terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Capítulo 83 – MPB: JÁ CHEGAMOS AO FIM DO POÇO?
(Parte I)
A polêmica sobre o “FIM DA CANÇÃO” agitou críticos, compositores e cantores quando Chico Buarque, em entrevista a jornais em 2009, declarou que a canção, como a conhecemos, pode ter se esgotado e estar encerrando seu ciclo na História. ” A canção talvez seja um fenômeno do século passado no Brasil. A minha geração, que fez aquelas canções todas, com o tempo só aprimorou a qualidade de sua música. Mas o interesse hoje por isso parece pequeno”. Chico se refere à canção mais elaborada musicalmente e com letras densas e ricas.
A julgar pela qualidade das músicas que são divulgadas nas mídias mais populares, somos obrigados a concordar que nossas “canções” perderam seu lugar, estando cada vez mais distantes do povo. A sociedade de consumo atingiu a produção artística, e seus “produtos” se tornaram descartáveis, servindo apenas e tão somente ao entretenimento passageiro. São como os produtos de plástico: mais baratos, atendendo à voracidade do consumo de massa. “Produtos” mais elaborados ficam restritos a “públicos” mais exigentes.
A televisão e as mídias impressas mais populares têm o poder de glamurizar personagens pelo seu visual, não importando o conteúdo apresentado. Viram “celebridades” da noite para o dia, arrebanhando uma legião de fãs. Exemplos não faltam na cambaleante música popular brasileira.
EXEMPLOS DE LETRAS DE MÚSICA
1-Do chamado “sertanejo universitário” seleciono aleatoriamente versos dos galãs Victor e Leo, que fazem estrondoso sucesso:
Percebo que o tempo já não passa. Você diz que não tem graça amar assim. Foi tudo tão bonito, mas voou pro infinito
Parecido com borboletas de um jardim
Agora você volta
E balança o que eu sentia por outro alguém
Dividido entre dois mundos. Sei que estou amando, mas ainda não sei quem
2-Do “forró universitário”, extraio o refrão abaixo:
É nóis fazer “parapapa” “parapapa” “parapapa”
Agarrar, beijar
Fazer “parapapa”
É nóis fazer “parapapa” “parapapa” “parapapa”
Agarrar, beijar
Fazer “parapapa”
3-Do bonito e simpático Luan Santana, ídolo de multidões:
Ela é uma mulher menina. Que precisa urgentemente ser mais forte. Ela quer alguém que leia seu sorriso
Antes de olhar o seu decote
Ela vê suas amigas se entregando
Ao primeiro que aparecer
Numa tentativa boba de se preencher
Como disse, catei aleatoriamente essas letras. Não conheço as melodias. Os leitores hão de convir que todas elas não têm o mínimo compromisso com beleza, estética, criatividade e riqueza de conteúdo. Um amontoado de ideias e rimas pobres (quando há). Que importa! Prevalece o visual dos “universitários” que provoca delírio em multidão de fãs. Entretenimento passageiro. Ibope certo para os “domingões musicais”.


