terça-feira, 4 de julho de 2017

Capítulo 55 –  NEM TUDO QUE BRILHA É OURO

Nesse ano em que fiquei frequentando a roda de samba do Cacique de Ramos, não o fiz para aprender a fazer samba, o fiz por puro gosto musical, afinal um bom samba é gostoso de se ouvir e de dançar. Existe vários estilos de samba, como: Samba de raiz. Partido-alto. Pagode. Bossa Nova. Samba-batido. Samba de breque. Samba-canção. Samba-chulado. Samba-corrido. Samba-enredo. .... Dentre esses estilos eu gosto mais do Partido-alto, Canção, Bossa Nova e de Breque, além desses têm as misturas: Samba-choro. Samba-funk. Samba de gafieira. Sambalanço. Samba jazz. Samba-maxixe. Samba-rap. Samba-reggae. Samba-rock. Sambalada. Aqui eu sempre apreciei uma Gafieira, um Sambalanço, Maxixe e Choro. Todos só para ouvir ou dançar, eu não me atrevia a compor, cantar, arrisquei algumas, bem escolhidas, mas sempre no estilo canção ou bossa nova. Penso, que para essa finalidade, tem que estar no sangue, no DNA, assim a coisa flui com naturalidade. Minhas influências sempre foram outras. Na época em que eu tocava na esquina do vinho, já passava de um ano, foi quando começou a ser extremamente, exaustivamente divulgado nas rádios, televisão e onde houvesse espaço, uma montoeira de grupo de pagode. Eu havia conhecido pagode no terreiro do cacique e simplesmente não tinha nada a ver com o que estavam tocando. Antes de aparecerem esses grupos de pagodes, houve um grupo de samba que ficou muito conhecido, “Os originais do samba”, que dentre os seus componentes, saiu para se juntar aos trapalhões, grupo cômico da tv, um dos maiores comediantes que já tivemos, o Muçum. Quem não ouviu: “Tragédia no fundo mar”, “Falador passa mal”, “Esperanças Perdidas”, entre muitas pérolas desse excelente grupo, vá procurar e ouvir, você vai adorar. Esses tocavam um samba trazido lá das rodas. Agora, o que estava acontecendo era um absurdo e um desserviço para a comunidade do samba. O pagode dor de cotovelo e com letras rasas, sem inspiração, chegava a ser um insulto aos admiradores e compositores do gênero. Eu já estava na noite há um bom tempo, algumas modas musicais, chamo de moda musical, algum sucesso relâmpago, com estribilho fácil e um estilo dança pegajosa, sempre aparecia, mas nada que perturbasse o bom andamento da levada na noite no banquinho e violão. Eu só notei definitivamente a proporção que havia tomado o tal do pagode dor de corno, quando começaram a insistir que eu tocasse, com pedidos numerosos. Os ouvintes habituais não pediam, não só por saber que eu não tocava o gênero, como também eles não iam lá para ouvir esse tipo de música, mas como se trata se um bar, está aberto ao público, então, você se vê exposto a todo tipo de intempérie. Ser músico cover multifacetado tem hora que você se vê em certos apertos, tem que ter jogo de cintura. Até então, os obstáculos a pular, eram fáceis, as pernas subiam com grande facilidade, mas no decorrer da corrida elas começavam a dar sinal de cansaço e levanta-las já necessitava de um certo esforço. A analogia pode, a princípio, parecer fraca ou desconexa, mas no fundo tem tudo a ver. Ganhar a vida, se sustentar, com o dinheiro vindo do trabalho exclusivo, único, do tocar na noite de bar em bar, não tem jeito, você se dobra para qualquer gênero musical. Esquece qualquer gosto, predileção, sintonia, afinidade, e coloca-se a inteira disposição das boas e também daquelas que você abomina. Para isso tens que as ouvir, aprende-las, quer coisa pior? Tens que cantá-las. Eu sempre tive uma profissão, de segunda a sexta em horário comercial e as vezes, não foram poucas, até mesmo no final de semana, então o que era para outros um meio de vida, subsistência, para mim era um complemento financeiro, mas principalmente um momento de prazer. Esse prazer se tornava maior, quando era compartilhado e correspondido. Daí que vinha a minha força, a minha dedicação, sobretudo porque as regras, mais ou menos estabelecidas, me davam grande respaldo para tocar praticamente o que eu gostasse, abrindo pouquíssimas exceções. Meu gosto é bem eclético, não tenho restrição quanto ao estilo, mas não abro mão da qualidade. Se eu não consigo ouvir nem metade, não consigo nem começar a cantar. Me desculpem as pessoas que aceitam qualquer refrão açucarado como sendo a melhor coisa já feita no mundo da música, pois eu não engulo, atravessa na garganta de tal maneira, que eu ponho para fora, devolvo, talvez porque eu tenha cortado o açúcar excessivo da minha vida. E eu ali me equilibrando numa corda bamba, quase caindo, já perdendo a concentração, doido para chegar na outra ponta e me livrar dessa agonia. O monstro das poesias, será que eu posso chamar assim, fracas, acompanhado das melodias iguais, não poderia ser de outra forma, uma coisa puxa a outra, vinha ganhando terreno, adeptos e seguidores, numa proporção endêmica. A minha resistência não duraria muito tempo, o remédio aplicado vinha se tornando ineficaz, as doses agora eram homeopáticas diante do avanço diário e voluntarioso do sistema radiofônico. Não era o trem das onze, pois esse até gostava de pegar, mas sim, um descarrilhado, atropelando quem se opusesse. O pagode de corno veio e ficou por um bom tempo. Me rendi. Depus minhas armas. Me dei por vencido e sai da ribalta. Há momentos numa batalha em que se deve saber a hora da retirada. Reconsiderar a estratégia e voltar no momento propício. Caso não aconteça, resigne-se.
Tirei proveito do meu afastamento, dando mais atenção as minhas inspirações musicais. Momentaneamente fora dos holofotes, refiz o meu traçado. Como todo movimento musical raso, esse também estava fadado a um período, eu só não esperava que fosse longo e além do mais que deixasse uma fresta, mesmo sendo uma fresta, era o suficiente para que entrasse outras mazelas musicais e alargasse tornando o espaço amplo suficiente para mais lixo sonoro macular nosso pavilhão auricular. Os bambas se retiram convenientemente da mídia, mas procurando você os encontra, basta saber procurar. A esses, a eternidade já lhes foi reservada. Inté! 

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