sábado, 29 de outubro de 2016
quarta-feira, 26 de outubro de 2016
Capítulo 24 –
DURA LEX SED LEX, NO CABELO SÓ GUMEX
No capítulo
anterior, avisei-os, que deixaria para este, a explicação sobre o refrão da
música, que causou.... Bem, vejamos!
Vivíamos na
época um regime militar, portanto qualquer manifestação contrária, por menor
que fosse, poderia ser considerada Antigoverno e, isso poderia resultar em
sérios problemas. Nós não participávamos de nenhum movimento, mas também não
éramos pró-governo, o que fazíamos era tentar ser feliz mesmo diante de tal
situação. Quando o guitarrista compôs a música, ele escreveu uma letra
subentendida, com traços de insatisfação, mas para apresentar ao público tivera
que amenizar, então tínhamos a seguinte situação: "Pois nessa vida sem vida, nós
somos ébrios quaisquer, estranho final num porão, chorando por uma mulher, e o
arlequim que passa, com tanta alegria e tal, me faz ver que a tristeza termina
no carnaval. AAAAAIIIIIIII! Meus foliões, meus foliões, meus foliões. E depois
de muito andar, agora sei o que é, estranho final numa prisão, morrendo pelo
que quer, e os homens que agora passam, com tanta frieza e tal, me faz ver que
a opressão continua depois do carnaval. AAAAIIIIII! Meus foliões, meus foliões,
meus foliões". Para amenizar um pouquinho, só retiramos a palavra “opressão” que
tem como definição: tirania, mão de ferro, abuso, despotismo e colocamos
“tristeza”, mas o refrão, este, quando cantado, se confundia com: "AAAAIIII!
Meus culhões, meus culhões, meus culhões".
Quando
acabaram as apresentações, ficamos à espera da lista dos classificados, que
retornariam no próximo sábado. Enquanto os jurados se reuniam, surgiu não sei
de onde, um boato de que eu estaria cotadíssimo para o prêmio de melhor
intérprete. A princípio era apenas uma tênue possibilidade, mas conforme foi
avançando o tempo e assim que saiu a lista dos classificados e nós estávamos
entre os citados, o boato ganhou força ao ponto de me fazer acreditar sim nessa
possibilidade. Saímos do local felizes pela classificação, ainda ouvindo o
refrão sendo cantado por alguém na multidão e fomos bebemorar que ninguém é de
ferro. Já na volta, me veio à cabeça que eu devia fazer alguma coisa diferente
para incrementar mais a apresentação, mas o quê? Fiquei entre os amigos,
brincando, lembrando, bebendo, gargalhando, mas no meio disso tudo a ideia
vinha e voltava a sumir como uma aparição, muda, vazia, enevoada, foi assim até
que, voltou e aos poucos foi se revelando e quando dei por mim estava diante do
maior cantor, que dizem ser de origem francesa, uruguaia e argentina, não
importa, o que importa é que ele foi o maior intérprete de tango que eu nem
conhecera, mas que conhecia a sua história ou parte, pelo menos, contada pelos
mais velhos, livros e revistas: "Carlos Gardel". Quando contei para o pessoal, uns não sabiam quem
foi; outros pouco sabiam, mas sabiam e um mínimo já haviam lido sobre. Comecei
ali mesmo a construir para a minha pequena plateia, o que seria e o que eu
precisaria para minha transformação: Gardel era branco, assim como eu; era
magro, eu também; tinha o cabelo cheio, mas cortado acima da orelha e feito o
pé, para amansá-lo usava muito gel e repartia ao lado, mas não muito do lado,
aí existia uma grande diferença, eu tinha, assim como praticamente todos, uma
vasta cabeleira e além disso ele era muito elegante, só se apresentava de
terno, gravata e chapéu e eu nunca havia usado ou colocado um, quanto mais o
outro. Feita a apresentação da transformação, meus amigos quiseram saber como
eu faria para conseguir juntar tudo. Bem, eu argumentei, que só restavam dois
obstáculos, mas que o primeiro era simples, o cabelo. Eu ia pesquisar o corte e
cortá-lo, quanto ao terno e o chapéu precisava de ajuda. Alguém lembrou que o
pai da minha namorada, certamente teria um terno e que ele era magrinho assim
como eu. Guardei na memória e continuamos procurando mais opções. Dentro do
grupo que ali se encontrava, só o guitarrista foi quem levantou a hipótese de
possuir uma outra alternativa. Ele me lembrou que um amigo em comum, vizinho,
que vez por outra, nós éramos convidados a sua residência para tocarmos violão,
jogar conversa fora, cerveja, enfim, confraternizar uma noite inteira até amanhecer
e que seu pai que também participava até uma certa hora da violada, talvez
tivesse esse tipo de vestimenta, o manequim não era tão distante. Concordei,
mas esperava resolver já na primeira tentativa.
