segunda-feira, 21 de janeiro de 2019


Capítulo 84 – MPB e mpb (música pobre brasileira)

Para justificar qualquer escolha pessoal ou para evitar serem envolvidos por algum tipo de crítica, muitos escapam pela tangente usando a velha máxima “gosto não se discute”. Enquanto gosto continuar sem discussão, muito lixo vai sendo empurrado goela abaixo de quem pensa que quer e de quem não quer de jeito algum. Exemplo disso é o que vem sendo produzido e consumido no Brasil em termos de música desde meados da década de 80.
A Bahia, que já foi festejada pela safra nobre de grandes compositores, cantores e músicos, hoje consome e exporta o substrato do lixo chamado axé. Até mesmo as bandas de baile – que animavam as noites interioranas naquele estado – deixaram de lado os ousados repertórios com Beatles, Rolling Stones e outros grandes nomes da música nacional e internacional, para exibirem a mesma formação e proposta do “É o Tchan” e cia.
Busco na lembrança uns caras que criaram uma maneira divertida de levar ao palco, como se fosse uma peça ou apenas declamar como poema as letras das músicas do nosso cancioneiro populesco atual. Era de morrer de rir ouvir toda aquela baboseira (inclusive com todos os “Ô ô ô, aiê, aiô”) sem qualquer música, com os ritmos clonados uns dos outros. Enfim, há quem insista chamar o axé, o pagode, o breganejo ou o funk carioca de Música Popular Brasileira, mais conhecida como MPB. Concordo que tais estilos sejam até populares (afinal, quem consegue lutar contra o império da indústria fonográfica), mas MPB já virou sinônimo de um estilo musical bem mais trabalhado e marcado pela qualidade de letra e música.
Sendo assim, para diferenciar o joio do trigo, proponho que deixemos a MPB para o que a sigla já designa e coloquemos “mpb” (música pobre brasileira) para os sucessos descartáveis do momento. Basta grafar um estilo com letras maiúsculas e o outro com minúsculas e amenizaremos esta confusão. Realmente uma confusão de conceitos e de discurso, pois a mídia carioca já anuncia a exaustão da música baiana para o surgimento de um ritmo sucessor: o funk! É verdade, “tá tudo dominado”: rádios, programas de TV, festas, cartazes, lojas de CD, o boca-a-boca, os nossos ouvidos...
Bem que poderiam surgir várias versões daquela peça que eu citei acima, para trazer à tona as novíssimas poesias baiana, carioca, paulista, etc. Imagine só uma música chamada “Tchutchuca” com essa maravilha de refrão: “vem tchutchuca, vem aqui com o seu Tigrão... Vou te jogar na cama e te dar muita pressão”. Ou ainda “O Baile Todo”, do mesmo grupo funk, que é um verdadeiro atentado à gramática: “melhor tu se preparar que o Tigrão vai te ensinar! Agora é ruim de tu fugir que o Tigrão vai te engolir. Se tu corre por aqui eu te pego logo ali”. O “Créu”, então, seria um terrível monólogo, apenas com variações gestuais e guturais.
Em meio aos anos 60 a 90, as músicas eram o espelho da alma artística, movidas por grandes reflexões, protestos, questões ambientais, romantismo, ciclo familiar, situações do dia-a-dia. As composições transmitiam emoções, mensagens, sentimentos. Era algo enriquecedor, alegre, bom para os ouvintes. Muitos músicos sofreram pela censura de suas letras musicais, pela cor de sua pele, pelo modo de se expressar, pelo estilo das vestimentas e por ser músico.
A discriminação e o racismo continuam presentes no meio artístico, a maneira que olham para os músicos, ainda não enxergam como profissionais e sim como uma pessoa que não tem se quer um futuro promissor. Porém, hoje, a sociedade enxerga estes profissionais diferenciando-os entre os mesmos, famosos e não famosos. A desvalorização da profissão artística, derrubou diversos talentos, e levantou outros, entre estes, houve a ridicularização artística. Os músicos de qualidades, perderam o espaço de escolha musical, estilos e composições, itens qualitativos que predominam uma boa sonoridade.
Estes fatos, ocorrem por algumas circunstâncias econômicas, estrangeirismo, predominação social, autoridades governamentais e etc. A realidade que vivemos é triste. A liberdade de expressão tornou-se um fator vergonhoso, onde o objetivo das músicas elaboradas, vem desmoralizando a mulher, reforçando o vandalismo, a criminalidade e desfazendo de uma sociedade e de um país rico culturalmente, musicalmente e artisticamente. Sabe-se que a música tem um poder de mover a grande massa, pessoas de diversas classes sociais e diferentes culturas ou situações, isso tudo, através dos ritmos, compassos, letras e estilos musicais.
A MPB está em total decadência. O consumismo vem prevalecendo no meio artístico, tornando o capital, o principal motivo de uma apresentação ou evento, e não mais a paixão pelo o que se faz. Assim, os profissionais passaram a investir em estudos e trabalhos fora do ramo musical por um tempo, e outros para sempre. Por que deixar o mundo preto e branco se temos diversas cores? Estes artistas, que tanto lutam por uma posição digna, são as pessoas que mexem no mundo de modo a colorir e espalhar alegria por onde tocam e cantam.
Posterior a esta crise no meio artístico, houve uma transformação, a passagem de jovens talentos, novos ritmos e investimentos. Hoje vem alcançando a sociedade através das músicas sertaneja, arrocha e funk. Este nosso ciclo tem trazido músicas compostas de letras baseadas em traições, sofrimentos, infidelidade, ostentações, pornofônias e utilizando a figura feminina como símbolo sexual e objeto de prazer, além das letras que transmite aos ouvintes ofensas, agressões e gestos pornograficos  desvalorizando a mulher brasileira.
A proporção que a MPB não evolui da raiz existencial, nos faz pensar: são estas, as músicas que tenho para escutar, são estas palavras desrespeitosas que tenho para ouvir? As mulheres trabalhadoras, donas de casa, alicerce de sua família, que lutaram e lutam pela igualdade, liberdade e contra o preconceito, são estes, o retorno de suas conquistas e batalhas que devemos escutar nas rádios, internets, televisões e celulares?
Contudo apresentado, é vergonhoso o comparativo da censura sob as músicas que tanto agregavam a sociedade e a evolução cultural artística de antigamente, diante da liberdade de expressão vista nos últimos tempos, onde não há repúdio e nem legitimidade para a retirada destas canções que constrangem o povo, a conduta, a moral, a ética, as lutas, a história e a cultura brasileira, nordestina e da Bahia.
O samba, o baião, o forró, o pagode alegre saudável, a MPB, fazem parte de uma história, de vários marcos sociais, de períodos da evolução do Brasil. E por isso, devem ser mantidas por gerações, respeitadas e engrandecidas, e não esquecidas ou substituídas por novos rits populares que desmerecem o povo e sua culturalidade por difamações e negligências verbas e dançantes. A cultura brasileira por vez, precisa ser continuada a rigor da sua evolução histórica e enriquecida de conhecimentos. É importante lembrar que ao exterminar a MPB, estarão extinguindo a história de um povo e a cultura de um país chamado Brasil.

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