 (Parte 2)
Sempre tivemos músicas ruins. Não é característica do momento atual.
No final dos anos 50 (antes da fabulosa safra musical da década de 60), tínhamos ainda resquícios dos bolerões e guarânias importados e de gosto duvidoso, algumas baladas bem fraquinhas que vinham dos Estados Unidos, muitas canções com letras malfeitas e uma infinidade de versões que nem sempre traduziam com fidelidade as letras originais. Mas havia na MPB um núcleo de qualidade que prenunciava os grandes “movimentos ” de 60. Ataulfo Alves, Noel Rosa, Ary Barroso, Dorival Caymmi e muitos outros “grandes” garantiam o “DNA” positivo responsável pela excelência da MPB.
Dick Farney (meio americanizado), Johnny Alf, Tito Madi, Dolores Duran, Antônio Maria, Braguinha (“Copacabana, princesinha do mar…”), Pixinguinha, Dóris Monteiro (“Mudando de Conversa”), Miltinho (“Cara de palhaço…”), Lúcio Alves, Elza Soares (magnífica), Sylvia Telles, Alaíde Costa, Nora Ney, Leny Andrade, só para citar alguns, já compunham, tocavam ou cantavam hits “preparatórios” ou “introdutórios” para a chegada da Bossa Nova. O famoso “Beco das Garrafas” no Rio pariu esse novo movimento na MPB. Aí vieram João Gilberto, Vinicius, Tom, Carlos Lyra, Menescal, Bôscoli, Nara Leão, e tantos outros trazendo esse som que ganhou o mundo e até hoje é sucesso no exigente mercado americano, na Europa, no Japão e em muitas partes do planeta (quase esquecido no Brasil). O que falar da dupla Tom Jobim e Vinicius?
Em meio aos Beatles, a MPB ganha força com a mais valiosa e extensa safra de compositores surgida de uma só vez. Não dá para citar todo mundo. Vou de Chico, Caetano, Edu, Vandré, Gil e paro por aqui para não se pensar que é uma lista exaustiva. A MPB explode nas mídias, trazendo artistas geniais: Elis, Elizeth, Betânia, Gal, Rita Lee, MPB-4, Quarteto em Si, Zimbo Trio e uma porção de intérpretes incríveis. A Tropicália libera a guitarra para a MPB e tira do baú gênios esquecidos, recuperando-lhes o merecido prestígio popular: Luiz Gonzaga, Cartola, Nelson Cavaquinho, Ismael Silva, Adoniran Barbosa, Carmen Miranda e muitos outros. A Televisão se firmava como mídia favorita do povo, superando no quesito música o Rádio (que passou a privilegiar noticiários e utilidade pública, exceção ainda às FM’s com muita música importada e insuportável).
Jovem Guarda trouxe na mesma época uma resposta à brasileira ao “Iê,Iê,Iê” de Liverpool, com Roberto e Erasmo fazendo coisas boas e ruins (muitas versões de gosto duvidoso). Na esteira do movimento, surgem cantores ruins e músicas “fraquinhas” de apelo popular. Mas foi um movimento de muito sucesso, nas “jovens tardes de Domingo”. As coisas boas dessa turma permanecem até hoje.
Primeiro a TV Excelsior e Tupi depois a Record se encarregaram de difundir todos esses movimentos musicais com programas como “Brasil 60” (61, 62…mudando conforme o ano; apresentado por Bibi Ferreira), “O Fino da Bossa” (Elis e Jair Rodrigues), “Bossaudade”(Elizeth Cardoso),”Encontro com Luiz Vieira” ( “Menino Passarinho”,”Menino de Braçanã), “Spotlight” (Simonal), “Show em Si…monal”,  “Jovem Guarda” e outros, além dos famosos festivais de MPB.
Nos Anos 70 o Samba veio forte com grandes composições, tendo Paulinho da Viola como “mestre”, os compositores das “velhas guardas” das Escolas de Samba, com intérpretes do naipe de Clara Nunes, Beth Carvalho e Alcione. e muitos bambas, João Nogueira, Martinho, Roberto Ribeiro (voz belíssima, dicção perfeita) fazendo o melhor do samba brasileiro. e letristas estupendos como Aldir Blanc (“O Bêbado e Equilibrista”) e Paulo Sérgio Pinheiro (“O Poder da Criação”). Até o Chorinho ressurge, aproveitando a onda do melhor momento da MPB. Os gênios de Altamiro Carrilho, Waldir AzevedoSivucaPaulo Moura e outros chorões saíram das tocas para mostrar arte pura. Enchiam grandes auditórios e podiam ser ouvidos nos programas de maiores ibopes da TV. Era Chorinho pra todo lado! Os jovens até ficaram sabendo quem eram Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth.
E a qualidade musical continuou com Ivan Lins, Milton Nascimento, Gonzaguinha, Toquinho, Alceu Valença, Zeca Pagodinho e tantos outros.
O que acontece- obviamente sob meu ponto de vista- é que essa qualidade começa a deteriorar-se a partir dos Anos 80. Não que parassem de surgir ótimos compositores e cantores. O Brasil será sempre celeiro de grandes músicos. As transformações aceleradas no mundo, movidas pelo avanço supersônico da tecnologia, parecem ter aberto espaço para o “mercado-rei” e suas exigências de lucro rápido, público crescente e consumismo desenfreado, atingindo de frente a produção musical e artística em geral. Tudo vira “produto” para consumo imediato e descarte à medida em que surgem sucedâneos mais  “comerciais”. E daí o que se pode esperar? Produção massiva e qualidade lá embaixo. Analogamente: produtos de metal substituídos por produtos de plástico.
O bom e autêntico samba dá lugar a “pagodinhos” feitos sem qualquer esmero nas letras e com melodias que poderiam ser passadas tranquilamente para “bolerinhos”. Ganhando muito dinheiro, surgem conjuntinhos de “pagodeiros” em que somente um se sobressai para depois sair do grupo e fazer carreira solo. A música caipira ou sertaneja de raiz (que antes só ocupava as madrugadas nas rádios) vira “sertanejo universitário”, com uma infinidade de duplas enriquecendo-se em “rodeios” pelo Brasil e agora invadindo até o Carnaval da Bahia. A qualidade das músicas é a pior possível. Mas isso não vem ao caso. Para as mídias populares, capitaneadas pela TV, o que interessa é o visual da rapaziada arrancando suspiros de fãs apaixonadas. Quanto mais “ibope” mais patrocinadores e cifrões. A resistência ainda se vê nos autênticos, padrão Almir Sater, Renato Teixeira e Sérgio Reis, bancados por programas como os de Inezita Barroso e Rolando Boldrin.
O que me impressiona é a qualidade que vai se deteriorando ano a ano. O brega em um ano é menos ruim que o brega seguinte. Waldick Soriano e Reginaldo Rossi são menos ruins que Odair José que, por sua vez, é menos ruim que Amado Batista que, por sua vez, é menos ruim que um tal de Tayrone Cigano (descobri esse “cantor” em Salvador, fazendo o maior sucesso com o povão; é péssimo!).
Carnaval tem sido um exemplo claro dessas minhas constatações. Um ano a “Eguinha Pocotó” é o hit. No outro é o “Créu”, no seguinte é o “Rebolation”, no outro é o “Lepo Lepo”. Consome-se o “produto” para descartá-lo em seguida. Mais uma vez: não importa a qualidade. Nada é para ficar, para durar mais que um ano! Plástico barato.

Carnaval virou um rentável “produto comercial”. Se fosse só isso, nada de mal. Muita gente se arruma com uma fonte de renda nessa época. A questão que enfoco é a decadência musical. Considero também que a “festa” anda se descaracterizando, transformando-se em espetáculo para as tevês. Na Bahia, por exemplo, onde o Carnaval tem a fama de ser o melhor do Brasil, os tradicionais “Trios Elétricos” (Dodô e Osmar) movidos a frevo (Moraes Moreira e o grande músico Armandinho) deram lugar a possantes “carros -palco” de som, onde em um longo percurso vai se apresentando todo tipo de música. São verdadeiros palcos volantes, vitrines para os sucessos do ano. Os cantores param de cantar para longas conversas com os repórteres das tevês e com o pessoal dos camarotes. Aliás- diga-se de passagem-  a “camarotização” nos carnavais é uma forma de segregar famosos e endinheirados do grande público. E mais que isso- oferecer outras opções de música para os “camarotizados”. A reação a esse tipo de Carnaval tem sido observada ano a ano com a proliferação de bandas que saem semanas antes, principalmente no Rio e em São Paulo. Já passam de 1000 no Rio e perto disso em São Paulo.

