terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Capítulo 31 –  UM BANQUINHO, UM VIOLÃO

O poeta popular um dia escreveu: “Deixa a vida me levar, vida leva eu. ” Foi o que aconteceu. Houve um hiato grande. Durante, aconteceram muitas coisas: casamento, casa nova, gravidez, desemprego, nascimento, nova casa, novo emprego, novo trabalho, outra casa, outro emprego com bons ganhos, nascimento e finalmente nossa casa. Construída às pressas, sem acabamento, só o essencial, o suficiente para o básico, mas principalmente para fugir do aluguel. Durante esse tempo, apesar das inúmeras reviravoltas, eu não deixei de lado o meu companheiro violão, apenas não fiz nenhuma apresentação, mas as composições continuavam. Eu nunca fui um exímio instrumentista, dava para o gasto, pelo menos para as minhas pretensões autorais. Tinha passado por algumas escolas de música, não me formei, mas aprendi e guardei boas dicas. Fiz canto, teoria musical e violão, mas todas as vezes surgia, foram três, não cheguei a passar de seis meses, alguma coisa que me tirava da sala de aula. Eu teria que abdicar de outras coisas, mas cada vez mais eu me comprometia com outras coisas, das quais eu tinha de priorizar. A vida de músico e cantor independente não oferece condições e segurança para sustentar uma família, então, eu tive que me especializar numa profissão que provesse. Ainda mais sendo eu um artista autoral. Diante desses conflitos, tendo resolvido um, eu vi a possibilidade de juntar o outro, somar. Comecei a percorrer bancas de jornais, sebos, a procura daquelas revistinhas que trazem a letra da música cifrada* proporcionando a você a possibilidade de tocá-la. Para isso, é preciso que conheças muito bem a melodia, pois a cifra só lhe indica o acorde. Algumas revistas mostram o ritmo, a batida, a introdução, mas algumas não, aí você tem que se virar ou seja, ouvindo, assim também aproveita para aguçar o ouvido. Muitos são chamados de músico de ouvido e alguns de ouvido absoluto. Eu sempre gostei de música, então a minha memória musical era extensa, mas não a minha memória das letras. Para poder construir uma agenda musical, fui copiando o conteúdo das revistinhas para uma folha maior, tipo A4, assim dessa forma consegui chegar a um número de músicas que me permitia ficar no ar miseravelmente umas cinco a seis horas sem intervalos. Me envolvendo com esse material, evolui como instrumentista e como cantor. Apesar de ser conhecido ou chamado como um trabalho cover, pois muitos colegas se apresentavam como se fossem o original, eu nunca segui essa linha, desde do início eu impus a minha personalidade, o meu toque pessoal, a minha marca, o meu nome, a única coisa que não me pertencia era a música, pois na maioria dos casos um arranjo diferente eu criava, mesmo sem a permissão do compositor ou do cantor original, na maior parte das vezes os dois eram o mesmo.
O meu começo na carreira de banquinho e violão deu-se assim por acaso. Eu ainda não estava à procura de um lugar para tocar e cantar, não me sentia ainda totalmente pronto. Perto de casa, uma conhecida, ainda não era a grande amiga que se tornou, havia comprado, bem numa esquina de bom movimento, um terreno com uma velha casa. Mandou derrubar tudo e construiu um espaço que iria aluga-lo para festas e outros afins. Dentro dessa proposta alugaria só aos sábados e domingos e, reservaria as sextas para um mimo pessoal. Toda sexta-feira ela abriria a casa funcionando como um bar. Queria que sua casa fosse um lugar no bairro para que os vizinhos, os amigos, os amigos dos amigos, pudessem, além de alguns estarem perto de casa, afrouxar a gravata, esquecer das sobrecargas, sair de casa sem precisar ir muito longe para encontrar um ambiente acolhedor, encontrar os amigos e, principalmente aqueles que já fazia tempo, apesar de morar perto, que não se viam há tempos, para papear descontraidamente. Dentro dessa preparação toda, que eu não sei todos os detalhes, incluía-se música ao vivo. Foram enviados mensageiros a todos os cantos para anunciar o dia da inauguração. Todos devidamente informados de que se tratava de um bar, incluindo, bebidas, petiscos e música popular brasileira ao vivo para harmonizar o ambiente. Como o interior do bairro era carente desse tipo de atração, penso que muita gente deve ter imaginado que seria caro, os mais próximos sabiam que não, enfim, criou-se uma grande expectativa para o dia. Eu, assim como todos, fiquei sabendo também e no dia da inauguração, mesmo não tendo ninguém para ir comigo, compareci, já sabendo que iria encontrar gente conhecida, portanto não corria o risco de ficar deslocado. Depois que se passava pelo portão, assim mesmo, não estranhe, afinal era ainda uma casa, havia duas possibilidades: seguindo em frente daria direto no salão que normalmente era usado para a decoração, o bolo, ou se fosse para um evento mais profissional o salão servia para um almoço comemorativo. Seguindo, após entrar, a sua direita havia uma passagem com escadas que te levava para o terraço, muito bom para festas de quinze anos e mais à frente no final do salão ainda a direita a passagem para a cozinha, que além dessa havia no lado oposto uma outra porta que dava para os fundos, que também servia de saída para os garçons servir os convidados da outra parte do espaço; seguindo para a esquerda, passando pela frente do salão, começava, mas pela parte final, o espaço que era usado isoladamente nas sextas para o bar; nessa lateral ao salão, ficavam as últimas mesas espalhadas no espaço até o começo que se daria até a saída da tal porta dos fundos da cozinha. Não havia só o portão de entrada. Como era uma esquina, circundando o terreno saindo da frente em direção a esquerda pela rua, mais acima havia uma vaga de garagem, por esse espaço entrava todas as coisas grandes que fossem necessárias, mas durante as festas e o funcionamento do bar ficava fechada para não haver penetras no primeiro caso e para não comprometer o fluxo operacional. Comparando com o terreno todo, essa garagem ficava quase um degrau de escada acima do nível do restante e, era bem ali que foi escolhido para servir de palco. Encontrei, como previa, amigos em comum e depois de cumprimentar todos os conhecidos, fui convidado a sentar-me numa mesa perto do palco, afinal, assim como todos, estava curioso para ver a apresentação. O tempo estava passando, se esvaindo e com ele a paciência das pessoas, pois a atração musical não começava. Fiquei sabendo através de um integrante da mesa que os meninos estavam completamente atrasados. Após ter que ouvir algumas piadas dos amigos, a dona do espaço finalmente veio a público pedir desculpas pela demora e explicar que acidentes acontecem, mas que começaria a música. Três rapazes se apresentaram e se prepararam para dar início ao show. Bem, meus caros leitores, eu não posso me alongar mais, se não ficará cansativa a leitura, então, me comprometo com vocês de no próximo capítulo descrever com detalhes e, põe detalhe nisso, o que aconteceu. Inté!                
*Cifra é um sistema de notação musical usado para indicar, por meio de símbolos gráficos ou letras, os acordes a serem executados por um instrumento musical (como uma guitarra, ou um violão por exemplo). As cifras são utilizadas principalmente na música popular, acima das letras ou partituras de uma composição musical, indicando o acorde que deve ser tocado em conjunto com a melodia principal, ou ainda para acompanhar o canto.

Este tipo de notação ou cifragem indica ao executante o acorde que ele deve construir, mas deixa a sua sensibilidade musical ser responsável pela maneira exata na qual ele executará os acordes. Isso ocorre pelo fato de cada acorde ser composto por duas ou mais notas tocadas ao mesmo tempo, sendo que essas notas podem se localizar em diferentes regiões de um instrumento, o que possibilita muitas opções distintas se formar um mesmo acorde.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Capítulo 30 -  UNS DIAS CHOVE, NOUTROS DIAS BATE SOL

Ressaca! Ressaca! Antes sesse, mas nunca deixara de for. Na fatídica noite anterior eu não me animei a beber muito, apesar de ter os meus motivos para afogar as minhas mágoas. A ressaca que eu sentia quando acordei, não era provocada por excessos etílicos, mas por força das circunstâncias adversas. Eu era a própria fera ferida. Me movia em câmera lenta. Monossilábico.  Recebia o afago, o gesto de estímulo da minha namorada, sentados na calçada em frente à casa. Além dela, havia um dos irmãos e alguns amigos, desses, boa parte era formado dos que estiveram presentes na noite anterior e os outros acabavam de saber. Tentávamos esquecer, mas vire e mexe o assunto voltava à tona. Era uma tarde plácida. Jazíamos sob a sombra da imensa mangueira, que do quintal se estendia até a calçada com seus galhos longos e fartos de folhas verde e rosa. Iriamos tranquilamente passar a tarde nessa merecida preguiça, se não fosse pela interrupção abrupta provocada por aquele rapaz, que eu havia feito a tal música para ele participar do festival do colégio. Chegou esbaforido, atropelando a fala. Não vinha sozinho, junto a si acompanhava uma meia-dúzia de colegas. Depois de atender ao nosso pedido para que se acalmasse, falou o que o afligia. O festival iria acontecer dali a poucas horas e o seu amigo violeiro e cantor não conseguiu aprender a música. Sim e daí? Daí, que ele queria saber se eu não podia ir ao colégio cantar a música. Não era um pedido, era uma súplica. Mesmo assim eu respondi: “Nem me pagando! ” Começou uma disputa entre o desesperado e o indiferente, entre o esperançoso e o desiludido. Pior foi que, conforme ele apelava, mais gente o apoiando ele conseguia e, eu acabei ficando só. Encostado no paredão, não tive outra alternativa a não ser aceitar. Peguei o violão e partimos. Ah! Ia me esquecendo, peguei a letra também, eu não conseguiria canta-la se não pudesse lê-la.
Era um colégio comum, nada especial. Arquitetura antiga, mas bem espaçoso. O evento aconteceria na quadra de esporte, que ficava dentro do prédio no segundo pavimento na parte de cima. Eu, de certa forma estava estranhando tudo, pois não tinha o costume de me apresentar de dia. Começamos a subir a rampa e eu já pude ouvir a barulheira que vinha da quadra. Nossa vida o tempo todo é pautada por desafios. Ocasião ou grande obstáculo que deve ser ultrapassado. Uns você mesmo se propõe e outros surgem assim do nada, sem avisar, cabe a você a reação, mesmo não estando preparado, se ele veio é porque você dá conta, é só encarar. Claro, você pode dizer: Pera aí nem tudo dá para encarar. É porque talvez não seja um desafio. Essa pequena introdução, foi para explicar que quando acabou a rampa eu me deparei com uma cena no mínimo aterrorizante. Havia um canto da quadra, reservado para o evento. Como o espaço era retangular, o canto ficava, conforme a entrada, ao lado direito no fundo, ocupando um pouco mais para frente da arquibancada e, tendo as costas um paredão. Ali era a proposta de um palco, ficava o som e o microfone. Tudo muito simples, no chão. Um pouco mais para o lado esquerdo de quem fosse cantar, num ângulo bom para se ouvir e ver os concorrentes, estavam o corpo de jurados, sentados com mesas postas para escrever suas anotações. A arquibancada do fundo estava praticamente lotada e, detalhe muito importante, havia, nem contei quantas, mas uma porrada de vuvuzela, naquela época não tinha esse nome, mas não importa. A garotada estava com a corda toda. O negócio era fazer barulho. Entrei, me sentei na arquibancada lateral do lado oposto ao palco e as costas dos jurados, segurando o violão virei-me para o rapaz que havia escrito o poema e depois para os amigos e sentenciei: “Aonde é que eu fui amarrar o meu bode? ”
A primeira música foi anunciada. Cada banda, cantor ou cantora, conjunto de samba, todos vinham com muita vontade e muito barulho também. Usavam seus instrumentos como se fosse uma guerra. Quem se apresentava, disputava com a plateia, qual som seria reproduzido mais alto. As vuvuzelas não paravam em momento algum. Haja disposição. Eu, olhava para o violão e pensava, nem eu vou me ouvir. O poeta veio me avisar: “ A próxima é a nossa. ” Estavam se apresentando um grupo de samba, eu não entendi um pedaço sequer de letra, o batuque me pareceu meio desencontrado, mas como vinha som de dois lados, talvez fosse compreensivo. Chegou a minha vez. Fui anunciado. Me levantei empunhando a viola, me dirigi ao lugar onde estava a caixa de som, pluguei o instrumento e pedi ao rapaz que controlava que pusesse no máximo. Assentei numa cadeira, ajeitei o microfone e também pedi que pusesse no máximo. A menina para qual fora feito o poema veio e deitou-se a minha frente segurando a folha de caderno ao qual se esparramava o poema, para que eu pudesse lê-lo e assim canta-lo. Como eu expliquei no capítulo 28 “MÚSICA DE ENCOMENDA”, o início eu declamava acompanhado de uma melodia dedilhada no violão, como uma introdução e só depois é que eu cantava todo o restante sem repetir nenhum pedaço, por ser ela muito extensa. Naquele momento eu parecia um seresteiro que iria cantar o seu amor para sua amada na sacada ou um trovador que cantava um poema. Respirei fundo, dedilhei o violão e comecei a declamar. Pasmem! Silêncio. Acabei a introdução, passei a cantar e... pasmem! Silêncio. Eu ouvia o violão, eu me ouvia, aliás só se ouvia a minha voz. Pasmem! Silêncio. Tão compacto que dava para cortá-lo em fatias. Quando notei o meu domínio, me empertiguei. Olhei de soslaio para os jurados e percebi em seus semblantes plena aprovação. Entrei na segunda parte cantada me encaminhando para o final e... pasmem! Silêncio. Eram todos ouvidos. Nenhum pigarro, nenhuma tosse, nenhum espirro, nenhum barulho, só eu e o violão. Quando passei o dedo pelas cordas do violão, decretando o final, a casa veio a baixo. As vuvuzelas, os tambores, os gritos, tomaram conta por completo do ambiente mostrando que a hipnose havia acabado.

