sábado, 2 de setembro de 2017

Capítulo 61 – IDADE DAS TREVAS
A qualidade de certas músicas brasileiras já foi questionada por diversos personagens do universo artístico. Recentemente um cantor sertanejo fez um discurso ácido se referindo ao atual momento de nossa música sertaneja: "Não deixaria meus filhos ouvirem a maioria das músicas sertanejas atuais. Pornografia e sensualidade excessiva em canções não são para criança ouvir". 

O compositor criticou as músicas que exploram o duplo sentido em suas letras, mas a sertaneja é apenas uma gota em meio a um oceano de baixa qualidade musical, algo não muito diferente ocorre em outros universos. Estilos como o funk, o axé e o pagode passam por um momento sofrível no que diz respeito à inovação e qualidade musical. Infelizmente a época em que vivemos não pode ser considerada lá tão inovadora, seja para esses estilos mais novos, seja para tantos outros que em outras épocas espelharam toda uma revolução social, como a MPB, por exemplo. 

Sou compositor e tenho um pouco de formação musical, mas o que me entristece muito, é vê que existem certos tipos de músicas que incomodam não tão somente por causa de suas letras recheadas de ostentação, vulgaridade e violência, mas também por sua baixíssima qualidade musical. Como dizer que há crítica social ou mesmo algum tipo de criatividade nas seguintes músicas: o funk "cola a bunda no chão vai, cola a bunda no chão vai, cola a bunda no chão vai"; a sertaneja "ponho o carro, tiro o carro, à hora que eu quiser, que garagem apertadinha, que doçura de mulher, tiro cedo e ponho à noite, e às vezes à tardezinha"; ou ainda o pagode com letras como "eu chego no pagode chamando a atenção, todo mundo para pra ver a atração, carro importado, perfume mais caro só roupa de marca, ninguém entende nada". Poderia citar tantas outras músicas, mas algumas contêm tanta baixaria que nem ao menos podem ser citadas neste espaço. 

Infelizmente, boa parte das músicas aliena ao passo que não lança um olhar crítico a nossa sociedade. Pelo contrário, desvaloriza a mulher, incentiva a violência e cria um processo de comercialização de atitudes, ideias e comportamentos. Hoje, pouca novidade há na produção musical, além disso, até mesmo a música evangélica, que deveria servir para outro fim que não fosse meramente o lucro, tem vivido uma fase extremamente pobre. Grande parte do que é produzido pela indústria cultural não tem nada de novo, ousado ou mesmo crítico, na verdade, não passa de mais do mesmo. Mas vou além, onde estão os novos poetas, escritores, compositores e críticos? Vivemos um momento não muito frutífero no que concerne à cultura. 

Outro dia li uma matéria que anunciava listar 10 músicas que ninguém entende o que o autor quis dizer. Como se a culpa fosse dos autores, por escreverem letras rebuscadas e fora do entendimento da massa. Não seria o contrário? Penso que as pessoas andam tão preguiçosas, não digo todas, mas a maioria, que não estão muito interessadas em leitura, para não falar em estudar e, que ao invés de acumular conhecimento e consequentemente discernimento, elas ficam satisfeitas com o refrão chiclete e a letra que traduz o seu linguajar pobre utilizado diariamente. Quando vi as 10 músicas, tive pena do autor da matéria. Não vou reproduzir todas as músicas, mas me lembro de duas que foram citadas pequenas partes: “ Açaí, guardiã, Zum de besouro um imã” a outra era: “ Eu vou te jogar num pano de guardar confetes. Disparo balas de canhão é inútil pois existe um grão-vizir. ” Aqui o autor da matéria brincava com a primeira, perguntando o que seria “zum de besouro um imã”, ora, com um pouco de raciocínio ele veria que o autor chamou a atenção para o fenômeno de que o zum do besouro atrai nossa atenção tão fortemente como a força magnética de um imã e, quanto a outra frase, “eu vou te jogar num pano de guardar confetes”, assim separada do resto da letra talvez fique estranho, mas vamos lá: pano de guardar confetes são balaios ou sacos típicos das costureiras do Nordeste, nos quais elas jogam restos de pano, papel, etc. aqui, o autor quer dizer que vai jogar as fotos do seu amor nesse tipo de saco, para esquecê-la de vez. Quanto a “ disparo balas de canhão é inútil pois existe um grão-vizir, ele quer dizer que tenta ficar com ela de todas as formas, mas é inútil, pois ela é casada com um homem muito rico. A grande maioria adora e canta essa música “chão de giz”, mas garanto-lhes que poucos procuram entender a bela poesia feita por Zé Ramalho.    