Milton Pereira

segunda-feira, 13 de agosto de 2018


Capítulo 81 – A MPB ESTÁ EM TOTAL DECADÊNCIA.
 Em meio aos anos 60 a 90, as músicas eram o espelho da alma artística, movidas por grandes reflexões, protestos, questões ambientais, romantismo, ciclo familiar, situações do dia-a-dia. As composições transmitiam emoções, mensagens, sentimentos. Era algo enriquecedor, alegre, bom para os ouvintes. Muitos músicos sofreram pela censura de suas letras musicais, pela cor de sua pele, pelo modo de se expressar, pelo estilo das vestimentas e por ser músico.
A discriminação e o racismo continuam presentes no meio artístico, a maneira que olham para os músicos, ainda não enxergam como profissionais e sim como uma pessoa que não tem se quer um futuro promissor. Porém, hoje, a sociedade enxerga estes profissionais diferenciando-os entre os mesmos, famosos e não famosos. A desvalorização da profissão artística, derrubou diversos talentos, e levantou outros, entre estes, houve a ridicularização artística. Os músicos de qualidades, perderam o espaço de escolha musical, estilos e composições, itens qualitativos que predominam uma boa sonoridade.
Estes fatos, ocorrem por algumas circunstâncias econômicas, estrangeirismo, predominação social, autoridades governamentais e etc. A realidade que vivemos é triste. A liberdade de expressão tornou-se um fator vergonhoso, onde o objetivo das músicas elaboradas, vem desmoralizando a mulher, reforçando o vandalismo, a criminalidade e desfazendo de uma sociedade e de um país rico culturalmente, musicalmente e artisticamente. Sabe-se que a música tem um poder de mover a grande massa, pessoas de diversas classes sociais e diferentes culturas ou situações, isso tudo, através dos ritmos, compassos, letras e estilos musicais.
A MPB está em total decadência. O consumismo vem prevalecendo no meio artístico, tornando o capital, o principal motivo de uma apresentação ou evento, e não mais a paixão pelo o que se faz. Assim, os profissionais passaram a investir em estudos e trabalhos fora do ramo musical por um tempo, e outros para sempre. Por que deixar o mundo preto e branco se temos diversas cores? Estes artistas, que tanto lutam por uma posição digna, são as pessoas que mexem no mundo de modo a colorir e espalhar alegria por onde tocam e cantam.
Posterior a esta crise no meio artístico, houve uma transformação, a passagem de jovens talentos, novos ritmos e investimentos. Hoje vem alcançando a sociedade através das músicas sertaneja, arrocha e funk. Este nosso ciclo tem trazido músicas compostas de letras baseadas em traições, sofrimentos, infidelidade, ostentações, protofonias e utilizando a figura feminina como símbolo sexual e objeto de prazer, além das letras que transmite aos ouvintes ofensas, agressões e gestos pornográficos desvalorizando a mulher brasileira.
A proporção que a MPB não evolui da raiz existencial, nos faz pensar: são estas, as músicas que tenho para escutar, são estas palavras desrespeitosas que tenho para ouvir? As mulheres trabalhadoras, donas de casa, alicerce de sua família, que lutaram e lutam pela igualdade, liberdade e contra o preconceito, são estes, o retorno de suas conquistas e batalhas que devemos escutar nas rádios, internets, televisões e celulares?
Contudo apresentado, é vergonhoso o comparativo da censura sob as músicas que tanto agregavam a sociedade e a evolução cultural artística de antigamente, diante da liberdade de expressão vista nos últimos tempos, onde não há repúdio e nem legitimidade para a retirada destas canções que constrangem o povo, a conduta, a moral, a ética, as lutas, a história e a cultura brasileira, nordestina e da Bahia.
O samba, o baião, o forró, o pagode alegre saudável, a MPB, fazem parte de uma história, de vários marcos sociais, de períodos da evolução do Brasil. E por isso, devem ser mantidas por gerações, respeitadas e engrandecidas, e não esquecidas ou substituídas por novos rits populares que desmerecem o povo e sua culturalidade por difamações e negligências verbas e dançantes. A cultura brasileira por vez, precisa ser continuada a rigor da sua evolução histórica e enriquecida de conhecimentos. É importante lembrar que ao exterminar a MPB, estarão extinguindo a história de um povo e a cultura de um país chamado Brasil.
Quem domina a música brasileira hoje são o axé, funk, brega, pagode e forró universitário.Temos agora um novo estilo de musica, o "sertanejo universitário", seja lá o que isso signifique. Hoje, você não precisa mais ser artista para entrar no ramo de música; basta saber dançar, ter um corpo em forma e saber ler e escrever um pouco. Qualquer imbecil pode fazer sucesso na atual música brasileira. Músicas ridículas como "Rebolation", "Créu", são um pequeno exemplo do patético momento em que passa à música brasileira. Isso porque os ritmos que estão dominando o país são voltados para a dança, e consequentemente as letras ficam em segundo plano. Não que dançar seja ruim, mas não precisam colocar letras tão baixas, não é? São letras tão ridículas que as vezes fico surpreso como essas coisas que as pessoas chamam de "música", podem fazer sucesso. Naturalmente, como não é preciso ser muito talentoso para fazer sucesso no atual momento da nossa música, o nível dos "artistas"(eles não são artistas, mas vou chama-los assim para mostrar um mínimo de respeito cai drasticamente. São raros os grandes cantores.
Para não dizer que nenhum presta, o axé baiano revelou Ivete Sangalo, que se não é compositora (competente), é uma bela cantora. Em termos de compositores, prefiro não falar muito para não ficar triste: basta ouvir as letras das músicas que estão fazendo sucesso ultimamente. Lixo. Mas porque estamos assim? Como chegamos nessa lama? Bom, a partir do momento em que os mercados da música, literatura e cinema ficaram multimilionários, os produtos precisaram ser vistos de duas maneiras: a comercial e a artística. Muitos cantores e bandas vendem seus produtos bem rápido, ou seja, são bons do ponto de vista comercial; todavia do ponto de vista artístico são um lixo. Veja o "rebolation" por exemplo. A música fez sucesso tão rápido e sumiu tão rápido. Ela nunca será lembrada daqui a dez anos. E porquê? Porque é um produto descartável.
Por outro lado, existem produtos que são bons do ponto de vista artístico, mas não ficam populares. Quantas músicas, filmes e livros bons você já viu que não fizeram muito sucesso? Vários, não é? E tem também aqueles mais incomuns, que são bons tanto artisticamente quanto comercialmente, como a Legião Urbana por exemplo. Infelizmente, o mercado de música brasileira está repleto de produtos que são bons do ponto de vista comercial, mas são patéticos do ponto de vista artístico.
E enquanto ficarmos assim, não teremos grandes compositores, grandes cantores dando as caras por aí. Somente palhaços e palhaças com suas músicas vergonhosas. Esperamos que o rock, reggae, mpb e outros estilos que favorecem mais a inteligência e a poesia, voltem a brilhar no nosso país. Chega dessas músicas de nível baixo, feita para pessoas com pouca coisa na cabeça. Chega de músicas patéticas.



sexta-feira, 22 de junho de 2018

Capítulo 80 - COMO DEFINIR SE UMA MÚSICA É BOA OU RUIM?

