terça-feira, 26 de dezembro de 2017


Capítulo 71 – CHEGA DE MÚSICAS PATÉTICAS
As músicas de hoje são, em sua maioria, destinadas apenas à dança. Mas nem sempre foi assim. Já houve tempos em que elas se valiam mais de suas vibrações para transmitir conteúdos que as palavras, sozinhas, não eram capazes de passar.
Entre uma nota e outra, até mesmo o silêncio denunciava a angústia de inúmeras pessoas que tiveram seus gritos de socorro sufocados durante períodos obscuros da história do Brasil. Elas, as poderosas músicas, já foram capazes de atrair multidões que lutavam pela liberdade e pelo fim de um regime cruel, traduzindo em belíssimas melodias os pensamentos de toda uma nação.
A falta de bons equipamentos nunca foi capaz de impedir a voz daqueles que a utilizavam como protesto, estimulando vidas que se deixavam desgastar em prol da liberdade de tantas outras. As palmas, os assobios e os clamores invadiam as ruas e formavam música como nunca antes tinha sido ouvida, deixando profundas marcas na pele e no coração daquelas pessoas.
Como um poderoso produto cultural, a música chegou aos nossos dias com características muito diferentes do que pode ser observado na história brasileira. Os tempos mudaram, é fato, mas ainda há muito para se lutar. É preciso tomar as rédeas e valorizar todos os benefícios que foram conquistados para nós.
Com conteúdo destinado apenas para dar prazer ao corpo por meio da dança, a música de hoje parece abandonar as suas inegáveis potencialidades. Mas não é nada com ela, e sim com aqueles que a produzem, visando atingir o maior número de pessoas possível. E atingem. As pessoas hoje se satisfazem com apenas um ritmo dançante, não se preocupando com o conteúdo e, muito menos, com a função inicial da música.
Ela é uma das grandes marcas de um tempo, de uma época, de uma sociedade, e, por isso, merece ser mais bem-composta, mais bem-apreciada, pois é uma das grandes representações do nosso amado Brasil. Mas quem gritará por ela? Quem rogará por canções que denunciem as mazelas de tantos brasileiros que parecem esquecidos pelo poder público? A educação, certamente, pois é nela que a criança, o jovem e o adulto têm a oportunidade de refletir sobre tudo o que os envolve diariamente.
No caminho para a casa, ao ir à padaria da esquina, ao ligar a televisão, ao passar por alguma loja no centro da cidade, enfim, a todo o momento, todos nós estamos envolvidos pela música. Esta, a exemplo do que aconteceu no passado, precisa fazer valer as suas mais altas qualidades e características.
Unidos, sons, silêncios, vozes, instrumentos e vibrações podem produzir sensações como as de um guerreiro, o qual não se curva diante das formas impostas por políticas desumanas. Um guerreiro como tantos outros que lutaram pela liberdade de que hoje desfrutamos, liberdade que, infelizmente, tem sido muito utilizada de modo equivocado.
A música, com todo o seu potencial, precisa assumir-se novamente em suas funções para a promoção do bem, da paz, da alegria e, enfim, da real liberdade.
"Como um anjo caído, fiz questão de esquecer que mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira", "Que só eu que podia dentro da tua orelha fria, dizer segredos de liquidificador", "Queixo-me às rosas, mas que bobagem as rosas não falam, simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti"...Bons tempos aqueles em que a música brasileira possuía bom compositores.

Bons tempos aqueles em que as músicas possuíam conteúdo, mensagens, poesia e rebeldia com justa causa. Quando andavam pelo Brasil compositores e cantores como Cartola, Tom Jobim, Renato Russo, Cazuza, entre outros gênios da música brazuca. Nesses tempos, você poderia dançar ou apenas curtir a música, se assim quisesse. Tempos em que artistas faziam canções; quando a música só era cantada por cantores de verdade. Mas hoje, as coisas estão um "pouquinho" diferentes aqui no nosso país.

