sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Capítulo 64 – CADÊ A MPB, CADÊ?

CADÊ A MPB, CADÊ?
A verdade sobre o que acontece nos bastidores da atual MPB

Nos tempos de Chiquinha Gonzaga, em que a mídia não existia, quando ela compunha uma polca os editores iam vender as músicas impressas assobiando as melodias pelas ruas. Com a chegada do rádio, os autores começaram a ter a necessidade de ganhar algo com a execução de suas obras. Criaram-se as primeiras sociedades autorais e essa coisa toda de mídia começou.
As pessoas questionam onde foi parar a verdadeira música popular brasileira, dizem que não há mais compositores como antigamente. Não sabem que há centenas de nós, fazendo boa música e sem espaço na mídia, como menestréis cantando só para amigos, vendendo cds independentes no mão a mão.

Se querem saber a verdade sobre o que acontece nos bastidores da MPB, leiam esse desabafo, que um dos nossos maiores letristas, meu parceiro Alexandre Lemos, compartilhou no Face Book. A verdade do que ele diz me fez escrever uma resposta, que reverberou peIa Internet afora, em milhares de acessos. Dois sobreviventes da nossa música mostrando a vocês os dois lados da moeda.

Ele escreveu:
Tenho 140 canções minhas gravadas por mais de 40 intérpretes, entre eles super stars, como Ney Matogrosso. Há quem me conheça, há quem me admire. Mas eu, sinceramente, não vejo mais graça nessa brincadeira. Tentei ser artista e profissional ao mesmo tempo. Assinei contratos com editoras, fiz canções como quem faz jingles. Só quem já passou por isso sabe o quanto é difícil fazer canções que precisam ser originais e não ter nada de novo ao mesmo tempo, que sejam únicas e iguaizinhas às que estão tocando nas rádios. Isso banaliza a música a tal ponto que dá vontade de largar o violão e abrir uma franquia de pão de queijo. Quer que sua música toque no rádio ou numa novela? É simples: pague o jabá. Bate uma alegria quando uma música da gente começa a fazer sucesso, mas logo tudo perde a graça, por sabermos que nossa música estar tocando na rádio significa apenas que se conseguiu que o diabo se interessasse por nossa alma. Houve um momento em que pareceu que os artistas ditos independentes seriam a salvação. Mas, em sua maioria, eles acham que só eles merecem ganhar alguma coisa com seu trabalho. Não pagam direitos autorais pela venda de seus CDs e, via de regra, não encaminham pro ECAD a lista do que vão cantar nos shows. Como o ECAD não é bom de adivinhação, o autor fica a ver navios.

Mais do que direitos autorais, faltam mesmo são os direitos de ser autor.
O direito de ser artista sem que isso signifique ser marginal ou marginalizado.
O direito da sociedade em ouvir o que ela mesmo faz e cria, sem passar pelos filtros dos executivos das majors e das rádios e das tevês, uma gente que não entende nada de arte, não tem bom gosto e nem escrúpulos.
Tô cansado, sem nenhuma vontade de seguir nesse trem de doido. Pensei em me aposentar, mas me disseram que artistas não se aposentam, pela própria natureza do que fazem. Que esse texto, então, me sirva de obituário simbólico e que, pra ficar ainda mais musical, receberá o título de Aqui, Jazz. O que não passa de um típico trocadilho de músico. “

E a minha resposta:
Conheço muito bem toda essa história que meu parceiro Alexandre Lemos conta.
A mídia, que nasceu para divulgar a arte, se tornou um fim em si mesma, e a arte sobrou, ficou fora da engrenagem do show bizzz, da fabricação em massa de músicas-chiclete, mastigadas, logo cuspidas e ávidamente substituidas por outros chicletes musicais. Isso não tem nada a ver com música popular brasileira. Música de verdade é a que alimenta a alma, faz a cabeça, comove o coração, vira símbolo de uma época, entra pelos poros, une as pessoas num mesmo uivo de alcatéia feliz. E, com o tempo, fica cada vez melhor. Existe, por esse Brasil afora, uma riqueza enorme de manifestações musicais populares, festas e folguedos com infinita variedade de ritmos, tanto mais ricas quanto mais pobre é o povo. Com todo o massacre da televisão estão lá resistindo, vivos e pulsantes, os reizados, os carimbós, xotes, bois e cirandas. Mesmo nas cidades o samba prolifera, imbatível, nos churrascos nas lajes e nas rodas de fundos de quintais. Não se trata, portanto, de uma escolha do público, mas de uma jogada despótica de um capitalismo enlouquecido ao ver fugir do seu domínio os lucros extorquidos dos artistas pelo advento da Internet, que abre portas para um outro futuro. Sem se conseguir ganhar a grana que não rola em consequência disso tudo, a vida fica muito difícil. Então é salve-se quem puder, nessa hora nada é contra entrar num negócio de pão de queijo.....ou qualquer forma de sobrevivência digna, desde que não corrompa nosso prazer de ser música. Isso é que a gente não pode deixar acontecer.

