quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Capítulo 24 – DURA LEX SED LEX, NO CABELO SÓ GUMEX

No capítulo anterior, avisei-os, que deixaria para este, a explicação sobre o refrão da música, que causou.... Bem, vejamos!
Vivíamos na época um regime militar, portanto qualquer manifestação contrária, por menor que fosse, poderia ser considerada Antigoverno e, isso poderia resultar em sérios problemas. Nós não participávamos de nenhum movimento, mas também não éramos pró-governo, o que fazíamos era tentar ser feliz mesmo diante de tal situação. Quando o guitarrista compôs a música, ele escreveu uma letra subentendida, com traços de insatisfação, mas para apresentar ao público tivera que amenizar, então tínhamos a seguinte situação: "Pois nessa vida sem vida, nós somos ébrios quaisquer, estranho final num porão, chorando por uma mulher, e o arlequim que passa, com tanta alegria e tal, me faz ver que a tristeza termina no carnaval. AAAAAIIIIIIII! Meus foliões, meus foliões, meus foliões. E depois de muito andar, agora sei o que é, estranho final numa prisão, morrendo pelo que quer, e os homens que agora passam, com tanta frieza e tal, me faz ver que a opressão continua depois do carnaval. AAAAIIIIII! Meus foliões, meus foliões, meus foliões". Para amenizar um pouquinho, só retiramos a palavra “opressão” que tem como definição: tirania, mão de ferro, abuso, despotismo e colocamos “tristeza”, mas o refrão, este, quando cantado, se confundia com: "AAAAIIII! Meus culhões, meus culhões, meus culhões".
Quando acabaram as apresentações, ficamos à espera da lista dos classificados, que retornariam no próximo sábado. Enquanto os jurados se reuniam, surgiu não sei de onde, um boato de que eu estaria cotadíssimo para o prêmio de melhor intérprete. A princípio era apenas uma tênue possibilidade, mas conforme foi avançando o tempo e assim que saiu a lista dos classificados e nós estávamos entre os citados, o boato ganhou força ao ponto de me fazer acreditar sim nessa possibilidade. Saímos do local felizes pela classificação, ainda ouvindo o refrão sendo cantado por alguém na multidão e fomos bebemorar que ninguém é de ferro. Já na volta, me veio à cabeça que eu devia fazer alguma coisa diferente para incrementar mais a apresentação, mas o quê? Fiquei entre os amigos, brincando, lembrando, bebendo, gargalhando, mas no meio disso tudo a ideia vinha e voltava a sumir como uma aparição, muda, vazia, enevoada, foi assim até que, voltou e aos poucos foi se revelando e quando dei por mim estava diante do maior cantor, que dizem ser de origem francesa, uruguaia e argentina, não importa, o que importa é que ele foi o maior intérprete de tango que eu nem conhecera, mas que conhecia a sua história ou parte, pelo menos, contada pelos mais velhos, livros e revistas: "Carlos Gardel". Quando contei para o pessoal, uns não sabiam quem foi; outros pouco sabiam, mas sabiam e um mínimo já haviam lido sobre. Comecei ali mesmo a construir para a minha pequena plateia, o que seria e o que eu precisaria para minha transformação: Gardel era branco, assim como eu; era magro, eu também; tinha o cabelo cheio, mas cortado acima da orelha e feito o pé, para amansá-lo usava muito gel e repartia ao lado, mas não muito do lado, aí existia uma grande diferença, eu tinha, assim como praticamente todos, uma vasta cabeleira e além disso ele era muito elegante, só se apresentava de terno, gravata e chapéu e eu nunca havia usado ou colocado um, quanto mais o outro. Feita a apresentação da transformação, meus amigos quiseram saber como eu faria para conseguir juntar tudo. Bem, eu