quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Capítulo 23 – O REFRÃO

Não faz tanto tempo assim, não havia internet e pouca gente tinha telefone fixo e, isso nunca foi um entrave, pelo contrário, vivíamos muito bem, quiçá melhor. Então, sem e-mail ou WhatsApp, ficamos esperando (funcionava muito bem) o correio nos trazer a correspondência que confirmaria as nossas convicções. Não demorou muito, chegou o convite oficial para participarmos do festival, estávamos classificados, como esperávamos. A partir daí o guitarrista foi confirmar com os rapazes se no dia da apresentação eles não teriam compromissos em algum evento. Feito a sondagem e, recebida a resposta de não haver impedimento, começamos os preparativos para a competição.
O festival era um incentivo cultural da prefeitura de Duque de Caxias e, como responsável estava à frente, participando da secretaria de cultura, o nosso personagem central: Chico Chicão. Homem de cultura e incentivador das várias formas de expressão dentro das artes. A música era seu combustível maior: Músico, compositor, cantor, produtor, arranjador e, principalmente incentivador de novos talentos, bandas e cantores independentes. Um festival organizado por uma pessoa dessas, estava fadado ao sucesso, sem sombra de dúvida. Fomos convidados para uma reunião só para os participantes e a equipe organizadora e, depois da reunião ficamos um pouco mais, aproveitando que o nível da conversa havia sido gratificante, fizemos uma boa amizade com o Chico. Ficamos, depois da reunião, horas papeando sobre música; sobre suas atividades; sobre o festival, que ele queria transforma-lo numa referência, ficamos encantados com a pessoa e o sentimento era recíproco e, ali nascia uma grande amizade.
O festival seria realizado na câmara dos vereadores, espaço com sistema de som e acústica adequados, precisando apenas de alguns ajustes, mas com capacidade para receber um bom número de público. O evento recebeu grande divulgação pelos meios de comunicação do município: Rádios locais, faixas, carros de som, enfim, tudo o que se podia usar para convidar a comunidade. Os jurados foram escolhidos a dedo; pessoas que viviam para e de arte: Professor de música, músico, escritor, diretor teatral, professor da língua portuguesa, enfim, uma baita seleção. Como estava perto do meu quintal, pude contar com uma pequena torcida, que antecedendo o dia da apresentação já se movimentava em pequenos detalhes para chegar na hora e produzir apoio. Quando lá cheguei para a primeira fase, pude confirmar, no meio do público, os meus amigos e fãs, apostos, prontos para me incentivar. Era a fase classificatória, eu já havia passado por essa agonia, sabia que a decisão estaria nas mãos dos jurados, mas tudo dependia de como nos saíssemos no palco. Eu já trazia uma certa experiência nesse tipo de apresentação, agora as pernas não tremeriam mais, mas o frio na barriga ainda existia, essa sensação eu penso que não é medo, pelo contrário, é uma enorme vontade de subir no palco e mostrar tudo aquilo que você ensaiou, talvez até tirar um coelho da cartola e se surpreender, mostrando principalmente a você mesmo que céu é o limite. Sair da zona de conforto, normalmente é um incômodo, não que seja para todo mundo, mas para muitos é sim. Tem gente que gosta de se exibir, isso é outra coisa. Tem gente que sente bem sendo sempre o observador, jamais se admite no lugar do observado, essas pessoas nessa situação travam. Eu, não sou nem o exibido, nem apenas o observador, sou por natureza provido do que se pode chamar de observido ou exibador, tenho um pouco de cada dentro de mim, numa proporção equilibrada que me faz observar aprendendo e quando sinto o terreno firme que me permite roubar a cena, me lanço sem medo e me exibo. Não sou nenhum fenômeno, mas percebi que consigo entreter uma plateia.
O palco começava a ser a extensão dos meus sonhos, do meu quarto, do meu quintal em dias de violada, das reuniões com os amigos e com os amigos dos amigos e de repente eram pessoas completamente desconhecidas e que certamente fariam seus próprios julgamentos. A unanimidade nunca existiria, mas a graça está justamente aí, na diferença de gostos. Por outro lado, receber a atenção e o afago da maioria, fora do seu terreno, é sinal de que o seu trabalho foi bem realizado. Mais uma vez estávamos prontos para descobrir e descortinar o futuro. Me coloquei no centro do palco a frente dos meus companheiros, me preparando assim para a apresentação. Certos cantores ou cantoras ao se apresentarem diante do público costumam usar uma roupa elegante, mesmo num festival, eu não havia preparado nada diferente ou especial, apesar de haver camarim para o artista se arrumar. A introdução foi realizada a contento e quando soltei a minha voz o retorno veio satisfatório. Cantei a primeira parte me preparando para o refrão, que eu sabia que seria algo que mudaria radicalmente o comportamento da plateia; seria como se estivesse distraído e algo provocasse repentinamente toda a sua atenção. Não deu outra, assim que acabei de cantar o referido refrão, o público quase silenciou e passou a me observar. Continuando e agora cantando a segunda parte, eu já comecei a imaginar o gestual que faria quando chegasse no refrão. Nada exagerado, apenas um pouco de interpretação teatral, usando de expressão corporal o que a letra subentendia. Dessa vez, a plateia veio ao delírio. A música foi para um pequeno solo, ao término eu voltaria para repetir a segunda parte e todos já esperavam eu finalizar com o refrão. A partir desse momento eu era o centro das atenções, o microfone estava fora do pedestal, sendo empunhado por mim, que dominava completamente a plateia e os conduzia com maestria. No grand finale a plateia uníssona me acompanhava. Apresentação feita, a consagração veio através da manifestação calorosa que o público demostrou. Missão comprida.

Depois, passeando no meio do pessoal, era abordado por alguns, eles repetiam o refrão como forma de reconhecimento, pude observar um pouco mais do festival e sentir o que estávamos enfrentando, para saber se tínhamos alguma chance de classificação. Bem, vocês não estão nem um tantinho curiosos para saber que porra de refrão é esse que causou tanto...? Vou tentar explicar, mas vamos deixar para o próximo capítulo, senão esse vai ficar muito longo, até!  

Nenhum comentário:

Postar um comentário