Querem saber quem ganhou o festival? Não precisa. Ah! Querem saber quem ganhou o prêmio de melhor intérprete? Também não precisa. Agora, ter que responder ao diretor que eu não era profissional, que era apenas irmão do aluno do colégio, isso foi uma verdade e uma mentira, mas pela cara dele ficou mais para uma mentira e uma verdade. É assim mesmo: “Uns dias chove, noutros dias bate sol”.                                                                       

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Capítulo 29 – SACA-MOLAS

Eu não sei porque, quer dizer, no fundo penso que sei, mas na verdade por que na época eu não atentei para o porquê e, ainda agora será que eu sei mesmo por quê? Na primeira vez que fui participar do festival de Caxias, nós levamos um tango irônico, que acabou me premiando como melhor intérprete. Então, como eu não tinha nenhuma música naquele momento, que fosse considerada adequada para participar de um festival, as vezes a gente delira, mete na cabeça certos conceitos, isso me incomodou tamanho, que eu me vi obrigado a compor algo novo. Foi daí que surgiu o tema, que seria a estória de um vampiro português passando por maus momentos, em virtude de suas presas doerem tanto, que além dele não consegui se alimentar, ainda precisava urgente de um dentista (saca-molas no português castiço) para resolver a questão e, teria pela frente a difícil missão de descobrir aonde encontra-lo e evidentemente sem o assustar. Como se já não bastasse a perseguição sofrida pela multidão e seus algozes, esse dentista teria que o atender à noite, pois durante o dia ele tentava dormir em seu ataúde, tentava, porque seus dentes não paravam de doer, tanto que o faziam desejar uma estaca no coração. Pega o vampiro! Pega! Pega! Gritava o povo sedento. Corre o vampiro, coitado, de dor nos dentes morrendo. Quando acabamos de compô-la, fiquei na dúvida em qual ritmo tocaria e cantaria. Bem, para a classificação acabou indo assim meio que no ritmo brega. De qualquer forma foi suficiente, pois classificou. Como tinha alguns dias antes da apresentação, aproveitei para mostrar aos amigos, que sempre eu encontrava para uma violada e, que certamente estariam no meio da plateia representando a minha pequena porcentagem de torcida, assim eles conheceriam e aprenderiam.
Eu já havia cantado bastante, portanto estava com a música na ponta da língua, quanto ao ritmo tinha melhorado um pouco o brega, o que me incomodava mais era ter que tocar e perder a possibilidade de usufruir de todo o palco para interpretação, entretanto, era a oportunidade de me descobrir com cantor e músico. Já fazia um tempinho que eu tentava melhorar a minha convivência com o violão. Há tempos era um flerte, agora um namoro, avançando, amadurecendo, um sentindo que precisava do outro, era inevitável, eu tomei a iniciativa, tínhamos que nos entender, a recepção fora recíproca, mas para se tornar sólida, era preciso atenção, dedicação, carinho, eu me esforçava em melhorar as minhas limitações, então abrimos um diálogo com uma proposta clara, eu precisava mais, portanto trataria de me colocar a inteira disposição.
Estava eu há uma semana do festival, quando fui surpreendido pela visita do guitarrista, há tempo que não nos víamos. Entre as novidades, mostrei-lhe a correspondência com o convite e, em seguida a música que levaria. Pensei imediatamente na possibilidade de reunir o grupo, mas para minha tristeza, ficaria apenas no sonho. Claro, depois que ouviu a melodia e viu os acordes, pegou o violão e decretou: Vou tocar para você cantar. De imediato começou a encorpar a música, desenhando um arranjo e depois de variar um cadinho, definiu que fosse tocada em ritmo de tango. De cara eu aleguei que havíamos tocado um no ano passado, mas ele me convenceu mostrando que desse modo a música ganhava um quê de diferente. Nesse final de semana ensaiamos bastante e, realmente, sem a preocupação de ter que tocar, era um peso a menos. Tudo pronto, agora era só esperar o sábado, para confiantes fazermos aquilo que tínhamos ensaiado. A semana não correu, voou. No dia, durante o trajeto dentro de uma Kombi, acertamos os últimos detalhes passando a música, principalmente a pedido dele para sentir que não havia esquecido de nada, enquanto tocávamos veio uma ideia de súbito. Como não estávamos com a banda, não tínhamos nos preocupados com um arranjo de solo de algum instrumento que pudesse preencher o meio da música para após finalizarmos cantando e assim encerrarmos a apresentação. Então, quando nós começamos o ensaio final na Kombi, para preencher esse vazio, eu resolvi improvisar um bebop – que me desculpem os gênios do Jazz, foi uma ousadia de minha parte, mas eu tinha que tirar algum coelho da cartola -  e nesse pedaço o ritmo saia momentaneamente do tango e enveredava pelo jazz por alguns minutos e retornava posteriormente a batida de origem para que eu cantasse até finalizar. Isso tudo aconteceu durante a viagem até Caxias. Esses momentos fazem parte do imponderável.
Assim que cheguei, me deparei com o Chicão, parecia preocupado, notei quando nos cumprimentamos, achei que fosse coisa natural de quem tem a responsabilidade de organizar um festival de música, por isso imediatamente qualquer raciocínio mais inquietante virou fumaça. Já no grande salão, avistei meus amigos no meio da plateia, enquanto me dirigia para o local onde ficava os participantes. Não demorou muito e as apresentações começaram. Até chegar a minha vez, havia percebido que o que fora apresentado não trouxera nada arrebatador. Quando você escuta uma música pela primeira vez, se ela tiver uma boa letra, já chama a atenção, se juntar uma boa melodia, aí aguça a atenção, contudo se for só letra boa e melodia fraca, não ruim, apenas digamos pequena, repetitiva, ainda assim ela pode ganhar fôlego, agora o contrário é lastimável, um desperdício. Subimos ao palco e desfiamos o nosso rosário, com os nossos amigos na plateia dando força no refrão. O guitarrista mostrou seu virtuosismo e eu caprichei na cantoria, dando o meu máximo na improvisação, que apesar do campo minado, deu para sair ileso. Depois, só nos restava o resultado e a confirmação da classificação. Não tinha como ficar de fora. Diante do apresentado nós já nos considerávamos dentro. É contar com o ovo no .... Para nossa surpresa, na lista de classificados não fazíamos parte. Como não? Algo estava fora do lugar. Não demorou muito para sabermos. Chicão tentara fazer da mesma maneira que o anterior, mas dessa vez teve pouquíssimo apoio e praticamente nada de recursos. A prefeitura só cedera o local e havia reduzido a verba para a premiação. Isso prejudicou imensamente na escolha dos jurados, sem verba para pelo menos pagar honorários aos profissionais ligados a música, tivera que improvisar a contragosto, usando de um recurso que sabia com antecedência que lhe traria dissabores, fora obrigado a convidar os professores de uma escola do município para ocuparem as cadeiras dos jurados. O que presenciamos no decorrer do festival foi que os jurados propugnavam descaradamente a favor dos seus discípulos. Todos os classificados eram alunos da escola. Ficamos ainda um bom tempo ouvindo as desculpas e vendo a revolta do nosso amigo Chicão, era uma grande decepção para ele. Fizemos tudo ao nosso alcance para amenizar e melhorar o astral dele, apesar de estarmos profundamente decepcionados, não com ele e, sim com acontecimentos. Voltamos para casa e dessa vez a cerveja desceu amarga. Bem, lembrei de um velho ditado popular português: “o que não tem remédio remediado está. ”


Naquela noite eu dormir muito chateado, triste, mas a vida é uma caixinha de surpresa e no dia seguinte...

