Capítulo 24 –
DURA LEX SED LEX, NO CABELO SÓ GUMEX
No capítulo
anterior, avisei-os, que deixaria para este, a explicação sobre o refrão da
música, que causou.... Bem, vejamos!
Vivíamos na
época um regime militar, portanto qualquer manifestação contrária, por menor
que fosse, poderia ser considerada Antigoverno e, isso poderia resultar em
sérios problemas. Nós não participávamos de nenhum movimento, mas também não
éramos pró-governo, o que fazíamos era tentar ser feliz mesmo diante de tal
situação. Quando o guitarrista compôs a música, ele escreveu uma letra
subentendida, com traços de insatisfação, mas para apresentar ao público tivera
que amenizar, então tínhamos a seguinte situação: "Pois nessa vida sem vida, nós
somos ébrios quaisquer, estranho final num porão, chorando por uma mulher, e o
arlequim que passa, com tanta alegria e tal, me faz ver que a tristeza termina
no carnaval. AAAAAIIIIIIII! Meus foliões, meus foliões, meus foliões. E depois
de muito andar, agora sei o que é, estranho final numa prisão, morrendo pelo
que quer, e os homens que agora passam, com tanta frieza e tal, me faz ver que
a opressão continua depois do carnaval. AAAAIIIIII! Meus foliões, meus foliões,
meus foliões". Para amenizar um pouquinho, só retiramos a palavra “opressão” que
tem como definição: tirania, mão de ferro, abuso, despotismo e colocamos
“tristeza”, mas o refrão, este, quando cantado, se confundia com: "AAAAIIII!
Meus culhões, meus culhões, meus culhões".
Quando
acabaram as apresentações, ficamos à espera da lista dos classificados, que
retornariam no próximo sábado. Enquanto os jurados se reuniam, surgiu não sei
de onde, um boato de que eu estaria cotadíssimo para o prêmio de melhor
intérprete. A princípio era apenas uma tênue possibilidade, mas conforme foi
avançando o tempo e assim que saiu a lista dos classificados e nós estávamos
entre os citados, o boato ganhou força ao ponto de me fazer acreditar sim nessa
possibilidade. Saímos do local felizes pela classificação, ainda ouvindo o
refrão sendo cantado por alguém na multidão e fomos bebemorar que ninguém é de
ferro. Já na volta, me veio à cabeça que eu devia fazer alguma coisa diferente
para incrementar mais a apresentação, mas o quê? Fiquei entre os amigos,
brincando, lembrando, bebendo, gargalhando, mas no meio disso tudo a ideia
vinha e voltava a sumir como uma aparição, muda, vazia, enevoada, foi assim até
que, voltou e aos poucos foi se revelando e quando dei por mim estava diante do
maior cantor, que dizem ser de origem francesa, uruguaia e argentina, não
importa, o que importa é que ele foi o maior intérprete de tango que eu nem
conhecera, mas que conhecia a sua história ou parte, pelo menos, contada pelos
mais velhos, livros e revistas: "Carlos Gardel". Quando contei para o pessoal, uns não sabiam quem
foi; outros pouco sabiam, mas sabiam e um mínimo já haviam lido sobre. Comecei
ali mesmo a construir para a minha pequena plateia, o que seria e o que eu
precisaria para minha transformação: Gardel era branco, assim como eu; era
magro, eu também; tinha o cabelo cheio, mas cortado acima da orelha e feito o
pé, para amansá-lo usava muito gel e repartia ao lado, mas não muito do lado,
aí existia uma grande diferença, eu tinha, assim como praticamente todos, uma
vasta cabeleira e além disso ele era muito elegante, só se apresentava de
terno, gravata e chapéu e eu nunca havia usado ou colocado um, quanto mais o
outro. Feita a apresentação da transformação, meus amigos quiseram saber como
eu faria para conseguir juntar tudo. Bem, eu argumentei, que só restavam dois
obstáculos, mas que o primeiro era simples, o cabelo. Eu ia pesquisar o corte e
cortá-lo, quanto ao terno e o chapéu precisava de ajuda. Alguém lembrou que o
pai da minha namorada, certamente teria um terno e que ele era magrinho assim
como eu. Guardei na memória e continuamos procurando mais opções. Dentro do
grupo que ali se encontrava, só o guitarrista foi quem levantou a hipótese de
possuir uma outra alternativa. Ele me lembrou que um amigo em comum, vizinho,
que vez por outra, nós éramos convidados a sua residência para tocarmos violão,
jogar conversa fora, cerveja, enfim, confraternizar uma noite inteira até amanhecer
e que seu pai que também participava até uma certa hora da violada, talvez
tivesse esse tipo de vestimenta, o manequim não era tão distante. Concordei,
mas esperava resolver já na primeira tentativa.
