segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Capítulo 62 -  REFLEXÕES
Aqui mais uma vez em busca do tesouro perdido da inspiração que às vezes se mostra tão fácil e tão simples e outras tantas maiores que se quer aparecem.
Passo o dia imaginando como seria melhor o mundo se todo mundo gostasse de música boa, se todo mundo gostasse de música brasileira de qualidade. E logo após me sinto triste por pensar dessa forma, por que me julgo tantas vezes superior a tanta gente só por que ouço o que julgo bom, e paro e penso, quem sou eu para dizer ou desdizer o que é ou não bom para se ouvir? Só por que eu amo as músicas do Chico Buarque? Por que sou apaixonado pela voz de homem da cássia Eller? Por que sou enlouquecido pela sensualidade e feminilidade de Marisa monte? Porque fico tontinho com a voz nasal de Gal costa? Por que endoideço toda vez que a voz de Rita Lee sai daquela garganta abençoada pelos deuses? Por que viajo léguas com as letras e arranjos das músicas ‘perfeitas’ dos Hermanos? Por que acho muito importante compreender um pedaço da minha vida ouvindo Lulu santos? Por que esqueço da felicidade toda vez que escuto um bom samba? Por que adoro voltar no tempo e perceber que pouca coisa mudou no decorrer do tempo quando ouço Legião Urbana? Nossa que horror! Só por que quase choro quando Elis Regina se acaba naquelas interpretações dela? Ou por que os Beatles me fazem feliz com as bobagens que cantam? Por que Elvis Presley tem agudos que o mundo jamais verá igual, e eu acho essencial ouvir? Só por isso acho que escuto música boa? Quem sou eu para achar que por essas banalidades citadas como essenciais para minha existência precisam ser essenciais para de todo mundo? Sei que para mim é um crime ouvir, limão com mel e calcinha preta, calypso e a sua companhia, Edson e Batista, babado e o da banana, capital inicial e ls Jack, cpm 38 e o dono do snoopy que não cresceu. É triste, mas é a realidade. Mas o que posso fazer, é quase um crime mesmo. A pirataria aumenta, o índice de analfabetismo, o tráfico de drogas, o aumento da criminalidade. É triste, mas é a realidade. Falou.
Se há algumas semanas alguém tivesse me perguntado quem era Michel Teló, eu teria arriscado assim, na base do palpitão, que ele provavelmente devia ser um novo jogador contratado pelo Barcelona (“… e Michel Teló está no aquecimento para entrar no lugar de Piqué…”) ou, quem sabe, um desses novos artistas de vanguarda que expõem nas galerias descoladas pelo mundo (“… e aqui do seu lado esquerdo, uma instalação neossurrealista do artista neogótico romântico Michel Teló…”). Minhas chances de acertar, portanto, teriam sido menores do que as de cravar os números da Mega Sena. Imaginar que uma musiquinha chinfrim como Ai se eu te Pego viraria mania mundial e teria quase 100 milhões de acessos no YouTube realmente estaria totalmente fora de cogitação.
Nos últimos dias, com a reportagem de capa na Época e a notícia de que a música estava sendo mais tocada nas rádios do que Adele e Coldplay (ai, adoro essas estatísticas fora de contexto!), eu li, vi e ouvi um bocado de gente indignada por aí: mas como é que um som medíocre como esse faz sucesso internacional? Que horror, meoldeols, então é assim que queremos ver nossa ‘cultura’ representada lá fora? Onde essa juventude vai parar, sem ouvir Tom Jobim, sem ler os clássicos, sem assistir a filmes do Glauber Rocha com legendas em croata?
Gente, menos né? Bem menos. O moço gravou uma música. Fraquinha de doer, é verdade, em letra, melodia e arranjo. Porque raios isso virou mania nacional e extrapolou fronteiras é um mistério, mas, convenhamos, não é inédito – estão aí a lambada, a Macarena, Aserehe e aquela musiquinha e coreografia irritantes do passarinho que quer dançar porque acaba de nascer para provar isso. E sobrevivemos a todas elas, não foi? E, olha, nem vou mencionar a disco music, que produziu 99% de lixo para 1% de música boa. O problema não é ouvir Teló, o problema é SÓ ouvir Teló e afins. Aposto um picolé de limão como boa parte dos reclamões não sabe cantar nenhuma música do Tom do início ao fim, dos clássicos só sabem citar alguns títulos e vão aos festivais de cinema alternativo só mesmo para comer pipoca e fazer cara de conteúdo.
Claro, quase tudo hoje em dia é descartável, é pros próximos 15 segundos ou os primeiros 140 caracteres, depois babáu. Claro, eu queria ver mais artistas brasileiros de alto nível, que ralam pra caramba tentando sobreviver da arte, estourando no mercado internacional. Adoraria ver gente lá fora assobiando Villa Lobos como assobiam Mozart, lendo Machado de Assis como leem Shakespeare, dando aquele Oscar de melhor atriz pra Fernanda Montenegro e não pra Gwyneth Paltrow, pelamordedeus. Só que o mercado do pop descartável não funciona bem assim. Galera consome mesmo é o facinho, mas vamos cruzar os dedinhos para que aproveitem pra consumir alguma coisa legal no caminho.

Enquanto alguém postava no twitter: “o programa Roda Viva (na TV e Internet) o entrevistado de hoje é o escritor e pacifista israelense Amos Oz”, adivinhem o que bombou nas timelines do twitter e comentários de colunistas de TV no seguinte? Mulheres Ricas, o novo reality show da Band, onde cinco endinheiradas ficam tagarelando sobre como é bom vestir Chanel, beber champagne Cristal e comprar avião novo. E quem é que deve monopolizar as mídias sociais assim que estrear? Big Brother, em sua 14ª ou 15ª (caramba, sei lá...) edição, lógico, por mais que escalem bons filmes e programas para o mesmo horário em outras emissoras. Quer dizer, Teló é o menor dos nossos problemas quando o assunto é cultura. Pensando bem, podia ter sido pior: imaginem se a Dança do Crèu é que tivesse caído no gosto mundial? Nossa, assim você me mata. Inté!  

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