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Capítulo 28 –  MÚSICA DE ENCOMENDA

Durante o final da semana em que tínhamos gravado, ficamos com os amigos curtindo e claro, ainda sob o efeito do deslumbramento que sentíamos. O interessante na altura dos acontecimentos, é que apesar te termos feito a demo com finalidade de abrir alguma porta no mercado fonográfico, nós não ficamos nem um pouco ansiosos ou aflitos. A nossa vida continuava da mesma maneira, as nossas cabeças continuavam e funcionavam do mesmo modo. A fita ficou com o produtor. Ele mesmo se prontificou, o que já fora premeditado, de conseguir primeiramente na própria gravadora em que pertencia o Sullivan e me parece com uma pequena anuência do próprio. Depois ficamos sabendo, que a fita não chegou nem a ser apresentada, o Sullivan se desentendeu com a gravadora e, portanto, o que para nós seria comumente chamado de padrinho, nem chegou a acontecer. Mesmo se transferindo contratado por uma outra casa, nosso produtor perdeu a sua grande chance, pois agora o terreno era novo e ele teria que esperar até se familiarizar. De imediato ficamos assim, mas com o passar do tempo, outras oportunidades surgiram sem trazer nenhuma boa notícia. Quando vi, o tempo é inclemente, já havia passado quase um ano e nós não evoluímos nada, pelo contrário, cada vez mais ficávamos mais distante, agora o baixista é que se distanciava, só persistiam eu e o guitarrista, assim mesmo porque ele frequentava a casa da minha namorada, se juntando aos agregados como eu já citei no capítulo passado.
Vamos fazer um trato: daqui para frente sempre que eu falar casa, apesar de ser a casa da namorada, passou a ser minha, pois era ali que tudo acontecia, OK? – Certo dia, estava eu em casa, quando fui surpreendido pela visita de um adolescente do bairro, eu já o conhecia, devido as minhas andanças pelos bares do bairro tocando violão e também por ele ser amigo de um dos irmãos mais novo da casa. A surpresa não foi pela visita em si, mas pela aproximação e o pedido: Ele veio me pedir, se eu podia musicar uma poesia sua, para que ele participasse do festival do colégio. Chega a ser engraçado, mas não é pela graça, é pela inocência que o ato traduz. Ele, penso eu, assim como outras pessoas, tinha na cabeça que fazer uma música seria como andar de bicicleta, fácil, simples, de bate pronto, uma vez feito uma música, era só pegar o violão e fazer mais toda as vezes que eu quisesse, bastava para isso só começar a pedalar ou melhor dedilhar. Bem, apesar de saber disso tudo, não externei meu pensamento. Recebi a poesia, notei que era um tanto longa, me pus a ler e quando terminei, perguntei: “para quando você precisa e quem é que vai cantar? ” - Já procurando me prevenir, caso houvesse alguma intenção. “Eu tenho trinta dias para fazer a inscrição, quanto a cantar, eu tenho um amigo que toca e ele já disse que aprende para ir cantar. ” Eu não lhe dei nenhuma esperança, mesmo porque, rapidamente resumi que fazer uma música em cima de uma letra pronta e feita por outra pessoa não era simples, mas, eu tentaria e, assim, caso acontecesse, daria um jeito de avisá-lo. Fiquei com a folha solta de um caderno na mão. Repousando entre suas linhas, palavras que traduziam um sentimento de profunda paixão. Apesar de seu tema ser amor, em momento algum era piegas, pelo contrário, havia talento na escrita. A forma como ele expunha seu amor impossível, inacessível, tinha contornos das poesias expurgadas. Me vi na obrigação de corresponder à altura. Agora não se tratava de colocar apenas uma música qualquer, tratava-se de construir uma que traduzisse não só a letra, mas o que havia por trás, o que ela representava. A música tinha a obrigação de ser a voz do poeta. Compreendida essa parte, a outra, seria trabalhar em cima desse sentimento, procurando senti-lo, aguçando o sentido, permitindo, entre erros e acertos e apesar da longa escrita, que o resultado chegasse.
Até então, eu nunca havia realizado uma tarefa igual. Compor música sim, mas fazê-la sob encomenda não. Como eu já citei o poema era longo, talvez vocês não façam ideia do quanto longo, mas talvez vocês entendam depois que descrever como eu apanhei, sofri, para musicá-lo. Na maioria das vezes, as músicas possuem um refrão, de cara eu vi que ali não ia rolar. Também, levemos em consideração que esse artifício é muito usado para aumentar a duração ou mesmo para fixar a música, tornando-a mais conhecida pelo seu refrão repetitivo e chiclete. Não era o caso. Outra observação, é a introdução. Podem ser curtas, longas, nem uma coisa nem outra, vai do gosto ou as vezes da própria necessidade da música. Agora, fazer do único jeito que eu arranjei para não cortar nem uma vírgula, aí, penso que posso afirmar não ter escutado até hoje, mas posso estar errado ou ao menos considerar desconhecer. Depois de muitas idas e voltas, tentativas frustradas, quase desistência, eu consegui encaixar. O resultado foi um parto de trigêmeos. A abertura com o fundo musicado eu declamava o início do poema, em seguida cantava a metade do que restava em uma melodia e, sem afetar ou causar grandes danos auditivos, eu enveredava até o final por uma outra melodia, mas que harmonizava perfeitamente com a primeira e, assim finalizava a minha jornada musical. Ufa! Gravei na fita cassete que ele havia deixado, já que ele iria levar para o seu amigo músico aprender, pedi que alguém o avisasse e, quando apareceu entreguei-lhe a encomenda desejando-lhe boa sorte. Nem comentei o trabalho que deu. Ele foi embora todo satisfeito e emocionado. De lembrança me deixou a folha solta do caderno com o poema e, eu, como tinha gostado do resultado, mostrei para os amigos a canção.    

Na mesma semana que acabara de compor a canção do rapaz, chegava em casa, uma correspondência vinda de Duque de Caxias enviada pelo Chico Chicão. Nela havia um convite para participar de mais um festival de música do município. Nela, explicava também porque realizavam em menos de um ano de intervalo e que ficariam muito honrados com a nossa presença. Da participação no ano anterior para esse, muita coisa havia acontecido. Eu praticamente me encontrava só, já, que o guitarrista nos víamos, mas, não com tanta constância. Quanto ao baixista, não tinha mais contato, então, diante desse quadro revirei o meu baú de composições e verifiquei que o que havia não empolgava, aí pensei, preciso de algo novo.  Eu, acabara de compor uma de encomenda, agora tinha que buscar inspiração não só para melodia, mas também combinar com uma letra. As primeiras tentativas foram desanimadoras. Os dias iam passando e toda investida não rendia frutos. Eu já contei aqui, que uma vez veio, sabe-se lá de onde, uma música inteira com letra e tudo na minha cabeça e, que, eu corri desesperado para casa a fim de passa-la no violão para não esquecer, lembram-se? Foi no capítulo 11 – DEL VECCHIO. Pois bem, estava eu no ponto do ônibus, esperando ele chegar para que me levasse para casa, quando senti do nada uma leve brisa trazendo uma melodia e como companheira um tema, não titubeei, abrir a mochila, vasculhei atrás de uma folha de papel e caneta para começar a escrever. Meu Deus me ajuda! O ônibus chegou, era um desses que a gente compra a passagem antes na cabine e, depois espera ele chegar para então entrar. A fila andava, eu escrevia e cantarolava. Entrei, sentei e, como não parava de vir frases, continuei escrevendo a cantarolando. Não reparei nem aonde sentei e nem quem sentou ao meu lado. Eu estava num mundo paralelo. Se você já leu, ouviu ou viu (filme) sobre esse assunto, sabe do que eu estou falando. Não estou afirmando nada, só parafraseando. Quase passo do ponto de saltar do ônibus, a sorte foi que eu só estava fazendo algumas correções; a letra estava praticamente pronta. Ao chegar em casa, ainda contei com a ajuda do irmão da minha namorada, para finalizar e mudar algumas frases, o que a deixou mais arrumada. Toquei várias vezes cantando, confirmando de que estava realmente pronta e assim também eu decorava definitivamente a letra. Agora era gravar na fita e mandar para o festival, esperando que ela cumprisse o seu papel, o de primeiro classificar, confirmando a participação, depois eram outros quinhentos. 

