Capítulo 54 – SAMBA, CARNAVAL E MUITO SUOR
(SEGUNDA PARTE)
Terminado o trabalho com as faixas e as
camisetas, fomos dormir e rezar para que a tal camiseta fosse bem aceita. Nós
sempre íamos a noite, mesmo porque, alguns deles ainda trabalhavam e o ponto e
horário de encontro no bar só acontecia a noite. Por pura coincidência o dia em
que fomos fazer a entrega era uma sexta-feira, além dos mais conhecidos,
estriam certamente mais gente reunida. Quando chegamos fomos saudados como se
fossemos grandes empresários ou personalidades, mas era por causa do que nós
carregávamos, eles estavam ansiosos feitos crianças à espera de um presente ou
um doce. Abrimos a bolsa e retiramos, para delírio geral, as faixas e as
camisetas, porém, naquele momento quem queria saber de faixa, o negócio eram as
camisetas. Arredaram uma mesa especialmente para colocarmos a encomenda,
conforme iam abrindo cada peça, apesar de serem iguais, cada um fazia uma
observação, notamos que estávamos agradando, então veio uma voz solitária no
meio da confusão, era o chato perguntando: “Cadê a minha camiseta? “ Meu amigo
havia separado, para uma entrega particular, mesmo ali no meio de todos, vocês
sabem o motivo, então, antes de entrega-la fez uma observação: “Nós demos um
capricho especial, espero que você goste. ” Ninguém estava notando. Abriu a
camiseta com a parte da frente virada para ele e rezou muito. Ao vê-la, um
sorriso começou miúdo e foi se alargando até todos os dentes saltarem e junto,
um grito retumbante que estremeceu o lugar, chamando atenção de todos:
“Caralho! Ficou show de bola! “ Se redimiu, pediu desculpas pela desconfiança e
abraçou meu amigo e eu, quase chorei, não pelo abraço, mas pelo alívio.
Estávamos aproveitando o momento, quando todos reclamaram que queriam uma assim
também. Foi preciso que meu amigo invocasse um parecer técnico, que sabia que
eles não iam entender muito, mas que para a ocasião vinha a calhar para nos
livrarmos da saia justa. Aceitaram numa boa. Saímos tarde de lá. Cansados, mas
recompensados, havíamos recebido o pagamento restante, que era a maior parte.
Vou falar para vocês uma curiosidade. Naquela noite ao invés de ter uma noite
de sono leve, dos anjos, não é que tive um baita de um pesadelo, penso que foi
a tensão envolvendo aquela peça do vestuário em particular. No dia seguinte,
estávamos de novo no ponto dos compositores perscrutando na tentativa de
conseguir mais alguma indicação e, não é que ela veio. Era para procurar o
presidente de uma escola de samba da terceira divisão. Depois dessa indicação,
que realizamos o serviço e que nos deu mais um ganho, recebemos mais outras
indicações, agora em escola de samba do grupo especial, aí meu amigo a coisa se
tornou um verdadeiro inferno. Nós, conseguíamos entrar sem pagar, até
chegávamos a ser recebido, em algumas, pelo presidente ou assessor. Como o
carnaval estava próximo, as escolas se encontravam em ensaio, ou seja, sempre
lotadas, para não dizer em certos casos abarrotadas de gente, que mal
conseguíamos nos mover, quanto mais encontrar alguém para conversar sobre o
nosso trabalho e quando conseguíamos, esbarrávamos num sujeito que comandava
essa parte de adereços e não deixava a gente faturar no seu lugar. Claro, que
existe aí o fator desconhecidos, pelo qual nós nos encaixávamos perfeitamente
e, sendo assim, nas grandes ficou notório que não iriamos conseguir nada. Olha,
foi um ano em que eu conheci praticamente todas as escolas de samba chamada grande.
