quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Capítulo 21 - VOU PARA CASA E LEVO O SOL

Como eu estava dizendo no capítulo anterior, tivemos a ideia de nos reunirmos com as meninas, também já mencionado, uma delas engatou um namoro relâmpago com o guitarrista, para uma despedida bem comemorativa. Havia um restaurante na praça que era o point do pedaço e que servia muito bem para as nossas pretensões, a de bancarmos um jantar de despedida para as nossas anfitriãs e claro fecharmos com chave de ouro a nossa passagem por aquela cidade. Fizemos as contas do que havia ainda de dinheiro para gastar e depois de uma pesquisa no cardápio do restaurante, vimos que a situação não era tão fácil assim. O que sobrou não era suficiente para um jantar, ainda mais com bebidas. Vendo o nosso sonho ruir, o batera pediu para esperarmos e foi dentro do recinto tentar alguma coisa que ele havia pensado, mas não nos explicou. Passados alguns minutos, voltou com um sorriso na boca acompanhado da notícia de que tinha resolvido com o garçom e de que não precisávamos nos preocupar que o arranjo cabia direitinho no nosso orçamento. Entramos, o batera na frente se dirigiu ao um garçom e ele acenou para que fossemos a uma mesa nos fundos na parte exterior do restaurante, onde ficaríamos bem à vontade e com o espaço só para nós. A mesa era espaçosa. Podemos nos acomodar sem apertos. Éramos sete, o guitarra base não voltaria conosco, portanto àquela hora ele deveria estar jantando na casa dos seus parentes. O batera era o comandante do navio. Foi ele que arrumou tudo, desde do cálculo da despesa, até o que nós iríamos comer e quantidade de bebidas, que por sinal não seria nada exagerado, só umas poucas cervejas para brindarmos o momento. Enquanto esperávamos, fomos conversando e lembrando dos últimos acontecimentos. As meninas nos revelaram algumas coisas que só elas é que sabiam. Tais como: a repercussão do primeiro dia, inclusive para elas; a sacanagem do segundo dia e quem foi e como fez; o convite para o show feito pelo prefeito e o organizador, não só corrigindo uma injustiça, mas também oferecendo ao público jovem algo que interagisse. Agora já eram boas lembranças, mesmo sendo no mesmo dia, ou há dois dias. Já era passado, não voltaria mais. Conforme conversávamos, iam surgindo os detalhes, as entrevistas, os autógrafos, o assédio, sim, eu mesmo fui muito assediado. Nossas bagagens estavam repletas de novidades. Essas bagagens não pesavam e em momento algum modificaram nosso comportamento. Passamos para um outro patamar, tínhamos consciência disso, mas essa mudança não era exteriorizada, era apenas uma dose maior de confiança.
Fomos interrompidos pela chegada da comida, veio em boa hora, juntando a fome com a vontade de comer. O garçom vinha acompanhado de dois funcionários, que traziam: arroz, farofa, molho, fritas e espetos mistos de carne; desejou bom apetite e se retirou para o interior do restaurante. Nós olhamos para o batera, como quem pergunta: É isso tudo mesmo? O sorriso era confiante, então não pensamos duas vezes. Durante longos minutos, ficamos praticamente sem conversar, uma observação aqui, outra ali, sobre o menu e evidentemente brindamos o final de semana maravilhoso, as duas novas amigas que se dispuseram a nos assessorar e se tornaram rapidamente membros do grupo, como se nos conhecêssemos a long time. Igual ao urso pardo que engorda para hibernar no inverno, nós comemos demais da conta, o que evitaria sentir fome durante a viagem e ter que descer na parada para comer, só sairíamos se houvesse necessidade ou para esticar as pernas. Ainda faltava quase três horas para o nosso embarque, então ficamos digerindo e conversando, já havíamos trocado endereços para correspondência, somente eu e o guitarrista. Ele com a sua ficante e eu com a amiga, que durante esses dias trocamos palavras e descobrimos que tínhamos muita coisa em comum, mas não passou disso, não que eu não quisesse, mas respeitei manter distância, pois eu sabia que ela tinha acabado de terminar um namoro com o guitarra base e como era coisa recente, ainda havia aquele clima, sabe? Bem, passados mais de uma hora, falamos para o batera chamar e acertar com o garçom o que ele havia combinado, o sujeito veio e trouxe a conta, quando nos deparamos com a mardita não acreditávamos no que víamos, sem entender nada recorremos ao batera, ele começou a tentar se entender com o garçom o que os dois haviam combinados, mas a conclusão era óbvia, o nosso amigo fez uma puta confusão e agora nós estávamos encrencados até o pescoço. Não havia outra solução a não ser pagar a conta, por mais que argumentássemos não saímos do lugar, nosso dinheiro só pagava a metade, portanto ele teria que engolir um calote, mas aí que residia o maior problema, o calote era uma baita despesa para o garçom. Ele se retirou, voltou, foi de novo, enquanto nós víamos a hora se aproximar da partida e não conseguíamos resolver o imbróglio que o batera havia nos metido. Veio o gerente que seria a penúltima estancia, nós já estávamos preparados para entrar com um recurso caso perdêssemos, mas de repente tudo clareou. Quando passou pela porta, ele que conhecia as meninas, se dirigiu a elas, cumprimento-as e antes de se dirigir a nós indagou-as sobre o acontecido, foi quando elas não perderam nem um minuto em explicações, só pediram a ele que guardasse a diferença da conta, que no dia seguinte elas pagariam. Pedido aceito, apenas virou-se para nós, sorriu e se retirou, pegado aos seus calcanhares seguia o garçom. Nós ficamos completamente sem graça e sem palavras. Elas agradeceram o jantar e principalmente o final de semana que fora maravilhoso, não faziam ideia do futuro, mas tinham certeza de que nós havíamos deixados em suas vidas, marcas profundamente carinhosas e inesquecíveis.
Saímos do restaurante e fomos caminhando calmamente em direção a rodoviária. Durante a caminhada poucas palavras, o silêncio era um sinal da eminente despedida, fato que doía, mas era irremediável. A vida é assim, não tem como parar o tempo, por mais que se queira e nem voltar, é vida que segue. Nos despedimos, quase as lágrimas, e embarcamos no ônibus já com uma saudade aflorando. De dentro do veículo muitos acenos, beijos lançados pela mão e a visão se distanciando e transformando a imagem nítida em pequenas silhuetas. Agora, voltávamos a nossa realidade. Saíamos do mundo encantado. Foram três dias vividos inteiramente voltados para música. Fora a nossa primeira experiência ao vivo e a cores. Não sabíamos o que o futuro nos reservava, mas agora sabíamos que tínhamos potencial; não estávamos no ponto, ainda teríamos que percorrer muita estrada, mas havíamos começado a caminhada. Agora, era acordar desse sonho e construir outro, mas sempre com os pés no chão.

       

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