segunda-feira, 18 de março de 2019

Capitulo 85 – A CRISE DA NOSSA MPB
A música popular brasileira está em crise. Pelo menos aquela que se rotulou, na década de setenta, como MPB. A que se inscreveu na História como transgressora e libertária nos tempos da ditadura. Levando essa bandeira na era dos festivais no circuito Sampa-Rio.
Aliás, essa música, em 2007 comemorou 40 anos dos primeiros festivais, e este ano: 50 de Bossa-Nova.

Os compositores como Geraldo Vandré, Chico Buarque, Edu Lobo, Gonzaguinha, Paulo César Pinheiro, Tom Jobim e Milton Nascimento. Só para ficarmos com sete nomes expressivos dessa época. Apenas o último, o mineiro-carioca de mil tons, conseguiu se fixar, atualizando-se, no gosto da juventude de hoje.

Se não acredita, meu querido leitor, então faça o teste. Pergunte a jovens na faixa de dezesseis aos vinte e cinco anos quem é Edu Lobo, Marcos Valle, Taiguara, Geraldo Vandré? Agora, pasme! Sequer o ícone mais querido Chico Buarque é conhecido.

A culpa é de quem? Das rádios que não tocam mais esses compositores? Não creio. Deve haver outro fator endógeno no meio do caminho como a pedra do poeta itabirano.

O brasileiro padece da enfermidade inquieta do nihilismo. Tudo acaba em nada. Ás vezes dá um tempo como chuva de verão, só para “deixa ficar, que eu quero ver aonde vai dar esse chove não molha”. 

Como se joga fora, descartando-a como passadista, a BOSSA NOVA? O movimento musical mais expressivo da música popular da nossa história. A música que levou o Brasil mundo afora até hoje.
Os que viajam para América do Norte USA, Canadá e México sabem disso. Se for para a Europa aí é que ela continua tocando. Marcos Valle está muito bem obrigado em Londres.

A Tropicália dos baianos ainda sobrevive porque Gil e Caetano sempre tiveram proximidade maior junto aos jovens músicos, aos anseios dos ouvidos mais roqueiros e pops. Hoje você pode escutar hits dos dois até hoje sendo tocados em releitura por bandas de rock.

A minha tese é a de que os grandes compositores da era dos festivais se acomodaram. O público brasileiro, exigente, também descartou essa turma talentosa. Colocando-os como os “órfãos da MPB”. Não há mais milicos atravancando as nossas liberdades para um clima de música de protesto. Por isso mesmo a fórmula dos velhos festivais se exauriu. Muitos, da minha geração sessentinha, se exilaram, também órfãos de Marx, migrando para o esotérico. Na música para a NEW AGE, na literatura para o recontar sufi-bíblico-alcorânico de Paulo Coelho. Muito melhor como parceiro de Raulzito, sem dúvida.

E aonde buscar uma saída? Creio que o exemplo mais expressivo, está na proposta de Chico Science e Mestre Ambrósio em Pernambuco, por exemplo. Há outros indícios de mudança nos recantos mais escondidos do nosso Brasilzão..

Não podemos nos dar o luxo de jogar no lixo boas propostas. Pela nossa riqueza rítmica e cultural. Essa diversidade que encanta estrangeiros ao ponto de aqui virem buscar as nossas batidas e transformá-las, pela beleza e pelo marketing, num batuque universal.

