei na casa de festa  duas horas antes, para arrumar as coisas, para que nada desse errado. Tinha que montar o equipamento no local, passar o som, verificar se atenderia adequadamente e satisfatoriamente durante a festa com o espaço cheio e, por aí vai… Depois de tudo nos conformes, nessas horas é que você se dá conta de como o tempo passa rápido, voa, quando dei por mim, adentrava um emissário avisando que a cerimônia do casamento havia acabado e que não demoraria muito os nubentes entrariam no salão. Eu havia separado uma música especial para entrada, se tratava de “fascinação”, então, me posicionei aguardando a chegada do casal, mas precisamente da noiva e quando ocorreu, ouviu-se por toda extensão do salão a música escolhida acompanhando os passos dos nubentes. As mesas estavam espalhadas pelo salão, permitindo adequadamente a movimentação dos garçons e eu me encontrava numa posição estratégica evitando pessoas perto da fiação, mas minha paz foi interrompida quando o número de convidados mostrou-se superior ao das mesas e cadeiras postas. Tiveram que recorrer ao estoque, colocando mais mesas e cadeiras e, inevitavelmente elas foram se aproximando de mim, que quando vi, estava cercado por elas. Tudo bem, fazer o quê? O que não tem remédio, remediado está. Fiquei aguardando que todos estivessem devidamente acomodados, mesmo porque a barulheira impedia que eu tocasse, não havia outro jeito. Então, quando tudo parecia resolvido, pude finalmente dar início a minha participação e contribuição. Fazia pouco tempo que eu havia começado, quando surgiu o primeiro imprevisto. Conforme as mesas foram colocadas ao meu redor, as pessoas, os garçons, começaram a transitar e com isso tropeçavam inadvertidamente na fiação, causando falta de corrente elétrica e consequentemente ausência de som. Na primeira eu pacientemente refiz a ligação, mas na terceira interrupção eu comecei a me irritar, foi quando surgiu uma alma caridosa e inteligente e resolveu o problema. Pegando a fiação, ele alçou fora do alcance das pessoas, passando por cima de suas cabeças, usou algumas amarras em pontos estratégicos e assim permitiu-me que prosseguisse com o meu trabalho sem sobressaltos e interrupções. Naquele momento eu me sentia o próprio artista que resolve fazer um show acústico sozinho bem próximo do seu fã clube. As pessoas a minha volta curtiam cada música com muito prazer, dava para se notar em seus olhos, o brilho e, ainda mais quando resolviam arriscar cantar algumas, não era nada muito alto, mas notava-se ou melhor ouvia-se. A sensação era maravilhosa, indescritível, tanto, que eu me empolguei e deixei para fazer o primeiro intervalo depois de quase duas horas no ar. Quando avisei que faria uma pequena pausa para beber água, fui efusivamente aplaudido. Agradeci e fui para o meu intervalo, aproveitando para comer alguma coisinha, que afinal cantor também é fio de Deus. Nesse meio tempo, parei para pensar que a minha escolha não foi por economia de dinheiro, foi por gosto, mas acredito que muita gente deve ter estranhado chegar na festa e encontrar um cara sozinho, cantando acompanhado apenas de um violão, não deixa de ser diferente, pois normalmente contrata-se uma banda, ou ainda, um cara que apronte uma aparelhagem que reproduza músicas por mais de cinco horas ininterruptamente, que hoje recebe o nome de DJ. Eu procurei dosar o volume do som, para não agredir muito e permitir que as pessoas pudessem confraternizar harmoniosamente entre os seus familiares. Numa ocasião dessa, existem tipos diferentes de grupos: Os familiares que até nem se encontram muito, só em enterro ou alguma festividade importante, como essa; os amigos mais chegados dos noivos, que também coincidentemente alguns são padrinhos e seus parentes; os vizinhos, nem todos, mas alguns acompanharam os noivos desde criança e são pessoas muito próximas dos pais; e claro, os que vem na aba. Pronto, estão aí o suficiente para encher um salão, mesmo com algumas baixas. Isso quando as famílias e os noivos concordam que a realização de uma festa não pode faltar, tem que documentar o