terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Capítulo 83 – MPB: JÁ CHEGAMOS AO FIM DO POÇO?
(Parte I)
A polêmica sobre o “FIM DA CANÇÃO” agitou críticos, compositores e cantores quando Chico Buarque, em entrevista a jornais em 2009, declarou que a canção, como a conhecemos, pode ter se esgotado e estar encerrando seu ciclo na História. ” A canção talvez seja um fenômeno do século passado no Brasil. A minha geração, que fez aquelas canções todas, com o tempo só aprimorou a qualidade de sua música. Mas o interesse hoje por isso parece pequeno”. Chico se refere à canção mais elaborada musicalmente e com letras densas e ricas.
A julgar pela qualidade das músicas que são divulgadas nas mídias mais populares, somos obrigados a concordar que nossas “canções” perderam seu lugar, estando cada vez mais distantes do povo. A sociedade de consumo atingiu a produção artística, e seus “produtos” se tornaram descartáveis, servindo apenas e tão somente ao entretenimento passageiro. São como os produtos de plástico: mais baratos, atendendo à voracidade do consumo de massa. “Produtos” mais elaborados ficam restritos a “públicos” mais exigentes.
A televisão e as mídias impressas mais populares têm o poder de glamurizar personagens pelo seu visual, não importando o conteúdo apresentado. Viram “celebridades” da noite para o dia, arrebanhando uma legião de fãs. Exemplos não faltam na cambaleante música popular brasileira.
EXEMPLOS DE LETRAS DE MÚSICA
1-Do chamado “sertanejo universitário” seleciono aleatoriamente versos dos galãs Victor e Leo, que fazem estrondoso sucesso:
Percebo que o tempo já não passa. Você diz que não tem graça amar assim. Foi tudo tão bonito, mas voou pro infinito
Parecido com borboletas de um jardim
Agora você volta
E balança o que eu sentia por outro alguém
Dividido entre dois mundos. Sei que estou amando, mas ainda não sei quem
2-Do “forró universitário”, extraio o refrão abaixo:
É nóis fazer “parapapa” “parapapa” “parapapa”
Agarrar, beijar
Fazer “parapapa”
É nóis fazer “parapapa” “parapapa” “parapapa”
Agarrar, beijar
Fazer “parapapa”
3-Do bonito e simpático Luan Santana, ídolo de multidões:
Ela é uma mulher menina. Que precisa urgentemente ser mais forte. Ela quer alguém que leia seu sorriso
Antes de olhar o seu decote
Ela vê suas amigas se entregando
Ao primeiro que aparecer
Numa tentativa boba de se preencher
Como disse, catei aleatoriamente essas letras. Não conheço as melodias. Os leitores hão de convir que todas elas não têm o mínimo compromisso com beleza, estética, criatividade e riqueza de conteúdo. Um amontoado de ideias e rimas pobres (quando há). Que importa! Prevalece o visual dos “universitários” que provoca delírio em multidão de fãs. Entretenimento passageiro. Ibope certo para os “domingões musicais”.


 (Parte 2)
Sempre tivemos músicas ruins. Não é característica do momento atual.
No final dos anos 50 (antes da fabulosa safra musical da década de 60), tínhamos ainda resquícios dos bolerões e guarânias importados e de gosto duvidoso, algumas baladas bem fraquinhas que vinham dos Estados Unidos, muitas canções com letras malfeitas e uma infinidade de versões que nem sempre traduziam com fidelidade as letras originais. Mas havia na MPB um núcleo de qualidade que prenunciava os grandes “movimentos ” de 60. Ataulfo Alves, Noel Rosa, Ary Barroso, Dorival Caymmi e muitos outros “grandes” garantiam o “DNA” positivo responsável pela excelência da MPB.