No dia
seguinte, acordei cheio de esperança; havia dormido na casa da minha namorada.
Mal acabei de tomar café, fui ter com o meu futuro sogro para saber se ele
possuía um terno escuro. A resposta não poderia ser melhor, tinha até dois.
Alegou que eram antigos, penso que não poderia ser mais adequado, fato que
concordou quando expliquei para o que eu queria. Trouxe ambos, mas já no
primeiro, eu arrefeci quando vesti o paletó, havia esquecido desse detalhe, ele
era menor do que eu, portanto, tanto o paletó quanto a calça ficavam curtos.
Agora só me restava o outro pai, mas para isso eu teria que esperar,
pois ele morava distante dali, mas perto da minha casa, então, só no dia
seguinte ou outro dia. Enquanto isso, aproveitei para pesquisar com o pai da
minha namorada sobre o Gardel, as informações foram muito detalhadas, é, não
tínhamos o google para isso. Ele trouxe vinil para ouvirmos e algumas fotos. A
semana começou e eu me encontrei com o guitarrista, que me informou já ter
conversado com o pai do nosso amigo e que ele estava me esperando a qualquer
hora. Não demorei muito, pois o tempo era curto e se não desse certo eu ficaria
encurralado. Ele me recebeu com o seu sorriso e alegria de costume, convidou-me
para entrar e logo avisou que iria buscar o terno, não sem antes me
confidenciar que era o terno do seu casamento, que o havia guardado esses anos
todos e que eu não me preocupasse, que apesar da barriga, na época ele era
fininho, portanto, achava que cairia como uma luva. Fiquei na sala esperançoso.
Ao regressar, pude ver que o terno era preto, o que era bom, tirou do cabide e
abrindo-o me convidou a colocar o primeiro braço, após, enfiei o segundo por
dentro do paletó e ajudado por ele fomos ajeitando no corpo. Não experimentei
nem a calça, se o paletó ficara bom, a outra peça não me deixaria na mão.
Agradeci muito, perguntei se precisa lavar e prometi devolve-lo sem avarias.
Parti para casa com uma alegria imensa por dentro; com uma vontade de mostra-la
a todos, mas ainda bem que não o fiz, pois ninguém ia entender. Em casa
verifiquei que a calça ficava um pouco larga, mas nada que um cinto não
resolvesse a questão. No dia seguinte dei uma chegada na barbearia, é, ele também
tem família e fiz as pazes com o barbeiro. Cortei minha juba sem dó nem
piedade, como se diz. Pedi que ele fizesse o corte o mais parecido possível com
grande artista do tango, o resultado final ficou excelente, eu é que estranhei
para cacete a falta do cabelão. O traje estava completo, quer dizer quase,
faltava o chapéu, que não deu mesmo e, sendo assim e por falta também do sapato
no verniz, eu resolvi dar um toque sutil que representasse os tempos atuais e,
separei como complemento um tênis como calçado.