O importante agora é resistir, confiando num renascimento que venha a pôr fim nessa Idade Mídia, defendendo ferozmente a relação de amor com a nossa arte.
O ato criativo traz no seu bojo a essência do sagrado. A alegria da chegada de uma música nova é um sopro de renovação e esperança. O importante é não perder o acesso a nós mesmos que só o prazer criativo traz. Envelhecer não tem de ser esmorecer.
O grande desafio, caro parceiro, é ser fiel a si mesmo, ao seu genuíno prazer e não à sua amargura.
Por seu talento, por nosso alento, para ser maior que o momento, vamos lá, vamos juntos, celebrar o fato de sermos sobreviventes compondo mais uma?...


LUHLI

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Capítulo 63 – MIB – MÚSICA IMPOPULAR BRASILEIRA


Leio a milionésima megarreportagem vendendo as maravilhas da tal nova MPB. Há quem a chame de indie, música feita de maneira independente dos meios de comunicação de massa, das gravadoras e rádios e jabá e TV.
Esta matéria tem direito a fotos dos artistas posando como os artistas de décadas passadas, Rita Lee, Tim Maia, Cartola. A mais chamativa tem um time de caras novas imitando a pose da capa de Tropicália, o disco que lançou Gil, Caetano, Gal, e o movimento que até hoje dá assunto. É gente como Romulo Fróes, Márcia Castro, Naná Rizinni, Marcelo Jeneci e Emicida.
Quem? Não se avexe. Ninguém conhece, fora jornalistas, publicitários e similares. Ninguém ouve. Ninguém se importa. Eles não fazem MPB, Música Popular Brasileira. Fazem MIP: Música Impopular Brasileira.
No Valor Econômico, mesmo final de semana, o jornalista Tárik de Souza garante que os ídolos dos anos 60, tropicalistas à frente, é que continuam comandando a massa. Banca a afirmação com números: Caetano vendeu nove mil cópias de seu último disco. Isso é ser popular? E Paula Fernandes é o quê?
A nova geração da música brasileira, como a nova geração do nosso cinema, e a nova geração da nossa literatura, está confortável na sua eterna impopularidade e no seu eterno sucesso de crítica. Porque vive confortavelmente sendo impopular. E os elogios da crítica, além de acariciar o ego, garantem uns caraminguás no circuito que paga bem pelo perfume da descolância. Não discuto se tem livro bom aqui e canção maravilhosa acolá. Não é o ponto.
Minha explicação para esse estado de coisas é sociológica e psicológica, e rasinha e panorâmica. Ano passado resumi em uma frase. A publicação das duas reportagens no mesmo final de semana me cutuca.
Todo mundo conhece a geração que decolou nos festivais, e eles continuam influindo nos criadores mais jovens. Continuam nas primeiras páginas dos cadernos de artes e nas capas das revistas de cultura. Os shows, 90% hits do século passado, lotam com nostálgicos de bolsos fundos. Mas Chico Buarque, Gil e Cia. não estão nas homepages dos portais, nem nos programas de auditório. Não dão clique, não atraem audiência, não fazem sucesso. Ninguém ouve. Ninguém se importa. Hoje também fazem MIP.
Jornalista tem que contar uma história. Geralmente conta a sua. Muitas vezes, em vez de abrirmos os olhos para o universo lá fora, nos deixamos hipnotizar pelas estrelinhas próximas, à nossa altura e ao alcance de nossas mãos. Daí é um passo para concluirmos: essa geração é minha turma, a minha turma é que fez ou faz história, e, portanto, eu, que registro a cena, e ajudo a construí-la, faço história também. Sou importante. I’m a star.
