Capítulo 23 –
O REFRÃO
Não faz tanto
tempo assim, não havia internet e pouca gente tinha telefone fixo e, isso nunca
foi um entrave, pelo contrário, vivíamos muito bem, quiçá melhor. Então, sem
e-mail ou WhatsApp, ficamos esperando (funcionava muito bem) o correio nos
trazer a correspondência que confirmaria as nossas convicções. Não demorou
muito, chegou o convite oficial para participarmos do festival, estávamos
classificados, como esperávamos. A partir daí o guitarrista foi confirmar com
os rapazes se no dia da apresentação eles não teriam compromissos em algum
evento. Feito a sondagem e, recebida a resposta de não haver impedimento,
começamos os preparativos para a competição.
O festival
era um incentivo cultural da prefeitura de Duque de Caxias e, como responsável
estava à frente, participando da secretaria de cultura, o nosso personagem
central: Chico Chicão. Homem de cultura e incentivador das várias formas de
expressão dentro das artes. A música era seu combustível maior: Músico,
compositor, cantor, produtor, arranjador e, principalmente incentivador de
novos talentos, bandas e cantores independentes. Um festival organizado por uma
pessoa dessas, estava fadado ao sucesso, sem sombra de dúvida. Fomos convidados
para uma reunião só para os participantes e a equipe organizadora e, depois da
reunião ficamos um pouco mais, aproveitando que o nível da conversa havia sido
gratificante, fizemos uma boa amizade com o Chico. Ficamos, depois da reunião,
horas papeando sobre música; sobre suas atividades; sobre o festival, que ele
queria transforma-lo numa referência, ficamos encantados com a pessoa e o
sentimento era recíproco e, ali nascia uma grande amizade.
O festival
seria realizado na câmara dos vereadores, espaço com sistema de som e acústica
adequados, precisando apenas de alguns ajustes, mas com capacidade para receber
um bom número de público. O evento recebeu grande divulgação pelos meios de
comunicação do município: Rádios locais, faixas, carros de som, enfim, tudo o
que se podia usar para convidar a comunidade. Os jurados foram escolhidos a
dedo; pessoas que viviam para e de arte: Professor de música, músico, escritor,
diretor teatral, professor da língua portuguesa, enfim, uma baita seleção. Como
estava perto do meu quintal, pude contar com uma pequena torcida, que
antecedendo o dia da apresentação já se movimentava em pequenos detalhes para
chegar na hora e produzir apoio. Quando lá cheguei para a primeira fase, pude
confirmar, no meio do público, os meus amigos e fãs, apostos, prontos para me
incentivar. Era a fase classificatória, eu já havia passado por essa agonia,
sabia que a decisão estaria nas mãos dos jurados, mas tudo dependia de como nos
saíssemos no palco. Eu já trazia uma certa experiência nesse tipo de
apresentação, agora as pernas não tremeriam mais, mas o frio na barriga ainda
existia, essa sensação eu penso que não é medo, pelo contrário, é uma enorme
vontade de subir no palco e mostrar tudo aquilo que você ensaiou, talvez até
tirar um coelho da cartola e se surpreender, mostrando principalmente a você
mesmo que céu é o limite. Sair da zona de conforto, normalmente é um incômodo,
não que seja para todo mundo, mas para muitos é sim. Tem gente que gosta de se
exibir, isso é outra coisa. Tem gente que sente bem sendo sempre o observador,
jamais se admite no lugar do observado, essas pessoas nessa situação travam.
Eu, não sou nem o exibido, nem apenas o observador, sou por natureza provido do
que se pode chamar de observido ou exibador, tenho um pouco de cada dentro de
mim, numa proporção equilibrada que me faz observar aprendendo e quando sinto o
terreno firme que me permite roubar a cena, me lanço sem medo e me exibo. Não
sou nenhum fenômeno, mas percebi que consigo entreter uma plateia.
O palco
começava a ser a extensão dos meus sonhos, do meu quarto, do meu quintal em
dias de violada, das reuniões com os amigos e com os amigos dos amigos e de
repente eram pessoas completamente desconhecidas e que certamente fariam seus
próprios julgamentos. A unanimidade nunca existiria, mas a graça está
justamente aí, na diferença de gostos. Por outro lado, receber a atenção e o
afago da maioria, fora do seu terreno, é sinal de que o seu trabalho foi bem
realizado. Mais uma vez estávamos prontos para descobrir e descortinar o
futuro. Me coloquei no centro do palco a frente dos meus companheiros, me
preparando assim para a apresentação. Certos cantores ou cantoras ao se
apresentarem diante do público costumam usar uma roupa elegante, mesmo num festival,
eu não havia preparado nada diferente ou especial, apesar de haver camarim para
o artista se arrumar. A introdução foi realizada a contento e quando soltei a
minha voz o retorno veio satisfatório. Cantei a primeira parte me preparando
para o refrão, que eu sabia que seria algo que mudaria radicalmente o comportamento
da plateia; seria como se estivesse distraído e algo provocasse repentinamente
toda a sua atenção. Não deu outra, assim que acabei de cantar o referido
refrão, o público quase silenciou e passou a me observar. Continuando
e agora cantando a segunda parte, eu já comecei a imaginar o gestual que faria
quando chegasse no refrão. Nada exagerado, apenas um pouco de interpretação
teatral, usando de expressão corporal o que a letra subentendia. Dessa vez, a
plateia veio ao delírio. A música foi para um pequeno solo, ao término eu
voltaria para repetir a segunda parte e todos já esperavam eu finalizar com o
refrão. A partir desse momento eu era o centro das atenções, o microfone estava
fora do pedestal, sendo empunhado por mim, que dominava completamente a plateia
e os conduzia com maestria. No grand finale a plateia uníssona me acompanhava.
Apresentação feita, a consagração veio através da manifestação calorosa que o
público demostrou. Missão comprida.
Depois, passeando
no meio do pessoal, era abordado por alguns, eles repetiam o refrão como forma
de reconhecimento, pude observar um pouco mais do festival e sentir o que
estávamos enfrentando, para saber se tínhamos alguma chance de classificação.
Bem, vocês não estão nem um tantinho curiosos para saber que porra de refrão é
esse que causou tanto...? Vou tentar explicar, mas vamos deixar para o próximo
capítulo, senão esse vai ficar muito longo, até!
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