Quem domina a música brasileira hoje são o axé, funk, brega, pagode e forró universitário. Temos agora um novo estilo de música, o "sertanejo universitário", seja lá o que isso signifique. Hoje, você não precisa mais ser artista para entrar no ramo de música; basta saber dançar, ter um corpo em forma e saber ler e escrever um pouco. Qualquer imbecil pode fazer sucesso na atual música brasileira. Músicas ridículas como "Rebolation", "Créu", são um pequeno exemplo do patético momento em que passa a música brasileira. Isso porque os ritmos que estão dominando o país são voltados para a dança, e consequentemente as letras ficam em segundo plano. Não que dançar seja ruim, mas não precisam colocar letras tão baixas, não é? São letras tão ridículas que as vezes fico surpreso como essas coisas que as pessoas chamam de "musica", podem fazer sucesso. Naturalmente, como não é preciso ser muito talentoso para fazer sucesso no atual momento da nossa música, o nível dos "artistas"(eles não são artistas, mas vou chama-los assim para mostrar um mínimo de respeito) cai drasticamente.

São raros os grandes cantores.

Para não dizer que nenhum presta, o axé baiano revelou Ivete Sangalo, que se não é compositora (competente), é uma bela cantora. Em termos de compositores, prefiro não falar muito para não ficar triste: basta ouvir as letras das músicas que estão fazendo sucesso ultimamente. Lixo. Mas porque estamos assim? Como chegamos nessa lama? Bom, a partir do momento em que os mercados da música, literatura e cinema ficaram multimilionários, os produtos precisaram ser vistos de duas maneiras: a comercial e a artística. Muitos cantores e bandas vendem seus produtos bem rápido, ou seja, são bons do ponto de vista comercial; todavia do ponto de vista artístico são um lixo. Veja o "rebolation" por exemplo. A música fez sucesso tão rápido e sumiu tão rápido. Ela nunca será lembrada daqui a dez anos. E porquê? Porque é um produto descartável.

Por outro lado, existem produtos que são bons do ponto de vista artístico, mas não ficam populares. Quantas músicas, filmes e livros bons você já viu que não fizeram muito sucesso? Vários, não é? E tem também aqueles mais incomuns, que são bons tanto artisticamente quanto comercialmente, como a Legião Urbana por exemplo. Infelizmente, o mercado de música brasileira está repleto de produtos que são bons do ponto de vista comercial, mas são patéticos do ponto de vista artístico.

E enquanto ficarmos assim, não teremos grandes compositores, grandes cantores dando as caras por aí. Somente palhaços e palhaças com suas músicas vergonhosas. Esperamos que o rock, reggae, MPB e outros estilos que favorecem mais a inteligência e a poesia, voltem a brilhar no nosso país. Chega dessas músicas de nível baixo, feita para pessoas com pouca coisa na cabeça. Chega de músicas patéticas. Inté!

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Capítulo 70 – MPB e mpb (música pobre brasileira)

