sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Capitulo 68 – A CRISE DA NOSSA MPB

A música popular brasileira está em crise. Pelo menos aquela que se rotulou, na década de setenta, como MPB. A que se inscreveu na História como transgressora e libertária nos tempos da ditadura. Levando essa bandeira na era dos festivais no circuito Sampa-Rio.
Aliás, essa música, em 2007 comemorou 40 anos dos primeiros festivais, e este ano: 50 de Bossa-Nova.

Os compositores como Geraldo Vandré, Chico Buarque, Edu Lobo, Gonzaguinha, Paulo César Pinheiro, Tom Jobim e Milton Nascimento. Só para ficarmos com sete nomes expressivos dessa época. Apenas o último, o mineiro-carioca de mil tons, conseguiu se fixar, atualizando-se, no gosto da juventude de hoje.

Se não acredita, meu querido leitor, então faça o teste. Pergunte a jovens na faixa de dezesseis aos vinte e cinco anos quem é Edu Lobo, Marcos Valle, Taiguara, Geraldo Vandré? Agora, pasme! Sequer o ícone mais querido Chico Buarque é conhecido.

A culpa é de quem? Das rádios que não tocam mais esses compositores? Não creio. Deve haver outro fator endógeno no meio do caminho como a pedra do poeta itabirano.

O brasileiro padece da enfermidade inquieta do nihilismo. Tudo acaba em nada. Ás vezes dá um tempo como chuva de verão, só para “deixa ficar, que eu quero ver aonde vai dar esse chove não molha”. 

Como se joga fora, descartando-a como passadista, a BOSSA NOVA? O movimento musical mais expressivo da música popular da nossa história. A música que levou o Brasil mundo afora até hoje.
Os que viajam para América do Norte USA, Canadá e México sabem disso. Se for para a Europa aí é que ela continua tocando. Marcos Valle está muito bem obrigado em Londres.

A Tropicália dos baianos ainda sobrevive porque Gil e Caetano sempre tiveram proximidade maior junto aos jovens músicos, aos anseios dos ouvidos mais roqueiros e pops. Hoje você pode escutar hits dos dois até hoje sendo tocados em releitura por bandas de rock.

A minha tese é a de que os grandes compositores da era dos festivais se acomodaram. O público brasileiro, exigente, também descartou essa turma talentosa. Colocando-os como os “órfãos da MPB”. Não há mais milicos atravancando as nossas liberdades para um clima de música de protesto. Por isso mesmo a fórmula dos velhos festivais se exauriu. Muitos, da minha geração sessentinha, se exilaram, também órfãos de Marx, migrando para o esotérico. Na música para a NEW AGE, na literatura para o recontar sufi-bíblico-alcorânico de Paulo Coelho. Muito melhor como parceiro de Raulzito, sem dúvida.

E aonde buscar uma saída? Creio que o exemplo mais expressivo, está na proposta de Chico Science e Mestre Ambrósio em Pernambuco, por exemplo. Há outros indícios de mudança nos recantos mais escondidos do nosso Brasilzão..

Não podemos nos dar o luxo de jogar no lixo boas propostas. Pela nossa riqueza rítmica e cultural. Essa diversidade que encanta estrangeiros ao ponto de aqui virem buscar as nossas batidas e transformá-las, pela beleza e pelo marketing, num batuque universal.