Parafraseando uma famosa música de Rita Lee: o que foi que aconteceu com a música popular brasileira? Com aquelas músicas que moviam multidões e que questionavam a sociedade e a realidade social. Existem músicas tão importantes que se tornaram verdadeiros registros históricos da humanidade, é o caso dos artistas que descreveram os períodos mais duros do regime militar, como, por exemplo, a canção "Deus lhe Pague", de Chico Buarque, em que o compositor utiliza a ironia para fazer críticas à situação repressiva que os brasileiros viviam: "Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir, a certidão pra nascer e a concessão pra sorrir. Por me deixar respirar, por me deixar existir. Deus lhe pague". O rock nacional também já foi mais frutífero, quem não se lembra das letras carregadas de críticas sociais da banda Legião Urbana, a exemplo da música "Geração Coca-Cola": "Quando nascemos fomos programados a receber o que vocês nos empurraram com os enlatados dos USA, de 9 às 6. Desde pequenos nós comemos lixo, comercial e industrial". 

Mas hoje, as músicas da moda, em sua maioria, não carregam nada além de vulgaridade, erotização e violência, são apenas medíocres. Hoje, sim, poderíamos chamar de Idade das Trevas a fase cultural em que vivemos. A expressão que caiu em desuso foi utilizada pelo estudioso italiano Francesco Petrarca, para denunciar a literatura latina da Alta Idade Média (do século V ao X) e denominar um período que, segundo ele, nada de útil produziu. Mas, para nós, ainda há esperanças. Mesmo que não seja a curto prazo, pois não vislumbro nenhum interesse ou movimento por parte da indústria musical no sentido de abrir as portas, ceder oportunidades a aqueles, existem, que estão produzindo algo bom e diferente. Tenho reparado virando certas esquinas, que a garotada vem se dedicando com muito afinco em produzir. Não dou a mínima atenção a mídia, procuro fora dela. Tem que se garimpar, mas o resultado é surpreendente. Bandas com ótimas propostas, compositores preocupados com o conteúdo e com a harmonia. Ainda não é um movimento de massa, está longe disso, mas, existe uma galera que acompanha, consome entusiasticamente. Eles são antenados, bebem na antiga fonte, saboreando antigos gostos e regozijam-se com os novos temperos. Muitas apresentações são gratuitas, ficando a critério do público uma doação em espécie, mesmo porque em sua maioria, os locais são abertos, mas mesmo quando se dá em ambiente fechado a entrada é barata. Nessa seara, não há espaço para idolatria, a sintonia harmônica é a que prevalece. Em alguns eventos que eu já fui, percebi que além da atração musical, acontecia interação. Essa abertura proporcionava trocas interessantíssimas, culminando até em apresentação surpresa. Sim, há esperança, mas, no entanto, é preciso que uma revolução cultural aconteça. Talvez nem mesmo nossa geração veja essas mudanças, mas é preciso que nossa nação invista na produção cultural verdadeira e não na diversão pública. A música precisa voltar a ser portadora de tradições e não um mero conjunto de palavras inúteis. Eu ainda procuro acreditar que tudo seja questão de tempo e não o fim dos tempos. Inté! 

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