argumentei, que só restavam dois obstáculos, mas que o primeiro era simples, o cabelo. Eu ia pesquisar o corte e cortá-lo, quanto ao terno e o chapéu precisava de ajuda. Alguém lembrou que o pai da minha namorada, certamente teria um terno e que ele era magrinho assim como eu. Guardei na memória e continuamos procurando mais opções. Dentro do grupo que ali se encontrava, só o guitarrista foi quem levantou a hipótese de possuir uma outra alternativa. Ele me lembrou que um amigo em comum, vizinho, que vez por outra, nós éramos convidados a sua residência para tocarmos violão, jogar conversa fora, cerveja, enfim, confraternizar uma noite inteira até amanhecer e que seu pai que também participava até uma certa hora da violada, talvez tivesse esse tipo de vestimenta, o manequim não era tão distante. Concordei, mas esperava resolver já na primeira tentativa.
No dia seguinte, acordei cheio de esperança; havia dormido na casa da minha namorada. Mal acabei de tomar café, fui ter com o meu futuro sogro para saber se ele possuía um terno escuro. A resposta não poderia ser melhor, tinha até dois. Alegou que eram antigos, penso que não poderia ser mais adequado, fato que concordou quando expliquei para o que eu queria. Trouxe ambos, mas já no primeiro, eu arrefeci quando vesti o paletó, havia esquecido desse detalhe, ele era menor do que eu, portanto, tanto o paletó quanto a calça ficavam curtos. Agora só me restava o outro pai, mas para isso eu teria que esperar, pois ele morava distante dali, mas perto da minha casa, então, só no dia seguinte ou outro dia. Enquanto isso, aproveitei para pesquisar com o pai da minha namorada sobre o Gardel, as informações foram muito detalhadas, é, não tínhamos o google para isso. Ele trouxe vinil para ouvirmos e algumas fotos. A semana começou e eu me encontrei com o guitarrista, que me informou já ter conversado com o pai do nosso amigo e que ele estava me esperando a qualquer hora. Não demorei muito, pois o tempo era curto e se não desse certo eu ficaria encurralado. Ele me recebeu com o seu sorriso e alegria de costume, convidou-me para entrar e logo avisou que iria buscar o terno, não sem antes me confidenciar que era o terno do seu casamento, que o havia guardado esses anos todos e que eu não me preocupasse, que apesar da barriga, na época ele era fininho, portanto, achava que cairia como uma luva. Fiquei na sala esperançoso. Ao regressar, pude ver que o terno era preto, o que era bom, tirou do cabide e abrindo-o me convidou a colocar o primeiro braço, após, enfiei o segundo por dentro do paletó e ajudado por ele fomos ajeitando no corpo. Não experimentei nem a calça, se o paletó ficara bom, a outra peça não me deixaria na mão. Agradeci muito, perguntei se precisa lavar e prometi devolve-lo sem avarias. Parti para casa com uma alegria imensa por dentro; com uma vontade de mostra-la a todos, mas ainda bem que não o fiz, pois ninguém ia entender. Em casa verifiquei que a calça ficava um pouco larga, mas nada que um cinto não resolvesse a questão. No dia seguinte dei uma chegada na barbearia, é, ele também tem família e fiz as pazes com o barbeiro. Cortei minha juba sem dó nem piedade, como se diz. Pedi que ele fizesse o corte o mais parecido possível com grande artista do tango, o resultado final ficou excelente, eu é que estranhei para cacete a falta do cabelão. O traje estava completo, quer dizer quase, faltava o chapéu, que não deu mesmo e, sendo assim e por falta também do sapato no verniz, eu resolvi dar um toque sutil que representasse os tempos atuais e, separei como complemento um tênis como calçado.