Fica a pergunta em tom de provocação. Espicaçar para traçar uma reta. Antes que acusem o nosso espaço sistêmico pela culpa da pirataria e pela programação das rádios. A Internet é mais embaixo.
Nos versos da música “Alegria, Alegria” cantados e entoados por décadas na voz de Caetano Veloso, o compositor falava dos tempos difíceis e massacrantes do período de repressão da ditadura civil militar que condenou o Brasil durante 21 anos, vitimando milhares de pessoas. Apesar de intitulada “Alegria, Alegria”, sua letra e sentido lírico não denotam em nada momentos de felicidade e satisfação. Caetano magistralmente buscou apresentar toda sua revolta e dor com o cenário político-social da época. Falou através da música, pois era uma das únicas formas que existia para expressar sua opinião sem ser censurado e, consequentemente, preso, torturado e/ou morto. Foram tempos difíceis. Época onde o alcance dos gritos de liberdade e luta eram de difícil abrangência. Tempos em que o advento da informação era limitado e os que existiam eram claramente tendenciosos e apoiadores do regime ditatorial. Artistas como Caetano, Chico Buarque, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Elis Regina, Milton Nascimento, dentre outros, cantaram suas vivências e indignações em canções de sentidos diretos e/ou indiretos.
“Esses artistas procuraram observar de que maneira a situação sociopolítica – censura, controle, repressão, cerceamento de liberdades – imposta pela ditadura foi determinante na forma e nas escolhas discursivas, sendo capaz de fazer surgir um novo gênero musical – o gênero de protesto”(Calazans, 2016).
Justificaram seu povo, sua época e as aflições que nela existiam. Tudo isso sem advento das tecnologias e a extensão que a informação tem nos dias atuais. Isso era 1964. Hoje, 52 anos depois, temos uma velocidade na informação que transpassa o pensar e sua dimensão é imensurável. As situações políticas e sociais não são as mesmas e, consequentemente, com a liberdade política e de expressão, uma paleta de opiniões e pensamentos é tão próxima da existência plena que chega a ser tateável. Com isso, poderíamos dizer que aquela situação de 1964 estaria certamente extinta, ou seja, não haveria espaço jamais para que uma ditadura pudesse impor suas mãos de “chumbo” sobre a opinião alheia e, por conseguinte, influenciar no discurso de quem quer que seja. Pois é, não é bem assim.
Vivemos em nosso país um tremendo estado político-social de preocupação quanto aos inúmeros direitos políticos conquistados a duras lutas e, muitas vezes, banhados a sangue de inocentes. Não quero entrar diretamente no nicho político da questão, até porque esse é bem amplo e complexo. Quero falar do comparativo dos cenários de 1964 e 2016, quanto à representatividade da música e a opinião político-social dos que hoje são os “grandes nomes da música brasileira” e, portanto, fazer um parâmetro do acesso de informações e sua abrangência. Quero falar do artista como uma representação de sua época e seu público.
O ano é 2016 e a visibilidade, seja em qual campo for, é infinitamente maior. Os “15 minutos de fama” nunca se justificaram tanto quanto nos dias atuais. Diariamente surgem inúmeros novos “artistas” e a amplitude do alcance de sua voz (e opinião), é estrondoso. O artista, por si só, é um formador de opiniões, um direcionador social. Sendo assim, entende-se que no cenário político atual muitos dos maiores nomes da música brasileira no momento estariam, com sua popularidade, expressando sua opinião quanto aos atuais acontecimentos, certo?! Não é bem assim. O que existe dessa galerinha é apenas um silêncio quase que ensurdecedor.

Estamos falando de artistas com um enorme público. Aqueles que detêm milhões de seguidores nas redes sociais e que, com isso, teriam suas opiniões alcançadas numa dimensão assombrosa. Afinal, momento mais propício para levar sua fala quanto a sua relação político-social não haveria. Isso só vem a provar que não há engajamento político e social desses artistas. São apenas “business and business”.
É triste enxergar que uma ferramenta tão importante e agregadora como a música brasileira está entregue nas mãos de artistas que tem uma visibilidade enorme, como Ivete Sangalo, Wesley Safadão, Cláudia Leitte, Anitta, mas que, na contramão, nenhum desses faz uso da imagem e alcance que tem para lutar por causas sociais e políticas necessárias. Preferem o “muro” como morada, para não decepcionar nenhum dos lados e não perder parcelas de seu “fiel” público. O campo de batalha não os pertence. Na verdade, não os merece. Não se pede deles uma opinião formada sobre determinado “lado”, mas que expressem de alguma forma o conhecimento do momento, seu povo e o cenário onde atuam. Pede-se que opinem através de suas músicas.
Não é apenas saudosismo, eu juro, mas é inevitável não desejar a presença tão ávida de um Chico, um Caetano, uma Elis, um Gil. E são esses artistas, no seio de um turbilhão de acontecimentos, que estão vindo a público expor suas ideologias e opiniões diversas. São artistas que convergem e comungam de veias sociais e que, diante da conjuntura atual, não se calam e expõem aquilo que pensam (uns mais que os outros). A sociedade precisa se sentir representada na música, pois esse também é um dos inúmeros papéis que esse importante instrumento oferece (não apenas o entretenimento, mas, e principalmente, o cunho político social). Mas tá difícil, viu!
O bom disso tudo é saber que mesmo sem a enorme popularidade “desses artistas” (Ivete, Cláudia, Wesley e outros), temos nomes como Otto, Tico Santa Cruz, Lirinha, Chico César, Thaíde, Criolo, Racionais Mc’s, Mc Carol, Karol Conca, dentre outros, que puxam as correntes das causas sociais e trazem para o debate aberto os temas mais relevantes e necessários do cotidiano. Afinal, Mc Carol já dizia nos versos de Delação Premiada:
“Troca de plantão a bala come é fera
Ontem teve arrego
Rolou baile na favela
Sete da manhã
Muito tiro de meiota
Mataram uma criança indo pra escola…
 …afastamento da polícia é o único resultado
Não existe justiça
Se assassino tá fardado.
Na televisão
A verdade não importa
É negro, favelado, então tava de pistola…”

Essa é a hora. A hora de fazer a revolução também através da música, portanto, play no Spotify e vamos à luta, amigos e amigas…

domingo, 12 de novembro de 2017

Capítulo 67 - O cenário atual da música brasileira enche o saco

 

Ok, isso é um belo de um vespeiro.

