Capítulo 56 – COMEÇARIA TUDO OUTRA VEZ
Havia resolvido e estava irredutível, que não
voltaria a tocar banquinho e violão em bar, agora teria que ser contratação por
apresentação, com o repertório escolhido a minha vontade e sem pedidos, para
não correr riscos indesejáveis. Eu gostava de tocar e cantar, sempre gostei e
continuo gostando, mas mesmo assim tinha e tenho os meus limites de tolerância
musical. Por isso mesmo é que deixei a carreira de cantor de bar. Como não
precisava e nem visava como um negócio financeiro, minhas contas eu pagava com
outra profissão, com o bico de cantor, eu aproveitava o dinheiro para investir
na melhoria da aparelhagem, então, dessa forma eu estava voltando as raízes, lá
no começo, quando éramos uma banda que só tocávamos músicas autorais. Há sempre
tempo para um recomeço e nunca é tarde. Deixando um pouco de lado o repertório
da MPB, me vi novamente envolvido no emaranhado de melodias que a minha mente
produzia. Era só uma questão de tempo e paciência, que viria naturalmente uma
nova cria. Enquanto trabalhava algumas ideias, não tinha sido ainda
completamente esquecido, mesmo me afastando, os convites chegavam, alguns eu
declinei por ser exatamente aquilo que eu não queria mais, já outros, como
estavam dentro do meu desejo, eu os aceitei. Não tinha ainda um repertório
próprio extenso, mas mesmo assim eu penso que a combinação era oportuna, pois
eu tocava, das conhecidas, as que eu mais gostava e enfiava durante a
apresentação as minhas, sempre anunciando ser o criador da obra musical que
tocaria.
Certa vez, já estava afastado mais de um ano do
circuito apresentação em bar, quando fui convidado para ser uma das atrações em
uma festa na Igreja do meu bairro. Era uma participação sem cachê, isso era o
de menos e até porque quando precisavam eu sempre participava sem interesses
financeiros próprios, a intenção era angariar fundos para obras sociais ou da
própria Igreja. Vislumbrei oportunamente uma ocasião propícia para testar minha
nova fase. Separei um repertório mesclado, dentre as conhecidas, salpiquei uma
aqui, outra lá das minhas composições. Ensaiei para cantar sem ter que ler em
caderno as letras. Eu sempre tive esse pequeno defeito, não guardar as letras
de todas as músicas. Conheci cantores da noite que tinham um repertório extenso
dentro da cabeça, não era o meu caso, sem o caderno eu ficava mudo, sabia a
harmonia, mas a letra, essa era um privilégio de poucas. Num caso como esse eu
separava as músicas que iria cantar e ensaiava, aí eu conseguia guardar as
letras, como se fosse um ensaio de fala numa peça teatral, mas se não houvesse
continuidade, uma semana depois eu já esquecia boa parte. Tenho um amigo, que
gosta muito das minhas músicas, tanto que ele lembra de algumas antigas e que
quando estamos juntos e eu tocando para ele cantar, pede tal música e eu respondo
que não me lembro bem da letra, então, lá vem ele e canta a letra todinha e eu
acompanho, memória de elefante. Tem um HD de não sei quantos terabytes só de
lembranças. Fantástico!
No dia da festa, cheguei acompanhado do meu
amigo violão e fui saudado pelos conhecidos, alguns já sabiam, mas a maioria
não. Fiquei ali com eles algum tempo, até ser chamado para a entrada do palco.
