quarta-feira, 12 de julho de 2017

Capítulo 56  –  COMEÇARIA TUDO OUTRA VEZ

Havia resolvido e estava irredutível, que não voltaria a tocar banquinho e violão em bar, agora teria que ser contratação por apresentação, com o repertório escolhido a minha vontade e sem pedidos, para não correr riscos indesejáveis. Eu gostava de tocar e cantar, sempre gostei e continuo gostando, mas mesmo assim tinha e tenho os meus limites de tolerância musical. Por isso mesmo é que deixei a carreira de cantor de bar. Como não precisava e nem visava como um negócio financeiro, minhas contas eu pagava com outra profissão, com o bico de cantor, eu aproveitava o dinheiro para investir na melhoria da aparelhagem, então, dessa forma eu estava voltando as raízes, lá no começo, quando éramos uma banda que só tocávamos músicas autorais. Há sempre tempo para um recomeço e nunca é tarde. Deixando um pouco de lado o repertório da MPB, me vi novamente envolvido no emaranhado de melodias que a minha mente produzia. Era só uma questão de tempo e paciência, que viria naturalmente uma nova cria. Enquanto trabalhava algumas ideias, não tinha sido ainda completamente esquecido, mesmo me afastando, os convites chegavam, alguns eu declinei por ser exatamente aquilo que eu não queria mais, já outros, como estavam dentro do meu desejo, eu os aceitei. Não tinha ainda um repertório próprio extenso, mas mesmo assim eu penso que a combinação era oportuna, pois eu tocava, das conhecidas, as que eu mais gostava e enfiava durante a apresentação as minhas, sempre anunciando ser o criador da obra musical que tocaria.
Certa vez, já estava afastado mais de um ano do circuito apresentação em bar, quando fui convidado para ser uma das atrações em uma festa na Igreja do meu bairro. Era uma participação sem cachê, isso era o de menos e até porque quando precisavam eu sempre participava sem interesses financeiros próprios, a intenção era angariar fundos para obras sociais ou da própria Igreja. Vislumbrei oportunamente uma ocasião propícia para testar minha nova fase. Separei um repertório mesclado, dentre as conhecidas, salpiquei uma aqui, outra lá das minhas composições. Ensaiei para cantar sem ter que ler em caderno as letras. Eu sempre tive esse pequeno defeito, não guardar as letras de todas as músicas. Conheci cantores da noite que tinham um repertório extenso dentro da cabeça, não era o meu caso, sem o caderno eu ficava mudo, sabia a harmonia, mas a letra, essa era um privilégio de poucas. Num caso como esse eu separava as músicas que iria cantar e ensaiava, aí eu conseguia guardar as letras, como se fosse um ensaio de fala numa peça teatral, mas se não houvesse continuidade, uma semana depois eu já esquecia boa parte. Tenho um amigo, que gosta muito das minhas músicas, tanto que ele lembra de algumas antigas e que quando estamos juntos e eu tocando para ele cantar, pede tal música e eu respondo que não me lembro bem da letra, então, lá vem ele e canta a letra todinha e eu acompanho, memória de elefante. Tem um HD de não sei quantos terabytes só de lembranças. Fantástico!
No dia da festa, cheguei acompanhado do meu amigo violão e fui saudado pelos conhecidos, alguns já sabiam, mas a maioria não. Fiquei ali com eles algum tempo, até ser chamado para a entrada do palco. Esperando a minha vez, aproveitei para conferir a afinação do violão e me colocar à disposição. Assim que fui chamado, assumi o controle da situação e dei início a apresentação. Cumprir exatamente o roteiro que havia ensaiado, com raríssimas exceções, a maioria das músicas estavam no tom de sol e, foi um arranjo de propósito para que eu pudesse usar de um artifício, que ao terminar uma eu emendava em outra sem um intervalo, fiz isso em três oportunidades, pois seria uma única apresentação e eu queria cantar o máximo possível. Dessa forma usei um bom número de músicas dentro de um tempo determinado, sem exceder. Após a apresentação, já com os meus conhecidos, veio algumas