Dick Farney (meio americanizado), Johnny Alf, Tito Madi, Dolores Duran, Antônio Maria, Braguinha (“Copacabana, princesinha do mar…”), Pixinguinha, Dóris Monteiro (“Mudando de Conversa”), Miltinho (“Cara de palhaço…”), Lúcio Alves, Elza Soares (magnífica), Sylvia Telles, Alaíde Costa, Nora Ney, Leny Andrade, só para citar alguns, já compunham, tocavam ou cantavam hits “preparatórios” ou “introdutórios” para a chegada da Bossa Nova. O famoso “Beco das Garrafas” no Rio pariu esse novo movimento na MPB. Aí vieram João Gilberto, Vinicius, Tom, Carlos Lyra, Menescal, Bôscoli, Nara Leão, e tantos outros trazendo esse som que ganhou o mundo e até hoje é sucesso no exigente mercado americano, na Europa, no Japão e em muitas partes do planeta (quase esquecido no Brasil). O que falar da dupla Tom Jobim e Vinicius?
Em meio aos Beatles, a MPB ganha força com a mais valiosa e extensa safra de compositores surgida de uma só vez. Não dá para citar todo mundo. Vou de Chico, Caetano, Edu, Vandré, Gil e paro por aqui para não se pensar que é uma lista exaustiva. A MPB explode nas mídias, trazendo artistas geniais: Elis, Elizeth, Betânia, Gal, Rita Lee, MPB-4, Quarteto em Si, Zimbo Trio e uma porção de intérpretes incríveis. A Tropicália libera a guitarra para a MPB e tira do baú gênios esquecidos, recuperando-lhes o merecido prestígio popular: Luiz Gonzaga, Cartola, Nelson Cavaquinho, Ismael Silva, Adoniran Barbosa, Carmen Miranda e muitos outros. A Televisão se firmava como mídia favorita do povo, superando no quesito música o Rádio (que passou a privilegiar noticiários e utilidade pública, exceção ainda às FM’s com muita música importada e insuportável).
Jovem Guarda trouxe na mesma época uma resposta à brasileira ao “Iê,Iê,Iê” de Liverpool, com Roberto e Erasmo fazendo coisas boas e ruins (muitas versões de gosto duvidoso). Na esteira do movimento, surgem cantores ruins e músicas “fraquinhas” de apelo popular. Mas foi um movimento de muito sucesso, nas “jovens tardes de Domingo”. As coisas boas dessa turma permanecem até hoje.
Primeiro a TV Excelsior e Tupi depois a Record se encarregaram de difundir todos esses movimentos musicais com programas como “Brasil 60” (61, 62…mudando conforme o ano; apresentado por Bibi Ferreira), “O Fino da Bossa” (Elis e Jair Rodrigues), “Bossaudade”(Elizeth Cardoso),”Encontro com Luiz Vieira” ( “Menino Passarinho”,”Menino de Braçanã), “Spotlight” (Simonal), “Show em Si…monal”,  “Jovem Guarda” e outros, além dos famosos festivais de MPB.
Nos Anos 70 o Samba veio forte com grandes composições, tendo Paulinho da Viola como “mestre”, os compositores das “velhas guardas” das Escolas de Samba, com intérpretes do naipe de Clara Nunes, Beth Carvalho e Alcione. e muitos bambas, João Nogueira, Martinho, Roberto Ribeiro (voz belíssima, dicção perfeita) fazendo o melhor do samba brasileiro. e letristas estupendos como Aldir Blanc (“O Bêbado e Equilibrista”) e Paulo Sérgio Pinheiro (“O Poder da Criação”). Até o Chorinho ressurge, aproveitando a onda do melhor momento da MPB. Os gênios de Altamiro Carrilho, Waldir AzevedoSivucaPaulo Moura e outros chorões saíram das tocas para mostrar arte pura. Enchiam grandes auditórios e podiam ser ouvidos nos programas de maiores ibopes da TV. Era Chorinho pra todo lado! Os jovens até ficaram sabendo quem eram Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth.
E a qualidade musical continuou com Ivan Lins, Milton Nascimento, Gonzaguinha, Toquinho, Alceu Valença, Zeca Pagodinho e tantos outros.