No dia da apresentação, eu levei tudo dentro de uma bolsa: terno, camisa branca social, gravata preta, cinto, pente, gumex – Como já dizia Ary Barroso:  “Dura lex sed lex, no cabelo só Gumex” - o tênis já estava nos pés. Eu deixei para me preparar no camarim, assim ninguém me veria antes do momento, até para o meu pequeno fã clube seria surpresa e, reservei uma estratégia que me veio à cabeça ainda no camarim, que seria.... Me desculpem, mas sou obrigado a deixar o relato para o próximo capítulo, até lá! 

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Capítulo 23 – O REFRÃO

Não faz tanto tempo assim, não havia internet e pouca gente tinha telefone fixo e, isso nunca foi um entrave, pelo contrário, vivíamos muito bem, quiçá melhor. Então, sem e-mail ou WhatsApp, ficamos esperando (funcionava muito bem) o correio nos trazer a correspondência que confirmaria as nossas convicções. Não demorou muito, chegou o convite oficial para participarmos do festival, estávamos classificados, como esperávamos. A partir daí o guitarrista foi confirmar com os rapazes se no dia da apresentação eles não teriam compromissos em algum evento. Feito a sondagem e, recebida a resposta de não haver impedimento, começamos os preparativos para a competição.
O festival era um incentivo cultural da prefeitura de Duque de Caxias e, como responsável estava à frente, participando da secretaria de cultura, o nosso personagem central: Chico Chicão. Homem de cultura e incentivador das várias formas de expressão dentro das artes. A música era seu combustível maior: Músico, compositor, cantor, produtor, arranjador e, principalmente incentivador de novos talentos, bandas e cantores independentes. Um festival organizado por uma pessoa dessas, estava fadado ao sucesso, sem sombra de dúvida. Fomos convidados para uma reunião só para os participantes e a equipe organizadora e, depois da reunião ficamos um pouco mais, aproveitando que o nível da conversa havia sido gratificante, fizemos uma boa amizade com o Chico. Ficamos, depois da reunião, horas papeando sobre música; sobre suas atividades; sobre o festival, que ele queria transforma-lo numa referência, ficamos encantados com a pessoa e o sentimento era recíproco e, ali nascia uma grande amizade.
O festival seria realizado na câmara dos vereadores, espaço com sistema de som e acústica adequados, precisando apenas de alguns ajustes, mas com capacidade para receber um bom número de público. O evento recebeu grande divulgação pelos meios de comunicação do município: Rádios locais, faixas, carros de som, enfim, tudo o que se podia usar para convidar a comunidade. Os jurados foram escolhidos a dedo; pessoas que viviam para e de arte: Professor de música, músico, escritor, diretor teatral, professor da língua portuguesa, enfim, uma baita seleção. Como estava perto do meu quintal, pude contar com uma pequena torcida, que antecedendo o dia da apresentação já se movimentava em pequenos detalhes para chegar na hora e produzir apoio. Quando lá cheguei para a primeira fase, pude confirmar, no meio do público, os meus amigos e fãs, apostos, prontos para me incentivar. Era a fase classificatória, eu já havia passado por essa agonia, sabia que a decisão estaria nas mãos dos jurados, mas tudo dependia de como nos saíssemos no palco. Eu já trazia uma certa experiência nesse tipo de apresentação, agora as pernas não tremeriam mais, mas o frio na barriga ainda existia, essa sensação eu penso que não é medo, pelo contrário, é uma enorme vontade de subir no palco e mostrar tudo aquilo que você ensaiou, talvez até tirar um coelho da cartola e se surpreender, mostrando principalmente a você mesmo que céu é o limite. Sair da zona de conforto, normalmente é um incômodo, não que seja para todo mundo, mas para muitos é sim. Tem gente que gosta de se exibir, isso é outra coisa. Tem gente que sente bem sendo sempre o observador, jamais se admite no lugar do observado, essas pessoas nessa situação travam. Eu, não sou nem o exibido, nem apenas o observador, sou por natureza provido do que se pode chamar de observido ou exibador, tenho um pouco de cada dentro de mim, numa proporção equilibrada que me faz observar aprendendo e quando sinto o terreno firme que me permite roubar a cena, me lanço sem medo e me exibo. Não sou nenhum fenômeno, mas percebi que consigo entreter uma plateia.
O palco começava a ser a extensão dos meus sonhos, do meu quarto, do meu quintal em dias de violada, das reuniões com os amigos e com os amigos dos amigos e de repente eram pessoas completamente desconhecidas e que certamente fariam seus próprios julgamentos. A unanimidade nunca existiria, mas a graça está justamente aí, na diferença de gostos. Por outro lado, receber a atenção e o afago da maioria, fora do seu terreno, é sinal de que o seu trabalho foi bem realizado. Mais uma vez estávamos prontos para descobrir e descortinar o futuro. Me coloquei no centro do palco a frente dos meus companheiros, me preparando assim para a apresentação. Certos cantores ou cantoras ao se apresentarem diante do público costumam usar uma roupa elegante, mesmo num festival, eu não havia preparado nada diferente ou especial, apesar de haver camarim para o artista se arrumar. A introdução foi realizada a contento e quando soltei a minha voz o retorno veio satisfatório. Cantei a primeira parte me preparando para o refrão, que eu sabia que seria algo que mudaria radicalmente o comportamento da plateia; seria como se estivesse distraído e algo provocasse repentinamente toda a sua atenção. Não deu outra, assim que acabei de cantar o referido refrão, o público quase silenciou e passou a me observar. Continuando e agora cantando a segunda parte, eu já comecei a imaginar o gestual que faria quando chegasse no refrão. Nada exagerado, apenas um pouco de interpretação teatral, usando de expressão corporal o que a letra subentendia. Dessa vez, a plateia veio ao delírio. A música foi para um pequeno solo, ao término eu voltaria para repetir a segunda parte e todos já esperavam eu finalizar com o refrão. A partir desse momento eu era o centro das atenções, o microfone estava fora do pedestal, sendo empunhado por mim, que dominava completamente a plateia e os conduzia com maestria. No grand finale a plateia uníssona me acompanhava. Apresentação feita, a consagração veio através da manifestação calorosa que o público demostrou. Missão comprida.