No dia da
apresentação, eu levei tudo dentro de uma bolsa: terno, camisa branca social,
gravata preta, cinto, pente, gumex – Como já dizia Ary Barroso: “Dura lex sed lex, no cabelo só Gumex” - o tênis já estava nos pés. Eu deixei
para me preparar no camarim, assim ninguém me veria antes do momento, até para
o meu pequeno fã clube seria surpresa e, reservei uma estratégia que me veio à
cabeça ainda no camarim, que seria.... Me desculpem, mas sou obrigado a deixar
o relato para o próximo capítulo, até lá!
quarta-feira, 19 de outubro de 2016
Capítulo 23 –
O REFRÃO
Não faz tanto
tempo assim, não havia internet e pouca gente tinha telefone fixo e, isso nunca
foi um entrave, pelo contrário, vivíamos muito bem, quiçá melhor. Então, sem
e-mail ou WhatsApp, ficamos esperando (funcionava muito bem) o correio nos
trazer a correspondência que confirmaria as nossas convicções. Não demorou
muito, chegou o convite oficial para participarmos do festival, estávamos
classificados, como esperávamos. A partir daí o guitarrista foi confirmar com
os rapazes se no dia da apresentação eles não teriam compromissos em algum
evento. Feito a sondagem e, recebida a resposta de não haver impedimento,
começamos os preparativos para a competição.
O festival
era um incentivo cultural da prefeitura de Duque de Caxias e, como responsável
estava à frente, participando da secretaria de cultura, o nosso personagem
central: Chico Chicão. Homem de cultura e incentivador das várias formas de
expressão dentro das artes. A música era seu combustível maior: Músico,
compositor, cantor, produtor, arranjador e, principalmente incentivador de
novos talentos, bandas e cantores independentes. Um festival organizado por uma
pessoa dessas, estava fadado ao sucesso, sem sombra de dúvida. Fomos convidados
para uma reunião só para os participantes e a equipe organizadora e, depois da
reunião ficamos um pouco mais, aproveitando que o nível da conversa havia sido
gratificante, fizemos uma boa amizade com o Chico. Ficamos, depois da reunião,
horas papeando sobre música; sobre suas atividades; sobre o festival, que ele
queria transforma-lo numa referência, ficamos encantados com a pessoa e o
sentimento era recíproco e, ali nascia uma grande amizade.
O festival
seria realizado na câmara dos vereadores, espaço com sistema de som e acústica
adequados, precisando apenas de alguns ajustes, mas com capacidade para receber
um bom número de público. O evento recebeu grande divulgação pelos meios de
comunicação do município: Rádios locais, faixas, carros de som, enfim, tudo o
que se podia usar para convidar a comunidade. Os jurados foram escolhidos a
dedo; pessoas que viviam para e de arte: Professor de música, músico, escritor,
diretor teatral, professor da língua portuguesa, enfim, uma baita seleção. Como
estava perto do meu quintal, pude contar com uma pequena torcida, que
antecedendo o dia da apresentação já se movimentava em pequenos detalhes para
chegar na hora e produzir apoio. Quando lá cheguei para a primeira fase, pude
confirmar, no meio do público, os meus amigos e fãs, apostos, prontos para me
incentivar. Era a fase classificatória, eu já havia passado por essa agonia,
sabia que a decisão estaria nas mãos dos jurados, mas tudo dependia de como nos
saíssemos no palco. Eu já trazia uma certa experiência nesse tipo de
apresentação, agora as pernas não tremeriam mais, mas o frio na barriga ainda
existia, essa sensação eu penso que não é medo, pelo contrário, é uma enorme
vontade de subir no palco e mostrar tudo aquilo que você ensaiou, talvez até
tirar um coelho da cartola e se surpreender, mostrando principalmente a você
mesmo que céu é o limite. Sair da zona de conforto, normalmente é um incômodo,
não que seja para todo mundo, mas para muitos é sim. Tem gente que gosta de se
exibir, isso é outra coisa. Tem gente que sente bem sendo sempre o observador,
jamais se admite no lugar do observado, essas pessoas nessa situação travam.