Tárik vê o mundo pelos olhos de seus contemporâneos. Quem não? Nunca fui crítico musical nem militante cultural, mas fiz minha partezinha para empurrar para os holofotes a turma que despontou no início dos 90, mangue beat, Raimundos, Planet Hemp etc. Foi uma espécie de new wave tupi atrasada, múltiplos gêneros e discursos, verdadeiramente internacionais, organicamente brasileiros. Nenhuma revolução, não, mas valeu. Eles falaram com os jovens da época de igual para igual. Arejaram o ambiente. Não tenho saudade.
A comparação da geração 2012 com a Tropicália é forçada. Em comum, só a obscuridade dos retratados hoje com os tropicalistas, no dia do lançamento de Tropicália. Esses novos nomes da música brasileira falam com pouquíssimos (assim como os velhos hoje). O camarada Maurício Ângelo resumiu bem no site Movin Up: O indie vai bem, falta falar com o público.
Antigamente, dinheiro de músico vinha de vender disco e ingresso pra show. É para isso que eles queriam aparecer (e para pegar mulher/homem, naturalmente). Famosos, as gravadoras pagavam propina para eles tocarem no rádio e aparecerem na TV. Hoje, há muitas outras maneiras, patrocínios daqui, leis de incentivo dacolá, usar o tênis tal no videoclipe e pronto. O sistema antigo era podrão, mas explícito, e criou astros.
O novo sistema é menos transparente e gerou, por enquanto, uma ceninha incestuosa onde todo mundo toca com todo mundo, todo mundo é amigo de todo mundo, e que importa para muito poucos. E nem sei se importa mesmo, ou se é só a coisa descolada a fazer e dizer. Numa certa idade e círculos, ser aceito como descolado é importante. O termo moderninho para se falar descolado é hipster. Hipsters querem falar com hipsters. Aparecer no Datena ou tocar na rádio Disney seria ostracismo certo.
Uma diferença grita entre os artistas que despontaram em 1968 e os que despontam em 2012. Os tropicalistas começaram a emplacar quando se renderam à TV, ao Chacrinha. Sugiro ler o manifesto antitropicalista de Augusto Boal, comunista da ala mal-humorada. Ele cravou na época: os tropicalistas não usaram os programas de auditório para seus próprios fins; é o contrário; eles é que se renderam à lógica da comunicação de massa. Os baihunos (ê, Millôr!) retrucaram: patrulha. E neste fla-flu continuam muitos.
Os novos artistas da MIP não parecem almejar seu momento no Gugu. O sucesso de massa seria um fracasso, e a expulsão do mundinho hipster. Nada de Teleton para esta turma. Nada de festa do peão, capa da Caras, big money. É uma turma de Tom Zés — ninguém com a ambição desmedida e falta de decoro de um Caetano ou Gil. E, claro, nenhum Torquato Neto ou Rogério Duprat à vista.
Existe música que faz muito sucesso no Brasil, hoje. Sucesso imenso, tanto quanto os Simonais e Wanderléas que dominavam as paradas quando os Tropicalistas faziam toda aquela força para fazer sucesso. É o que eu chamo de Música Super Popular Brasileira, e frequentemente me chapa a relação cama-e-mesa destes artistas com a mídia. Leonardo cantando no Faustão, enquanto o filho luta pela vida no hospital, vai além da minha capacidade de ficar boquiaberto.
A maior parte desta música superpopular existe para embalar festas e amores, e para encher os bolsos seus criadores. É funcional. A Música Impopular Brasileira nem uma coisa nem outra. Não equaciono popularidade e validade estética. A arte mais preciosa frequentemente foi e é privilégio de poucos. Observo o óbvio. Uma geração de Tom Zés terá o impacto limitado do seu patrono. Chamar isso de sucesso é fracassar.