Para justificar qualquer escolha pessoal ou para evitar serem envolvidos por algum tipo de crítica, muitos escapam pela tangente usando a velha máxima “gosto não se discute”. Enquanto gosto continuar sem discussão, muito lixo vai sendo empurrado goela abaixo de quem pensa que quer e de quem não quer de jeito algum. Exemplo disso é o que vem sendo produzido e consumido no Brasil em termos de música desde meados da década de 80.
A Bahia, que já foi festejada pela safra nobre de grandes compositores, cantores e músicos, hoje consome e exporta o substrato do lixo chamado axé. Até mesmo as bandas de baile – que animavam as noites interioranas naquele estado – deixaram de lado os ousados repertórios com Beatles, Rolling Stones e outros grandes nomes da música nacional e internacional, para exibirem a mesma formação e proposta do “É o Tchan” e cia.
Busco na lembrança uns caras que criaram uma maneira divertida de levar ao palco, como se fosse uma peça ou apenas declamar como poema as letras das músicas do nosso cancioneiro populesco atual. Era de morrer de rir ouvir toda aquela baboseira (inclusive com todos os “Ô ô ô, aiê, aiô”) sem qualquer música, com os ritmos clonados uns dos outros. Enfim, há quem insista chamar o axé, o pagode, o breganejo ou o funk carioca de Música Popular Brasileira, mais conhecida como MPB. Concordo que tais estilos sejam até populares (afinal, quem consegue lutar contra o império da indústria fonográfica), mas MPB já virou sinônimo de um estilo musical bem mais trabalhado e marcado pela qualidade de letra e música.
Sendo assim, para diferenciar o joio do trigo, proponho que deixemos a MPB para o que a sigla já designa e coloquemos “mpb” (música pobre brasileira) para os sucessos descartáveis do momento. Basta grafar um estilo com letras maiúsculas e o outro com minúsculas e amenizaremos esta confusão. Realmente uma confusão de conceitos e de discurso, pois a mídia carioca já anuncia a exaustão da música baiana para o surgimento de um ritmo sucessor: o funk! É verdade, “tá tudo dominado”: rádios, programas de TV, festas, cartazes, lojas de CD, o boca-a-boca, os nossos ouvidos...
Bem que poderiam surgir várias versões daquela peça que eu citei acima, para trazer à tona as novíssimas poesias baiana, carioca, paulista, etc. Imagine só uma música chamada “Tchutchuca” com essa maravilha de refrão: “vem tchutchuca, vem aqui com o seu Tigrão... Vou te jogar na cama e te dar muita pressão”. Ou ainda “O Baile Todo”, do mesmo grupo funk, que é um verdadeiro atentado à gramática: “melhor tu se preparar que o Tigrão vai te ensinar! Agora é ruim de tu fugir que o Tigrão vai te engolir. Se tu corre por aqui eu te pego logo ali”. O “Créu”, então, seria um terrível monólogo, apenas com variações gestuais e guturais.
Em meio aos anos 60 a 90, as músicas eram o espelho da alma artística, movidas por grandes reflexões, protestos, questões ambientais, romantismo, ciclo familiar, situações do dia-a-dia. As composições transmitiam emoções, mensagens, sentimentos. Era algo enriquecedor, alegre, bom para os ouvintes. Muitos músicos sofreram pela censura de suas letras musicais, pela cor de sua pele, pelo modo de se expressar, pelo estilo das vestimentas e por ser músico.
