sábado, 10 de junho de 2017

Capítulo 52 -  SERENATA

Surgiu uma oportunidade irrecusável para um final de semana de descanso, na verdade seria mais para distrair a mente, do que propriamente descanso, ou seja, coisas que trazem prazer não cansam, por mais que você tire poucas horas para dormir. Como a minha amiga cantora de sábado me devia um dia, por eu ter ficado no meu dia e no dela, quando precisou se ausentar para ganhar um dim dim maior em outras paragens, não foi nada difícil cobrar a dívida. Assim, o convite para viajar até uma cidade no interior de Minas ficou de boa. Eram só três dias, precisamente, três noites e dois dias. Sendo que na primeira noite nós praticamente ficaríamos por conta dos nossos anfitriões. A viagem foi tranquila e chegamos bem no final da tarde e comecinho da noite de sexta-feira. Como eu disse, tiramos a noite para descarregar as malas e desfaze-las, conhecer a casa e onde iríamos dormir, além de matar a saudade dos nossos anfitriões e conhecer o restante da família, que consistia, além do casal, de mais duas lindas e maravilhosas crianças. Não eram pequeninas, se não me engano o menino tinha uns sete ou oito anos e a menina uns doze ou treze anos. Lanchamos, tomamos umas cervejas e claro pinga mineira, também aproveitamos para conhecer a discografia do dono da casa, que era fabulosa. Tinha jazz, blues, rock, mpb, tudo da melhor qualidade, desde os mais antigos e lendários, até os mais recentes, isso tudo ocupando um quarto só para ouvir música, ou seja, um compartimento da casa especialmente construído e equipado, do som ao conforto, para se passar o tempo viajando pelas ondas sonoras dos mais variados estilos. Para mim era quase o paraíso, eu digo quase, porque não era um estúdio, se fosse seria o paraíso. Acabou que fomos dormir tarde da noite, portanto, acordar cedo nem pensar, ficamos no meio termo, por volta das dez, afinal juntou o cansaço da viagem com a cachaça da noite e nós ébrios adormecemos. Nossos amigos já haviam levantados e estavam de café tomado, mas como bons anfitriões puseram à mesa que estava a nossa espera. O queijo minas em Minas é outra coisa. Enquanto terminávamos, fomos traçando um roteiro para o dia, a noite e o dia posterior. Dentre alguns lugares, foram escalados o alambique para o dia posterior, pois ele ficava um pouco afastado da cidade e a fábrica de fumo de rolo que era caminho de volta. Para o momento, como havíamos acordado tarde e não queríamos incomodar ninguém com coisas da cozinha, veio em boa hora um convite para irmos a uma pequena cidade vizinha almoçarmos, o menu era peixe frito pescado na hora nos fundos do restaurante, regado com uma deliciosa cerveja bem gelada. Iriamos sem hora para voltar. Ficamos o resto da manhã no quarto de música. Quando deu a hora, botamos o carro na estrada e em alguns minutos estávamos na cidade estacionando em frente ao restaurante. O dia estava maravilhoso, iluminado por um sol nada quente e muito amigável. Escolhemos ficar nas mesas na calçada, sentindo o ar puro do lugar e a temperatura ambiente. Praticamente tomamos conta da calçada juntando as mesas para acomodar todos. Nossos amigos mineiros já sabiam o que iam pedir, então nem nos preocupamos com essa parte, fomos direto para a cerveja, enquanto os peixes seriam preparados. Assim que chegaram as geladas, nos servimos e brindamos o momento. Não demorou muito aterrissou bem a nossa frente duas bandejas repletas de peixe frito e acompanhamentos que nem prestamos atenção, tão hipnotizados que estávamos com os tucunarés. Manjar dos deuses. Se existe, claro que existe, coisas boas na vida, uma delas é uma boa comida, ou seja, uma comida bem feita, aquele peixe estava no ponto da fritura, além de fresco, era saboroso, com limão então, sem palavras, só ruídos de satisfação. Nos refastelamos. Depois de saciados, ficamos papeando até... O sol começa a deixar saudades quando resolvemos voltar, já havíamos aproveitado para combinar o que faríamos a noite, a boa era um bar que era frequentado pela rapeize do local. Chegamos e tínhamos ainda um bom tempo para nos arrumarmos para a noitada. Adivinha aonde fomos descansar? Acertou se falou no quarto de música. A casa era grande, mas o quarto se transformou no nosso point. Deu até para um cochilo ao som de Paulinho Pedra Azul. O movimento no bar só ficava bom mais tarde, então não havia pressa.