Então, você definitivamente já ouviu, e provavelmente já falou, que alguma música é “muito ruim”, e aí alguém certamente chegou e discordou. Será que qualidade é uma coisa subjetiva? Minha resposta para esta pergunta é um sonoro não; qualidade é, com certeza, algo que existe mesmo na arte. A questão é: que critérios definem realmente o que é uma música de qualidade? Esta é a parte difícil. Como lidar com isto sabendo que, independente do seu critério, deve haver algo na sua playlist que seria definido como ruim? Antes, preciso deixar algo claro: O que direi aqui é baseado nos critérios que adotamos aqui na Q Stage para darmos notas às críticas musicais, que foram definidas após conversas com doutores em jornalismo e música. Apresentarei e explicarei os cinco critérios que julgamos necessários para parametrizar as críticas; é um artigo de utilidade para os interessados em fazer críticas, um artigo de transparência com nossos leitores e até mesmo um artigo de reflexão, já que é possível definir variados critérios de análise para definir boa música. Não quero mudar o gosto musical de ninguém… Eu mesmo gosto de Limp Bizkit, que em alguns casos é considerado ruim. Gosto é diferente de qualidade. Bem. Vamos então para os critérios: 1. Inovação Este critério aqui depende do contexto em qual a música foi criada. Funciona da seguinte forma: a música soa como todas as outras músicas do seu gênero? Você tem a impressão de já ter ouvido isso mil vezes antes? Se sim, você pode estar olhando para uma música ruim. Ou talvez não ruim, mas provavelmente preguiçosa. Isto acontece em todos, ou quase todos, os estilos musicais. Mas é mais notável em estilos muito criticados, como o funk carioca e o pós-grunge (gênero de Nickelback, The Calling, etc). Independente do estilo, é comum vermos músicas cujas características são inevitavelmente trazidas intactas de outras músicas do meio. Uma exceção é quando o atributo copiado vem de outro estilo musical; isto, em si, é geralmente inovador. O negócio é mais feio quando se compara trabalhos do próprio artista. Muito embora haja, obviamente, uma licença e praticamente uma obrigação ao artista que suas músicas venham com sua marca registrada, certos artistas abusam um pouco, especialmente dentro de um mesmo álbum, onde coesão musical entre cada música é algo desejado. Geralmente isto se torna critério de crítica ao artista, e não às suas músicas. É por isso que, por exemplo, o álbum Defying the Gods, da banda Rise To Fall, um álbum fraco apesar da maioria das músicas me agradarem. Confira Whispers of Hope e Reject The Mould (músicas que vem literalmente uma atrás da outra na sequência do álbum) para entender o que eu quero dizer. Por outro lado, há artistas e grupos que, só por fazerem o tipo de música que fazem, já escapam de soar similares a outros músicos. É o caso, por exemplo do U2, do Red Hot Chili Peppers e do System of a Down, bandas praticamente inimitáveis. Estrutura da música, arranjo, compasso e mesmo atributos simples como tempo e tom de base são algumas características que poderiam mudar de música para música. Músicas excepcionalmente únicas podem ocorrer quando se “brinca” com estes elementos; um dos meus exemplos prediletos é ‘Revive My Wounds’, da banda Sybreed, que cria algo bem diferente, apenas se utilizando de melodias nada usuais.

2. Variedade Quando uma música é repetitiva, realmente é um pouco difícil de se apreciar. Aqui temos outro motivo pelo qual o funk carioca é tão detestado. O hip-hop também tende a sofrer muito neste critério, e música eletrônica geral, mais ainda. Nesses estilos, é típico que a variedade dentro da música seja escassa, com uma estrutura que se repete com pouquíssima variação, e com mudança significativa apenas nas letras (quando há). É importante notar que a relação entre variedade e qualidade não é exatamente linear. O estabelecimento bem-sucedido do sistema “verso-refrão-verso-refrão-bridge-refrão” indica que alguma repetitividade pode ser beneficial à música. Por outro lado, pela minha experiência, uma música com estrutura mais variada tende a ter um potencial maior. O arranjo, a estrutura, as melodias e o ritmo ao longo da música podem determinar o grau de variedade de uma música; quando muitos destes aspectos são estagnados pela duração da música, temos uma música pouco variada. É um desafio maior quando as músicas são longas. É meio difícil encontrar um exemplo bom de uma música variada, já que este critério é mais eficiente em se encontrar músicas ruins que músicas boas. Mas uma música que acho apropriada é a música ‘Quando o Galo Cantou’, de Caetano Veloso. São 4 minutos de música com uma variedade bem considerável; o arranjo, o ritmo, o tempo e a melodia (principalmente da voz) variam muito ao longo da música, mas não mais do que o necessário. Sim, a letra se repete duas vezes durante a música, mas repare que na segunda repetição há uma grande variação na melodia. Em fato, a música é tão bem planejada que certas partes são compridas o suficiente para gerar tensão, e curtas o suficiente para evitar estagnação.
3. Agradabilidade Este critério é, mais precisamente, direcionado à probabilidade de atrair ouvintes, o que em si pode ou não ser indicativo da qualidade musical da obra. Aqui, a música pop triunfa. Independentemente do que você possa achar da música popular ou de como as músicas mais famosas possam tropeçar nos outros critérios, este é o seu reino. A ideia é bem simples: um foco em melodias “grudentas”, que sejam agradáveis ao ouvinte. Como já mencionado antes, esta é a especialidade da música pop. O uso de melodias agradáveis como pedra angular em uma música também é muito empregado no rock (assim como em algumas vertentes do metal, que até recentemente só queria fugir de tudo que soasse “agradável”), em alguns subgêneros da música eletrônica, em trilhas sonoras (nas décadas de 80 e 90, uma melodia agradável era essencial para trilhas sonoras de games, graças às limitações tecnológicas dos chips de som da época) e, logicamente, em jingles. Uma música agradável não precisa ser genérica. Temos Reaching Home, da banda holandesa Textures, que apresenta muita síncope (deslocamento inesperado do ritmo) e melodias menos usuais.