Eu, não sou nem o exibido, nem apenas o observador, sou por natureza provido do
que se pode chamar de observido ou exibador, tenho um pouco de cada dentro de
mim, numa proporção equilibrada que me faz observar aprendendo e quando sinto o
terreno firme que me permite roubar a cena, me lanço sem medo e me exibo. Não
sou nenhum fenômeno, mas percebi que consigo entreter uma plateia.
O palco
começava a ser a extensão dos meus sonhos, do meu quarto, do meu quintal em
dias de violada, das reuniões com os amigos e com os amigos dos amigos e de
repente eram pessoas completamente desconhecidas e que certamente fariam seus
próprios julgamentos. A unanimidade nunca existiria, mas a graça está
justamente aí, na diferença de gostos. Por outro lado, receber a atenção e o
afago da maioria, fora do seu terreno, é sinal de que o seu trabalho foi bem
realizado. Mais uma vez estávamos prontos para descobrir e descortinar o
futuro. Me coloquei no centro do palco a frente dos meus companheiros, me
preparando assim para a apresentação. Certos cantores ou cantoras ao se
apresentarem diante do público costumam usar uma roupa elegante, mesmo num festival,
eu não havia preparado nada diferente ou especial, apesar de haver camarim para
o artista se arrumar. A introdução foi realizada a contento e quando soltei a
minha voz o retorno veio satisfatório. Cantei a primeira parte me preparando
para o refrão, que eu sabia que seria algo que mudaria radicalmente o comportamento
da plateia; seria como se estivesse distraído e algo provocasse repentinamente
toda a sua atenção. Não deu outra, assim que acabei de cantar o referido
refrão, o público quase silenciou e passou a me observar. Continuando
e agora cantando a segunda parte, eu já comecei a imaginar o gestual que faria
quando chegasse no refrão. Nada exagerado, apenas um pouco de interpretação
teatral, usando de expressão corporal o que a letra subentendia. Dessa vez, a
plateia veio ao delírio. A música foi para um pequeno solo, ao término eu
voltaria para repetir a segunda parte e todos já esperavam eu finalizar com o
refrão. A partir desse momento eu era o centro das atenções, o microfone estava
fora do pedestal, sendo empunhado por mim, que dominava completamente a plateia
e os conduzia com maestria. No grand finale a plateia uníssona me acompanhava.
Apresentação feita, a consagração veio através da manifestação calorosa que o
público demostrou. Missão comprida.
Depois, passeando
no meio do pessoal, era abordado por alguns, eles repetiam o refrão como forma
de reconhecimento, pude observar um pouco mais do festival e sentir o que
estávamos enfrentando, para saber se tínhamos alguma chance de classificação.
Bem, vocês não estão nem um tantinho curiosos para saber que porra de refrão é
esse que causou tanto...? Vou tentar explicar, mas vamos deixar para o próximo
capítulo, senão esse vai ficar muito longo, até!
sexta-feira, 14 de outubro de 2016
quarta-feira, 12 de outubro de 2016
Capítulo 22 –
NOVO DESAFIO
Em virtude do
excesso e da temperatura baixa, voltei com a garganta muito inflamada, o que
provocou febre, dores no corpo, e mais de uma semana fora de combate. O
trabalho, o colégio, o ensaio, tudo foi acumulando. Quando finalmente comecei a
me sentir em condições, foi preciso dar maior atenção e eleger prioridades. O
trabalho ficou em primeiro, dadas as circunstâncias. Houvera um gasto fora do
orçamento e financiado, portanto era preciso correr contra o tempo para colocar
as contas em ordem. No colégio, as aulas perdidas teriam que ser recuperadas,
então, além de assistir as novas, tinha que copiar as anteriores e entende-las.
Essas duas atividades me afastaram um pouco dos ensaios, tanto quanto eles, que
também tinham os seus problemas e, portanto, adiamos por um tempo o nosso
retorno. Enquanto isso, os acontecimentos vividos na viagem até Úba, começavam a
dar frutos. A inspiração se apossou de nossas emoções e retribuía com melodias
e letras. Eu sozinho e em parceria com o guitarrista, compus miseravelmente
umas cinco canções, que foram, não todas, três incluídas no repertório da
banda. Como eu havia me juntado a banda pouco tempo antes de acontecer a
classificação para festival, na nossa volta, houve uma reunião e foi decidida
a saída do guitarra base, sem que houvesse necessidade de eu estar presente,
foi uma decisão que eu acabei corroborando.