Eu deveria ficar com minha boca fechada, pra não arrumar confusão. Mas não aguento, então gostaria apenas de pontuar que, daqui pra frente, é opinião, opinião e opinião. Não sou nem um crítico gabaritado, sou somente um sujeito de gosta de música. Beleza?
Críticos gostam de falar de cenários. O cenário atual do pop, o cenário atual do Rock. A cena do underground. Bom, se a analogia é com artes cênicas, eu creio que a música nacional está passando pelos dias de teatro do absurdo. Por um lado, temos uma indústria totalmente profissional, movimentando montanhas de grana pra produzir merda. Seria como o Gerald Thomas on drugs produzindo uma versão teatral de Chaves. E do outro, lado atores profissionais interpretando Hamlet, mas com cenários produzidos pelas tias do Colégio Primário Toquinho de Gente.
Quando eu era moleque, 80% do que a gente ouvia vinha de fora. E os músicos reclamavam, nos chamavam de colonizados, de alienados, de vendidos aos ianques. Pois corta pra 2016, e hoje mais de 70% do que se ouve é nacional. Bom, né?
Será?
Não vou entrar em juízo de valor. Talvez o caminho seja esse mesmo. 50 anos tentando descobrir quais seriam nossas impressões digitais musicais para chegar a conclusão de que aquilo que nos representa mesmo são duplas de sujeitos gritando com vozes agudas, calças apertadas e chapeus de vaqueiro. Mas como isso cansa.
Eu me encontro bem de mau com a música nacional. Não tenho saco, não tenho paciência, tudo me causa náusea, sono, revolta ou os três juntos, o que é quase um daqueles episódios de Pokemon que despertavam epilepsia.
Não aguento ouvir falar de mais uma música sertaneja cujo refrão é alguma expressão idiomática levemente modificada, ou alguma onomatopeia. Não aguento mais saber que eles gostam tanto de cerveja, mulher e alguma outra coisa aleatória, estou cagando para o fato de que eles levaram um chifre e estão tristes, mas vão superar e dar a volta por cima. Não quero mais mistura de guitarra com sanfona.
Não consigo acreditar que ainda existam variações de temas para cantar como Salvador no Carnaval é bom. Que existam formas novas de falar “tererê-tê-TÊ-rê-RÊ!” em axés, nem maneiras físicas de “sair do chão” e “quero ver as mãos” que a lei da gravidade e da anatomia permitam.
Por outro lado, grande parte da chamada Nova MPB me dá sono. Primeiro, porque tudo que eu falei até o momento deveria ser MPB, já que é popular, e bem, infelizmente é brasileiro, mas como não faz parte desse clube de gente chique e com cara de quem acordou e não penteou o cabelo, fica de fora. Mas me falem a verdade, as pessoas precisam ter nascido com uma paciência de Jó para aguentar a quantidade absurda de “iáiás e iôiôs” e “shimbalauês” dessa galera. É muita fofinhice, muito complexo de emoticon, muita bundamolice. A MPB séria perdeu os dentes, e vive cantando o quanto sopa de água com amor é lindo.
Aliás, gente, que tanto amor é esse? Ok, como diria o Paul McCartney, eu gosto de tanto de “tolas canções de amor” quanto qualquer um, mas pra tudo há um limite. Eu não sei o que se esgotou, se foi o assunto, a coragem para falar dele ou a minha paciência. Mas sinto que essa galera supernhóim não quer muito ficar colocando o dedo em feridas que podem desagradar uns e/ou outros. E dessa forma, vai ficar difícil alguém escrever um novo “Como nossos pais”, ou um “De Frente pro Crime”. É tudo gostosinho, melódico, suave e brocha.
O lado contrário disso é o funk, que, segundo algumas correntes ideológicas, eu deveria respeitar, porque é música do povo, pelo povo e para o povo, mas catzo, como eu acho ruim, primário, tosco. Pra mim o funk (a corrente carioca do funk, que fique claro) é uma piada que alguém levou a sério. As primeiras vezes que ouvi era quase uma atividade humorística. Alguém tinha um CD de proibidão para ouvir os caras gritando barbaridades como quem tem uma fita do Costinha ou do Manhoso no carro. Era zueira. Mas parece que alguém levou a sério, porque agora tem gente que ouve funk mesmo. Assim, direto, playlist com 200 músicas seguidas no celular, para ouvir no talo enquanto trabalha. Ou no ônibus, no alto falante do carro, em qualquer lugar, desde que todo mundo ouça junto, queira ou não.
