quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Capítulo 24 – DURA LEX SED LEX, NO CABELO SÓ GUMEX

No capítulo anterior, avisei-os, que deixaria para este, a explicação sobre o refrão da música, que causou.... Bem, vejamos!
Vivíamos na época um regime militar, portanto qualquer manifestação contrária, por menor que fosse, poderia ser considerada Antigoverno e, isso poderia resultar em sérios problemas. Nós não participávamos de nenhum movimento, mas também não éramos pró-governo, o que fazíamos era tentar ser feliz mesmo diante de tal situação. Quando o guitarrista compôs a música, ele escreveu uma letra subentendida, com traços de insatisfação, mas para apresentar ao público tivera que amenizar, então tínhamos a seguinte situação: "Pois nessa vida sem vida, nós somos ébrios quaisquer, estranho final num porão, chorando por uma mulher, e o arlequim que passa, com tanta alegria e tal, me faz ver que a tristeza termina no carnaval. AAAAAIIIIIIII! Meus foliões, meus foliões, meus foliões. E depois de muito andar, agora sei o que é, estranho final numa prisão, morrendo pelo que quer, e os homens que agora passam, com tanta frieza e tal, me faz ver que a opressão continua depois do carnaval. AAAAIIIIII! Meus foliões, meus foliões, meus foliões". Para amenizar um pouquinho, só retiramos a palavra “opressão” que tem como definição: tirania, mão de ferro, abuso, despotismo e colocamos “tristeza”, mas o refrão, este, quando cantado, se confundia com: "AAAAIIII! Meus culhões, meus culhões, meus culhões".
Quando acabaram as apresentações, ficamos à espera da lista dos classificados, que retornariam no próximo sábado. Enquanto os jurados se reuniam, surgiu não sei de onde, um boato de que eu estaria cotadíssimo para o prêmio de melhor intérprete. A princípio era apenas uma tênue possibilidade, mas conforme foi avançando o tempo e assim que saiu a lista dos classificados e nós estávamos entre os citados, o boato ganhou força ao ponto de me fazer acreditar sim nessa possibilidade. Saímos do local felizes pela classificação, ainda ouvindo o refrão sendo cantado por alguém na multidão e fomos bebemorar que ninguém é de ferro. Já na volta, me veio à cabeça que eu devia fazer alguma coisa diferente para incrementar mais a apresentação, mas o quê? Fiquei entre os amigos, brincando, lembrando, bebendo, gargalhando, mas no meio disso tudo a ideia vinha e voltava a sumir como uma aparição, muda, vazia, enevoada, foi assim até que, voltou e aos poucos foi se revelando e quando dei por mim estava diante do maior cantor, que dizem ser de origem francesa, uruguaia e argentina, não importa, o que importa é que ele foi o maior intérprete de tango que eu nem conhecera, mas que conhecia a sua história ou parte, pelo menos, contada pelos mais velhos, livros e revistas: "Carlos Gardel". Quando contei para o pessoal, uns não sabiam quem foi; outros pouco sabiam, mas sabiam e um mínimo já haviam lido sobre. Comecei ali mesmo a construir para a minha pequena plateia, o que seria e o que eu precisaria para minha transformação: Gardel era branco, assim como eu; era magro, eu também; tinha o cabelo cheio, mas cortado acima da orelha e feito o pé, para amansá-lo usava muito gel e repartia ao lado, mas não muito do lado, aí existia uma grande diferença, eu tinha, assim como praticamente todos, uma vasta cabeleira e além disso ele era muito elegante, só se apresentava de terno, gravata e chapéu e eu nunca havia usado ou colocado um, quanto mais o outro. Feita a apresentação da transformação, meus amigos quiseram saber como eu faria para conseguir juntar tudo. Bem, eu argumentei, que só restavam dois obstáculos, mas que o primeiro era simples, o cabelo. Eu ia pesquisar o corte e cortá-lo, quanto ao terno e o chapéu precisava de ajuda. Alguém lembrou que o pai da minha namorada, certamente teria um terno e que ele era magrinho assim como