Lembram lá no capítulo 18, que eu
mencionei que dois sujeitos nos procuraram pedindo uma fita demo para levar ao
um produtor na gravadora CBS no Rio de Janeiro e que eu lhes disse que conhecia
tal produtor, pois bem, munidos de uma fita fomos até o tal produtor, mas pensa
que é simples assim, porra nenhuma, esses caras são procurados o tempo todo por
postulantes a cantores e não é fácil para eles. Pensávamos que por nos
apresentarmos com os nomes dos sujeitos seria suficiente para abrir portas,
ledo engano, o tal, se conhecia, nos disse que não sabia de quem se tratava, e
quanto a fita, se quiséssemos deixa-la com ele, sem garantias, talvez ouvisse,
mas no momento estava muito ocupado. Bem, com tanta gentileza e atenção, como a
fita era o de menos, passamos para mão dele, porém sem nenhuma esperança.
Apesar de
termos feitos algumas gravações em estúdio, levados pelo irmão do contrabaixista,
os ensaios na garagem começaram a escassear e inevitavelmente fomos nos
distanciando do batera, além das parcas apresentações. O tempo foi passando, o
mundo girando, a vida se apresentando e quando nos demos conta estávamos sem
agenda e só eu e o guitarrista é que nos encontrávamos com mais frequência. Foi
justamente num desses inúmeros encontros que surgiu, não me lembro como, um
convite para participarmos de um festival da prefeitura de Duque de Caxias,
organizada por um sujeito competentíssimo em eventos culturais, com formação em
música. Se não me falha a memória, houve uma inovação com relação a escolha dos
participantes ao festival. Nós tomamos conhecimento já meio que em cima da hora
de fechar as inscrições. Não precisamos enviar ou entregar nenhuma fita para
ser escutada e posteriormente informados da classificação. Depois de feito a
inscrição, fomos convidados para uma apresentação num pequeno teatro, onde uma
comissão escolheria as músicas que iriam participar do festival. A música era do
guitarrista, eu iria cantar, chamamos o contrabaixista, mas quando ele soube
qual era a música se recusou a participar, insistimos muito, mas não houve
jeito, ele não achava que a música, que era um tango sacana, não tinha força
para um festival, então recusou mesmo. Bem, diante disso, o guitarra que
conhecia um montão de músicos bons, convidou um batera, músico que toca até hoje com o Jorge Bem Jor, um
contrabaixista e veio com eles só de onda um pianista. No dia da apresentação,
não foi preciso, nem tinha piano, a presença do pianista. No teatro muita
gente, todos ávidos para se apresentar e fazer o melhor. Não havia pressão quanto
ao tempo para começar, havia bom senso. Eles não conheciam a música, mas para
minha surpresa através da batuta do guitarrista, o contrabaixo parecia que já
havia tocado o tango inúmeras vezes, tal o curto tempo em que pegou o jeito,
quanto ao baterista, esse estudava com Wilson das Neves, não foi preciso
nenhuma observação, no que ouviu já estava dentro. Tudo acertado, começamos a
música. Conforme íamos desenvolvendo a apresentação, a sintonia ficava mais
afiada ou afinada. Acabamos e tivemos a impressão de que havíamos feito algo
estupendo, pois a reação dos presentes assim nos mostrou. Penso, que não foi só
uma mera apresentação, acabou sendo um pequeno show, sem modéstia. Agora, era
esperar o comunicado ou não, pois quem não se credenciasse nada recebia, mas algo
ou tudo ali naquele momento nos dizia que já estávamos classificados, dado ao
clima que ficou quando acabamos, não nos restava outro pensamento a não ser
este. Então na semana seguinte...