4. Conteúdo (letra e melodia) Agora, este é provavelmente o critério mais polêmico. Alguns acreditam na letra como o aspecto mais importante de uma música, outros dão tão pouca atenção às mesmas que preferem ouvir música instrumental. A maioria dos ouvintes de metal não prestam muita atenção na letra, já quem gosta de música sertaneja valoriza muito a história ali contada. Além disto, as próprias qualidades de uma boa letra ou melodia podem ser consideradas subjetivas. Tem gente que gosta ouvir a Lady Gaga falando sobre ser rica, outros gostam de ouvir Padre Marcelo Rossi louvando a Deus, tem gente que prefere ouvir Burzum fazendo exatamente o oposto, ou há quem goste da ideia de jogo de palavras que burlavam e criticavam a ditadura, como é o caso do Titãs. Portanto, para se estabelecer objetivamente um critério de qualidade, é necessário analisar a poesia e o contexto histórico, político e social de quando a música foi lançada. A Lady Gaga falando sobre ser rica, por mais que algumas pessoas achem fútil, fala da forma de vida e dos problemas de uma determinada classe social, dentro de um determinado período da história. A banda Pink Floyd é um exemplo, que lançou a música ‘Another Brick in The Wall’ em 1979, expondo e criticando o modelo pedagógico daquela época. Há um contexto histórico-social bastante forte na trama contada, somado a melodia que também carrega uma carga pesada e marcada, como se as crianças fossem soldados. Mesmo se a música fosse instrumental, através dos sons de maquinários de empresas (se referindo a revolução industrial), e o clima tenso da melodia, já é possível definir o tom de crítica da música e uma ideia, mesmo que nebulosa, sobre o que se trata o conteúdo dela dentro daquele contexto.
5. Detalhes O critério de detalhes é o mais simples de entender. O quanto foi feito para que a música tenha as características desejadas? Foi uma obra preguiçosa ou meticulosamente trabalhada? A música eletrônica tem alto potencial pra cumprir esta função, já que seus atributos são mais fáceis de se manipular. Muitos consideram que, em termos de qualidade, a música atual não chega aos pés da música clássica pois, assim como nas demais artes clássicas, a atenção aos detalhes era tudo. Mesmo assim, qualquer estilo musical pode beneficiar deste atributo, é só o autor querer. Ainda sim é raro músicas com atenção a detalhes em gêneros como o punk rock, o funk e até sertanejo universitário.

O que acham? Tem algum critério que gostariam de ressaltar? Ou contestar? Triste por que eu detonei seu gênero favorito? Irritado porque fiz propaganda demais de algum outro gênero?

Gui Venancio

segunda-feira, 28 de maio de 2018


Capítulo 79 – MPB MAIS POBRE E BANAL; DE QUEM É A CULPA?
A música brasileira nunca esteve tão simplória, confinada em letras que abusam de palavras repetidas e de poucos e recorrentes acordes nas composições. Os responsáveis por esse movimento não são exatamente os atuais sertanejos, mas o rock nos 1960, o rap nos 1980 e, principalmente, a massificação cultural do país desde o auge de Faustão e Gugu Liberato em seus programas de auditório.
A conclusão acima está em um estudo do pernambucano Leonardo Sales, um dos mais completos já publicados sobre o tema no Brasil e o primeiro a ir a fundo em questões harmônicas. Para chegar a um veredito o que para muitos é mais que óbvio, ele selecionou 532 artistas nacionais, analisando o espectro de letras e acordes.
A radiografia musical é baseada nos acervos dos sites Letras.com.br (102 mil letras) e Cifras.com.br (44 mil cifras). Privilegiou-se artistas com mais de dez cifras e gêneros com mais de 20 artistas. Apenas faixas com pelo menos 50% do vocabulário em português e palavras constantes no nosso dicionário entraram na análise de dados.
Essa metodologia, como qualquer outra, têm lá suas limitações. As cifras extraídas, por exemplo, não são necessariamente as oficiais do artista. Muitos jamais chegaram a registrar a notação. “Claro que música é muito mais complexo que isso. A intenção é apenas pontuar certos aspectos das músicas e analisá-los, no limite do que é quantificável pela análise de dados no computador.”
Segundo a pesquisa, a música brasileira foi brutalmente "simplificada" com o advento do rock e da Jovem Guarda nos anos 1960. Passada a moda de Roberto, Erasmo e Wanderléa, os sons voltaram se intrincar, mas é nítido que ao longo das últimas décadas eles vêm ficando mais fáceis. Isso tem a ver com a popularização do rap a partir da década de 1980, que maximizou o número de palavras e diminuiu o de acordes, e com o intenso processo de massificação que hoje tem reflexo no quase monopólio do sertanejo nas paradas. “Houve uma mudança do perfil do artista. Antes, ele era mais elitizado. Tinha que saber compor e tocar. Com a mercantilização da música, hoje ele pode se lançar sem saber muito de música, sabendo só cantar e se apresentar. ”
Em termos de riqueza artística, não tem para ninguém. Chico Buarque lidera com folga o coeficiente brasileiro de complexidade musical. Não por acaso, o cantor e compositor carioca é o artista nacional que mais gravou acordes distintos na carreira. Na sequência dos complexos, aparecem, na ordem, Djavan, Ivan Lins, João Bosco, Ed Motta, Caetano Veloso, Lenine, Vinicius de Morais e Simone. O técnico Ed Motta encabeça no ranking de tamanho de acorde (aqueles enriquecidos com mais notas), enquanto Lenine é o primeiro em matéria de raridade deles, o que torna o pernambucano, ao menos cientificamente, um dos artistas mais originais do país. Na outra ponta da lista, a dos músicos menos complexos, estão nomes como Michele Mello, a banda Malla 100 Alça e o --lembra dele?-- grupo Rouge.
Você sempre odiou os funkeiros, argumentando que o gênero é o mais pobre e simplista da música? Bem, ao menos sob a ótica da quantidade de acordes, há aí um bom argumento. O estilo nascido nos morros do Rio é o que menos faz uso de notações distintas. A repetição também é a tônica do rap, do brega, da música regional e do reggae, que aparecem na sequência --sim, o reggae é mais simples, que ritmos como o forró, o axé e o sertanejo, que já são relativamente descomplicados. Outra: o samba/pagode é bem mais complexo harmonicamente que o rock. Já no número de palavras e na raridade delas, o rei é o rap: só ele consegue bater a MPB, o estilo mais rico da nossa música, seguido da bossa nova. Entre os artistas, o grupo paulistano Facção Central é o primeiro lugar isolado em quantidade de palavras diferentes usadas.
Sim: à similaridade dos “acordários”. Polêmico? Nem tanto. De acordo com o estudo, esses dois populares grupos, conhecidas por suas sonoridades enxutas, utilizam uma dinâmica similar no uso de acordes. É aí que o rock básico influenciado pelo pós-punk e as micaretas do axé se encontram. Já em matéria de temática de letras, o resultado é bem diferente. A banda de Renato Russo está agrupada entre os artistas capazes de escrever sobre questões sociais e não só relacionamentos, enquanto os asseclas de Durval Lélys habitam o variado mundo das paixões bem-sucedidas, que agrega principalmente o axé, mas também o samba, o pop rock e... Tom Jobim. Em tempo: 64% dos artistas brasileiros tem uma forte preponderância em versar sobre temas ligados ao relacionamento.
A verdade é que as letras atuais são tão ridículas que não deveriam ser chamadas de músicas. Parando de lamentar e tentando entender (se é que é possível) como chegamos nisso? Como podemos ouvir ou dar ibope a algo tão ruim
A culpa em parte é do mercado da música, que passou a produzir dois tipos de cantores: o comercial e o artista. Sendo que o primeiro é bom porque faz um hit que estoura nas paradas de sucesso, como o rebolation. Só que essa música, por ser um produto descartável, não será relembrada por muito tempo. O segundo tipo é composto por aqueles que realmente possuem talento, que são raros. Aqui entra a parcela dos outros culpados: Nós, consumidores! Temos dado tanto ibope para diversas porcarias que nem mais reconhecemos os bons artistas!
Enquanto mantermos essa postura não teremos grandes compositores ou cantores, teremos apenas palhaços com suas músicas vergonhosas. Na verdade, grandes sábios, não é? Porque o termo “palhaços” se encaixaria melhor a nós, por sermos adeptos ao lixo que circula por aí!