A discriminação e o racismo continuam presentes no meio artístico, a maneira que olham para os músicos, ainda não enxergam como profissionais e sim como uma pessoa que não tem se quer um futuro promissor. Porém, hoje, a sociedade enxerga estes profissionais diferenciando-os entre os mesmos, famosos e não famosos. A desvalorização da profissão artística, derrubou diversos talentos, e levantou outros, entre estes, houve a ridicularização artística. Os músicos de qualidades, perderam o espaço de escolha musical, estilos e composições, itens qualitativos que predominam uma boa sonoridade.
Estes fatos, ocorrem por algumas circunstâncias econômicas, estrangeirismo, predominação social, autoridades governamentais e etc. A realidade que vivemos é triste. A liberdade de expressão tornou-se um fator vergonhoso, onde o objetivo das músicas elaboradas, vem desmoralizando a mulher, reforçando o vandalismo, a criminalidade e desfazendo de uma sociedade e de um país rico culturalmente, musicalmente e artisticamente. Sabe-se que a música tem um poder de mover a grande massa, pessoas de diversas classes sociais e diferentes culturas ou situações, isso tudo, através dos ritmos, compassos, letras e estilos musicais.
A MPB está em total decadência. O consumismo vem prevalecendo no meio artístico, tornando o capital, o principal motivo de uma apresentação ou evento, e não mais a paixão pelo o que se faz. Assim, os profissionais passaram a investir em estudos e trabalhos fora do ramo musical por um tempo, e outros para sempre. Por que deixar o mundo preto e branco se temos diversas cores? Estes artistas, que tanto lutam por uma posição digna, são as pessoas que mexem no mundo de modo a colorir e espalhar alegria por onde tocam e cantam.
Posterior a esta crise no meio artístico, houve uma transformação, a passagem de jovens talentos, novos ritmos e investimentos. Hoje vem alcançando a sociedade através das músicas sertaneja, arrocha e funk. Este nosso ciclo tem trazido músicas compostas de letras baseadas em traições, sofrimentos, infidelidade, ostentações, pornofônias e utilizando a figura feminina como símbolo sexual e objeto de prazer, além das letras que transmite aos ouvintes ofensas, agressões e gestos pornograficos  desvalorizando a mulher brasileira.
A proporção que a MPB não evolui da raiz existencial, nos faz pensar: são estas, as músicas que tenho para escutar, são estas palavras desrespeitosas que tenho para ouvir? As mulheres trabalhadoras, donas de casa, alicerce de sua família, que lutaram e lutam pela igualdade, liberdade e contra o preconceito, são estes, o retorno de suas conquistas e batalhas que devemos escutar nas rádios, internets, televisões e celulares?
Contudo apresentado, é vergonhoso o comparativo da censura sob as músicas que tanto agregavam a sociedade e a evolução cultural artística de antigamente, diante da liberdade de expressão vista nos últimos tempos, onde não há repúdio e nem legitimidade para a retirada destas canções que constrangem o povo, a conduta, a moral, a ética, as lutas, a história e a cultura brasileira, nordestina e da Bahia.