quarta-feira, 5 de outubro de 2016
Capítulo 21 - VOU PARA CASA E LEVO O SOL
Como eu
estava dizendo no capítulo anterior, tivemos a ideia de nos reunirmos com as
meninas, também já mencionado, uma delas engatou um namoro relâmpago com o
guitarrista, para uma despedida bem comemorativa. Havia um restaurante na praça
que era o point do pedaço e que servia muito bem para as nossas pretensões, a
de bancarmos um jantar de despedida para as nossas anfitriãs e claro fecharmos
com chave de ouro a nossa passagem por aquela cidade. Fizemos as contas do que havia ainda de dinheiro
para gastar e depois de uma pesquisa no cardápio do restaurante, vimos que a
situação não era tão fácil assim. O que sobrou não era suficiente para um
jantar, ainda mais com bebidas. Vendo o nosso sonho ruir, o batera pediu para
esperarmos e foi dentro do recinto tentar alguma coisa que ele havia pensado,
mas não nos explicou. Passados alguns minutos, voltou com um sorriso na boca
acompanhado da notícia de que tinha resolvido com o garçom e de que não
precisávamos nos preocupar que o arranjo cabia direitinho no nosso orçamento. Entramos,
o batera na frente se dirigiu ao um garçom e ele acenou para que fossemos a uma
mesa nos fundos na parte exterior do restaurante, onde ficaríamos bem à vontade
e com o espaço só para nós. A mesa era espaçosa. Podemos nos acomodar sem
apertos. Éramos sete, o guitarra base não voltaria conosco, portanto àquela
hora ele deveria estar jantando na casa dos seus parentes. O batera era o
comandante do navio. Foi ele que arrumou tudo, desde do cálculo da despesa, até
o que nós iríamos comer e quantidade de bebidas, que por sinal não seria nada
exagerado, só umas poucas cervejas para brindarmos o momento. Enquanto
esperávamos, fomos conversando e lembrando dos últimos acontecimentos. As
meninas nos revelaram algumas coisas que só elas é que sabiam. Tais como: a
repercussão do primeiro dia, inclusive para elas; a sacanagem do segundo dia e
quem foi e como fez; o convite para o show feito pelo prefeito e o organizador,
não só corrigindo uma injustiça, mas também oferecendo ao público jovem algo
que interagisse. Agora já eram boas lembranças, mesmo sendo no mesmo dia, ou
há dois dias. Já era passado, não voltaria mais. Conforme
conversávamos, iam surgindo os detalhes, as entrevistas, os autógrafos, o assédio,
sim, eu mesmo fui muito assediado. Nossas bagagens estavam repletas de novidades.
Essas bagagens não pesavam e em momento algum modificaram nosso comportamento.
Passamos para um outro patamar, tínhamos consciência disso, mas essa mudança
não era exteriorizada, era apenas uma dose maior de confiança.
Fomos
interrompidos pela chegada da comida, veio em boa hora, juntando a fome com a
vontade de comer. O garçom vinha acompanhado de dois funcionários, que traziam:
arroz, farofa, molho, fritas e espetos mistos de carne; desejou bom apetite e
se retirou para o interior do restaurante. Nós olhamos para o batera, como quem
pergunta: É isso tudo mesmo? O sorriso era confiante, então não pensamos duas
vezes. Durante longos minutos, ficamos praticamente sem conversar, uma
observação aqui, outra ali, sobre o menu e evidentemente brindamos o final de
semana maravilhoso, as duas novas amigas que se dispuseram a nos assessorar e
se tornaram rapidamente membros do grupo, como se nos conhecêssemos a long
time. Igual ao urso pardo que engorda para hibernar no inverno, nós comemos
demais da conta, o que evitaria sentir fome durante a viagem e ter que descer
na parada para comer, só sairíamos se houvesse necessidade ou para esticar as
pernas. Ainda faltava quase três horas para o nosso embarque, então ficamos
digerindo e conversando, já havíamos trocado endereços para correspondência,