terça-feira, 24 de abril de 2018


CAPÍTULO  78 -  MORREU A IMORTALIDADDE MUSICAL
Há 40 anos a canção brasileira vem se estruturando sobre os mesmos fatores: a mesma forma binária baseada na repetição de estrofes e refrões, a mesma harmonia estabelecida principalmente por Jobim, a partir de parâmetros do jazz e baseada em progressões por intervalos de 5ª, a mesma forma de estruturar a melodia, baseada na mistura de estilos ainda mais antigos, como o choro e o samba, com estilos importados, como o jazz e o rock. Não teriam já se esgotado as possibilidades dentro destes moldes?
Além disso, não se deve esquecer que, por trás daquelas canções de 40 anos atrás, se encontravam cérebros como Rogério Duprat e Damiano Cosella, detentores de uma cultura e de uma técnica musicais muito superior à de qualquer músico popular da época, com exceção talvez apenas de Jobim. Eram músicos com uma vasta formação e informados a respeito das novas “descobertas” musicais realizadas no exterior, tais como os primeiros experimentos em música eletroacústica na Europa, as experiências de John Cage nos EUA etc. Hoje em dia, esses técnicos, por assim dizer, foram substituídos por estéreis burocratas e gerentes de marketing com suas planilhas.
Creio, portanto, que a única saída para a canção brasileira -se é que ela deve continuar sendo canção- seria aliar uma dose de experimentalismo musical a uma dose de iconoclastia, para que se possa parar de querer requentar velhas receitas e de clonar velhos ídolos.
Refletindo sobre o que vocês falaram sobre a indústria cultural no Brasil, não acho que a nossa canção morreu, que a nossa MPB morreu. Eu tenho a sensação apenas de que ela vive em um espaço menor. É aquele lance da segmentação, que aconteceu com todo tipo de produto e serviço nesse mundo. Tudo é segmentado: desde o carro até o xampu, tudo que consumimos é feito "pra gente". E com a música no Brasil e no mundo foi assim também.
Outra coisa grave é o mercado musical, o trabalho da mídia, o que vende. Essa descida de ladeira cultural que o Brasil viveu nos últimos 30 anos é que foi desastrosa. A impressão que eu tenho é que, até o fim dos anos 80, ainda tínhamos algum resíduo cultural vindo das décadas anteriores. Mas quando entra os 90, com o sertanejo e por aí em diante, não houve mais santo que nos salvasse! E ficamos assim, nivelados por baixo. E a boa música ficou assim como ilhotas cercadas por um mar de baixaria e estupidez alimentadas pela mídia
Pode-se tentar sonatas após Beethoven e sambas-exaltação após Chico Buarque, mas mesmo sem conhecer a íntegra da tal entrevista, acho que o Chico tem razão, nesse ponto, o Tinhorão também. Não esquecendo a Joyce, ano de 2000, para a revista Bundas: “Há muito tempo, não temos aquela ‘nossa canção’”.
O Gil, uma vez, cogitou musicar trechos de “Estorvo”. E Chico afirmou que para aquilo não tinha música. Provavelmente tinha sim. Mas se uma obra-prima como “As Cidades” passou quase batida, imagino a repercussão das músicas que dariam continuidade ao seu universo literário. Quem nelas se reconheceria?
Eu poderia falar, citar, grifar, recomendar muitas músicas, mas não sairia do rol das imortais. A imortalidade na arte e aqui especialmente na música, se dá quando vemos nossos filhos, netos, bisnetos, – se conseguirmos – mesmo com toda a influência da mídia, ouvindo, cantando, assobiando, compartilhando as músicas que aprendemos a gostar quando tínhamos a mesma idade, vindo de outros tempos, feitas no nosso tempo e que continuam a ser a nossa referência musical. Triste é ver a geração atual sem valores musicais que se eternizem. Serão, como todo lixo musical, varrido para o esquecimento ou no máximo para uma ocasião dentro de uma piada. Ando, compartilho e me misturo com pessoas da minha idade ou não, mas que sinto que estão sempre ligadas as boas músicas e com os ouvidos abertos ou antenas ligadas para novidades que trazem, mesmo que seja mínimo, esperança de um sopro criativo. Inté!
Curiosamente, o que (literalmente) movimenta os jovens de hoje é a música eletrônica, e seus festivais (literalmente) intermináveis, com horas e horas e horas de som ininterrupto batendo sem dó na cabeça do povo. Não que eu entenda, mas costumo ver os eletrônicos com mais simpatia, porque pelo menos parecem estar experimentando mais, brincando mais, se atirando de maneira menos corporativa e mais corajosa. Porém, veja que interessante, a grande maioria das músicas não tem nem letra.