O samba, o baião, o forró, o pagode alegre saudável, a MPB, fazem parte de uma história, de vários marcos sociais, de períodos da evolução do Brasil. E por isso, devem ser mantidas por gerações, respeitadas e engrandecidas, e não esquecidas ou substituídas por novos rits populares que desmerecem o povo e sua culturalidade por difamações e negligências verbas e dançantes. A cultura brasileira por vez, precisa ser continuada a rigor da sua evolução histórica e enriquecida de conhecimentos. É importante lembrar que ao exterminar a MPB, estarão extinguindo a história de um povo e a cultura de um país chamado Brasil. Inté!

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

MPB: tendência ou movimento?

Uma das mais ricas do mundo, a música do Brasil sempre foi o seu principal item de exportação cultural


Abril de 2002, reunião do comitê de seleção do Grammy Latino, em São Paulo. Diretor da gravadora Trama, também produtor musical e um dos membros votantes do prêmio, João Marcello Bôscoli questiona os critérios de seus colegas na mesa, que até então vinham catalogando no escaninho pop artistas como Fernanda Porto, Max de Castro, Paulinho Moska, Pedro Mariano, Wado, Bossacucanova, Lenine, Zélia Duncan… Segundo ele, essa geração, mesmo que usando novas sonoridades e ritmos “de fora”, fazia MPB, e era nesse abrangente balaio da música popular brasileira que deveriam estar. “A sigla MPB é muito forte, já ultrapassou as nossas fronteiras, e não podemos deixar que se transforme numa coisa do passado, só de artistas velhos”, argumentava o articulado filho de Elis Regina e do letrista Ronaldo Bôscoli.
Sim, os argumentos de João Marcello venceram, a partir daquela edição do Grammy Latino, esses artistas – não só de sua gravadora, e ele deixou bem claro que não advogava em causa própria – acabaram concorrendo no escaninho da MPB, ao lado de caetanos, guingas, chicos, miltons…
Questão resolvida ali, mas talvez não em outros prêmios, áreas, no abstrato mercado, junto aos consumidores-colecionadores-pesquisadores. Ou seja, é uma discussão rica, que continua rendendo.
Caetano Veloso, por exemplo, já declarou muitas vezes detestar a sigla MPB – logo ele, que é considerado um dos mestres do estilo. Já um compositor como Nei Lopes, responsável por dezenas de sambas clássicos, escritor, pesquisador e pensador da cultura afro-brasileira, ficara feliz ao ter seus discos incluídos no livro Guia de MPB em CD, que o autor desse artigo preparara em 1999 para a editora Jorge Zahar.
Para entender a posição a princípio antagônica desses dois artistas que também estão entre os pensadores, os ideólogos de sua arte, e avançar numa discussão do tema, é necessário destrinchar melhor o significado dessas três letrinhas.
Em princípio, MPB seriam as iniciais de Música Popular Brasileira, e esse foi o critério usado para selecionar os artistas e os discos no tal Guia. Nesse sentido, trata-se, portanto, de um abrangente leque, que pode ir do samba ao baião, e também do pop tupiniquim ao sertanejo, da bossa nova ao axé. Mas numa definição mais restrita – e aí fica mais fácil de entender o porquê do desconforto de Caetano – a sigla MPB nasce em meados dos anos de1960, para rotular a produção pós-bossa-novista, dos cantores e dos compositores revelados principalmente nos grandes festivais competitivos que mobilizaram o país na época. É uma geração de artistas na sua maioria de classe média, quase todos com passagem pela universidade, gente que teve como régua e compasso a batida e o canto revolucionários de João Gilberto, mas que logo passou a incorporar outros ingredientes além do samba, que é a espinha dorsal da bossa nova. Cariocas como Edu Lobo e Marcos Valle, por exemplo, foram buscar nos ritmos nordestinos – o primeiro, no frevo e nas cirandas; o segundo, no baião e também no frevo – fontes diferentes para suas composições. O samba ganhou novo fôlego a partir de fins dos anos de 1960, nas mãos e mentes de gente como Paulinho da Viola e Sidney Miller. E, a partir da década de 1970, uma safra de artistas do Nordeste – de Alceu Valença a Zé Ramalho, passando por Fagner, Elba Ramalho, Geraldo Azedo… – botou novamente na roda os ritmos de gente então ainda ativa como Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e João do Vale.
Aí estavam alguns dos principais ingredientes do caldeirão que caracterizou a MPB a partir de meados dos anos 1970. Receita que, no entanto, nos anos de 1980, começou a azedar. Independentemente da qualidade da produção de muitos dos artistas que eram rotulados como MPB, percebia-se uma pasteurização e o esgotamento dessa tal de música popular brasileira. É a época de deslumbradas produções nos estúdios de Los Angeles e Londres, muitas vezes com instrumentistas e arranjadores estrangeiros, que nada acrescentavam à música brasileira. Para um disco como Native dancer, do saxofonista de jazz Wayne Shorter com Milton Nascimento, tínhamos dezenas de álbuns insossos de Simone, Fagner, Roberto Carlos…