somente eu e o guitarrista. Ele com a sua ficante e eu com a amiga, que durante
esses dias trocamos palavras e descobrimos que tínhamos muita coisa em comum,
mas não passou disso, não que eu não quisesse, mas respeitei manter distância,
pois eu sabia que ela tinha acabado de terminar um namoro com o guitarra base e
como era coisa recente, ainda havia aquele clima, sabe? Bem, passados mais de
uma hora, falamos para o batera chamar e acertar com o garçom o que ele havia
combinado, o sujeito veio e trouxe a conta, quando nos deparamos com a mardita
não acreditávamos no que víamos, sem entender nada recorremos ao batera, ele
começou a tentar se entender com o garçom o que os dois haviam combinados, mas a
conclusão era óbvia, o nosso amigo fez uma puta confusão e agora nós estávamos
encrencados até o pescoço. Não havia outra solução a não ser pagar a conta, por
mais que argumentássemos não saímos do lugar, nosso dinheiro só pagava a
metade, portanto ele teria que engolir um calote, mas aí que residia o maior
problema, o calote era uma baita despesa para o garçom. Ele se retirou, voltou,
foi de novo, enquanto nós víamos a hora se aproximar da partida e não
conseguíamos resolver o imbróglio que o batera havia nos metido. Veio o gerente
que seria a penúltima estancia, nós já estávamos preparados para entrar com um
recurso caso perdêssemos, mas de repente tudo clareou. Quando passou pela
porta, ele que conhecia as meninas, se dirigiu a elas, cumprimento-as e antes
de se dirigir a nós indagou-as sobre o acontecido, foi quando elas não perderam
nem um minuto em explicações, só pediram a ele que guardasse a diferença da conta,
que no dia seguinte elas pagariam. Pedido aceito, apenas virou-se para nós,
sorriu e se retirou, pegado aos seus calcanhares seguia o garçom. Nós ficamos
completamente sem graça e sem palavras. Elas agradeceram o jantar e
principalmente o final de semana que fora maravilhoso, não faziam ideia do
futuro, mas tinham certeza de que nós havíamos deixados em suas vidas, marcas
profundamente carinhosas e inesquecíveis.
Saímos do
restaurante e fomos caminhando calmamente em direção a rodoviária. Durante a
caminhada poucas palavras, o silêncio era um sinal da eminente despedida, fato
que doía, mas era irremediável. A vida é assim, não tem como parar o tempo, por
mais que se queira e nem voltar, é vida que segue. Nos despedimos, quase as
lágrimas, e embarcamos no ônibus já com uma saudade aflorando. De dentro do
veículo muitos acenos, beijos lançados pela mão e a visão se distanciando e
transformando a imagem nítida em pequenas silhuetas. Agora, voltávamos a nossa
realidade. Saíamos do mundo encantado. Foram três dias vividos inteiramente
voltados para música. Fora a nossa primeira experiência ao vivo e a cores. Não
sabíamos o que o futuro nos reservava, mas agora sabíamos que tínhamos
potencial; não estávamos no ponto, ainda teríamos que percorrer muita estrada,
mas havíamos começado a caminhada. Agora, era acordar desse sonho e construir
outro, mas sempre com os pés no chão.
segunda-feira, 3 de outubro de 2016
Criatura de Sebo: Raridades - Mutantes
Criatura de Sebo: Raridades - Mutantes: O Suicida (O'Seis - Compacto - 1966) Rafael Vilardi - Rita Lee Apocalipse (O'Seis - Compacto - 1966) Rita Lee O Homem ...
Destaco "Mande um abraço pra velha", faixa que me emociona tanto ouvindo o meu vinil chiado do FIC 72 (adquirido há décadas), quanto a coletânea de uma caixa lançada em 2014. Essa, com seu preço salgado, convida-nos a roer MP3 com mais gosto ainda!
Destaco "Mande um abraço pra velha", faixa que me emociona tanto ouvindo o meu vinil chiado do FIC 72 (adquirido há décadas), quanto a coletânea de uma caixa lançada em 2014. Essa, com seu preço salgado, convida-nos a roer MP3 com mais gosto ainda!
Assinar:
Postagens (Atom)