André Forastieri

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Capítulo 62 -  REFLEXÕES
Aqui mais uma vez em busca do tesouro perdido da inspiração que às vezes se mostra tão fácil e tão simples e outras tantas maiores que se quer aparecem.
Passo o dia imaginando como seria melhor o mundo se todo mundo gostasse de música boa, se todo mundo gostasse de música brasileira de qualidade. E logo após me sinto triste por pensar dessa forma, por que me julgo tantas vezes superior a tanta gente só por que ouço o que julgo bom, e paro e penso, quem sou eu para dizer ou desdizer o que é ou não bom para se ouvir? Só por que eu amo as músicas do Chico Buarque? Por que sou apaixonado pela voz de homem da cássia Eller? Por que sou enlouquecido pela sensualidade e feminilidade de Marisa monte? Porque fico tontinho com a voz nasal de Gal costa? Por que endoideço toda vez que a voz de Rita Lee sai daquela garganta abençoada pelos deuses? Por que viajo léguas com as letras e arranjos das músicas ‘perfeitas’ dos Hermanos? Por que acho muito importante compreender um pedaço da minha vida ouvindo Lulu santos? Por que esqueço da felicidade toda vez que escuto um bom samba? Por que adoro voltar no tempo e perceber que pouca coisa mudou no decorrer do tempo quando ouço Legião Urbana? Nossa que horror! Só por que quase choro quando Elis Regina se acaba naquelas interpretações dela? Ou por que os Beatles me fazem feliz com as bobagens que cantam? Por que Elvis Presley tem agudos que o mundo jamais verá igual, e eu acho essencial ouvir? Só por isso acho que escuto música boa? Quem sou eu para achar que por essas banalidades citadas como essenciais para minha existência precisam ser essenciais para de todo mundo? Sei que para mim é um crime ouvir, limão com mel e calcinha preta, calypso e a sua companhia, Edson e Batista, babado e o da banana, capital inicial e ls Jack, cpm 38 e o dono do snoopy que não cresceu. É triste, mas é a realidade. Mas o que posso fazer, é quase um crime mesmo. A pirataria aumenta, o índice de analfabetismo, o tráfico de drogas, o aumento da criminalidade. É triste, mas é a realidade. Falou.
Se há algumas semanas alguém tivesse me perguntado quem era Michel Teló, eu teria arriscado assim, na base do palpitão, que ele provavelmente devia ser um novo jogador contratado pelo Barcelona (“… e Michel Teló está no aquecimento para entrar no lugar de Piqué…”) ou, quem sabe, um desses novos artistas de vanguarda que expõem nas galerias descoladas pelo mundo (“… e aqui do seu lado esquerdo, uma instalação neossurrealista do artista neogótico romântico Michel Teló…”). Minhas chances de acertar, portanto, teriam sido menores do que as de cravar os números da Mega Sena. Imaginar que uma musiquinha chinfrim como Ai se eu te Pego viraria mania mundial e teria quase 100 milhões de acessos no YouTube realmente estaria totalmente fora de cogitação.
Nos últimos dias, com a reportagem de capa na Época e a notícia de que a música estava sendo mais tocada nas rádios do que Adele e Coldplay (ai, adoro essas estatísticas fora de contexto!), eu li, vi e ouvi um bocado de gente indignada por aí: mas como é que um som medíocre como esse faz sucesso internacional? Que horror, meoldeols, então é assim que queremos ver nossa ‘cultura’ representada lá fora? Onde essa juventude vai parar, sem ouvir Tom Jobim, sem ler os clássicos, sem assistir a filmes do Glauber Rocha com legendas em croata?
Gente, menos né? Bem menos. O moço gravou uma música. Fraquinha de doer, é verdade, em letra, melodia e arranjo. Porque raios isso virou mania nacional e extrapolou fronteiras é um mistério, mas, convenhamos, não é inédito – estão aí a lambada, a Macarena, Aserehe e aquela musiquinha e coreografia irritantes do passarinho que quer dançar porque acaba de nascer para provar isso. E sobrevivemos a todas elas, não foi? E, olha, nem vou mencionar a disco music, que produziu 99% de lixo para 1% de música boa. O problema não é ouvir Teló, o problema é SÓ ouvir Teló e afins. Aposto um picolé de limão como boa parte dos reclamões não sabe cantar nenhuma música do Tom do início ao fim, dos clássicos só sabem citar alguns títulos e vão aos festivais de cinema alternativo só mesmo para comer pipoca e fazer cara de conteúdo.
Claro, quase tudo hoje em dia é descartável, é pros próximos 15 segundos ou os primeiros 140 caracteres, depois babáu. Claro, eu queria ver mais artistas brasileiros de alto nível, que ralam pra caramba tentando sobreviver da arte, estourando no mercado internacional. Adoraria ver gente lá fora assobiando Villa Lobos como assobiam Mozart, lendo Machado de Assis como leem Shakespeare, dando aquele Oscar de melhor atriz pra Fernanda Montenegro e não pra Gwyneth Paltrow, pelamordedeus. Só que o mercado do pop descartável não funciona bem assim. Galera consome mesmo é o facinho, mas vamos cruzar os dedinhos para que aproveitem pra consumir alguma coisa legal no caminho.