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

DIA ALÉM

RURAL NA ESTAÇÃO

Capítulo 27 – COMO GRAVAR CINCO MÚSICAS NUMA NOITE

Saboreie por algum tempo o dia do festival. Também, os amigos que foram ao festival não me deixavam esquecer. A vida seguiu e eu, como não era um músico ou cantor profissional, segui minha rotina. A semana se arrastava e, algumas poucas vezes passava mais rápida. Trabalhar só para ganhar dinheiro é angustiante, não tenho a menor dúvida. A verdade é que você já começa a segunda pensando na sexta à noite. No meu caso, agora com namorada e, morando longe dela, na sexta à noite ou no sábado depois do almoço, poucas vezes, eu chegava e ficava até domingo à noite. O meu final de semana, com a permissão dos pais dela, passou a ser em sua casa. Ela com cinco irmãos, três mais novos e dois mais velhos que ela, traduzia literalmente a frase da propaganda: “sempre cabe mais um”. E aqui tenho que ressaltar: quando cheguei já haviam uns agregados, que acampavam todo final de semana na humilde e pequena moradia, não obstante, grande no acolhimento. Tanto seu pai, quanto sua mãe, sempre foram desprovidos de qualquer mesquinharia. Penso, que por virem de famílias numerosas do interior de minas, acostumados com casa cheia e mesa farta, dentro do possível, aquele bando, davam a eles a alegria de ter a casa sempre cheia, barulhenta, harmoniosa, apesar dos seis filhos, então cabia mais essa cambada de filhos alheios. Além desses, que fiquei por longo tempo convivendo, pelas ruas do bairro fui conhecendo e fazendo mais amizades e ampliando o meu fã clube.
A banda se reuniu mais uma vez, a convite do irmão do baixista, que nessa época tocava com o Sullivan, sempre tentando nos ajudar. Ele tinha prazer em nos reunir para gravar. Tinha o sonho de nos produzir ou pelo menos nos apresentar para oportunamente gravarmos. Gostava do nosso som, das músicas, da minha voz. Arranjou um horário de uma noite no estúdio de ensaio do Sullivan, levou aparelhagem de gravação: Nada sofisticado como hoje, não existia computador, notebook; era um gravador de fita de rolo, junto com outros apetrechos e lá fomos nós, sem o batera, mas com o apoio do conjunto que ele tocava, passar uma madrugada gravando cinco músicas. Entramos no estúdio por volta das 18 horas, levamos algum tempo para que ele ajeitasse os aparelhos e nós os instrumentos, ainda tivemos que passar para os componentes da banda do Sullivan as músicas, mas isso foi coisa rápida, afinal eram músicos calejados. Acredito que lá pelas 20 horas, começamos as primeiras experiências. Eu já estava me acostumando a gravar. Passada a limpo a primeira música, fomos para a gravação. Gente, gravar é um processo demorado, tem que ter paciência, se você quer um resultado bom, não tem como ser de outro jeito e, o irmão do baixista tinha um excelente ouvido, nós achávamos que estava bom e lá vinha ele e mandava repetir. Sem contar que aconteciam erros durante o trajeto, então recomeçávamos. Para se ter uma ideia, cada música de pouco mais de três minutos, levava mais de uma hora para ser gravada, então por aí vocês já podem imaginar. Chegou a madrugada e nós ainda não havíamos terminado. Quando tudo ficou pronto os músicos estavam exaustos e cheios de sono, porém nem tudo estava pronto, o produtor veio até mim e perguntou: “Você consegue cantar do mesmo jeito que foi gravado? ” Eu não tinha uma resposta precisa para essa pergunta, então questionei: “Por que você está me perguntando isso? ” Ele sabendo do meu cansaço, mas sem alternativa, mandou na lata: “Eu preciso que você dobre a gravação ou seja, cante novamente em cima da sua voz do mesmo jeito que cantou, porque a voz ficou baixa. ” Foi quando finamente eu entendi e para não entrar em pânico, me servi de um gole de conhaque, me postei no microfone, peguei o fone e fiz o sinal de positivo. Ele aproveitou para comunicar para a galera que eles podiam dormir, se quisessem, havia espumas no estúdio, enquanto terminava. O guitarrista aproveitou e pediu para incluir alguns solos e efeitos durante e, o nosso companheiro baixista acompanharia solidariamente. Foi mais uma das experiências vividas dentro da música. Eu tive que controlar bem os meus sentidos: inicialmente os nervos; depois a audição; em seguida a voz, tinha que ser a mesma o tempo todo e claro a memória, pois conforme a música ia rolando, eu tinha que lembrar como havia usado a voz. Nenhuma música eu consegui acertar de primeira, todas tiveram mais de uma tentativa, mas uma delas em particular, quase que conseguiu me desestruturar. Virou uma batalha particular. Passou a ser uma questão de honra. O pior é que quanto mais eu tentava e não acertava, mais ansioso ficava. Às vezes me sentia aliviado achando que estava certo, mas lá vinha o produtor e parava para dizer que milimétricamente a voz estava adiantada ou atrasada. Já tínhamos feito todas, só faltava essa. Se não me engano, depois de oito tentativas, evidentemente eu estava esgotado, enquanto todos dormiam, só restavam eu e o produtor, puxei o ar profundamente para me sentir vivo e acordado, pedi que começasse a introdução. Ela veio como tinha vindo todas as outras vezes, quando chegou no momento de entrar, deixei passar um pouco e pedi para repetir, uma, duas, três e, finalmente pude ouvir a minha respiração na gravação antes de entrar e contar mentalmente o tempo exato para encaixar bem em cima, quando soltei a voz o produtor começou a fazer um sinal para que eu continuasse, ele não parava de sinalizar e eu ganhando confiança segui até o final. Quando acabamos eu desabei. Não posso me furtar, mesmo sendo uma constatação conhecida por quase todos, a afirmar que quando realizamos algo do qual gostamos muito, o tempo, o cansaço, o negativismo, são completamente esquecidos e substituídos pela vontade, pelo prazer, pela doação, pela realização, pelo desapego, naquele momento, a qualquer outra coisa, reunindo o seu potencial efetivamente e reduzindo esse vasto mundo em um pequeno, porém infinito, momento de ocupação prazerosa.
Quando abrimos a porta do estúdio, é que tivemos a dimensão do tempo que ficamos envolvidos na gravação. A luz do sol nos pegou tão de com força, que parecíamos vampiros prontos para desfigurar, tal a rejeição visual, mas como o bálsamo da manhã sempre nos dá a alegria de um novo dia, foi unanime a resposta à pergunta se queríamos tomar um café. Depois de 13 horas enfurnado num cômodo, a padaria da esquina foi como um oásis no meio deserto, tínhamos a nossa disposição: pão na chapa, joelho fresquinho, pão com mortadela, café, coca, enfim, antes de irmos para casa dormir, pelo menos no meu caso, podíamos saciar nossa fome.
Já no carro do baixista, podemos ouvir com calma as músicas gravadas, seu irmão fez uma cópia numa fita cassete, enquanto ele dirigia até a minha casa, fomos saboreando cada passagem, cada solo, vibrando com o arranjo do baixo numa, da guitarra noutra, de como ficou a minha voz dobrada, não dava nem para perceber, ficou excelente. Era o nosso trabalho sendo registrado, as nossas composições, as nossas esperanças. Essa demo ia visitar algumas gravadoras. Essa parte quem se responsabilizou foi o nosso grande amigo e produtor, o irmão mais velho do baixista. Mas nessa vida nem tudo são flores e a vida é uma caixinha de surpresas, quando muito se espera... calma gente, ainda temos pela frente muitos desdobramentos, então, até o próximo capítulo. Fuuuuiiiiii!
P.S. Fui surpreendido com uma notícia, que há tempo, e põe tempo nisso, lutava para conseguir. As gravações feitas naquela noite estavam perdidas, mas numa coincidência dessas incríveis, recebi uma ligação e era o guitarrista me informando que havia recuperado todo o material, isso ontem antes da publicação, portanto, vocês poderão ouvir o resultado musical da longa madrugada. Não sei ainda, mais vou descobrir um jeito de colocar no Blog.                      

https://youtu.be/5Yl1_MIavxY

https://youtu.be/EnUnPDZ00mI


https://soundcloud.com/carlos-henrique-993773027/rural-na-estacao-ii

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Capítulo 26 – DE CANTOR A REGENTE

As apresentações chegavam ao seu final, faltavam poucos e, daqui a instantes todos os participantes entrariam no processo de expectativas. Cada um no seu íntimo, tinha uma sensação, apreensão diferente, mas o pensamento derradeiro era praticamente o mesmo. Num festival de música o vencedor nem sempre é a melhor música. Lendo assim de prima soa como uma incoerência, mas você sabe que eu não estou longe da verdade. É chato ter que escrever isso, mas eu não posso fugir a verdade, você talvez discorde, tem todo o direito. Eu penso que muitas, mas nem todas as formas de competições, podem sofrer interferência de terceiros e ter resultado final injusto. Eu já presenciei vários que foram verdadeiros desastres, cominando nessa injustiça. Eu escrevo sobre esse assunto, mas eu mesmo não entro em festival para ganhar, outra incoerência... não... eu explico: Para mim o festival serve para avaliar o trabalho musical e a performance; para interagir com outros músicos, compositores e cantores; para sentir a receptividade da plateia e, para ganharmos mais experiência. Tá legal, existem prêmios em dinheiro e é muito bom ganhá-los, mas é bem melhor quando a gente consegue unir a apresentação e o público numa mesma sintonia. Aí meu caro leitor, é o orgasmo musical. Diversas vezes eu pude ver isso acontecer e ver cantores e compositores, quando o mesmo não exerce a mesma função, sendo aclamados pala plateia após ser anunciado o resultado final. Nesses casos, mesmo quem estava torcendo por um outro concorrente, reconhece o vencedor merecedor do prêmio. Bem, vou parar por aqui, pois os jurados acabam de retornar aos seus lugares e, isso indica que será anunciado os vencedores nas seguintes condições e seus respectivos prêmios: 3º, 2º, e 1º lugar, o vencedor, além do prêmio de melhor intérprete. O terceiro e o segundo lugar receberão apenas um troféu cada, mas o primeiro lugar e o melhor intérprete, a esses, além do troféu, estava reservado um prêmio em dinheiro.
O apresentador comunicou que já estava com lista na mão, portanto daria início a chamada, mas antes lembrou que como o regulamento previa, seriam chamados o terceiro lugar e o segundo lugar e, antes do vencedor, seria anunciado o melhor intérprete que além do prêmio, faria uma breve apresentação para o público e só depois viria o primeiro lugar e a respectiva apresentação, finalizando assim o festival. Não sem antes ser ressaltada a importância dos colaboradores e organizadores e, demais incentivos para realização do evento. Ele pigarreou fora do microfone, era o sinal de que começaria, todos estavam voltados para o palco, momento de grande expectativa. Posicionando-se frente ao microfone proferiu a primeira sentença, anunciando, chamou o terceiro lugar, aplausos, seguido da cerimônia de entrega do respectivo prêmio. Voltou-se, após suas duas assistentes retirarem o premiado, e de novo diante do microfone anunciou o segundo lugar, de certa forma se repetiu o ritual anterior. Não menosprezando os anteriores, mas agora começava a fase de maior importância, por isso, diante de tal, o apresentador aproveitou para fazer charme, brincadeiras, a plateia delirava ansiosamente e, finalmente empertigando-se anunciou o melhor intérprete: Eu. Eu fui o escolhido, o premiado. O público aplaudia, gritava. Não cabia em mim tanta felicidade. Saltei do banco, com dezenas de mãos me batendo no corpo, em direção ao palco, esse momento era meu, único. As assistentes me recepcionaram e me passaram os prêmios. O público gritava pedindo para eu cantar. O apresentador me felicitou, me estendeu o microfone e fazendo um gesto com a mão, apontou para a plateia. Eu não tinha discurso preparado, então foi no improviso. Primeiro agradeci a escolha, depois ao público, posteriormente aos meus companheiros e aproveitei para informar que a banda não estava completamente presente, pois os músicos tinham compromissos e então só restavam eu e o guitarrista, mas que eu não deixaria de cantar, só que seria voz e guitarra. Meu companheiro subiu, plugou o instrumento e depois de testar som e afinação, virou-se para mim mostrando que estava tudo certo.
A partir desse momento, achar palavras para descrever sentimentos múltiplos, torna-se para mim uma tarefa árdua. Como explicar que eu saltei do posto de cantor para o de regente de coral em fração de segundos. Só dizendo em poucas palavras, que eu não cantei uma vez sequer o refrão, pois a plateia o fazia sob a minha batuta, obedecendo cada movimento como se tivéssemos ensaiado há meses. Cantar acompanhado só da guitarra, tornou a apresentação mais íntima, aconchegante, claro que com o prêmio debaixo do braço, o corpo e a mente mais leves, os erros agora podiam até acontecer e, as falhas na voz embargada pela emoção, seriam compreendidas, contudo, eu me mantive firme e junto com a plateia fizemos um espetáculo maravilhoso. Essa resposta vinda do público é para o artista o apogeu. Sim, me senti nos braços da galera. Que me perdoem, não é falta de modéstia, mas a música que ganhou, merecidamente, o festival, foi ofuscada pela minha premiação e apresentação, tal a identificação do público comigo. Eu roubei a cena. Fazer o quê? Era o meu momento.  
No dia mesmo não festejamos devidamente, o adiantar da hora impedia algumas pessoas, mas também não estariam presentes os companheiros músicos que foram muito importantes para a apresentação. Por outro lado, ainda demorei a sair devido ao assédio e ao próprio Chicão que fez questão de vir pessoalmente me cumprimentar, trazendo consigo outras pessoas que participaram no processo da realização do evento e queriam me conhecer. Chicão como falei anteriormente, movimentava culturalmente o município, incrementando, incentivando, realizando eventos em vários segmentos da arte e apesar da agitação em torno, ele queria estreitar laços para um futuro convite. Só depois de passado esses acontecimentos, é que saímos retornando para casa, ainda sob o efeito daquela noite. Durante o retorno, eu e os amigos cantávamos o tempo todo a música. Já na casa da minha namorada, preparado para dormir, a minha cabeça era um turbilhão de imagens, isso mesmo, um verdadeiro ciclone que não parava de girar e fazer surgir uma atrás da outra, imagens de algumas horas antes. Custou, mas adormeci com um sorriso nos lábios.
O cheque estava bem seguro, só precisando ser descontado. Seu valor dava para fazer uma boa farra, num dos pontos que nós frequentávamos, então, marcamos para o sábado seguinte, o que daria tempo de sacar o dinheiro e comunicar aos amigos que seria uma noite de 0800 até o limite do prêmio, se ultrapassasse aí haveria vaquinha; fica aqui entre nós, deu e sobrou, tanto que o guitarrista queria ir a Úba rever sua namorada e pegou uma ajuda. Digamos que como compositor da música, recebeu os direitos autorais.
Lamento dizer, mas não acabou não, vem mais apresentações por aí, aguardem!


quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Capítulo 25 -  QUEM DIRIA, CARLOS GARDEL EM DUQUE DE CAXIAS

Bem, recordando um pouco: Depois de ter a ideia, batalhar e conseguir juntar os apetrechos que dariam forma a personagem, finalmente chegara o dia e eu agora me encontrava no apertado camarim, disputando espaço para ficar pronto antes da chamada. O festival já havia começado e, como a entrada para o palco era um pequeno corredor colado ao camarim, a movimentação era intensa, mas havia organização, só ficavam de três em três participantes anteriores ao do palco. O que tornava o espaço apertado, eram as bandas, que nesse caso tinham mais de uma pessoa para entrar. Eu me preparava, enquanto meus companheiros esperavam e claro me ajudavam. Tiro a roupa do corpo, coloco a roupa da apresentação, ajeito a gravata – detalhe que eu não sabia, mas aprendi, dar o nó na gravata – umedeço o cabelo e aplico o fixador, pego o pente e faço o penteado idêntico ao do grande cantor, me olho no espelho e vejo Gardel, olho para o chão e me vejo através do tênis, mas agora não sou mais eu e sim “CARLOS GARDEL!”. Nesse momento me veio à cabeça a tal estratégia. Chamei o guitarrista e avisei-o de que não entraria junto com a banda, ele por alguns segundos se espantou, mas logo tranquilizei-o explicando o motivo: Naquele instante eu vislumbrei a possibilidade de algo maior; eles entrariam após a chamada do apresentador e ele pediria ao mesmo que levasse a entrada do palco o microfone até as minhas mãos; a banda faria a introdução e eu começaria a cantar ainda atrás da cortina em direção ao palco, isso certamente causaria um choque, visto que eu estaria todo transformado. Ele captou a ideia de imediato, comunicou aos outros, que de cara aprovaram e assim ficou combinado. Eu estava muito nervoso, mas como já falei, não com medo, apenas ansioso para pisar no palco e desempenhar o que havia desenhado na cabeça. Não seria um improviso, pois já havia me apresentado, mas caracterizado seria o diferencial. Havia estudado um pouco, não muito, o gestual de um cantor de tango, principalmente Gardel, contudo teria que improvisar, pois nada sabia sobre a milonga, teria que ser na expressão corporal. A milonga, culturalmente não era nosso, então, sem muita informação o melhor era misturar com o nosso gingado do malandro de samba.
A voz do apresentador anunciava que era a nossa vez. Assim que acabou, a banda entrou e guitarrista foi ter com ele para que levasse o microfone até onde eu estava, na entrada para o palco atrás da cortina nos bastidores. Enquanto a banda se arrumava, ouvia-se um murmúrio vindo da plateia, que eu já supunha ser a grande interrogação que pairava sobre suas cabeças, latejando intermitentemente a respeito da minha ausência. Eu havia desligado o microfone, para não escapulir nenhum ruído e só ligaria quando tudo estivesse pronto. Instrumentos plugados, som na medida, todos prontos, começa a contagem. A introdução veio em seguida ao término da contagem, aproveitei para ligar o microfone e quando chegou no acorde que indicava a minha entrada, comecei a cantar ainda sem aparecer e fui lentamente me dirigindo ao centro do palco. Quando a minha voz soou, já expulsei a interrogação, quando a minha presença descortinou, a plateia não se conteve e a reação viera a confirmar o que eu havia desenhado na minha cabeça. Eram assobios, aplausos; mais da metade de pé; os jurados sorriam e, eu saboreando todo aquele momento. O artista as vezes, em grandes momentos de interpretação, acaba colocando a música em segundo plano, mas não foi o meu caso, pois todos estavam esperando ansiosamente pelo refrão. Claro que eu tenho méritos, a música por si só era pequena. Eu desenvolvi toda uma apresentação a partir do apelo de um refrão, então, o que poderia passar batido se tornou um hit, mas, não fosse a minha voz, desenvoltura, inventividade, tudo teria sido apenas normal. Do primeiro refrão cantado, até o último, o público participou entusiasticamente. Foram minutos de muita felicidade, longe de qualquer vaidade.

Terminada a apresentação, sob aplausos mil, me retirei com a sensação do objetivo mais que alcançado. Depois de me desconstruir; de me acalmar; de normalizar o batimento cardíaco; de descer das nuvens, é que reuni condições para comemorar com os meus amigos a nossa performance. Os músicos, exceto o guitarrista, tinham compromisso para tocar e, já estavam com o tempo contado, por isso, em seguida, se despediram de nós desejando o melhor e lamentavam não poder ficar para ver o resultado. Os caras contribuíram por amizade e amor a música, sem ganhar nada, sem pedir nada em troca, nós procuramos demonstrar quão importante fora essa doação; palavras, abraços, palavras, sorrisos, palavras, tudo parecia pouco, para nós, para eles, estava tudo certo. Na simplicidade está a beleza da vida. Complicar é uma criação humana. Eu não sou um filósofo, historiador, pensador, longe disso, mas penso, portanto, existo e por existir e pensar, é que as vezes me pego refletindo a natureza humana. Nascemos completamente despidos, não só de roupas, mas principalmente de conceitos. Nunca seremos perfeitos, mas a perfeição nos habita. A máquina que faz o ser humano funcionar é perfeita. Divaguei. Resumindo: o ser humano entre tantas virtudes, em contrapartida aos pecados, tem essa disponibilidade, esse desprendimento, esse sentimento, esse instinto, além de se auto preservar, de auxiliar, de ajudar, de contribuir para o próximo, então quando acontece nós agradecemos muito, por não ser, como deveria ser, uma ação tão normal quanto respirar. Ainda bem que tínhamos amigos na plateia, não deu para ficar com a sensação de abandono, nos juntamos rapidamente ao grupo e fomos assistir o que restava do festival e, esperarmos o veredicto. Até chegarmos aonde estavam os nossos amigos, muitas pessoas me pararam para me cumprimentar, quase todos cantavam um pouco do refrão e, parabenizavam entusiasmados, mostrando admiração. A sensação era boa, apesar de tudo conspirar a favor, eu não queria colocar a carroça a frente dos burros, então, me desliguei desse pensamento e fui apreciar os meus concorrentes. O nível era bom e nós comentávamos, a cada música, que ganhar o festival seria muito difícil. No intervalo entre uma música e outra, todos tinham a mesma sensação, era praticamente unânime a questão, o que todos se agarravam e torciam era pelo outro prêmio, havia uma possibilidade bem forte, então não nos restava muito a fazer, se não esperar. É justamente isso que vocês vão fazer: esperar até o próximo capítulo para saber o desdobramento dessa história, inté!  

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Capítulo 24 – DURA LEX SED LEX, NO CABELO SÓ GUMEX

No capítulo anterior, avisei-os, que deixaria para este, a explicação sobre o refrão da música, que causou.... Bem, vejamos!
Vivíamos na época um regime militar, portanto qualquer manifestação contrária, por menor que fosse, poderia ser considerada Antigoverno e, isso poderia resultar em sérios problemas. Nós não participávamos de nenhum movimento, mas também não éramos pró-governo, o que fazíamos era tentar ser feliz mesmo diante de tal situação. Quando o guitarrista compôs a música, ele escreveu uma letra subentendida, com traços de insatisfação, mas para apresentar ao público tivera que amenizar, então tínhamos a seguinte situação: "Pois nessa vida sem vida, nós somos ébrios quaisquer, estranho final num porão, chorando por uma mulher, e o arlequim que passa, com tanta alegria e tal, me faz ver que a tristeza termina no carnaval. AAAAAIIIIIIII! Meus foliões, meus foliões, meus foliões. E depois de muito andar, agora sei o que é, estranho final numa prisão, morrendo pelo que quer, e os homens que agora passam, com tanta frieza e tal, me faz ver que a opressão continua depois do carnaval. AAAAIIIIII! Meus foliões, meus foliões, meus foliões". Para amenizar um pouquinho, só retiramos a palavra “opressão” que tem como definição: tirania, mão de ferro, abuso, despotismo e colocamos “tristeza”, mas o refrão, este, quando cantado, se confundia com: "AAAAIIII! Meus culhões, meus culhões, meus culhões".
Quando acabaram as apresentações, ficamos à espera da lista dos classificados, que retornariam no próximo sábado. Enquanto os jurados se reuniam, surgiu não sei de onde, um boato de que eu estaria cotadíssimo para o prêmio de melhor intérprete. A princípio era apenas uma tênue possibilidade, mas conforme foi avançando o tempo e assim que saiu a lista dos classificados e nós estávamos entre os citados, o boato ganhou força ao ponto de me fazer acreditar sim nessa possibilidade. Saímos do local felizes pela classificação, ainda ouvindo o refrão sendo cantado por alguém na multidão e fomos bebemorar que ninguém é de ferro. Já na volta, me veio à cabeça que eu devia fazer alguma coisa diferente para incrementar mais a apresentação, mas o quê? Fiquei entre os amigos, brincando, lembrando, bebendo, gargalhando, mas no meio disso tudo a ideia vinha e voltava a sumir como uma aparição, muda, vazia, enevoada, foi assim até que, voltou e aos poucos foi se revelando e quando dei por mim estava diante do maior cantor, que dizem ser de origem francesa, uruguaia e argentina, não importa, o que importa é que ele foi o maior intérprete de tango que eu nem conhecera, mas que conhecia a sua história ou parte, pelo menos, contada pelos mais velhos, livros e revistas: "Carlos Gardel". Quando contei para o pessoal, uns não sabiam quem foi; outros pouco sabiam, mas sabiam e um mínimo já haviam lido sobre. Comecei ali mesmo a construir para a minha pequena plateia, o que seria e o que eu precisaria para minha transformação: Gardel era branco, assim como eu; era magro, eu também; tinha o cabelo cheio, mas cortado acima da orelha e feito o pé, para amansá-lo usava muito gel e repartia ao lado, mas não muito do lado, aí existia uma grande diferença, eu tinha, assim como praticamente todos, uma vasta cabeleira e além disso ele era muito elegante, só se apresentava de terno, gravata e chapéu e eu nunca havia usado ou colocado um, quanto mais o outro. Feita a apresentação da transformação, meus amigos quiseram saber como eu faria para conseguir juntar tudo. Bem, eu argumentei, que só restavam dois obstáculos, mas que o primeiro era simples, o cabelo. Eu ia pesquisar o corte e cortá-lo, quanto ao terno e o chapéu precisava de ajuda. Alguém lembrou que o pai da minha namorada, certamente teria um terno e que ele era magrinho assim como eu. Guardei na memória e continuamos procurando mais opções. Dentro do grupo que ali se encontrava, só o guitarrista foi quem levantou a hipótese de possuir uma outra alternativa. Ele me lembrou que um amigo em comum, vizinho, que vez por outra, nós éramos convidados a sua residência para tocarmos violão, jogar conversa fora, cerveja, enfim, confraternizar uma noite inteira até amanhecer e que seu pai que também participava até uma certa hora da violada, talvez tivesse esse tipo de vestimenta, o manequim não era tão distante. Concordei, mas esperava resolver já na primeira tentativa.
No dia seguinte, acordei cheio de esperança; havia dormido na casa da minha namorada. Mal acabei de tomar café, fui ter com o meu futuro sogro para saber se ele possuía um terno escuro. A resposta não poderia ser melhor, tinha até dois. Alegou que eram antigos, penso que não poderia ser mais adequado, fato que concordou quando expliquei para o que eu queria. Trouxe ambos, mas já no primeiro, eu arrefeci quando vesti o paletó, havia esquecido desse detalhe, ele era menor do que eu, portanto, tanto o paletó quanto a calça ficavam curtos. Agora só me restava o outro pai, mas para isso eu teria que esperar, pois ele morava distante dali, mas perto da minha casa, então, só no dia seguinte ou outro dia. Enquanto isso, aproveitei para pesquisar com o pai da minha namorada sobre o Gardel, as informações foram muito detalhadas, é, não tínhamos o google para isso. Ele trouxe vinil para ouvirmos e algumas fotos. A semana começou e eu me encontrei com o guitarrista, que me informou já ter conversado com o pai do nosso amigo e que ele estava me esperando a qualquer hora. Não demorei muito, pois o tempo era curto e se não desse certo eu ficaria encurralado. Ele me recebeu com o seu sorriso e alegria de costume, convidou-me para entrar e logo avisou que iria buscar o terno, não sem antes me confidenciar que era o terno do seu casamento, que o havia guardado esses anos todos e que eu não me preocupasse, que apesar da barriga, na época ele era fininho, portanto, achava que cairia como uma luva. Fiquei na sala esperançoso. Ao regressar, pude ver que o terno era preto, o que era bom, tirou do cabide e abrindo-o me convidou a colocar o primeiro braço, após, enfiei o segundo por dentro do paletó e ajudado por ele fomos ajeitando no corpo. Não experimentei nem a calça, se o paletó ficara bom, a outra peça não me deixaria na mão. Agradeci muito, perguntei se precisa lavar e prometi devolve-lo sem avarias. Parti para casa com uma alegria imensa por dentro; com uma vontade de mostra-la a todos, mas ainda bem que não o fiz, pois ninguém ia entender. Em casa verifiquei que a calça ficava um pouco larga, mas nada que um cinto não resolvesse a questão. No dia seguinte dei uma chegada na barbearia, é, ele também tem família e fiz as pazes com o barbeiro. Cortei minha juba sem dó nem piedade, como se diz. Pedi que ele fizesse o corte o mais parecido possível com grande artista do tango, o resultado final ficou excelente, eu é que estranhei para cacete a falta do cabelão. O traje estava completo, quer dizer quase, faltava o chapéu, que não deu mesmo e, sendo assim e por falta também do sapato no verniz, eu resolvi dar um toque sutil que representasse os tempos atuais e, separei como complemento um tênis como calçado.

