Capítulo 30 -
UNS DIAS CHOVE, NOUTROS DIAS BATE SOL
Ressaca!
Ressaca! Antes sesse, mas nunca deixara de for. Na fatídica noite anterior eu
não me animei a beber muito, apesar de ter os meus motivos para afogar as
minhas mágoas. A ressaca que eu sentia quando acordei, não era provocada por
excessos etílicos, mas por força das circunstâncias adversas. Eu era a própria
fera ferida. Me movia em câmera lenta. Monossilábico. Recebia o afago, o gesto de estímulo da minha
namorada, sentados na calçada em frente à casa. Além dela, havia um dos irmãos
e alguns amigos, desses, boa parte era formado dos que estiveram presentes na
noite anterior e os outros acabavam de saber. Tentávamos esquecer, mas vire e
mexe o assunto voltava à tona. Era uma tarde plácida. Jazíamos sob a sombra da
imensa mangueira, que do quintal se estendia até a calçada com seus galhos
longos e fartos de folhas verde e rosa. Iriamos tranquilamente passar a tarde
nessa merecida preguiça, se não fosse pela interrupção abrupta provocada por
aquele rapaz, que eu havia feito a tal música para ele participar do festival
do colégio. Chegou esbaforido, atropelando a fala. Não vinha sozinho, junto a
si acompanhava uma meia-dúzia de colegas. Depois de atender ao nosso pedido
para que se acalmasse, falou o que o afligia. O festival iria acontecer dali a
poucas horas e o seu amigo violeiro e cantor não conseguiu aprender a música.
Sim e daí? Daí, que ele queria saber se eu não podia ir ao colégio cantar a
música. Não era um pedido, era uma súplica. Mesmo assim eu respondi: “Nem me
pagando! ” Começou uma disputa entre o desesperado e o indiferente, entre o
esperançoso e o desiludido. Pior foi que, conforme ele apelava, mais gente o
apoiando ele conseguia e, eu acabei ficando só. Encostado no paredão, não tive
outra alternativa a não ser aceitar. Peguei o violão e partimos. Ah! Ia me
esquecendo, peguei a letra também, eu não conseguiria canta-la se não pudesse
lê-la.
Era um
colégio comum, nada especial. Arquitetura antiga, mas bem espaçoso. O evento
aconteceria na quadra de esporte, que ficava dentro do prédio no segundo
pavimento na parte de cima. Eu, de certa forma estava estranhando tudo, pois
não tinha o costume de me apresentar de dia. Começamos a subir a rampa e eu já
pude ouvir a barulheira que vinha da quadra. Nossa vida o tempo todo é pautada
por desafios. Ocasião ou grande obstáculo que deve ser ultrapassado. Uns você
mesmo se propõe e outros surgem assim do nada, sem avisar, cabe a você a
reação, mesmo não estando preparado, se ele veio é porque você dá conta, é só
encarar. Claro, você pode dizer: Pera aí nem tudo dá para encarar. É porque
talvez não seja um desafio. Essa pequena introdução, foi para explicar que
quando acabou a rampa eu me deparei com uma cena no mínimo aterrorizante. Havia
um canto da quadra, reservado para o evento. Como o espaço era retangular, o
canto ficava, conforme a entrada, ao lado direito no fundo, ocupando um pouco
mais para frente da arquibancada e, tendo as costas um paredão. Ali era a
proposta de um palco, ficava o som e o microfone. Tudo muito simples, no chão. Um
pouco mais para o lado esquerdo de quem fosse cantar, num ângulo bom para se
ouvir e ver os concorrentes, estavam o corpo de jurados, sentados com mesas
postas para escrever suas anotações. A arquibancada do fundo estava
praticamente lotada e, detalhe muito importante, havia, nem contei quantas, mas
uma porrada de vuvuzela, naquela época não tinha esse nome, mas não importa. A
garotada estava com a corda toda. O negócio era fazer barulho. Entrei, me
sentei na arquibancada lateral do lado oposto ao palco e as costas dos jurados,
segurando o violão virei-me para o rapaz que havia escrito o poema e depois
para os amigos e sentenciei: “Aonde é que eu fui amarrar o meu bode? ”
A primeira
música foi anunciada. Cada banda, cantor ou cantora, conjunto de samba, todos
vinham com muita vontade e muito barulho também. Usavam seus instrumentos como
se fosse uma guerra. Quem se apresentava, disputava com a plateia, qual som seria
reproduzido mais alto. As vuvuzelas não paravam em momento algum. Haja
disposição. Eu, olhava para o violão e pensava, nem eu vou me ouvir. O poeta
veio me avisar: “ A próxima é a nossa. ” Estavam se apresentando um grupo de
samba, eu não entendi um pedaço sequer de letra, o batuque me pareceu meio
desencontrado, mas como vinha som de dois lados, talvez fosse compreensivo.
Chegou a minha vez. Fui anunciado. Me levantei empunhando a viola, me dirigi ao
lugar onde estava a caixa de som, pluguei o instrumento e pedi ao rapaz que
controlava que pusesse no máximo. Assentei numa cadeira, ajeitei o microfone e
também pedi que pusesse no máximo. A menina para qual fora feito o poema veio e
deitou-se a minha frente segurando a folha de caderno ao qual se esparramava o
poema, para que eu pudesse lê-lo e assim canta-lo. Como eu expliquei no
capítulo 28 “MÚSICA DE ENCOMENDA”, o início eu declamava acompanhado de uma
melodia dedilhada no violão, como uma introdução e só depois é que eu cantava
todo o restante sem repetir nenhum pedaço, por ser ela muito extensa. Naquele
momento eu parecia um seresteiro que iria cantar o seu amor para sua amada na
sacada ou um trovador que cantava um poema. Respirei fundo, dedilhei o violão e
comecei a declamar. Pasmem! Silêncio. Acabei a introdução, passei a cantar e...
pasmem! Silêncio. Eu ouvia o violão, eu me ouvia, aliás só se ouvia a minha
voz. Pasmem! Silêncio. Tão compacto que dava para cortá-lo em fatias. Quando
notei o meu domínio, me empertiguei. Olhei de soslaio para os jurados e percebi
em seus semblantes plena aprovação. Entrei na segunda parte cantada me
encaminhando para o final e... pasmem! Silêncio. Eram todos ouvidos. Nenhum
pigarro, nenhuma tosse, nenhum espirro, nenhum barulho, só eu e o violão.
Quando passei o dedo pelas cordas do violão, decretando o final, a casa veio a
baixo. As vuvuzelas, os tambores, os gritos, tomaram conta por completo do
ambiente mostrando que a hipnose havia acabado.
Querem saber
quem ganhou o festival? Não precisa. Ah! Querem saber quem ganhou o prêmio de
melhor intérprete? Também não precisa. Agora, ter que responder ao diretor que
eu não era profissional, que era apenas irmão do aluno do colégio, isso foi uma
verdade e uma mentira, mas pela cara dele ficou mais para uma mentira e uma
verdade. É assim mesmo: “Uns dias chove, noutros dias bate sol”.
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