Enquanto alguém postava no twitter: “o programa Roda Viva (na TV e Internet) o entrevistado de hoje é o escritor e pacifista israelense Amos Oz”, adivinhem o que bombou nas timelines do twitter e comentários de colunistas de TV no seguinte? Mulheres Ricas, o novo reality show da Band, onde cinco endinheiradas ficam tagarelando sobre como é bom vestir Chanel, beber champagne Cristal e comprar avião novo. E quem é que deve monopolizar as mídias sociais assim que estrear? Big Brother, em sua 14ª ou 15ª (caramba, sei lá...) edição, lógico, por mais que escalem bons filmes e programas para o mesmo horário em outras emissoras. Quer dizer, Teló é o menor dos nossos problemas quando o assunto é cultura. Pensando bem, podia ter sido pior: imaginem se a Dança do Crèu é que tivesse caído no gosto mundial? Nossa, assim você me mata. Inté!  

sábado, 2 de setembro de 2017

Capítulo 61 – IDADE DAS TREVAS
A qualidade de certas músicas brasileiras já foi questionada por diversos personagens do universo artístico. Recentemente um cantor sertanejo fez um discurso ácido se referindo ao atual momento de nossa música sertaneja: "Não deixaria meus filhos ouvirem a maioria das músicas sertanejas atuais. Pornografia e sensualidade excessiva em canções não são para criança ouvir". 

O compositor criticou as músicas que exploram o duplo sentido em suas letras, mas a sertaneja é apenas uma gota em meio a um oceano de baixa qualidade musical, algo não muito diferente ocorre em outros universos. Estilos como o funk, o axé e o pagode passam por um momento sofrível no que diz respeito à inovação e qualidade musical. Infelizmente a época em que vivemos não pode ser considerada lá tão inovadora, seja para esses estilos mais novos, seja para tantos outros que em outras épocas espelharam toda uma revolução social, como a MPB, por exemplo. 

Sou compositor e tenho um pouco de formação musical, mas o que me entristece muito, é vê que existem certos tipos de músicas que incomodam não tão somente por causa de suas letras recheadas de ostentação, vulgaridade e violência, mas também por sua baixíssima qualidade musical. Como dizer que há crítica social ou mesmo algum tipo de criatividade nas seguintes músicas: o funk "cola a bunda no chão vai, cola a bunda no chão vai, cola a bunda no chão vai"; a sertaneja "ponho o carro, tiro o carro, à hora que eu quiser, que garagem apertadinha, que doçura de mulher, tiro cedo e ponho à noite, e às vezes à tardezinha"; ou ainda o pagode com letras como "eu chego no pagode chamando a atenção, todo mundo para pra ver a atração, carro importado, perfume mais caro só roupa de marca, ninguém entende nada". Poderia citar tantas outras músicas, mas algumas contêm tanta baixaria que nem ao menos podem ser citadas neste espaço. 

Infelizmente, boa parte das músicas aliena ao passo que não lança um olhar crítico a nossa sociedade. Pelo contrário, desvaloriza a mulher, incentiva a violência e cria um processo de comercialização de atitudes, ideias e comportamentos. Hoje, pouca novidade há na produção musical, além disso, até mesmo a música evangélica, que deveria servir para outro fim que não fosse meramente o lucro, tem vivido uma fase extremamente pobre. Grande parte do que é produzido pela indústria cultural não tem nada de novo, ousado ou mesmo crítico, na verdade, não passa de mais do mesmo. Mas vou além, onde estão os novos poetas, escritores, compositores e críticos? Vivemos um momento não muito frutífero no que concerne à cultura. 