Os temas são de uma diversidade de impressionar qualquer boteco. A julgar por essa produção cultural, a favela (desculpem se parece reducionista, mas todos os funks que eu ouço falam somente da favela) só quer saber de transar com as novinha, de usar droga e detonar a polícia. Nas vertentes femininas, a situação se inverte, mas não o teor. Há quem diga que é música do povo. Eu acho bem triste se for. Ver rico ouvindo essa música como se isso, por si só, fosse um movimento de contra cultura é apenas patético. Tenho saudade da época que qualquer pessoa precisava se curvar à genialidade de um Cartola. Sinto que esse espasmo de boçalidade possa estar eclipsando o aparecimento de novos talentos genuínos, indispensáveis.
Há pouco tempo eu assisti a uma velha entrevista do Cazuza num programa da Marília Gabriela, e fiquei pensando: que sujeito interessante. Quantas opiniões diversas, surpreendentes, que inteligência. Mesmo quando eu não concordava com ele, era admirável a facilidade e soltura que ele exprimia suas opiniões, com aquela cara de foda-se se você não gostar. Livre. Não era só ele: corra no Youtube, e assista qualquer entrevista de TV concedidas nos anos 80 e 90. Não é uma questão de nostalgia, parece que havia mais o que falar.
Hoje, quando vejo as musas da música nacional falarem mais de 3 frases, elas estão sempre sendo juradas de algum programa que premia quem canta mais tempo em contralto qualquer coisa com a entonação de uma Whitney Houston da Bahia, ou estão dizendo qual demaquilante ou creme antirrugas elas usam para deixar a pele como seda após os shows. Raro quando alguma declaração me faz parar por mais de cinco minutos para ouvir.
E os “musos” da música nacional? Quem são? Se alguém souber, me fala por favor. Mas tem que ser alguém que não vá comentar sobre plantação de tomate ou sobre o pôr do sol em Cuiabá. Me diz alguém como o Caetano, por favor. Alguém que tenha mais o que dizer.
Talvez porque eles só se pronunciem através dos assessores de Social Media deles. E só se vistam através dos Personal Stylists. Em entrevistas com pautas pré-decididas, com fotos grandes, em praias desertas. E mesmo assim, alguns desses gênios ainda conseguem dizer que “se pegassem tal repórter gostosinha, a quebraria no meio”. Que decepcionante isso vindo de um país que tinha um Vinícius de Moraes, que conquistava com suas namoradas com poesias. E olha só que coisa demodê (ainda se fala demodê?), casava com elas.
É triste perceber que até o momento não falei do rock. É que por decisão editorial, prefiro falar sobre quem ainda está entre nós. Os defuntos, esses é que não movem moinhos mesmo. De uma forma triste, o rock parece uma planta mais rara. Não consegue viver num cenário de desolação tão absoluta.
Mas pra não dizer que não falei das flores, é justamente dele que sinto mais falta. Na minha juventude, era do Rock que vinham as vozes que diziam o que eu não tinha maturidade pra dizer. Eram os Renatos Russos, Lobões, Leos Jaimes e Cazuzas que traduziam nossas angústias, fossem elas políticas, sexuais ou amorosas. Eram eles que sentiam o que eu não sabia em dar nome. Eles eram nossa voz. Hoje meu filho bem que procura, mas acaba encontrando seus temas nas mesmas vozes que eu encontrei há tanto tempo.
Curiosamente, o que (literalmente) movimenta os jovens de hoje é a música eletrônica, e seus festivais (literalmente) intermináveis, com horas e horas e horas de som ininterrupto batendo sem dó na cabeça do povo. Não que eu entenda, mas costumo ver os eletrônicos com mais simpatia, porque pelo menos parecem estar experimentando mais, brincando mais, se atirando de maneira menos corporativa e mais corajosa. Porém, veja que interessante, a grande maioria das músicas não tem nem letra.

A julgar pelo silêncio no horizonte da música popular, ou essa geração não tem problemas, ou nasceu muda. Inté!