Ir em seus ensaios virou uma rotina, era trabalho, mas serviu para sentir o
clima, o ambiente, sinceramente não gostei muito não. O samba que tocavam era o
do enredo, portanto tocavam a exaustão. Fora em pouquíssimas ocasiões em que
ficamos em camarote, as outras me senti sufocado. Passado por quase todas,
ainda veio uma indicação para irmos no bloco carnavalesco Cacique de Ramos, com
recomendações para sermos recebidos pelo presidente. Nesse chegamos horas antes
da chegada do grande público, que também lotava sua roda se samba. Fomos
encaminhados educadamente para a sala do presidente e lá chegando pudemos
conversar calmamente com uma pessoa extremamente cortês. Expusemos nossa ida
com o mostruário das agremiações em que realizamos e finalizamos o trabalho. O
presidente gostou muito, mas também ali, existia uma pessoa que tratava desse
assunto e a diretoria não podia passar por cima dele. O nosso anfitrião nos
convidou a visita-lo, se propondo a nos levar até ele e fazer as apresentações,
aceitamos, fomos conduzidos a uma outra sala, depois das apresentações, o
anfitrião nos propôs que assim que terminasse a reunião, voltássemos a
procura-lo para conhecer a casa e tomar uma cerveja por conta da casa e saiu.
Assim que saiu, o semblante do nosso entrevistador mudou completamente. Quando
terminamos a apresentação, veio o que nós já esperávamos, a negativa. Quanto as
explicações dadas para justificar, essas me recuso a descrever, tal a empáfia
do sujeito e o menosprezo, nós não contra argumentamos, estávamos cansados.
Como já havíamos conseguido um bom dinheiro com os serviços que fechamos, era
bom senso nos darmos por satisfeito. Quando saímos, meu amigo queria ir embora,
embora tínhamos prometido voltarmos a sala do presidente, mas ele pediu que se
eu quisesse tudo bem, ele iria sozinho e, que eu me desculpasse por ele partir.
Nos despedimos e eu fui tomar aquela cerveja. Não era final de semana,
estávamos no meio da semana em que chamamos de comercial, ou seja, penso que
era uma quarta-feira, mas o movimento na portaria quando eu passei de volta a
sala do presidente era grande. Eu não sou o que se pode chamar de sambista, nem
de longe, quanto mais um assíduo e profundo conhecedor do gênero, mas conhecia
muitos sambas e cantores, só não era ouvinte e frequentador de roda se samba.
Assim que cheguei, ao levantar a cabeça o presidente perguntou pelo amigo, dei
as devidas explicações e sem mais conversas fomos para terreiro. Era um grande
quintal. Havia uma parte do chão do terreno mesmo, com árvores, depois mais para
os fundos uma parte coberta de cimento. As mesas ficavam espalhadas pelo
terreno, guardando uma certa distância do lugar em que ficava a aparelhagem de
som, num suposto palco, ao qual se apresentariam os sambistas cantores e
compositores. Foi-me oferecida uma mesa, em seguida o pedido de uma cerveja com
a recomendação de que era por conta da casa. Fiquei ali sozinho, acompanhado
apenas da minha cerveja, ouvindo sambas cantados pelos compositores, sambas que
jamais havia escutado. O que me impressionou, além do nível dos sambas, foi a
criatividade nos temas, não eram composições que só falavam de amores perdidos
e dores de cotovelo, não, eles faziam samba até de conversa de animais, só para
citar um exemplo. Começava a ficar tarde, afinal eu estava em Ramos, longe da
minha casa, então, resolvi me retirar, mas antes fui agradecer a hospitalidade
do meu anfitrião, ele não só me perguntou se eu havia gostado, como me ofereceu
entrada gratuita se eu voltasse outras vezes, de preferência, se eu pudesse,
chegasse mais cedo, antes da abertura dos guichês. Perguntei-lhe como faria
para acha-lo, respondeu-me que era só pedir, na entrada, para chama-lo, que ele
iria até a portaria.
Não conseguimos mais nenhum serviço, também o
carnaval já estava a porta. Nossa empreitada rendeu um bom dinheiro e, em
virtude desse sucesso, resolvemos apostar mais alto, se arrependimento
matasse.... Bem, a sacada era o seguinte: Faríamos faixas com os nomes das
escolas do grupo especial e levaríamos para avenida afim de vende-las para os
turistas nacionais, internacionais e o grande público que comparece para
assistir ao desfile. Santa ingenuidade. Antes sondamos, pois não daríamos
conta, com amigos, quem estava disposto a trabalhar na avenida – ainda não
havia o sambódromo – como camelô, vendendo faixas para a cabeça. Três toparam.