eu. Guardei na memória e continuamos procurando mais opções. Dentro do grupo que ali se encontrava, só o guitarrista foi quem levantou a hipótese de possuir uma outra alternativa. Ele me lembrou que um amigo em comum, vizinho, que vez por outra, nós éramos convidados a sua residência para tocarmos violão, jogar conversa fora, cerveja, enfim, confraternizar uma noite inteira até amanhecer e que seu pai que também participava até uma certa hora da violada, talvez tivesse esse tipo de vestimenta, o manequim não era tão distante. Concordei, mas esperava resolver já na primeira tentativa.
No dia seguinte, acordei cheio de esperança; havia dormido na casa da minha namorada. Mal acabei de tomar café, fui ter com o meu futuro sogro para saber se ele possuía um terno escuro. A resposta não poderia ser melhor, tinha até dois. Alegou que eram antigos, penso que não poderia ser mais adequado, fato que concordou quando expliquei para o que eu queria. Trouxe ambos, mas já no primeiro, eu arrefeci quando vesti o paletó, havia esquecido desse detalhe, ele era menor do que eu, portanto, tanto o paletó quanto a calça ficavam curtos. Agora só me restava o outro pai, mas para isso eu teria que esperar, pois ele morava distante dali, mas perto da minha casa, então, só no dia seguinte ou outro dia. Enquanto isso, aproveitei para pesquisar com o pai da minha namorada sobre o Gardel, as informações foram muito detalhadas, é, não tínhamos o google para isso. Ele trouxe vinil para ouvirmos e algumas fotos. A semana começou e eu me encontrei com o guitarrista, que me informou já ter conversado com o pai do nosso amigo e que ele estava me esperando a qualquer hora. Não demorei muito, pois o tempo era curto e se não desse certo eu ficaria encurralado. Ele me recebeu com o seu sorriso e alegria de costume, convidou-me para entrar e logo avisou que iria buscar o terno, não sem antes me confidenciar que era o terno do seu casamento, que o havia guardado esses anos todos e que eu não me preocupasse, que apesar da barriga, na época ele era fininho, portanto, achava que cairia como uma luva. Fiquei na sala esperançoso. Ao regressar, pude ver que o terno era preto, o que era bom, tirou do cabide e abrindo-o me convidou a colocar o primeiro braço, após, enfiei o segundo por dentro do paletó e ajudado por ele fomos ajeitando no corpo. Não experimentei nem a calça, se o paletó ficara bom, a outra peça não me deixaria na mão. Agradeci muito, perguntei se precisa lavar e prometi devolve-lo sem avarias. Parti para casa com uma alegria imensa por dentro; com uma vontade de mostra-la a todos, mas ainda bem que não o fiz, pois ninguém ia entender. Em casa verifiquei que a calça ficava um pouco larga, mas nada que um cinto não resolvesse a questão. No dia seguinte dei uma chegada na barbearia, é, ele também tem família e fiz as pazes com o barbeiro. Cortei minha juba sem dó nem piedade, como se diz. Pedi que ele fizesse o corte o mais parecido possível com grande artista do tango, o resultado final ficou excelente, eu é que estranhei para cacete a falta do cabelão. O traje estava completo, quer dizer quase, faltava o chapéu, que não deu mesmo e, sendo assim e por falta também do sapato no verniz, eu resolvi dar um toque sutil que representasse os tempos atuais e, separei como complemento um tênis como calçado.

No dia da apresentação, eu levei tudo dentro de uma bolsa: terno, camisa branca social, gravata preta, cinto, pente, gumex – Como já dizia Ary Barroso:  “Dura lex sed lex, no cabelo só Gumex” - o tênis já estava nos pés. Eu deixei para me preparar no camarim, assim ninguém me veria antes do momento, até para o meu pequeno fã clube seria surpresa e, reservei uma estratégia que me veio à cabeça ainda no camarim, que seria.... Me desculpem, mas sou obrigado a deixar o relato para o próximo capítulo, até lá! 

Nenhum comentário:

Postar um comentário