Capítulo 22 –
NOVO DESAFIO
Em virtude do
excesso e da temperatura baixa, voltei com a garganta muito inflamada, o que
provocou febre, dores no corpo, e mais de uma semana fora de combate. O
trabalho, o colégio, o ensaio, tudo foi acumulando. Quando finalmente comecei a
me sentir em condições, foi preciso dar maior atenção e eleger prioridades. O
trabalho ficou em primeiro, dadas as circunstâncias. Houvera um gasto fora do
orçamento e financiado, portanto era preciso correr contra o tempo para colocar
as contas em ordem. No colégio, as aulas perdidas teriam que ser recuperadas,
então, além de assistir as novas, tinha que copiar as anteriores e entende-las.
Essas duas atividades me afastaram um pouco dos ensaios, tanto quanto eles, que
também tinham os seus problemas e, portanto, adiamos por um tempo o nosso
retorno. Enquanto isso, os acontecimentos vividos na viagem até Úba, começavam a
dar frutos. A inspiração se apossou de nossas emoções e retribuía com melodias
e letras. Eu sozinho e em parceria com o guitarrista, compus miseravelmente
umas cinco canções, que foram, não todas, três incluídas no repertório da
banda. Como eu havia me juntado a banda pouco tempo antes de acontecer a
classificação para festival, na nossa volta, houve uma reunião e foi decidida
a saída do guitarra base, sem que houvesse necessidade de eu estar presente,
foi uma decisão que eu acabei corroborando.
Lembram lá no capítulo 18, que eu
mencionei que dois sujeitos nos procuraram pedindo uma fita demo para levar ao
um produtor na gravadora CBS no Rio de Janeiro e que eu lhes disse que conhecia
tal produtor, pois bem, munidos de uma fita fomos até o tal produtor, mas pensa
que é simples assim, porra nenhuma, esses caras são procurados o tempo todo por
postulantes a cantores e não é fácil para eles. Pensávamos que por nos
apresentarmos com os nomes dos sujeitos seria suficiente para abrir portas,
ledo engano, o tal, se conhecia, nos disse que não sabia de quem se tratava, e
quanto a fita, se quiséssemos deixa-la com ele, sem garantias, talvez ouvisse,
mas no momento estava muito ocupado. Bem, com tanta gentileza e atenção, como a
fita era o de menos, passamos para mão dele, porém sem nenhuma esperança.
Apesar de
termos feitos algumas gravações em estúdio, levados pelo irmão do contrabaixista,
os ensaios na garagem começaram a escassear e inevitavelmente fomos nos
distanciando do batera, além das parcas apresentações. O tempo foi passando, o
mundo girando, a vida se apresentando e quando nos demos conta estávamos sem
agenda e só eu e o guitarrista é que nos encontrávamos com mais frequência. Foi
justamente num desses inúmeros encontros que surgiu, não me lembro como, um
convite para participarmos de um festival da prefeitura de Duque de Caxias,
organizada por um sujeito competentíssimo em eventos culturais, com formação em
música. Se não me falha a memória, houve uma inovação com relação a escolha dos
participantes ao festival. Nós tomamos conhecimento já meio que em cima da hora
de fechar as inscrições. Não precisamos enviar ou entregar nenhuma fita para
ser escutada e posteriormente informados da classificação. Depois de feito a
inscrição, fomos convidados para uma apresentação num pequeno teatro, onde uma
comissão escolheria as músicas que iriam participar do festival. A música era do
guitarrista, eu iria cantar, chamamos o contrabaixista, mas quando ele soube
qual era a música se recusou a participar, insistimos muito, mas não houve
jeito, ele não achava que a música, que era um tango sacana, não tinha força
para um festival, então recusou mesmo. Bem, diante disso, o guitarra que
conhecia um montão de músicos bons, convidou um batera, músico que toca até hoje com o Jorge Bem Jor, um
contrabaixista e veio com eles só de onda um pianista. No dia da apresentação,
não foi preciso, nem tinha piano, a presença do pianista. No teatro muita
gente, todos ávidos para se apresentar e fazer o melhor. Não havia pressão quanto
ao tempo para começar, havia bom senso. Eles não conheciam a música, mas para
minha surpresa através da batuta do guitarrista, o contrabaixo parecia que já
havia tocado o tango inúmeras vezes, tal o curto tempo em que pegou o jeito,
quanto ao baterista, esse estudava com Wilson das Neves, não foi preciso
nenhuma observação, no que ouviu já estava dentro. Tudo acertado, começamos a
música. Conforme íamos desenvolvendo a apresentação, a sintonia ficava mais
afiada ou afinada. Acabamos e tivemos a impressão de que havíamos feito algo
estupendo, pois a reação dos presentes assim nos mostrou. Penso, que não foi só
uma mera apresentação, acabou sendo um pequeno show, sem modéstia. Agora, era
esperar o comunicado ou não, pois quem não se credenciasse nada recebia, mas algo
ou tudo ali naquele momento nos dizia que já estávamos classificados, dado ao
clima que ficou quando acabamos, não nos restava outro pensamento a não ser
este. Então na semana seguinte...
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