No dia da apresentação, eu levei tudo dentro de uma bolsa: terno, camisa branca social, gravata preta, cinto, pente, gumex – Como já dizia Ary Barroso:  “Dura lex sed lex, no cabelo só Gumex” - o tênis já estava nos pés. Eu deixei para me preparar no camarim, assim ninguém me veria antes do momento, até para o meu pequeno fã clube seria surpresa e, reservei uma estratégia que me veio à cabeça ainda no camarim, que seria.... Me desculpem, mas sou obrigado a deixar o relato para o próximo capítulo, até lá! 

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Capítulo 23 – O REFRÃO

Não faz tanto tempo assim, não havia internet e pouca gente tinha telefone fixo e, isso nunca foi um entrave, pelo contrário, vivíamos muito bem, quiçá melhor. Então, sem e-mail ou WhatsApp, ficamos esperando (funcionava muito bem) o correio nos trazer a correspondência que confirmaria as nossas convicções. Não demorou muito, chegou o convite oficial para participarmos do festival, estávamos classificados, como esperávamos. A partir daí o guitarrista foi confirmar com os rapazes se no dia da apresentação eles não teriam compromissos em algum evento. Feito a sondagem e, recebida a resposta de não haver impedimento, começamos os preparativos para a competição.
O festival era um incentivo cultural da prefeitura de Duque de Caxias e, como responsável estava à frente, participando da secretaria de cultura, o nosso personagem central: Chico Chicão. Homem de cultura e incentivador das várias formas de expressão dentro das artes. A música era seu combustível maior: Músico, compositor, cantor, produtor, arranjador e, principalmente incentivador de novos talentos, bandas e cantores independentes. Um festival organizado por uma pessoa dessas, estava fadado ao sucesso, sem sombra de dúvida. Fomos convidados para uma reunião só para os participantes e a equipe organizadora e, depois da reunião ficamos um pouco mais, aproveitando que o nível da conversa havia sido gratificante, fizemos uma boa amizade com o Chico. Ficamos, depois da reunião, horas papeando sobre música; sobre suas atividades; sobre o festival, que ele queria transforma-lo numa referência, ficamos encantados com a pessoa e o sentimento era recíproco e, ali nascia uma grande amizade.
O festival seria realizado na câmara dos vereadores, espaço com sistema de som e acústica adequados, precisando apenas de alguns ajustes, mas com capacidade para receber um bom número de público. O evento recebeu grande divulgação pelos meios de comunicação do município: Rádios locais, faixas, carros de som, enfim, tudo o que se podia usar para convidar a comunidade. Os jurados foram escolhidos a dedo; pessoas que viviam para e de arte: Professor de música, músico, escritor, diretor teatral, professor da língua portuguesa, enfim, uma baita seleção. Como estava perto do meu quintal, pude contar com uma pequena torcida, que antecedendo o dia da apresentação já se movimentava em pequenos detalhes para chegar na hora e produzir apoio. Quando lá cheguei para a primeira fase, pude confirmar, no meio do público, os meus amigos e fãs, apostos, prontos para me incentivar. Era a fase classificatória, eu já havia passado por essa agonia, sabia que a decisão estaria nas mãos dos jurados, mas tudo dependia de como nos saíssemos no palco. Eu já trazia uma certa experiência nesse tipo de apresentação, agora as pernas não tremeriam mais, mas o frio na barriga ainda existia, essa sensação eu penso que não é medo, pelo contrário, é uma enorme vontade de subir no palco e mostrar tudo aquilo que você ensaiou, talvez até tirar um coelho da cartola e se surpreender, mostrando principalmente a você mesmo que céu é o limite. Sair da zona de conforto, normalmente é um incômodo, não que seja para todo mundo, mas para muitos é sim. Tem gente que gosta de se exibir, isso é outra coisa. Tem gente que sente bem sendo sempre o observador, jamais se admite no lugar do observado, essas pessoas nessa situação travam. Eu, não sou nem o exibido, nem apenas o observador, sou por natureza provido do que se pode chamar de observido ou exibador, tenho um pouco de cada dentro de mim, numa proporção equilibrada que me faz observar aprendendo e quando sinto o terreno firme que me permite roubar a cena, me lanço sem medo e me exibo. Não sou nenhum fenômeno, mas percebi que consigo entreter uma plateia.
O palco começava a ser a extensão dos meus sonhos, do meu quarto, do meu quintal em dias de violada, das reuniões com os amigos e com os amigos dos amigos e de repente eram pessoas completamente desconhecidas e que certamente fariam seus próprios julgamentos. A unanimidade nunca existiria, mas a graça está justamente aí, na diferença de gostos. Por outro lado, receber a atenção e o afago da maioria, fora do seu terreno, é sinal de que o seu trabalho foi bem realizado. Mais uma vez estávamos prontos para descobrir e descortinar o futuro. Me coloquei no centro do palco a frente dos meus companheiros, me preparando assim para a apresentação. Certos cantores ou cantoras ao se apresentarem diante do público costumam usar uma roupa elegante, mesmo num festival, eu não havia preparado nada diferente ou especial, apesar de haver camarim para o artista se arrumar. A introdução foi realizada a contento e quando soltei a minha voz o retorno veio satisfatório. Cantei a primeira parte me preparando para o refrão, que eu sabia que seria algo que mudaria radicalmente o comportamento da plateia; seria como se estivesse distraído e algo provocasse repentinamente toda a sua atenção. Não deu outra, assim que acabei de cantar o referido refrão, o público quase silenciou e passou a me observar. Continuando e agora cantando a segunda parte, eu já comecei a imaginar o gestual que faria quando chegasse no refrão. Nada exagerado, apenas um pouco de interpretação teatral, usando de expressão corporal o que a letra subentendia. Dessa vez, a plateia veio ao delírio. A música foi para um pequeno solo, ao término eu voltaria para repetir a segunda parte e todos já esperavam eu finalizar com o refrão. A partir desse momento eu era o centro das atenções, o microfone estava fora do pedestal, sendo empunhado por mim, que dominava completamente a plateia e os conduzia com maestria. No grand finale a plateia uníssona me acompanhava. Apresentação feita, a consagração veio através da manifestação calorosa que o público demostrou. Missão comprida.

Depois, passeando no meio do pessoal, era abordado por alguns, eles repetiam o refrão como forma de reconhecimento, pude observar um pouco mais do festival e sentir o que estávamos enfrentando, para saber se tínhamos alguma chance de classificação. Bem, vocês não estão nem um tantinho curiosos para saber que porra de refrão é esse que causou tanto...? Vou tentar explicar, mas vamos deixar para o próximo capítulo, senão esse vai ficar muito longo, até!  

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Capítulo 22 – NOVO DESAFIO

Em virtude do excesso e da temperatura baixa, voltei com a garganta muito inflamada, o que provocou febre, dores no corpo, e mais de uma semana fora de combate. O trabalho, o colégio, o ensaio, tudo foi acumulando. Quando finalmente comecei a me sentir em condições, foi preciso dar maior atenção e eleger prioridades. O trabalho ficou em primeiro, dadas as circunstâncias. Houvera um gasto fora do orçamento e financiado, portanto era preciso correr contra o tempo para colocar as contas em ordem. No colégio, as aulas perdidas teriam que ser recuperadas, então, além de assistir as novas, tinha que copiar as anteriores e entende-las. Essas duas atividades me afastaram um pouco dos ensaios, tanto quanto eles, que também tinham os seus problemas e, portanto, adiamos por um tempo o nosso retorno. Enquanto isso, os acontecimentos vividos na viagem até Úba, começavam a dar frutos. A inspiração se apossou de nossas emoções e retribuía com melodias e letras. Eu sozinho e em parceria com o guitarrista, compus miseravelmente umas cinco canções, que foram, não todas, três incluídas no repertório da banda. Como eu havia me juntado a banda pouco tempo antes de acontecer a classificação para festival, na nossa volta, houve uma reunião e foi decidida a saída do guitarra base, sem que houvesse necessidade de eu estar presente, foi uma decisão que eu acabei corroborando. 
Lembram lá no capítulo 18, que eu mencionei que dois sujeitos nos procuraram pedindo uma fita demo para levar ao um produtor na gravadora CBS no Rio de Janeiro e que eu lhes disse que conhecia tal produtor, pois bem, munidos de uma fita fomos até o tal produtor, mas pensa que é simples assim, porra nenhuma, esses caras são procurados o tempo todo por postulantes a cantores e não é fácil para eles. Pensávamos que por nos apresentarmos com os nomes dos sujeitos seria suficiente para abrir portas, ledo engano, o tal, se conhecia, nos disse que não sabia de quem se tratava, e quanto a fita, se quiséssemos deixa-la com ele, sem garantias, talvez ouvisse, mas no momento estava muito ocupado. Bem, com tanta gentileza e atenção, como a fita era o de menos, passamos para mão dele, porém sem nenhuma esperança.