Esperando a minha vez, aproveitei para conferir a afinação do violão e me
colocar à disposição. Assim que fui chamado, assumi o controle da situação e
dei início a apresentação. Cumprir exatamente o roteiro que havia ensaiado, com
raríssimas exceções, a maioria das músicas estavam no tom de sol e, foi um
arranjo de propósito para que eu pudesse usar de um artifício, que ao terminar
uma eu emendava em outra sem um intervalo, fiz isso em três oportunidades, pois
seria uma única apresentação e eu queria cantar o máximo possível. Dessa forma
usei um bom número de músicas dentro de um tempo determinado, sem exceder. Após
a apresentação, já com os meus conhecidos, veio algumas surpresas. Eles
conheciam as músicas conhecidas, se posso falar assim, mas ficaram intrigados
com umas que não conseguiram identificá-las de jeito nenhum. Quando souberam
que se tratava de composições próprias, ficaram admirados e em seguida
puseram-se a perguntar o nome de uma e de outra, se tinha intenção de gravar,
que havia uma boa para participar de festivais, eu fui observando e concluindo
que estava no caminho certo e que tinha que trabalhar mais para aumentar o
repertório. Apesar de já ter percorrido uma boa parte da estrada, agora que eu
havia chegado numa encruzilhada e decidido qual caminho iria seguir, ainda
tinha muita poeira para comer, mas uma coisa já estava certa: a direção.
Fazendo um trabalho de formiguinha, fui
pacientemente construindo a minha obra particular. No meio desse processo
criativo, ainda tive tempo para dar atenção a um pedido de um conhecido, que
trabalhava com teatro e se encontrava envolvido numa montagem de uma peça cujo
o tema era homossexualismo, ele precisava de algumas músicas bem sutis sobre o
tema e me encomendou, não me fiz de rogado, me debrucei sobre o tema e aprontei
algumas pérolas, mas infelizmente a peça não estreou por falta de recursos,
como eram boas músicas, entraram para o repertório. Confesso que tenho bons
momentos de inspiração poética, mas normalmente minha gestação é lenta, como a
inspiração musical é mais rápida, costumo ficar com melodias à espera de letras
por um bom tempo, a não ser, quando uso do recurso da parceria, aí tendo bons
letristas ao meu lado, preencho essa lacuna com maior facilidade. Elegi alguns
parceiros para esse processo criativo, amigos não só compatíveis musicalmente,
mas amigos mesmo. Claro, eles tinham veia poética acentuada, isso me deixava
numa posição mais confortável, pois, a escrita, o poema, o texto eu não interferia
em quase nada, só ajustava quando tinha que colocá-la junto a música pronta ou
melhor ainda, compor a melodia já com a letra pronta, dessa forma, fora eles,
outros vinham pedir para musicar suas escritas, mas não funcionava assim, não
vou dizer que não fiz, porém, foram poucas que me tocaram a ponto de me colocar
para trabalhar uma melodia adequada ao tema. Não sou, penso que já falei isso
em outro capítulo, nenhum gênio, apenas tenho um gosto muito grande por música,
a ponto de aprender a tocar só para poder compor melhor, já que o fazia de
cabeça e guardava na memória. Perdi muita inspiração, por não ter com passa-la
por um instrumento ou escrevê-la em partitura, apesar de ainda não dominar completamente
e devidamente a transcrição em partitura. Todo começo é sempre um apedra bruta
precisando lapidar, as vezes a pedra é semipreciosa, não deixará de ter
admiradores e consumidores, porém, a pedra preciosa tem que ser o seu objetivo
e para isso você tem que cavar mais, procurar mais, trabalhar mais. Eu poderia
ter ficado comodamente na minha posição de cantor de bar e até ter me rendido
aos movimentos musicais populares e de baixa qualidade, pelo menos para mim. Eu
estaria satisfazendo o apelo do público, não geral, maior e continuaria
embolsando o meu dinheirinho, só que seria uma covardia da minha parte e concomitantemente
uma mentira para com o público. Resolvi por essa saída, que sabia eu, me traria
dificuldades; que seria uma decisão corajosa, mas não irresponsável e, que o
tempo e a perseverança seriam meus aliados. Inté!
Isso me remete às virtudes de Aristóteles (o filósofo). Ele já
dizia lá na Grécia Antiga, milênios atrás, que a virtude está no meio. Ele
dizia assim, por exemplo: 'A coragem é uma virtude'. Mas a coragem em excesso
já é irresponsabilidade. E a coragem de menos já é covardia. Então, a coragem é este meio
termo entre a covardia e a irresponsabilidade. E é assim
para tudo. Esse comedimento, esse meio-termo, esse equilíbrio entre as várias
áreas da vida é que vai trazer o bem-estar que, no fim, é o que todo mundo
quer.
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