segunda-feira, 12 de março de 2018


Capítulo 77 – A MPB IDIOMÁTICA E ONOMATOPEIA
Refletindo sobre o que falaram sobre a indústria cultural no Brasil, não acho que a nossa canção morreu, que a nossa MPB morreu. Eu tenho a sensação apenas de que ela vive em um espaço menor. É aquele lance da segmentação, que aconteceu com todo tipo de produto e serviço nesse mundo. Tudo é segmentado: desde o carro até o xampu, tudo que consumimos é feito "pra gente". E com a música no Brasil e no mundo foi assim também.
Outra coisa grave é o mercado musical, o trabalho da mídia, o que vende. Essa descida de ladeira cultural que o Brasil viveu nos últimos 30 anos é que foi desastrosa. A impressão que eu tenho é que, até o fim dos anos 80, ainda tínhamos algum resíduo cultural vindo das décadas anteriores. Mas quando entra os 90, com o sertanejo e por aí em diante, não houve mais santo que nos salvasse! E ficamos assim, nivelados por baixo. E a boa música ficou assim como ilhotas cercadas por um mar de baixaria e estupidez alimentadas pela mídia.
Eu me encontro bem de mal com a música nacional. Não tenho saco, não tenho paciência, tudo me causa náusea, sono, revolta ou os três juntos, o que é quase um daqueles episódios de Pokemon que despertavam epilepsia.
Não aguento ouvir falar de mais uma música sertaneja cujo refrão é alguma expressão idiomática levemente modificada, ou alguma onomatopeia. Não aguento mais saber que eles gostam tanto de cerveja, mulher e alguma outra coisa aleatória, estou cagando para o fato de que eles levaram um chifre e estão tristes, mas vão superar e dar a volta por cima. Não quero mais mistura de guitarra com sanfona.
Não consigo acreditar que ainda existam variações de temas para cantar como Salvador no Carnaval é bom. Que existam formas novas de falar “tererê-tê-TÊ-rê-RÊ!” Em axés, nem maneiras físicas de “sair do chão” e “quero ver as mãos” que a lei da gravidade e da anatomia permitam.
Por outro lado, grande parte da chamada Nova MPB me dá sono. Primeiro, porque tudo que eu falei até o momento deveria ser MPB, já que é popular, e bem, infelizmente é brasileiro, mas como não faz parte desse clube de gente chique e com cara de quem acordou e não penteou o cabelo, fica de fora. Mas me falem a verdade, as pessoas precisam ter nascido com uma paciência de Jó para aguentar a quantidade absurda de “iáiás e iôiôs” e “shimbalauês” dessa galera. É muita fofinhice, muito complexo de emoticon, muita bundamolice. A MPB séria perdeu os dentes, e vive cantando o quanto sopa de água com amor é lindo.
O lado contrário disso é o funk, que, segundo algumas correntes ideológicas, eu deveria respeitar, porque é música do povo, pelo povo e para o povo, mas catzo, como eu acho ruim, primário, tosco. Pra mim o funk (a corrente carioca do funk, que fique claro) é uma piada que alguém levou a sério. As primeiras vezes que ouvi era quase uma atividade humorística. Alguém tinha um CD de proibidão para ouvir os caras gritando barbaridades como quem tem uma fita do Costinha ou do Manhoso no carro. Era zueira. Mas parece que alguém levou a sério, porque agora tem gente que ouve funk mesmo. Assim, direto, playlist com 200 músicas seguidas no celular, para ouvir no talo enquanto trabalha. Ou no ônibus, no alto falante do carro, em qualquer lugar, desde que todo mundo ouça junto, queira ou não.
Os temas são de uma diversidade de impressionar qualquer boteco. A julgar por essa produção cultural, a favela (desculpem se parece reducionista, mas todos os funks que eu ouço falam somente da favela) só quer saber de transar com as novinha, de usar droga e detonar a polícia. Nas vertentes femininas, a situação se inverte, mas não o teor. Há quem diga que é música do povo. Eu acho bem triste se for. Ver rico ouvindo essa música como se isso, por si só, fosse um movimento de contracultura é apenas patético. Tenho saudade da época que qualquer pessoa precisava se curvar à genialidade de um Cartola. Sinto que esse espasmo de boçalidade possa estar eclipsando o aparecimento de novos talentos genuínos, indispensáveis.
Hoje, quando vejo as musas da música nacional falarem mais de 3 frases, elas estão sempre sendo juradas de algum programa que premia quem canta mais tempo em contralto qualquer coisa com a entonação de uma Whitney Houston da Bahia, ou estão dizendo qual demaquilante ou creme antirrugas elas usam para deixar a pele como seda após os shows. Raro quando alguma declaração me faz parar por mais de cinco minutos para ouvir.
E os “musos” da música nacional? Quem são? Se alguém souber, me fala por favor. Mas tem que ser alguém que não vá comentar sobre plantação de tomate ou sobre o pôr do sol em Cuiabá. Me diz alguém como o Caetano, por favor. Alguém que tenha mais o que dizer.
Talvez porque eles só se pronunciem através dos assessores de Social Mediadeles. E só se vistam através dos Personal Stylists. Em entrevistas com pautas pré-decididas, com fotos grandes, em praias desertas. E mesmo assim, alguns desses gênios ainda conseguem dizer que “se pegassem tal repórter gostosinha, a quebraria no meio”. Que decepcionante isso vindo de um país que tinha um Vinícius de Moraes, que conquistava suas namoradas com poesias. E olha só que coisa demodê (ainda se fala demodê?), casava com elas.
É triste perceber que até o momento não falei do rock. É que por decisão editorial, prefiro falar sobre quem ainda está entre nós. Os defuntos, esses é que não movem moinhos mesmo. De uma forma triste, o rock parece uma planta mais rara. Não consegue viver num cenário de desolação tão absoluta.
Mas pra não dizer que não falei das flores, é justamente dele que sinto mais falta. Na minha juventude, era do Rock que vinham as vozes que diziam o que eu não tinha maturidade pra dizer. Eram os Renatos Russos, Lobões, Leos Jaimes e Cazuzas que traduziam nossas angústias, fossem elas políticas, sexuais ou amorosas. Eram eles que sentiam o que eu não sabia em dar nome. Eles eram nossa voz. Hoje meu filho bem que procura, mas acaba encontrando seus temas nas mesmas vozes que eu encontrei há tanto tempo. Inté!


quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Capítulo 76 – A CRISE DA MPB