Depois, passeando no meio do pessoal, era abordado por alguns, eles repetiam o refrão como forma de reconhecimento, pude observar um pouco mais do festival e sentir o que estávamos enfrentando, para saber se tínhamos alguma chance de classificação. Bem, vocês não estão nem um tantinho curiosos para saber que porra de refrão é esse que causou tanto...? Vou tentar explicar, mas vamos deixar para o próximo capítulo, senão esse vai ficar muito longo, até!  

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Capítulo 22 – NOVO DESAFIO

Em virtude do excesso e da temperatura baixa, voltei com a garganta muito inflamada, o que provocou febre, dores no corpo, e mais de uma semana fora de combate. O trabalho, o colégio, o ensaio, tudo foi acumulando. Quando finalmente comecei a me sentir em condições, foi preciso dar maior atenção e eleger prioridades. O trabalho ficou em primeiro, dadas as circunstâncias. Houvera um gasto fora do orçamento e financiado, portanto era preciso correr contra o tempo para colocar as contas em ordem. No colégio, as aulas perdidas teriam que ser recuperadas, então, além de assistir as novas, tinha que copiar as anteriores e entende-las. Essas duas atividades me afastaram um pouco dos ensaios, tanto quanto eles, que também tinham os seus problemas e, portanto, adiamos por um tempo o nosso retorno. Enquanto isso, os acontecimentos vividos na viagem até Úba, começavam a dar frutos. A inspiração se apossou de nossas emoções e retribuía com melodias e letras. Eu sozinho e em parceria com o guitarrista, compus miseravelmente umas cinco canções, que foram, não todas, três incluídas no repertório da banda. Como eu havia me juntado a banda pouco tempo antes de acontecer a classificação para festival, na nossa volta, houve uma reunião e foi decidida a saída do guitarra base, sem que houvesse necessidade de eu estar presente, foi uma decisão que eu acabei corroborando. 
Lembram lá no capítulo 18, que eu mencionei que dois sujeitos nos procuraram pedindo uma fita demo para levar ao um produtor na gravadora CBS no Rio de Janeiro e que eu lhes disse que conhecia tal produtor, pois bem, munidos de uma fita fomos até o tal produtor, mas pensa que é simples assim, porra nenhuma, esses caras são procurados o tempo todo por postulantes a cantores e não é fácil para eles. Pensávamos que por nos apresentarmos com os nomes dos sujeitos seria suficiente para abrir portas, ledo engano, o tal, se conhecia, nos disse que não sabia de quem se tratava, e quanto a fita, se quiséssemos deixa-la com ele, sem garantias, talvez ouvisse, mas no momento estava muito ocupado. Bem, com tanta gentileza e atenção, como a fita era o de menos, passamos para mão dele, porém sem nenhuma esperança.