Apesar de termos feitos algumas gravações em estúdio, levados pelo irmão do contrabaixista, os ensaios na garagem começaram a escassear e inevitavelmente fomos nos distanciando do batera, além das parcas apresentações. O tempo foi passando, o mundo girando, a vida se apresentando e quando nos demos conta estávamos sem agenda e só eu e o guitarrista é que nos encontrávamos com mais frequência. Foi justamente num desses inúmeros encontros que surgiu, não me lembro como, um convite para participarmos de um festival da prefeitura de Duque de Caxias, organizada por um sujeito competentíssimo em eventos culturais, com formação em música. Se não me falha a memória, houve uma inovação com relação a escolha dos participantes ao festival. Nós tomamos conhecimento já meio que em cima da hora de fechar as inscrições. Não precisamos enviar ou entregar nenhuma fita para ser escutada e posteriormente informados da classificação. Depois de feito a inscrição, fomos convidados para uma apresentação num pequeno teatro, onde uma comissão escolheria as músicas que iriam participar do festival. A música era do guitarrista, eu iria cantar, chamamos o contrabaixista, mas quando ele soube qual era a música se recusou a participar, insistimos muito, mas não houve jeito, ele não achava que a música, que era um tango sacana, não tinha força para um festival, então recusou mesmo. Bem, diante disso, o guitarra que conhecia um montão de músicos bons, convidou um batera, músico que toca até hoje com o Jorge Bem Jor, um contrabaixista e veio com eles só de onda um pianista. No dia da apresentação, não foi preciso, nem tinha piano, a presença do pianista. No teatro muita gente, todos ávidos para se apresentar e fazer o melhor. Não havia pressão quanto ao tempo para começar, havia bom senso. Eles não conheciam a música, mas para minha surpresa através da batuta do guitarrista, o contrabaixo parecia que já havia tocado o tango inúmeras vezes, tal o curto tempo em que pegou o jeito, quanto ao baterista, esse estudava com Wilson das Neves, não foi preciso nenhuma observação, no que ouviu já estava dentro. Tudo acertado, começamos a música. Conforme íamos desenvolvendo a apresentação, a sintonia ficava mais afiada ou afinada. Acabamos e tivemos a impressão de que havíamos feito algo estupendo, pois a reação dos presentes assim nos mostrou. Penso, que não foi só uma mera apresentação, acabou sendo um pequeno show, sem modéstia. Agora, era esperar o comunicado ou não, pois quem não se credenciasse nada recebia, mas algo ou tudo ali naquele momento nos dizia que já estávamos classificados, dado ao clima que ficou quando acabamos, não nos restava outro pensamento a não ser este. Então na semana seguinte...      

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Capítulo 21 - VOU PARA CASA E LEVO O SOL

Como eu estava dizendo no capítulo anterior, tivemos a ideia de nos reunirmos com as meninas, também já mencionado, uma delas engatou um namoro relâmpago com o guitarrista, para uma despedida bem comemorativa. Havia um restaurante na praça que era o point do pedaço e que servia muito bem para as nossas pretensões, a de bancarmos um jantar de despedida para as nossas anfitriãs e claro fecharmos com chave de ouro a nossa passagem por aquela cidade. Fizemos as contas do que havia ainda de dinheiro para gastar e depois de uma pesquisa no cardápio do restaurante, vimos que a situação não era tão fácil assim. O que sobrou não era suficiente para um jantar, ainda mais com bebidas. Vendo o nosso sonho ruir, o batera pediu para esperarmos e foi dentro do recinto tentar alguma coisa que ele havia pensado, mas não nos explicou. Passados alguns minutos, voltou com um sorriso na boca acompanhado da notícia de que tinha resolvido com o garçom e de que não precisávamos nos preocupar que o arranjo cabia direitinho no nosso orçamento. Entramos, o batera na frente se dirigiu ao um garçom e ele acenou para que fossemos a uma mesa nos fundos na parte exterior do restaurante, onde ficaríamos bem à vontade e com o espaço só para nós. A mesa era espaçosa. Podemos nos acomodar sem apertos. Éramos sete, o guitarra base não voltaria conosco, portanto àquela hora ele deveria estar jantando na casa dos seus parentes. O batera era o comandante do navio. Foi ele que arrumou tudo, desde do cálculo da despesa, até o que nós iríamos comer e quantidade de bebidas, que por sinal não seria nada exagerado, só umas poucas cervejas para brindarmos o momento. Enquanto esperávamos, fomos conversando e lembrando dos últimos acontecimentos. As meninas nos revelaram algumas coisas que só elas é que sabiam. Tais como: a repercussão do primeiro dia, inclusive para elas; a sacanagem do segundo dia e quem foi e como fez; o convite para o show feito pelo prefeito e o organizador, não só corrigindo uma injustiça, mas também oferecendo ao público jovem algo que interagisse. Agora já eram boas lembranças, mesmo sendo no mesmo dia, ou há dois dias. Já era passado, não voltaria mais. Conforme conversávamos, iam surgindo os detalhes, as entrevistas, os autógrafos, o assédio, sim, eu mesmo fui muito assediado. Nossas bagagens estavam repletas de novidades. Essas bagagens não pesavam e em momento algum modificaram nosso comportamento. Passamos para um outro patamar, tínhamos consciência disso, mas essa mudança não era exteriorizada, era apenas uma dose maior de confiança.
Fomos interrompidos pela chegada da comida, veio em boa hora, juntando a fome com a vontade de comer. O garçom vinha acompanhado de dois funcionários, que traziam: arroz, farofa, molho, fritas e espetos mistos de carne; desejou bom apetite e se retirou para o interior do restaurante. Nós olhamos para o batera, como quem pergunta: É isso tudo mesmo? O sorriso era confiante, então não pensamos duas vezes. Durante longos minutos, ficamos praticamente sem conversar, uma observação aqui, outra ali, sobre o menu e evidentemente brindamos o final de semana maravilhoso, as duas novas amigas que se dispuseram a nos assessorar e se tornaram rapidamente membros do grupo, como se nos conhecêssemos a long time. Igual ao urso pardo que engorda para hibernar no inverno, nós comemos demais da conta, o que evitaria sentir fome durante a viagem e ter que descer na parada para comer, só sairíamos se houvesse necessidade ou para esticar as pernas. Ainda faltava quase três horas para o nosso embarque, então ficamos digerindo e conversando, já havíamos trocado endereços para correspondência, somente eu e o guitarrista. Ele com a sua ficante e eu com a amiga, que durante esses dias trocamos palavras e descobrimos que tínhamos muita coisa em comum, mas não passou disso, não que eu não quisesse, mas respeitei manter distância, pois eu sabia que ela tinha acabado de terminar um namoro com o guitarra base e como era coisa recente, ainda havia aquele clima, sabe? Bem, passados mais de uma hora, falamos para o batera chamar e acertar com o garçom o que ele havia combinado, o sujeito veio e trouxe a conta, quando nos deparamos com a mardita não acreditávamos no que víamos, sem entender nada recorremos ao batera, ele começou a tentar se entender com o garçom o que os dois haviam combinados, mas a conclusão era óbvia, o nosso amigo fez uma puta confusão e agora nós estávamos encrencados até o pescoço. Não havia outra solução a não ser pagar a conta, por mais que argumentássemos não saímos do lugar, nosso dinheiro só pagava a metade, portanto ele teria que engolir um calote, mas aí que residia o maior problema, o calote era uma baita despesa para o garçom. Ele se retirou, voltou, foi de novo, enquanto nós víamos a hora se aproximar da partida e não conseguíamos resolver o imbróglio que o batera havia nos metido. Veio o gerente que seria a penúltima estancia, nós já estávamos preparados para entrar com um recurso caso perdêssemos, mas de repente tudo clareou. Quando passou pela porta, ele que conhecia as meninas, se dirigiu a elas, cumprimento-as e antes de se dirigir a nós indagou-as sobre o acontecido, foi quando elas não perderam nem um minuto em explicações, só pediram a ele que guardasse a diferença da conta, que no dia seguinte elas pagariam. Pedido aceito, apenas virou-se para nós, sorriu e se retirou, pegado aos seus calcanhares seguia o garçom. Nós ficamos completamente sem graça e sem palavras. Elas agradeceram o jantar e principalmente o final de semana que fora maravilhoso, não faziam ideia do futuro, mas tinham certeza de que nós havíamos deixados em suas vidas, marcas profundamente carinhosas e inesquecíveis.
Saímos do restaurante e fomos caminhando calmamente em direção a rodoviária. Durante a caminhada poucas palavras, o silêncio era um sinal da eminente despedida, fato que doía, mas era irremediável. A vida é assim, não tem como parar o tempo, por mais que se queira e nem voltar, é vida que segue. Nos despedimos, quase as lágrimas, e embarcamos no ônibus já com uma saudade aflorando. De dentro do veículo muitos acenos, beijos lançados pela mão e a visão se distanciando e transformando a imagem nítida em pequenas silhuetas. Agora, voltávamos a nossa realidade. Saíamos do mundo encantado. Foram três dias vividos inteiramente voltados para música. Fora a nossa primeira experiência ao vivo e a cores. Não sabíamos o que o futuro nos reservava, mas agora sabíamos que tínhamos potencial; não estávamos no ponto, ainda teríamos que percorrer muita estrada, mas havíamos começado a caminhada. Agora, era acordar desse sonho e construir outro, mas sempre com os pés no chão.

       

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Criatura de Sebo: Raridades - Mutantes

Criatura de Sebo: Raridades - Mutantes: O Suicida  (O'Seis - Compacto - 1966) Rafael Vilardi - Rita Lee Apocalipse  (O'Seis - Compacto - 1966) Rita Lee O Homem ...
Destaco "Mande um abraço pra velha", faixa que me emociona tanto ouvindo o meu vinil chiado do FIC 72 (adquirido há décadas), quanto a coletânea de uma caixa lançada em 2014. Essa, com seu preço salgado, convida-nos a roer MP3 com mais gosto ainda!