Fica a pergunta em tom de provocação. Espicaçar para traçar uma reta. Antes que acusem o nosso espaço sistêmico pela culpa da pirataria e pela programação das rádios. A Internet é mais embaixo.
Justificaram seu povo, sua época e as aflições que nela existiam. Tudo isso sem advento das tecnologias e a extensão que a informação tem nos dias atuais. Isso era 1964. Hoje, 52 anos depois, temos uma velocidade na informação que transpassa o pensar e sua dimensão é imensurável. As situações políticas e sociais não são as mesmas e, consequentemente, com a liberdade política e de expressão, uma paleta de opiniões e pensamentos é tão próxima da existência plena que chega a ser tateável. Com isso, poderíamos dizer que aquela situação de 1964 estaria certamente extinta, ou seja, não haveria espaço jamais para que uma ditadura pudesse impor suas mãos de “chumbo” sobre a opinião alheia e, por conseguinte, influenciar no discurso de quem quer que seja. Pois é, não é bem assim.
Vivemos em nosso país um tremendo estado político-social de preocupação quanto aos inúmeros direitos políticos conquistados a duras lutas e, muitas vezes, banhados a sangue de inocentes. Não quero entrar diretamente no nicho político da questão, até porque esse é bem amplo e complexo. Quero falar do comparativo dos cenários de 1964 e 2016, quanto à representatividade da música e a opinião político-social dos que hoje são os “grandes nomes da música brasileira” e, portanto, fazer um parâmetro do acesso de informações e sua abrangência. Quero falar do artista como uma representação de sua época e seu público.
O ano é 2019 e a visibilidade, seja em qual campo for, é infinitamente maior. Os “15 minutos de fama” nunca se justificaram tanto quanto nos dias atuais. Diariamente surgem inúmeros novos “artistas” e a amplitude do alcance de sua voz (e opinião), é estrondoso. O artista, por si só, é um formador de opiniões, um direcionador social. Sendo assim, entende-se que no cenário político atual muitos dos maiores nomes da música brasileira no momento estariam, com sua popularidade, expressando sua opinião quanto aos atuais acontecimentos, certo?! Não é bem assim. O que existe dessa galerinha é apenas um silêncio quase que ensurdecedor.
É triste enxergar que uma ferramenta tão importante e agregadora como a música brasileira está entregue nas mãos de artistas que tem uma visibilidade enorme, mas que, na contramão, nenhum desses faz uso da imagem e alcance que tem para lutar por causas sociais e políticas necessárias. Preferem o “muro” como morada, para não decepcionar nenhum dos lados e não perder parcelas de seu “fiel” público. O campo de batalha não os pertence. Na verdade, não os merece. Não se pede deles uma opinião formada sobre determinado “lado”, mas que expressem de alguma forma o conhecimento do momento, seu povo e o cenário onde atuam. Pede-se que opinem através de suas músicas.
Não é apenas saudosismo, eu juro, mas é inevitável não desejar a presença tão ávida de um Chico, um Caetano, uma Elis, um Gil. E são esses artistas, no seio de um turbilhão de acontecimentos, que estão vindo a público expor suas ideologias e opiniões diversas. São artistas que convergem e comungam de veias sociais e que, diante da conjuntura atual, não se calam e expõem aquilo que pensam (uns mais que os outros). A sociedade precisa se sentir representada na música, pois esse também é um dos inúmeros papéis que esse importante instrumento oferece (não apenas o entretenimento, mas, e principalmente, o cunho político social). Mas tá difícil, viu!
Essa é a hora. A hora de fazer a revolução também através da música, portanto, play no Spotify e vamos à luta, amigos e amigas…

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019


Capítulo 84 – MPB e mpb (música pobre brasileira)

