Capítulo 55 – NEM TUDO QUE BRILHA É OURO
Nesse ano em que fiquei frequentando a roda de
samba do Cacique de Ramos, não o fiz para aprender a fazer samba, o fiz por puro
gosto musical, afinal um bom samba é gostoso de se ouvir e de dançar. Existe
vários estilos de samba, como: Samba de raiz. Partido-alto. Pagode. Bossa
Nova. Samba-batido. Samba de breque. Samba-canção. Samba-chulado.
Samba-corrido. Samba-enredo. .... Dentre esses estilos eu gosto mais do Partido-alto,
Canção, Bossa Nova e de Breque, além desses têm as misturas: Samba-choro.
Samba-funk. Samba de gafieira. Sambalanço. Samba jazz. Samba-maxixe. Samba-rap.
Samba-reggae. Samba-rock. Sambalada. Aqui eu sempre
apreciei uma Gafieira, um Sambalanço, Maxixe e Choro. Todos só para ouvir ou
dançar, eu não me atrevia a compor, cantar, arrisquei algumas, bem escolhidas,
mas sempre no estilo canção ou bossa nova. Penso, que para essa finalidade, tem
que estar no sangue, no DNA, assim a coisa flui com naturalidade. Minhas
influências sempre foram outras. Na época em que eu tocava na esquina do vinho,
já passava de um ano, foi quando começou a ser extremamente, exaustivamente
divulgado nas rádios, televisão e onde houvesse espaço, uma montoeira de grupo
de pagode. Eu havia conhecido pagode no terreiro do cacique e simplesmente não
tinha nada a ver com o que estavam tocando. Antes de aparecerem esses grupos de
pagodes, houve um grupo de samba que ficou muito conhecido, “Os originais do
samba”, que dentre os seus componentes, saiu para se juntar aos trapalhões,
grupo cômico da tv, um dos maiores comediantes que já tivemos, o Muçum. Quem
não ouviu: “Tragédia no fundo mar”, “Falador passa mal”, “Esperanças Perdidas”,
entre muitas pérolas desse excelente grupo, vá procurar e ouvir, você vai
adorar. Esses tocavam um samba trazido lá das rodas. Agora, o que estava
acontecendo era um absurdo e um desserviço para a comunidade do samba. O pagode
dor de cotovelo e com letras rasas, sem inspiração, chegava a ser um insulto
aos admiradores e compositores do gênero. Eu já estava na noite há um bom
tempo, algumas modas musicais, chamo de moda musical, algum sucesso relâmpago,
com estribilho fácil e um estilo dança pegajosa, sempre aparecia, mas nada que
perturbasse o bom andamento da levada na noite no banquinho e violão. Eu só
notei definitivamente a proporção que havia tomado o tal do pagode dor de
corno, quando começaram a insistir que eu tocasse, com pedidos numerosos. Os ouvintes
habituais não pediam, não só por saber que eu não tocava o gênero, como também
eles não iam lá para ouvir esse tipo de música, mas como se trata se um bar,
está aberto ao público, então, você se vê exposto a todo tipo de intempérie. Ser
músico cover multifacetado tem hora que você se vê em certos apertos, tem que
ter jogo de cintura. Até então, os obstáculos a pular, eram fáceis, as pernas
subiam com grande facilidade, mas no decorrer da corrida elas começavam a dar
sinal de cansaço e levanta-las já necessitava de um certo esforço. A analogia
pode, a princípio, parecer fraca ou desconexa, mas no fundo tem tudo a ver. Ganhar
a vida, se sustentar, com o dinheiro vindo do trabalho exclusivo, único, do tocar
na noite de bar em bar, não tem jeito, você se dobra para qualquer gênero musical.
Esquece qualquer gosto, predileção, sintonia, afinidade, e coloca-se a inteira
disposição das boas e também daquelas que você abomina. Para isso tens que as
ouvir, aprende-las, quer coisa pior? Tens que cantá-las. Eu sempre tive uma
profissão, de segunda a sexta em horário comercial e as vezes, não foram
poucas, até mesmo no final de semana, então o que era para outros um meio de
vida, subsistência, para mim era um complemento financeiro, mas principalmente
um momento de prazer. Esse prazer se tornava maior, quando era compartilhado e
correspondido. Daí que vinha a minha força, a minha dedicação, sobretudo porque
as regras, mais ou menos estabelecidas, me davam grande respaldo para tocar praticamente
o que eu gostasse, abrindo pouquíssimas exceções. Meu gosto é bem eclético, não
tenho restrição quanto ao estilo, mas não abro mão da qualidade. Se eu não
consigo ouvir nem metade, não consigo nem começar a cantar. Me desculpem as
pessoas que aceitam qualquer refrão açucarado como sendo a melhor coisa já
feita no mundo da música, pois eu não engulo, atravessa na garganta de tal
maneira, que eu ponho para fora, devolvo, talvez porque eu tenha cortado o açúcar
excessivo da minha vida. E eu ali me equilibrando numa corda bamba, quase
caindo, já perdendo a concentração, doido para chegar na outra ponta e me
livrar dessa agonia. O monstro das poesias, será que eu posso chamar assim,
fracas, acompanhado das melodias iguais, não poderia ser de outra forma, uma
coisa puxa a outra, vinha ganhando terreno, adeptos e seguidores, numa
proporção endêmica. A minha resistência não duraria muito tempo, o remédio
aplicado vinha se tornando ineficaz, as doses agora eram homeopáticas diante do
avanço diário e voluntarioso do sistema radiofônico. Não era o trem das onze,
pois esse até gostava de pegar, mas sim, um descarrilhado, atropelando quem se opusesse.
O pagode de corno veio e ficou por um bom tempo. Me rendi. Depus minhas armas. Me
dei por vencido e sai da ribalta. Há momentos numa batalha em que se deve saber
a hora da retirada. Reconsiderar a estratégia e voltar no momento propício. Caso
não aconteça, resigne-se.
Tirei proveito do meu afastamento, dando mais atenção as minhas
inspirações musicais. Momentaneamente fora dos holofotes, refiz o meu traçado. Como
todo movimento musical raso, esse também estava fadado a um período, eu só não
esperava que fosse longo e além do mais que deixasse uma fresta, mesmo sendo
uma fresta, era o suficiente para que entrasse outras mazelas musicais e alargasse
tornando o espaço amplo suficiente para mais lixo sonoro macular nosso pavilhão
auricular. Os bambas se retiram convenientemente da mídia, mas procurando você os
encontra, basta saber procurar. A esses, a eternidade já lhes foi reservada. Inté!
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