Já era noite, passava das nove horas, quando resolvemos ir até o point da cidade. Falaram que eu poderia levar o violão, pois havia espaço para apresentações, dentro da programação do bar. Normalmente a galera aproveitava para mostrar seus dotes musicais nesse momento e o ambiente ficava maneiro. Realmente o lugar era muito frequentado, principalmente pelos filhos da classe média alta do lugar. Uma garotada bonita, alegre, antenada, porém pressa numa cidade pequena, doidos para voos mais altos e longos. Não foi difícil nos enturmarmos, primeiro porque sermos estranhos o que aguçou a curiosidade e, depois quando souberam que éramos cariocas, aí a aproximação foi grande. Bem, resumindo tudo, bebemos, cantamos, dançamos, foi uma noite muito alegre, mas não terminou ali. O bar tinha um horário para fechar, ele não ficava aberto até o amanhecer, como em certos lugares que já fui. Quando convidados a nos retirar, alguém que morava perto e que havia ido até em casa, voltou com uma garrafa de pinga e uma proposta. Ao sairmos, quem disse que me deixaram ir dormir. Não, foi aí que veio a proposta inusitada, pelo menos para mim. Eles tinham umas meninas que cada um tinha uma queda, já haviam tidos uns pegas, mas sabe como é bêbado, inventa cada merda. Me chamaram e pediram que os acompanhassem para uma fazer uma serenata na janela de cada uma das meninas, a princípio achei que daria merda, mas eles me garantiram que seria tudo tranquilo, então fomos. Começou uma garoa para se juntar e aumentar a queda de temperatura naquela madrugada, mas nós tínhamos a garrafa de pinga para aquecer, então, chegamos na primeira janela. O candidato sacou que da alçada ficaríamos na chuvinha e longa da janela, então, pulamos o muro e na varanda em baixo da mesma me pus a cantar. Minutos depois a mineirinha abriu a janela e com um largo sorriso agradeceu, mas pediu que fossemos embora logo, senão, a coisa ia ficar feia, nos damos por satisfeito e saímos. Vendo o resultado, a disputa de quem seria a vez ficou acirrada. Acertaram lá do jeito deles a sequência, a mim restava atender o pedido e beber um gole de pinga. Só para deixar bem claro, os anfitriões foram para casa dormir, mas avisaram que deixariam a porta destrancada, lá podia. Foi uma pequena maratona, algumas eu, como a primeira, só cantava um pedaço e, depois de aberta a janela rolava um aceno ou se desse para alcançar até um beijo. Quando terminamos, terminou também a pinga e também a nossa resistência, estávamos embriagados de todas as formas; por cachaça, por felicidade, por momentos únicos, mas mesmo assim ainda fomos pela rua tocando e cantando até a porta da casa aonde eu estava hospedado. Subi a rampa que me levaria até a porta de entrada, no meio da subida ainda virei-me e vi aquele grupo de pinguço, um agarrado no outro, penso que para manter todos de pé, balançando de um lado para o outro, escrevendo certo por linhas completamente tortas a derradeira caminhada daquela noite. A noite é uma criança! Exclamação de todos aqueles que aproveitam a luz do luar, para ... bem... só completando com outra: De noite todos os gatos são pardos. Inté!                            

Nenhum comentário:

Postar um comentário