Para justificar qualquer escolha pessoal ou para evitar serem envolvidos por algum tipo de crítica, muitos escapam pela tangente usando a velha máxima “gosto não se discute”. Enquanto gosto continuar sem discussão, muito lixo vai sendo empurrado goela abaixo de quem pensa que quer e de quem não quer de jeito algum. Exemplo disso é o que vem sendo produzido e consumido no Brasil em termos de música desde meados da década de 80.
A Bahia, que já foi festejada pela safra nobre de grandes compositores, cantores e músicos, hoje consome e exporta o substrato do lixo chamado axé. Até mesmo as bandas de baile – que animavam as noites interioranas naquele estado – deixaram de lado os ousados repertórios com Beatles, Rolling Stones e outros grandes nomes da música nacional e internacional, para exibirem a mesma formação e proposta do “É o Tchan” e cia.
Busco na lembrança uns caras que criaram uma maneira divertida de levar ao palco, como se fosse uma peça ou apenas declamar como poema as letras das músicas do nosso cancioneiro populesco atual. Era de morrer de rir ouvir toda aquela baboseira (inclusive com todos os “Ô ô ô, aiê, aiô”) sem qualquer música, com os ritmos clonados uns dos outros. Enfim, há quem insista chamar o axé, o pagode, o breganejo ou o funk carioca de Música Popular Brasileira, mais conhecida como MPB. Concordo que tais estilos sejam até populares (afinal, quem consegue lutar contra o império da indústria fonográfica), mas MPB já virou sinônimo de um estilo musical bem mais trabalhado e marcado pela qualidade de letra e música.
Sendo assim, para diferenciar o joio do trigo, proponho que deixemos a MPB para o que a sigla já designa e coloquemos “mpb” (música pobre brasileira) para os sucessos descartáveis do momento. Basta grafar um estilo com letras maiúsculas e o outro com minúsculas e amenizaremos esta confusão. Realmente uma confusão de conceitos e de discurso, pois a mídia carioca já anuncia a exaustão da música baiana para o surgimento de um ritmo sucessor: o funk! É verdade, “tá tudo dominado”: rádios, programas de TV, festas, cartazes, lojas de CD, o boca-a-boca, os nossos ouvidos...
Bem que poderiam surgir várias versões daquela peça que eu citei acima, para trazer à tona as novíssimas poesias baiana, carioca, paulista, etc. Imagine só uma música chamada “Tchutchuca” com essa maravilha de refrão: “vem tchutchuca, vem aqui com o seu Tigrão... Vou te jogar na cama e te dar muita pressão”. Ou ainda “O Baile Todo”, do mesmo grupo funk, que é um verdadeiro atentado à gramática: “melhor tu se preparar que o Tigrão vai te ensinar! Agora é ruim de tu fugir que o Tigrão vai te engolir. Se tu corre por aqui eu te pego logo ali”. O “Créu”, então, seria um terrível monólogo, apenas com variações gestuais e guturais.
Em meio aos anos 60 a 90, as músicas eram o espelho da alma artística, movidas por grandes reflexões, protestos, questões ambientais, romantismo, ciclo familiar, situações do dia-a-dia. As composições transmitiam emoções, mensagens, sentimentos. Era algo enriquecedor, alegre, bom para os ouvintes. Muitos músicos sofreram pela censura de suas letras musicais, pela cor de sua pele, pelo modo de se expressar, pelo estilo das vestimentas e por ser músico.
A discriminação e o racismo continuam presentes no meio artístico, a maneira que olham para os músicos, ainda não enxergam como profissionais e sim como uma pessoa que não tem se quer um futuro promissor. Porém, hoje, a sociedade enxerga estes profissionais diferenciando-os entre os mesmos, famosos e não famosos. A desvalorização da profissão artística, derrubou diversos talentos, e levantou outros, entre estes, houve a ridicularização artística. Os músicos de qualidades, perderam o espaço de escolha musical, estilos e composições, itens qualitativos que predominam uma boa sonoridade.
Estes fatos, ocorrem por algumas circunstâncias econômicas, estrangeirismo, predominação social, autoridades governamentais e etc. A realidade que vivemos é triste. A liberdade de expressão tornou-se um fator vergonhoso, onde o objetivo das músicas elaboradas, vem desmoralizando a mulher, reforçando o vandalismo, a criminalidade e desfazendo de uma sociedade e de um país rico culturalmente, musicalmente e artisticamente. Sabe-se que a música tem um poder de mover a grande massa, pessoas de diversas classes sociais e diferentes culturas ou situações, isso tudo, através dos ritmos, compassos, letras e estilos musicais.
A MPB está em total decadência. O consumismo vem prevalecendo no meio artístico, tornando o capital, o principal motivo de uma apresentação ou evento, e não mais a paixão pelo o que se faz. Assim, os profissionais passaram a investir em estudos e trabalhos fora do ramo musical por um tempo, e outros para sempre. Por que deixar o mundo preto e branco se temos diversas cores? Estes artistas, que tanto lutam por uma posição digna, são as pessoas que mexem no mundo de modo a colorir e espalhar alegria por onde tocam e cantam.
Posterior a esta crise no meio artístico, houve uma transformação, a passagem de jovens talentos, novos ritmos e investimentos. Hoje vem alcançando a sociedade através das músicas sertaneja, arrocha e funk. Este nosso ciclo tem trazido músicas compostas de letras baseadas em traições, sofrimentos, infidelidade, ostentações, pornofônias e utilizando a figura feminina como símbolo sexual e objeto de prazer, além das letras que transmite aos ouvintes ofensas, agressões e gestos pornograficos  desvalorizando a mulher brasileira.
A proporção que a MPB não evolui da raiz existencial, nos faz pensar: são estas, as músicas que tenho para escutar, são estas palavras desrespeitosas que tenho para ouvir? As mulheres trabalhadoras, donas de casa, alicerce de sua família, que lutaram e lutam pela igualdade, liberdade e contra o preconceito, são estes, o retorno de suas conquistas e batalhas que devemos escutar nas rádios, internets, televisões e celulares?
Contudo apresentado, é vergonhoso o comparativo da censura sob as músicas que tanto agregavam a sociedade e a evolução cultural artística de antigamente, diante da liberdade de expressão vista nos últimos tempos, onde não há repúdio e nem legitimidade para a retirada destas canções que constrangem o povo, a conduta, a moral, a ética, as lutas, a história e a cultura brasileira, nordestina e da Bahia.
O samba, o baião, o forró, o pagode alegre saudável, a MPB, fazem parte de uma história, de vários marcos sociais, de períodos da evolução do Brasil. E por isso, devem ser mantidas por gerações, respeitadas e engrandecidas, e não esquecidas ou substituídas por novos rits populares que desmerecem o povo e sua culturalidade por difamações e negligências verbas e dançantes. A cultura brasileira por vez, precisa ser continuada a rigor da sua evolução histórica e enriquecida de conhecimentos. É importante lembrar que ao exterminar a MPB, estarão extinguindo a história de um povo e a cultura de um país chamado Brasil.