Apesar de termos feitos algumas gravações em estúdio, levados pelo irmão do contrabaixista, os ensaios na garagem começaram a escassear e inevitavelmente fomos nos distanciando do batera, além das parcas apresentações. O tempo foi passando, o mundo girando, a vida se apresentando e quando nos demos conta estávamos sem agenda e só eu e o guitarrista é que nos encontrávamos com mais frequência. Foi justamente num desses inúmeros encontros que surgiu, não me lembro como, um convite para participarmos de um festival da prefeitura de Duque de Caxias, organizada por um sujeito competentíssimo em eventos culturais, com formação em música. Se não me falha a memória, houve uma inovação com relação a escolha dos participantes ao festival. Nós tomamos conhecimento já meio que em cima da hora de fechar as inscrições. Não precisamos enviar ou entregar nenhuma fita para ser escutada e posteriormente informados da classificação. Depois de feito a inscrição, fomos convidados para uma apresentação num pequeno teatro, onde uma comissão escolheria as músicas que iriam participar do festival. A música era do guitarrista, eu iria cantar, chamamos o contrabaixista, mas quando ele soube qual era a música se recusou a participar, insistimos muito, mas não houve jeito, ele não achava que a música, que era um tango sacana, não tinha força para um festival, então recusou mesmo. Bem, diante disso, o guitarra que conhecia um montão de músicos bons, convidou um batera, músico que toca até hoje com o Jorge Bem Jor, um contrabaixista e veio com eles só de onda um pianista. No dia da apresentação, não foi preciso, nem tinha piano, a presença do pianista. No teatro muita gente, todos ávidos para se apresentar e fazer o melhor. Não havia pressão quanto ao tempo para começar, havia bom senso. Eles não conheciam a música, mas para minha surpresa através da batuta do guitarrista, o contrabaixo parecia que já havia tocado o tango inúmeras vezes, tal o curto tempo em que pegou o jeito, quanto ao baterista, esse estudava com Wilson das Neves, não foi preciso nenhuma observação, no que ouviu já estava dentro. Tudo acertado, começamos a música. Conforme íamos desenvolvendo a apresentação, a sintonia ficava mais afiada ou afinada. Acabamos e tivemos a impressão de que havíamos feito algo estupendo, pois a reação dos presentes assim nos mostrou. Penso, que não foi só uma mera apresentação, acabou sendo um pequeno show, sem modéstia. Agora, era esperar o comunicado ou não, pois quem não se credenciasse nada recebia, mas algo ou tudo ali naquele momento nos dizia que já estávamos classificados, dado ao clima que ficou quando acabamos, não nos restava outro pensamento a não ser este. Então na semana seguinte...      

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Capítulo 21 - VOU PARA CASA E LEVO O SOL