Com o número de cinco no total, fabricamos noite adentro faixas e mais faixas
para o dia DD (Dia do Desfile). Quando vimos o resultado tínhamos uma
quantidade que se fossem todas, ou quase, vendidas, teríamos um retorno
excelente, já contabilizando as comissões pagas. Só que a realidade é outra
coisa. Na rua um sofreu uma blitz da fiscalização e perdeu toda a mercadoria.
Acendeu a luz vermelha. Os outros dois no começo da madrugada pediram arrego.
Tínhamos que virar a noite, afinal a folia só terminava ao amanhecer, mas os
caras não aguentaram. Ficamos só eu e meu amigo. Conseguimos um ponto
sossegado, bem em frente ao puteiro, meu amigo foi fazer uma visita as meninas
e vendeu pra cassete, enquanto isso eu do lado de fora, bem no corredor que
dava acesso a arquibancada, quase não dava conta de tanta gente em volte de
mim, querendo uma faixa. Meu amigo retornou, aliviando o atendimento, agora
éramos dois oferecendo a mercadoria. Ficamos uma meia hora, ou mais, com um sai
e chega de gente, que quando refrescou um pouco, estávamos com os bolsos cheios
de dinheiro e também com uns caras estranhos do outro lado da rua só
observando. Notamos que o tempo ia fechar para o nosso lado, então, antes que
acontecesse o pior, meu amigo falou: “Começa a gritar: Olha a faixa! E vai
saindo de fininho andando para o lado do movimento na avenida, que eu vou bem atrás.
” Assim, comecei a fazer exatamente como me pediu e quando vimos, já estávamos
a salvo, pois ao virarmos vimos os meliantes, que saíram da calçada e foram
para o meio da rua, olhando para nós. Já na avenida, o movimento muito fraco,
sentimos pelo adiantar da hora, que não conseguiríamos muito mais, seria só
cansaço e perda de sono, então, resolvemos abandonar o barco. Barco que
encalhou. Nosso rico dinheirinho, perdemos praticamente tudo. O que restou,
depois que acertamos com os amigos, mal dava para comprar um nariz de palhaço,
quanto mais a fantasia. “Olho grande não entra na china”, já dizia o grande
filósofo chinês Ku Chai Chang.
Acabou o carnaval e para nós não foi só a quarta-feira de cinzas que
chegou, veio outros dias cinzentos, mas foram poucos, pois na semana seguinte
eu me lembrei do Cacique de Ramos, me ajeitei e parti para curtir um samba de
primeira. Meu cálculo não deu muito certo, o ônibus demorou mais que o esperado
e quando eu cheguei já havia uma multidão na frente da quadra. Fui pedindo
licença aqui, ali, acolá, de repente estava diante de uma muralha humana à
frente da porta. Virei-me para ele e disse: “Será que dá para eu entrar? Sou
amigo do presidente. Pede para chamar ele. “ Como se essas palavras fosse
comove-lo. Olhou para mim e balbuciou: “ Amigo, sei. “ Senti que a missão era quase
impossível, mas tinha que tentar, então me preparei, mas não foi preciso,
quando me ajeitava para tacar novamente o presidente passou bem na minha
frente, pela grade gritei seu nome, quando me olhou, abriu um sorriso e falou
para o grandão: “Deixa ele entrar e repare bem nele, pois toda a vez que ele
vier tem passagem livre. ” Agradeci. Entrei e fui procurar uma mesa para poder
tomar uma cerva, ouvir e ver os sambistas se apresentarem. Nessa roda de samba,
que eu praticamente bati cartão toda semana por um bom tempo, vi muita gente
boa de talento em início de carreira, que se tornaram grandes nomes do samba,
assim como os que já naquela época estavam no patamar de cima. Eu gosto de
música boa, seja ela qual for o estilo, claro, tenho minhas preferências, mas
como diz a letra de um bonito samba: “Quem não gosta de samba, bom sujeito não
é. É ruim da cabeça, ou doente do pé. Inté!
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