Outro dia li uma matéria que anunciava listar 10 músicas que ninguém entende o que o autor quis dizer. Como se a culpa fosse dos autores, por escreverem letras rebuscadas e fora do entendimento da massa. Não seria o contrário? Penso que as pessoas andam tão preguiçosas, não digo todas, mas a maioria, que não estão muito interessadas em leitura, para não falar em estudar e, que ao invés de acumular conhecimento e consequentemente discernimento, elas ficam satisfeitas com o refrão chiclete e a letra que traduz o seu linguajar pobre utilizado diariamente. Quando vi as 10 músicas, tive pena do autor da matéria. Não vou reproduzir todas as músicas, mas me lembro de duas que foram citadas pequenas partes: “ Açaí, guardiã, Zum de besouro um imã” a outra era: “ Eu vou te jogar num pano de guardar confetes. Disparo balas de canhão é inútil pois existe um grão-vizir. ” Aqui o autor da matéria brincava com a primeira, perguntando o que seria “zum de besouro um imã”, ora, com um pouco de raciocínio ele veria que o autor chamou a atenção para o fenômeno de que o zum do besouro atrai nossa atenção tão fortemente como a força magnética de um imã e, quanto a outra frase, “eu vou te jogar num pano de guardar confetes”, assim separada do resto da letra talvez fique estranho, mas vamos lá: pano de guardar confetes são balaios ou sacos típicos das costureiras do Nordeste, nos quais elas jogam restos de pano, papel, etc. aqui, o autor quer dizer que vai jogar as fotos do seu amor nesse tipo de saco, para esquecê-la de vez. Quanto a “ disparo balas de canhão é inútil pois existe um grão-vizir, ele quer dizer que tenta ficar com ela de todas as formas, mas é inútil, pois ela é casada com um homem muito rico. A grande maioria adora e canta essa música “chão de giz”, mas garanto-lhes que poucos procuram entender a bela poesia feita por Zé Ramalho.    

Parafraseando uma famosa música de Rita Lee: o que foi que aconteceu com a música popular brasileira? Com aquelas músicas que moviam multidões e que questionavam a sociedade e a realidade social. Existem músicas tão importantes que se tornaram verdadeiros registros históricos da humanidade, é o caso dos artistas que descreveram os períodos mais duros do regime militar, como, por exemplo, a canção "Deus lhe Pague", de Chico Buarque, em que o compositor utiliza a ironia para fazer críticas à situação repressiva que os brasileiros viviam: "Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir, a certidão pra nascer e a concessão pra sorrir. Por me deixar respirar, por me deixar existir. Deus lhe pague". O rock nacional também já foi mais frutífero, quem não se lembra das letras carregadas de críticas sociais da banda Legião Urbana, a exemplo da música "Geração Coca-Cola": "Quando nascemos fomos programados a receber o que vocês nos empurraram com os enlatados dos USA, de 9 às 6. Desde pequenos nós comemos lixo, comercial e industrial". 

Mas hoje, as músicas da moda, em sua maioria, não carregam nada além de vulgaridade, erotização e violência, são apenas medíocres. Hoje, sim, poderíamos chamar de Idade das Trevas a fase cultural em que vivemos. A expressão que caiu em desuso foi utilizada pelo estudioso italiano Francesco Petrarca, para denunciar a literatura latina da Alta Idade Média (do século V ao X) e denominar um período que, segundo ele, nada de útil produziu. Mas, para nós, ainda há esperanças. Mesmo que não seja a curto prazo, pois não vislumbro nenhum interesse ou movimento por parte da indústria musical no sentido de abrir as portas, ceder oportunidades a aqueles, existem, que estão produzindo algo bom e diferente. Tenho reparado virando certas esquinas, que a garotada vem se dedicando com muito afinco em produzir. Não dou a mínima atenção a mídia, procuro fora dela. Tem que se garimpar, mas o resultado é surpreendente. Bandas com ótimas propostas, compositores preocupados com o conteúdo e com a harmonia. Ainda não é um movimento de massa, está longe disso, mas, existe uma galera que acompanha, consome entusiasticamente. Eles são antenados, bebem na antiga fonte, saboreando antigos gostos e regozijam-se com os novos temperos. Muitas apresentações são gratuitas, ficando a critério do público uma doação em espécie, mesmo porque em sua maioria, os locais são abertos, mas mesmo quando se dá em ambiente fechado a entrada é barata. Nessa seara, não há espaço para idolatria, a sintonia harmônica é a que prevalece. Em alguns eventos que eu já fui, percebi que além da atração musical, acontecia interação. Essa abertura proporcionava trocas interessantíssimas, culminando até em apresentação surpresa. Sim, há esperança, mas, no entanto, é preciso que uma revolução cultural aconteça. Talvez nem mesmo nossa geração veja essas mudanças, mas é preciso que nossa nação invista na produção cultural verdadeira e não na diversão pública. A música precisa voltar a ser portadora de tradições e não um mero conjunto de palavras inúteis. Eu ainda procuro acreditar que tudo seja questão de tempo e não o fim dos tempos. Inté!