No dia
seguinte, acordei cheio de esperança; havia dormido na casa da minha namorada.
Mal acabei de tomar café, fui ter com o meu futuro sogro para saber se ele
possuía um terno escuro. A resposta não poderia ser melhor, tinha até dois.
Alegou que eram antigos, penso que não poderia ser mais adequado, fato que
concordou quando expliquei para o que eu queria. Trouxe ambos, mas já no
primeiro, eu arrefeci quando vesti o paletó, havia esquecido desse detalhe, ele
era menor do que eu, portanto, tanto o paletó quanto a calça ficavam curtos.
Agora só me restava o outro pai, mas para isso eu teria que esperar,
pois ele morava distante dali, mas perto da minha casa, então, só no dia
seguinte ou outro dia. Enquanto isso, aproveitei para pesquisar com o pai da
minha namorada sobre o Gardel, as informações foram muito detalhadas, é, não
tínhamos o google para isso. Ele trouxe vinil para ouvirmos e algumas fotos. A
semana começou e eu me encontrei com o guitarrista, que me informou já ter
conversado com o pai do nosso amigo e que ele estava me esperando a qualquer
hora. Não demorei muito, pois o tempo era curto e se não desse certo eu ficaria
encurralado. Ele me recebeu com o seu sorriso e alegria de costume, convidou-me
para entrar e logo avisou que iria buscar o terno, não sem antes me
confidenciar que era o terno do seu casamento, que o havia guardado esses anos
todos e que eu não me preocupasse, que apesar da barriga, na época ele era
fininho, portanto, achava que cairia como uma luva. Fiquei na sala esperançoso.
Ao regressar, pude ver que o terno era preto, o que era bom, tirou do cabide e
abrindo-o me convidou a colocar o primeiro braço, após, enfiei o segundo por
dentro do paletó e ajudado por ele fomos ajeitando no corpo. Não experimentei
nem a calça, se o paletó ficara bom, a outra peça não me deixaria na mão.
Agradeci muito, perguntei se precisa lavar e prometi devolve-lo sem avarias.
Parti para casa com uma alegria imensa por dentro; com uma vontade de mostra-la
a todos, mas ainda bem que não o fiz, pois ninguém ia entender. Em casa
verifiquei que a calça ficava um pouco larga, mas nada que um cinto não
resolvesse a questão. No dia seguinte dei uma chegada na barbearia, é, ele também
tem família e fiz as pazes com o barbeiro. Cortei minha juba sem dó nem
piedade, como se diz. Pedi que ele fizesse o corte o mais parecido possível com
grande artista do tango, o resultado final ficou excelente, eu é que estranhei
para cacete a falta do cabelão. O traje estava completo, quer dizer quase,
faltava o chapéu, que não deu mesmo e, sendo assim e por falta também do sapato
no verniz, eu resolvi dar um toque sutil que representasse os tempos atuais e,
separei como complemento um tênis como calçado.
No dia da
apresentação, eu levei tudo dentro de uma bolsa: terno, camisa branca social,
gravata preta, cinto, pente, gumex – Como já dizia Ary Barroso: “Dura lex sed lex, no cabelo só Gumex” - o tênis já estava nos pés. Eu deixei
para me preparar no camarim, assim ninguém me veria antes do momento, até para
o meu pequeno fã clube seria surpresa e, reservei uma estratégia que me veio à
cabeça ainda no camarim, que seria.... Me desculpem, mas sou obrigado a deixar
o relato para o próximo capítulo, até lá!
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