Como eu estava dizendo no capítulo anterior, tivemos a ideia de nos reunirmos com as meninas, também já mencionado, uma delas engatou um namoro relâmpago com o guitarrista, para uma despedida bem comemorativa. Havia um restaurante na praça que era o point do pedaço e que servia muito bem para as nossas pretensões, a de bancarmos um jantar de despedida para as nossas anfitriãs e claro fecharmos com chave de ouro a nossa passagem por aquela cidade. Fizemos as contas do que havia ainda de dinheiro para gastar e depois de uma pesquisa no cardápio do restaurante, vimos que a situação não era tão fácil assim. O que sobrou não era suficiente para um jantar, ainda mais com bebidas. Vendo o nosso sonho ruir, o batera pediu para esperarmos e foi dentro do recinto tentar alguma coisa que ele havia pensado, mas não nos explicou. Passados alguns minutos, voltou com um sorriso na boca acompanhado da notícia de que tinha resolvido com o garçom e de que não precisávamos nos preocupar que o arranjo cabia direitinho no nosso orçamento. Entramos, o batera na frente se dirigiu ao um garçom e ele acenou para que fossemos a uma mesa nos fundos na parte exterior do restaurante, onde ficaríamos bem à vontade e com o espaço só para nós. A mesa era espaçosa. Podemos nos acomodar sem apertos. Éramos sete, o guitarra base não voltaria conosco, portanto àquela hora ele deveria estar jantando na casa dos seus parentes. O batera era o comandante do navio. Foi ele que arrumou tudo, desde do cálculo da despesa, até o que nós iríamos comer e quantidade de bebidas, que por sinal não seria nada exagerado, só umas poucas cervejas para brindarmos o momento. Enquanto esperávamos, fomos conversando e lembrando dos últimos acontecimentos. As meninas nos revelaram algumas coisas que só elas é que sabiam. Tais como: a repercussão do primeiro dia, inclusive para elas; a sacanagem do segundo dia e quem foi e como fez; o convite para o show feito pelo prefeito e o organizador, não só corrigindo uma injustiça, mas também oferecendo ao público jovem algo que interagisse. Agora já eram boas lembranças, mesmo sendo no mesmo dia, ou há dois dias. Já era passado, não voltaria mais. Conforme conversávamos, iam surgindo os detalhes, as entrevistas, os autógrafos, o assédio, sim, eu mesmo fui muito assediado. Nossas bagagens estavam repletas de novidades. Essas bagagens não pesavam e em momento algum modificaram nosso comportamento. Passamos para um outro patamar, tínhamos consciência disso, mas essa mudança não era exteriorizada, era apenas uma dose maior de confiança.
Fomos interrompidos pela chegada da comida, veio em boa hora, juntando a fome com a vontade de comer. O garçom vinha acompanhado de dois funcionários, que traziam: arroz, farofa, molho, fritas e espetos mistos de carne; desejou bom apetite e se retirou para o interior do restaurante. Nós olhamos para o batera, como quem pergunta: É isso tudo mesmo? O sorriso era confiante, então não pensamos duas vezes. Durante longos minutos, ficamos praticamente sem conversar, uma observação aqui, outra ali, sobre o menu e evidentemente brindamos o final de semana maravilhoso, as duas novas amigas que se dispuseram a nos assessorar e se tornaram rapidamente membros do grupo, como se nos conhecêssemos a long time. Igual ao urso pardo que engorda para hibernar no inverno, nós comemos demais da conta, o que evitaria sentir fome durante a viagem e ter que descer na parada para comer, só sairíamos se houvesse necessidade ou para esticar as pernas. Ainda faltava quase três horas para o nosso embarque, então ficamos digerindo e conversando, já havíamos trocado endereços para correspondência, somente eu e o guitarrista. Ele com a sua ficante e eu com a amiga, que durante esses dias trocamos palavras e descobrimos que tínhamos muita coisa em comum, mas não passou disso, não que eu não quisesse, mas respeitei manter distância, pois eu sabia que ela tinha acabado de terminar um namoro com o guitarra base e como era coisa recente, ainda havia aquele clima, sabe? Bem, passados mais de uma hora, falamos para o batera chamar e acertar com o garçom o que ele havia combinado, o sujeito veio e trouxe a conta, quando nos deparamos com a mardita não acreditávamos no que víamos, sem entender nada recorremos ao batera, ele começou a tentar se entender com o garçom o que os dois haviam combinados, mas a conclusão era óbvia, o nosso amigo fez uma puta confusão e agora nós estávamos encrencados até o pescoço. Não havia outra solução a não ser pagar a conta, por mais que argumentássemos não saímos do lugar, nosso dinheiro só pagava a metade, portanto ele teria que engolir um calote, mas aí que residia o maior problema, o calote era uma baita despesa para o garçom. Ele se retirou, voltou, foi de novo, enquanto nós víamos a hora se aproximar da partida e não conseguíamos resolver o imbróglio que o batera havia nos metido. Veio o gerente que seria a penúltima estancia, nós já estávamos preparados para entrar com um recurso caso perdêssemos, mas de repente tudo clareou. Quando passou pela porta, ele que conhecia as meninas, se dirigiu a elas, cumprimento-as e antes de se dirigir a nós indagou-as sobre o acontecido, foi quando elas não perderam nem um minuto em explicações, só pediram a ele que guardasse a diferença da conta, que no dia seguinte elas pagariam. Pedido aceito, apenas virou-se para nós, sorriu e se retirou, pegado aos seus calcanhares seguia o garçom. Nós ficamos completamente sem graça e sem palavras. Elas agradeceram o jantar e principalmente o final de semana que fora maravilhoso, não faziam ideia do futuro, mas tinham certeza de que nós havíamos deixados em suas vidas, marcas profundamente carinhosas e inesquecíveis.
Saímos do restaurante e fomos caminhando calmamente em direção a rodoviária. Durante a caminhada poucas palavras, o silêncio era um sinal da eminente despedida, fato que doía, mas era irremediável. A vida é assim, não tem como parar o tempo, por mais que se queira e nem voltar, é vida que segue. Nos despedimos, quase as lágrimas, e embarcamos no ônibus já com uma saudade aflorando. De dentro do veículo muitos acenos, beijos lançados pela mão e a visão se distanciando e transformando a imagem nítida em pequenas silhuetas. Agora, voltávamos a nossa realidade. Saíamos do mundo encantado. Foram três dias vividos inteiramente voltados para música. Fora a nossa primeira experiência ao vivo e a cores. Não sabíamos o que o futuro nos reservava, mas agora sabíamos que tínhamos potencial; não estávamos no ponto, ainda teríamos que percorrer muita estrada, mas havíamos começado a caminhada. Agora, era acordar desse sonho e construir outro, mas sempre com os pés no chão.

       

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Criatura de Sebo: Raridades - Mutantes

Criatura de Sebo: Raridades - Mutantes: O Suicida  (O'Seis - Compacto - 1966) Rafael Vilardi - Rita Lee Apocalipse  (O'Seis - Compacto - 1966) Rita Lee O Homem ...
Destaco "Mande um abraço pra velha", faixa que me emociona tanto ouvindo o meu vinil chiado do FIC 72 (adquirido há décadas), quanto a coletânea de uma caixa lançada em 2014. Essa, com seu preço salgado, convida-nos a roer MP3 com mais gosto ainda!