O que acontece- obviamente sob meu ponto de vista- é que essa qualidade começa a deteriorar-se a partir dos Anos 80. Não que parassem de surgir ótimos compositores e cantores. O Brasil será sempre celeiro de grandes músicos. As transformações aceleradas no mundo, movidas pelo avanço supersônico da tecnologia, parecem ter aberto espaço para o “mercado-rei” e suas exigências de lucro rápido, público crescente e consumismo desenfreado, atingindo de frente a produção musical e artística em geral. Tudo vira “produto” para consumo imediato e descarte à medida em que surgem sucedâneos mais  “comerciais”. E daí o que se pode esperar? Produção massiva e qualidade lá embaixo. Analogamente: produtos de metal substituídos por produtos de plástico.
O bom e autêntico samba dá lugar a “pagodinhos” feitos sem qualquer esmero nas letras e com melodias que poderiam ser passadas tranquilamente para “bolerinhos”. Ganhando muito dinheiro, surgem conjuntinhos de “pagodeiros” em que somente um se sobressai para depois sair do grupo e fazer carreira solo. A música caipira ou sertaneja de raiz (que antes só ocupava as madrugadas nas rádios) vira “sertanejo universitário”, com uma infinidade de duplas enriquecendo-se em “rodeios” pelo Brasil e agora invadindo até o Carnaval da Bahia. A qualidade das músicas é a pior possível. Mas isso não vem ao caso. Para as mídias populares, capitaneadas pela TV, o que interessa é o visual da rapaziada arrancando suspiros de fãs apaixonadas. Quanto mais “ibope” mais patrocinadores e cifrões. A resistência ainda se vê nos autênticos, padrão Almir Sater, Renato Teixeira e Sérgio Reis, bancados por programas como os de Inezita Barroso e Rolando Boldrin.
O que me impressiona é a qualidade que vai se deteriorando ano a ano. O brega em um ano é menos ruim que o brega seguinte. Waldick Soriano e Reginaldo Rossi são menos ruins que Odair José que, por sua vez, é menos ruim que Amado Batista que, por sua vez, é menos ruim que um tal de Tayrone Cigano (descobri esse “cantor” em Salvador, fazendo o maior sucesso com o povão; é péssimo!).
Carnaval tem sido um exemplo claro dessas minhas constatações. Um ano a “Eguinha Pocotó” é o hit. No outro é o “Créu”, no seguinte é o “Rebolation”, no outro é o “Lepo Lepo”. Consome-se o “produto” para descartá-lo em seguida. Mais uma vez: não importa a qualidade. Nada é para ficar, para durar mais que um ano! Plástico barato.

Carnaval virou um rentável “produto comercial”. Se fosse só isso, nada de mal. Muita gente se arruma com uma fonte de renda nessa época. A questão que enfoco é a decadência musical. Considero também que a “festa” anda se descaracterizando, transformando-se em espetáculo para as tevês. Na Bahia, por exemplo, onde o Carnaval tem a fama de ser o melhor do Brasil, os tradicionais “Trios Elétricos” (Dodô e Osmar) movidos a frevo (Moraes Moreira e o grande músico Armandinho) deram lugar a possantes “carros -palco” de som, onde em um longo percurso vai se apresentando todo tipo de música. São verdadeiros palcos volantes, vitrines para os sucessos do ano. Os cantores param de cantar para longas conversas com os repórteres das tevês e com o pessoal dos camarotes. Aliás- diga-se de passagem-  a “camarotização” nos carnavais é uma forma de segregar famosos e endinheirados do grande público. E mais que isso- oferecer outras opções de música para os “camarotizados”. A reação a esse tipo de Carnaval tem sido observada ano a ano com a proliferação de bandas que saem semanas antes, principalmente no Rio e em São Paulo. Já passam de 1000 no Rio e perto disso em São Paulo.

Milton Pereira

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