surpresas. Eles conheciam as músicas conhecidas, se posso falar assim, mas ficaram intrigados com umas que não conseguiram identificá-las de jeito nenhum. Quando souberam que se tratava de composições próprias, ficaram admirados e em seguida puseram-se a perguntar o nome de uma e de outra, se tinha intenção de gravar, que havia uma boa para participar de festivais, eu fui observando e concluindo que estava no caminho certo e que tinha que trabalhar mais para aumentar o repertório. Apesar de já ter percorrido uma boa parte da estrada, agora que eu havia chegado numa encruzilhada e decidido qual caminho iria seguir, ainda tinha muita poeira para comer, mas uma coisa já estava certa: a direção.
Fazendo um trabalho de formiguinha, fui pacientemente construindo a minha obra particular. No meio desse processo criativo, ainda tive tempo para dar atenção a um pedido de um conhecido, que trabalhava com teatro e se encontrava envolvido numa montagem de uma peça cujo o tema era homossexualismo, ele precisava de algumas músicas bem sutis sobre o tema e me encomendou, não me fiz de rogado, me debrucei sobre o tema e aprontei algumas pérolas, mas infelizmente a peça não estreou por falta de recursos, como eram boas músicas, entraram para o repertório. Confesso que tenho bons momentos de inspiração poética, mas normalmente minha gestação é lenta, como a inspiração musical é mais rápida, costumo ficar com melodias à espera de letras por um bom tempo, a não ser, quando uso do recurso da parceria, aí tendo bons letristas ao meu lado, preencho essa lacuna com maior facilidade. Elegi alguns parceiros para esse processo criativo, amigos não só compatíveis musicalmente, mas amigos mesmo. Claro, eles tinham veia poética acentuada, isso me deixava numa posição mais confortável, pois, a escrita, o poema, o texto eu não interferia em quase nada, só ajustava quando tinha que colocá-la junto a música pronta ou melhor ainda, compor a melodia já com a letra pronta, dessa forma, fora eles, outros vinham pedir para musicar suas escritas, mas não funcionava assim, não vou dizer que não fiz, porém, foram poucas que me tocaram a ponto de me colocar para trabalhar uma melodia adequada ao tema. Não sou, penso que já falei isso em outro capítulo, nenhum gênio, apenas tenho um gosto muito grande por música, a ponto de aprender a tocar só para poder compor melhor, já que o fazia de cabeça e guardava na memória. Perdi muita inspiração, por não ter com passa-la por um instrumento ou escrevê-la em partitura, apesar de ainda não dominar completamente e devidamente a transcrição em partitura. Todo começo é sempre um apedra bruta precisando lapidar, as vezes a pedra é semipreciosa, não deixará de ter admiradores e consumidores, porém, a pedra preciosa tem que ser o seu objetivo e para isso você tem que cavar mais, procurar mais, trabalhar mais. Eu poderia ter ficado comodamente na minha posição de cantor de bar e até ter me rendido aos movimentos musicais populares e de baixa qualidade, pelo menos para mim. Eu estaria satisfazendo o apelo do público, não geral, maior e continuaria embolsando o meu dinheirinho, só que seria uma covardia da minha parte e concomitantemente uma mentira para com o público. Resolvi por essa saída, que sabia eu, me traria dificuldades; que seria uma decisão corajosa, mas não irresponsável e, que o tempo e a perseverança seriam meus aliados. Inté!   

Isso me remete às virtudes de Aristóteles (o filósofo). Ele já dizia lá na Grécia Antiga, milênios atrás, que a virtude está no meio. Ele dizia assim, por exemplo: 'A coragem é uma virtude'. Mas a coragem em excesso já é irresponsabilidade. E a coragem de menos já é covardia. Então, a coragem é este meio termo entre a covardia e a irresponsabilidade. E é assim para tudo. Esse comedimento, esse meio-termo, esse equilíbrio entre as várias áreas da vida é que vai trazer o bem-estar que, no fim, é o que todo mundo quer.

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