Correndo contra essa maré, pelo menos duas correntes se afirmam: a partir de fins dos anos de 1970, artistas radicados em São Paulo como Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e Grupo Rumo avançaram na linha evolutiva que a Tropicália focara em 1968. Para quem gosta de rótulos, essa safra, boa parte dela nascida em torno do teatro Lira Paulistana, fazia uma MPBV: música popular brasileira de vanguarda. Com pouco ou nenhum sucesso, esteticamente eles deixaram marcas.
Enquanto isso, o rock, que passara os anos 1970 no underground, ignorado pelos meios de comunicação de massa, ascende ao poder com a geração de Blitz, Lobão, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Titãs, Lulu Santos, Kid Abelha, RPM… Muito sucesso, por toda a década de 1980, legado estético próximo do zero. Catalogados também nessa praia roqueira, mas com trabalhos que mantinham elos com a MPB, estavam artistas como Marina Lima e
Eduardo Dussek, que, de certa forma, já faziam o que hoje podemos rotular de uma música popular brasileira contemporânea.
A partir da febre roqueira, o mercado de música brasileira enfrentaria outros surtos, que corriam à margem da chamada MPB. Todos eles incentivados pela indústria do disco, que, com uma política predatória de lucro rápido, apostava todas as suas fichas (e verba de marketing, jabá) em ondas: sertanejo, pagode, axé.
De uma dupla sertaneja que vem desde os anos 1980, mas chega à grande mídia a partir de meados da última década 1990, e que teve um recente repique de popularidade detonado pelo filme Dois filhos de Francisco, o articulado Zezé Di Camargo (do duo completado por seu irmão Luciano), batia nessa tecla: os medalhões da MPB já não fazem sucesso, a verdadeira música popular brasileira seria a feita por eles. Sob o aspecto meramente comercial, ele até pode ter alguma razão, mas musicalmente, o sertanejo tem cada vez menos do caipira, atropelado que é pela música country dos EUA.
Nos anos de 1990, a tal de MPB passa a ser chamada também de “emepebezona”, num tom pejorativo que sugere um gênero inchado, esgotado. É nesse período, no entanto, que focos de renovação, ou de inserção da canção brasileira na contemporaneidade, voltam a espocar. No Recife, a geração de músicos (e artistas plásticos, diretores de cinema e vídeo) que se autodenominou mangue bit – e que por uma falha de informação chegou à imprensa escrita como beat, de batida – daria a senha para parte considerável da produção dos jovens artistas do pop. Um pop – rock, eletrônico… – que remetia aos ritmos pernambucanos, como se verificou no trabalho de Chico Science & Nação Zumbi, mundo livre s/a, Mestre Ambrósio…
No Rio, gente que nos anos de1980 estivera mais ligada ao rock, também segue nessa direção, como se observa na música de Pedro Luís e a Parede, do pernambucano Lenine. Outros artistas, que no início de carreira transitaram num limiar entre a MPB e o pop, engrossam essa corrente, numa lista que passa por Marisa Monte, Ed Motta, Bebel Gilberto, Adriana Calcanhotto, Zélia Duncan, Chico César, Affonsinho, e desemboca mais recentemente em Vanessa da Matta, Lucas Santtana, Fernanda Porto, Max de Castro, Pedro Mariano, Jair Oliveira, Moreno Veloso, Kassin…
É uma turma que não renega o melhor da tradição da MPB, que, em muitos casos, é usada como base, referência.
Contemporaneidade que também impregna uma música popular brasileira que vinha rodando o planeta desde a bossa nova, nos anos de 1960, e que, num mundo cada vez mais disputado e globalizado, tem seu nicho garantido no século 21. Nesse processo, a MPBC se afirma graças a sua diversidade rítmica e melódica. Consumidores de música em Londres, Tóquio, Paris, Nova York descobrem de Tom Zé a Mutantes (que acabam de voltar, com Zélia Duncan no lugar de Rita Lee, mas recuperando o repertório de seu melhor período, em plena Tropicália), de Ed Motta a Azymuth, de Joyce a Marcos Valle, de João Donato a Marku Ribas, do grupo Bossacucanova a Céu.
Muitos desses artistas dialogam com as novas tendências do pop planetário e se impõem com uma original equação de ritmo, harmonia e melodia. Uma das mais ricas do mundo, a música do Brasil sempre foi o seu principal item de exportação cultural: de Carmen Miranda (com um repertório que passa por Ary Barroso, Dorival Caymmi, Assis Valente e companhia), que chegou a Hollywood no início dos anos de 1940, à geração da bossa nova, que conquistou o planeta a partir dos anos de 1960, não faltam exemplos. E nesse movimento, samba, baião, bossa nova, maracatu e afins se afirmaram, por sua excelência e sofisticação, muito além da macumba para turista que Oswald de Andrade já alertara há décadas.

Como Antonio Carlos Jobim sempre fez questão de afirmar, na música o Brasil sempre foi Primeiro Mundo. E rótulos e nacionalidades à parte, o jazzman Duke Ellington costumava dizer: “Só existem dois tipos de música, a boa e a ruim! ”.