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Capítulo 20 – GOSTINHO DE QUERO MAIS

Chegamos e notamos que o clima estava a flor da pele. Tenso. Muito tenso. Afinal era a final, não resisti. Rs rs... Fomos recebidos pelas meninas, que foram logo perguntando se estávamos felizes e preparados pela oportunidade do show. Bem, preparados não seria bem a verdade, pois fomos pegos de surpresa, mas, mostramos que estávamos confiantes e sim, felizes. De repente veio ao meu encontro um participante do festival e me fez um convite, que seria outra surpresa, queria que eu subisse o palco junto com ele, empunhando meu violão e o acompanhasse na apresentação. Eu disse: “Mas que maluquice é essa, meu irmão? ” Ele bradou como se fosse as trombetas de um palácio anunciando a chegada de uma comitiva muito importante: “ Deus do céu! Tu não notaste que és o queridinho dessa rapaziada que aí está? “ Eu meio que notei, mas não com tanta ênfase, então repliquei: “Já que tu dizes, quem sou eu para duvidar, mas, como vou tocar se não sei a música? “ A pergunta, foi ao mesmo tempo uma resposta afirmativa, então mais que depressa pediu para que eu pegasse o violão e em seguida foi falando a sequência: “ Faça ré maior, passe para lá maior e depois mi maior, agora mete o ritmo de forró, assim, vou cantar! ”   E começou e eu perseguindo, ele cantando e eu aprendendo e, quando vimos já estávamos ensaiados. “Viu como é fácil? Então, está combinado, na minha hora, vem comigo para o palco, falou? “ Acenei que sim e nos cumprimentamos para selar o compromisso.
Voltando para junto dos amigos, expliquei o que acontecera e o que aconteceria. Foi uma festa só. Nós estávamos curtindo aquele momento como um sonho, que depois despertaríamos, mas que por enquanto o encanto nos elevava as nuvens.
O festival deu sinais de que ia começar. O microfone aberto ressoando aquela voz inconfundível mostrava a todos que era chegada a hora. Feita as devidas apresentações de rotina, foi anunciado o primeiro concorrente da noite ao grande prêmio. Meu novo amigo, que participava da final, veio me avisar que ele era o sexto, para que eu ficasse atento, tranquilizei-o mostrando que tudo estava sob controle. Os meus amigos da banda foram dar uma volta, pois nós iríamos nos apresentar depois que todos se apresentassem e o corpo de jurados se retirasse para a contagem das anotações feitas por cada um e assim determinar os três primeiros lugares e claro o grande vencedor; além do melhor intérprete.
Como é diferente quando você não tem a responsabilidade de fazer o seu melhor; de ter o peso nas costas da responsabilidade na apresentação; de participar, mas ao mesmo tempo ser um espectador; é tão diferente que você não sente nem vontade de ir ao banheiro. Chegou a vez de atender o convite e subir no palco junto com o cantor e concorrente. Deu para sentir que a galera reagiu surpreendida quando me viram subindo ao palco também, penso que era isso que o meu amigo já esperava. Penso que isso não ajudaria em nada a sua caminhada para a vitória, porém, a apresentação ganhava uma atenção maior, isso eu tenho que concordar, sem modéstia. A orquestra tocou a introdução. Meu amigo com o microfone na mão começou a cantar, como era uma música bastante ritmada ele não ficava parado, se movimentava para todos os ângulos onde pudesse ser visto. Eu tocando o violão inicialmente quieto, senti que o propósito era que fizéssemos uma festa no palco, então, entrei na brincadeira sem ofusca-lo e passei a me expressar com mais veemência. A simbiose ficou perfeita, erámos dois artistas que se completavam, um cantava e encantava, o outro tocava e ditava o ritmo. Foi um momento muito gratificante, principalmente pela generosidade do amigo que não se importou em dividir aquele que seria o seu momento. Se por um lado a música não era uma obra prima, por outro ela proporcionava a nós e nós correspondemos, a oportunidade de contagiar o público e fazer da apresentação uma grande festa. Todos se sentiram convidados e compareceram. No final sentimos que deixamos aquele gostinho de quero mais.
Todos os concorrentes se apresentaram, o júri se retirou para apuração e agora o apresentador anunciava mais uma vez que daqui a pouco viria a atração especial da noite, mas enquanto isso o público teria a oportunidade de receber uma banda vinda do Rio de janeiro e anunciou chamando-nos para o palco. Como não havia outra maneira, nos posicionamos dentro daquilo que já havíamos feito. Dessa vez eu não tremia, ao contrário, encarava a plateia e já cheguei cumprimentando e saudando a todos, não tínhamos a pressão do tempo para começar, então tudo podia ser feito com calma, assim foi. Minha garganta estava muito dolorida, amenizei um pouco com a pinga e, esperava que ao cantar e aquecê-la, conseguisse aguentar. Uma chance dessas, com casa cheia, nós não teríamos tão cedo, então agora era tentar fazer o melhor e nos despedirmos desse acolhimento carinhoso com um belo show.
Existem acontecimentos que certamente ficarão na sua memória para o resto da sua existência. Acontecimentos agradáveis ou desagradáveis. Aos que te magoaram, te feriram, deixaram marcas, você faz de tudo para esquecer a magoa; de tudo para curar a ferida; de tudo para não ficar nenhuma marquinha. Aos que te inebriaram e você levitou; te levaram para um mundo paralelo, irreal; te mostraram paixão, amor; te recompensaram depois de muito esforço, que poderia não acontecer; te marcaram, agora de uma maneira boa, profundamente, você vai recolhendo e guardando, como se guarda um bom filme, dentro de um compartimento especial, para que possas abri-lo mais tarde, antes que seja tarde e, revê-lo cena por cena, trazendo odores, sons, pessoas, lugares, sol ou chuva, noite ou dia, brisa ou vento, mas acima de tudo a certeza da felicidade advinda desses acontecimentos. Quaisquer que sejam os meios usados para retratar tais momentos: Livros, músicas, fotos, pinturas, filmes, etc. eles ficam aquém, pois nada é mais fiel do que a sua memória. Esse foi um desses acontecimentos. Aconteceu um momento mágico. Momento nosso, só nosso. Vivenciamos, sentimos, quase palpável, porém invisível. Traduzir, detalhar, peço desculpas pela minha limitação. Uma coisa é certa: foi nossa prova de fogo. Passamos com louvor e saímos convencidos, principalmente pela reciprocidade, de que tínhamos talento para trilhar esse caminho.   

Festival terminado, nós já tínhamos passado no hotel, quitado a hospedagem e, agora estávamos na praça com as meninas e queríamos nos despedir com um jantar na churrascaria. A ideia era boa, mas...         

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Capítulo 19 – AQUECENDO A PLATEIA

Estávamos diante dos dois organizadores do festival. Eles foram muito simpáticos e agradáveis, pediram desculpas pelos acontecimentos, já sabiam do boicote a banda e, como prova, não podiam mudar o resultado, de perceber a grande injustiça que sofrêramos, nos convidaram para participar do show de encerramento. Ficamos tão abobalhados, que pedimos para repetir o final da frase. Era verdade, estávamos sendo convidados para participar do show de encerramento, que teria como estrela principal a cantora Eliana Pittman. Nós aqueceríamos a plateia e de quebra apareceríamos na TV Cataguases. Não eram apenas desculpas, era sobretudo o reconhecimento de que o trabalho apresentado, havia alcançado uma fatia preciosa do festival, os jovens. Nós éramos os únicos que falávamos na mesma linguagem que este público gostava, foi uma ideia boa para os dois lados e sem custo. Enquanto eles atendiam uma demanda, nós solidificaríamos a nossa imagem. Houve uma pequena discussão quanto ao repertório. Queríamos tocar só as nossas, mas, eles exigiam que fossem músicas conhecidas. Alegamos que para isso eles teriam que pagar direitos autorais. Sendo assim, chegamos num acordo que meio a meio estaria de bom tamanho. Então seriam três nossas e três a escolher. Optamos por Rita Lee e Mutantes, além das nossas.
Na verdade, não tínhamos material ensaiado para uma apresentação, claro as nossas nós sempre tocávamos lá na garagem do batera, mas as outras, como nós éramos uma banda autoral, nunca havíamos tocado junto, apesar de conhece-las. Fizemos uma pequena reunião para decidirmos quais as escolhidas. As músicas próprias, resolvemos rapidamente, já as outras tivemos que simplificar para não cometer nenhum erro, então escolhemos as mais fáceis e mais comercias. Decidido o repertório, agora era só relaxar e deixar o tempo passar até a hora do show. Falando assim, parece coisa de profissional do ramo, mas, o festival com as duas apresentações e, o show na praça, nos deram uma tremenda confiança, não confunda com arrogância. Nós saímos de uma garagem, onde estávamos já há bastante tempo ensaiando, secos para mostrar para alguém o som que produzíamos, surgiu essa grande oportunidade, com aparelhagem de primeira e grande plateia, encaramos o desafio com medo, é certo, mas, encaramos e, em dois dias ficamos muito conhecidos, não é para menos que a confiança passou a ser nossa companheira. Festejamos como nunca nessa noite. Tomamos quase todas, se não, todas, pois o batera ficou muito ruim, só notamos quando ele se levantou para ir ao banheiro. Havia um corredor entre as mesas com cadeiras e no final é que estava o banheiro. Era só se dirigir pelo corredor, ainda bem que no bar só estávamos nós, pois o que ocorreu foi que o batera até o banheiro conseguiu esbarrar em todas as mesas, derrubando tudo pelo caminho. Resolvemos encerrar e tratamos de acudir o bebum. Deu um trabalhão. No caminho de volta até o hotel, tivemos que revezar em segurar o sujeito, não posso dizer que estávamos bem, mas com certeza melhor que ele. Chegamos na pracinha aonde ficava o hotel e, alguém teve a ideia de antes de subirmos, ainda de dois em dois revezando, segurando o bebum, corrermos em volta da praça para evaporar o álcool. Sinceramente, não sei, não lembro, me recuso a lembrar, quem foi que teve essa brilhante ideia, além de não adiantar muito, quando subimos, sentimos uma fraqueza nas pernas e, como o cachaça ainda estava pra lá de Bagdá, a última tentativa de amenizar o prejú e, dentro das nossas possibilidades, foi leva-lo para o chuveiro; antes, passamos pelo quarto, tiramos toda a roupa e depois sim, levamos para aquele chuveiro que não esquentava a água. O cachaça tentava sair da água fria, mas nós o mantínhamos sob rédea curta, éramos quatro segurando-o para que melhorasse e pudesse dormir sem vomitar mais. Finalmente na cama, arrumamos coberta para aquecê-lo, claro após secá-lo, ainda esperamos um pouco para nos certificarmos de que realmente ele havia entrado em sono profundo, penso que não foi bem sono profundo, foi mais para apagão e só então cada um procurou a sua cama completamente extenuado.
A ressaca é um mal-estar físico, que com alguns cuidados ao longo do dia você vai contornando, todavia, a ressaca do mico, essa por mais que você tente, nada vai adiantar, o estrago já foi feito e para quem viu, você será lembrado pelo resto da vida. Toda a vez que se falar em bebedeira, a sua história fará parte da conversa e com detalhes que você nem poderá discutir alegando exagero, pois sua memória não permitirá.
O pobre do batera ainda teve que amargar o desprezo das meninas, que eram amigas e descobriram que as três estavam sendo usadas por ele.
Quanto ao guitarrista, engatou um romance passageiro com uma das meninas da organização do festival e nos abandonou a tarde inteira.

Bem, aquela brincadeira de encher a cara, junto com o trabalho com o bebum, nos deixou de molho até a noite para a apresentação, além de inflamar a minha garganta. O nosso amigo que estava na casa do tio, providenciou pastilhas para tentar amenizar, já que o tio dele possuía uma farmácia, mas foi um paliativo. Conforme a noite foi chegando e junto a queda de temperatura, o estado da garganta não dava sinais de melhora. Antes de entrarmos para a apresentação, passei num boteco e comprei um tanto de pinga, reservei-a numa garrafa de água mineral e partimos para o tudo ou nada, afinal não é todo o dia que se tem a oportunidade de usufruir de recursos sonoros de boa qualidade; de ter casa cheia; de aparecer na televisão; de realizar sonhos que até pouco tempo pareciam distantes. Aquela noite seria...