momento. Para quem tem família grande torna-se um pesadelo, quase não sobra espaço para convidar amigos, sempre vão ficar de fora alguns, são decisões difíceis e amargas, para evitar isso só um megaevento, mas para isso o gasto no meu entender é desperdício. Deixando a divagação de lado, assumi meu posto, expondo agora uma outra face musical. Reproduzi para os convivas algumas pérolas do nosso rock brasileiro, passeando por várias bandas e roqueiros solos. Comecei pela jovem guarda até os grandes hits do nosso áureo movimento das bandas brasileiras. Vi que tinha gente querendo dançar, sacudi os ossos, só que não havia espaço, então, alguns acompanhavam com palmas, fazendo uma marcação e outros levantavam perto da mesa mexendo o corpo o quanto dava. Ficamos mais duas horas nessa batida. O meu violão era um folk com encordoamento de aço e, para melhorar o som dele, que já era bom, eu usava um pedal de efeito. Esse momento da festa, era aquele em que as pessoas estão mais alegres, mais soltas, devido ao efeito do álcool, que tem o poder de desinibir até carolas, então, era o momento certo, pena que não havia espaço para evaporá-lo dançando, mesmo assim, como eu disse, alguns se ajeitaram, ou seria, se atreveram. Não importa. O que importa é que foram duas horas de imensa alegria, tanto para eles, quanto para mim. Ao final, eu estava precisando descansar um pouco, mas era só uns vinte minutos, que já  eu estaria pronto para a última rodada. Quando parei e pedi tempo, dessa vez não foram só aplausos, vieram apupos e assobios. No descanso, não chegava a ser bem um descanso, vinham pessoas me cumprimentar e queriam conversar, como se eu fosse um astro da música popular, faziam perguntas, eu tinha que me conter, sem parecer esnobe, para preservar a minha voz. Se houvesse um camarim, como faz falta nessas horas, eu beberia minha água e esticaria o corpo numa confortável poltrona ou num sofá, calado ou falando o mínimo possível e em tom baixo. Mas ali, era outra coisa, era sem essas frescuras, quem é que liga para isso ou sabe. Eu tinha mais é que aproveitar o momento de glória e era isso que acontecia. Nessas horas nem sobe nos saltos, mantenha-se humilde e verdadeiro com os que se aproximam, afinal eu não era em nada melhor do que eles e ninguém, mesmo os consagrados não o são. Eu mesmo admiro o trabalho de muitos músicos, compositores, cantores, mas não babo, não idolatro e se cobrarem muito caro para eu sair de casa para assisti-los, vão ficar no vácuo. Concordo que esse tipo de trabalho, que é artístico, merece reconhecidamente ter seu valor, mas nada exorbitante. Para isso existem eventos realizados para pessoas que podem se dar ao luxo de pagar o luxo, as vezes pagam alto até para um lixo, o que eu não aceito, aí me desculpe quem veste a carapuça, quem não tem condições e se endividam ou outra coisa, só para ficar no gargalo do show do bonitinho ou bonitinha. Se liga, eles não te enxergam, faça alguma melhor para a sua vida. Realize você alguma coisa. Admiração não pode se confundir com veneração. Admire sim, quem você acha o máximo, mas não venere ninguém, só porque canta legal ou toca maneiro, pense que ele come, caga, ronca, cospe, fede, adoece, tem cárie, igualzinho a você. Pronto falei! Quando voltei para o encerramento, resolvi fazer uma levada mais calma, afinal estava chegando a hora de cortar o bolo, finalizar as fotos e, caçar rumo. Dessa vez fiquei só uma hora, pois completaria as cinco da contratação, se houvesse necessidade ficaria mais, mas não foi preciso, a maioria das pessoas realmente estavam se despedindo. Não tive mais nenhuma contratação para casamento. Acredito que esse foi atípico nesse quesito. Normalmente são músicas eletrônicas ou bandas, como já citei anteriormente. Foi uma experiência maravilhosa, tão maravilhosa que resolvi relatar. Inté! 
Os sonhos mais lindos sonhei 
De quimeras mil, um castelo ergui 
E no teu olhar, tonto de emoção, 
Com sofreguidão, mil venturas previ 
O teu corpo é luz, sedução 
Poema divino cheio de esplendor 
Teu sorriso quente, inebria, entontece 
És fascinação, amor