Não tenho ilusões quanto ao “popular” na música brasileira, nem muito menos quanto ao seu caráter industrializado, realidade necessária face à produção e à circulação numa sociedade complexa, industrializada. Com efeito, desde as primeiras décadas do século passado, entre o compositor e/ou intérprete “popular” e a produção musical existiram mediações que, de uma forma ou de outra, interferiram na forma ou conteúdo da mensagem ou -melhor dizendo- deram o formato com que a canção brasileira foi registrada e se tornou conhecida.
O que lamento, pessoalmente como apreciador de uma tradição que parece estar se extinguindo, é o provável fim do ideal de uma “música popular brasileira” capaz de circular entre diferentes classes sociais e indivíduos de níveis culturais diversos (resultando, assim, numa forma de “reconhecimento” entre diferentes grupos sociais). Pode-se dizer que esse é a vertente “nacional-popular” de nossa música.
Creio que um dia ela teve mais intensidade, porque parecia ser capaz de expressar os humores e afetos de um povo, seu cotidiano mais prosaico, transmutado em canção/poesia -é nesse sentido que vejo pertinência na alusão de Chico Buarque ao rap, cumprindo esse papel hoje (no entanto, com amplitude bem menor). E tal produção musical, mesmo em seus preconceitos e aparente simplicidade, impunha-se como uma forma de “expressão comum”, mas não vulgar. Penso aqui, entre tantos e tantos exemplos, em compositores/intérpretes como Ataulfo Alves, Geraldo Pereira, Lupicínio Rodrigues, Mário Reis e Dalva de Oliveira.
Curiosamente, no meu entender, o ápice criativo dessa situação -a bossa nova- já apontava para o declínio da mesma. Em certo sentido, muito bem sucedida na capacidade de estabelecer diálogo com ritmos estrangeiros e o samba (tanto o sincopado, quanto o samba-canção), a bossa nova deu origem a uma teoria muito infeliz sobre o “linha evolutiva” na música popular.
Não condeno (e aprecio) a sofisticação musical de um Caetano, dos Mutantes e outros. No entanto, é claro que esse processo resultou numa “segmentação”, de saída, quanto aos ouvintes. E o “popular”, entendido como a capacidade que a canção brasileira teve de ser apreciada e adotada por muitos, é em geral convertido em paródia (Caetano, cantando “Coração de Mãe” ou Peninha, não é outra coisa).
Ao mesmo tempo, note-se que esse “popular” a que me refiro pouco tem a ver com a origem social do músico (Noel era de classe média e estudante de medicina), mas sim com formas de expressão, por assim dizer, “inclusivas” e mais espontâneas. Formas “nacionais”, mas não xenófobas: o próprio Noel, que ironizou a adoção fútil do inglês pelos brasileiros, compôs, com brilhantismo, em ritmos diversos, inclusive estrangeiros. “Pra que mentir” tem toda a influência do tango argentino, no entanto, o ritmo é “aclimatado” (claro, o mérito e também do extraordinário Vadico, autor da musica).
Seria simplicista, porém, dizer que o fato de compositores com grande capital cultural e capacidade musical terem emergido desde os anos 60 e depois (no pós-Tropicália, Egberto Gismonti, Arrigo Barnabé e tantos outros) é a principal causa dessa -a meu ver- “agonia da música popular”. Correlação temporal não é causação, mas essa coincidência não me parece banal.
De certo modo, o caminho de sofisticação formal tomado por parte da produção de compositores e intérpretes fez com que a “música popular” passasse a dirigir-se agora para a “classe média” (em particular a intelectualizada), e isso implicou numa lógica de distinções perversa (no caso brasileiro, onde o “popular” significava uma mensagem rica em termos de conteúdo e forma), porque empobrecedora de uma capacidade que a música brasileira teve de ser uma mensagem para muitos.
De outro lado -e talvez o aspecto mais importante- as mediações que se colocaram entre os artistas e produtores ganharam aparentemente maior complexidade. O avanço nas relações mercantis e em aspectos que buscam aumentar as possibilidades de êxito comercial (minorando, ao mesmo tempo, as chances de um custoso fracasso), como o marketing e a interferência criativa dos “fazedores de sucesso” (arranjadores, produtores) no trabalho dos músicos, favoreceram a redundância e o empobrecimento musical. Também, para os novatos em particular, dificultaram o desenvolvimento de uma “voz pessoal”. É claro, que existem exceções, mas o peso dos aspectos comerciais, de modo geral, sobrepuja a expressão musical desse possível “segmento” para o grande público.
Naturalmente, isso é muito prejudicial a uma maior espontaneidade que a música popular já possuiu. A démarche ou segmentação, que parece ser totalmente natural hoje entre os públicos, impele o “popular” (no sentido daquele que pretende se dirigir a muitos) a um caminho de manipulação estratégica (vide conjuntos como É o Tchan), guetização e fonte de uma identidade por parte dos excluídos (o funk carioca e parte do rap) ou hibridismos até o momento sem maior densidade musical (a música sertaneja, ou chamada música “brega”). É interessante também notar que aqueles que apelam à força de uma tradição intocada e “preservada” no limite da imobilidade (as rodas de “samba de raiz” ou o choro, por exemplo), fazem do consumo dessa música igualmente um elemento de distinção, mais do que a atualização de uma tradição e fonte de prazer estético para muitos.
De certa forma, é como se atualmente o projeto de uma música “nacional-popular” não fizesse muito sentido. O possível “diálogo social” que a música popular propiciava foi solapado por múltiplas segmentações e lógicas de distinção. A analogia com a política e a sociedade de modo geral é evidente e rica em possibilidades de reflexão -que não me arrisco a fazer, por falta de conhecimento dos aspectos empíricos da produção musical que poderiam embasar esta problemática, bem como de teoria social.

Mas, concluindo, diria que é significativo que certos grupos tenham antes um projeto “internacional-popular”, para usar a expressão de Renato Ortiz, como Os Tribalistas -que, operando no segmento jovem, dirige-se a um público “antenado” mundial. Creio que esse último dado coloca em cena, portanto, mais um fator desse cenário complexo: a globalização (no seu aspecto cultural). É claro que esse processo não deve levar, por si só, a fatores (bem colocados no artigo do Coletivo), como a “a perda de um referencial coletivo de transformação; e a própria transformação do que se entende por cultura no Brasil”, mas ela é mais um dado dessa dolorosa, na medida em que parece resultar em perda, situação. A transformação (não a “morte”, pois está implícito nesse termo um saudosismo desmedido) da MPB em algo muito diverso do que já foi.