quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Capítulo 29 – SACA-MOLAS

Eu não sei porque, quer dizer, no fundo penso que sei, mas na verdade por que na época eu não atentei para o porquê e, ainda agora será que eu sei mesmo por quê? Na primeira vez que fui participar do festival de Caxias, nós levamos um tango irônico, que acabou me premiando como melhor intérprete. Então, como eu não tinha nenhuma música naquele momento, que fosse considerada adequada para participar de um festival, as vezes a gente delira, mete na cabeça certos conceitos, isso me incomodou tamanho, que eu me vi obrigado a compor algo novo. Foi daí que surgiu o tema, que seria a estória de um vampiro português passando por maus momentos, em virtude de suas presas doerem tanto, que além dele não consegui se alimentar, ainda precisava urgente de um dentista (saca-molas no português castiço) para resolver a questão e, teria pela frente a difícil missão de descobrir aonde encontra-lo e evidentemente sem o assustar. Como se já não bastasse a perseguição sofrida pela multidão e seus algozes, esse dentista teria que o atender à noite, pois durante o dia ele tentava dormir em seu ataúde, tentava, porque seus dentes não paravam de doer, tanto que o faziam desejar uma estaca no coração. Pega o vampiro! Pega! Pega! Gritava o povo sedento. Corre o vampiro, coitado, de dor nos dentes morrendo. Quando acabamos de compô-la, fiquei na dúvida em qual ritmo tocaria e cantaria. Bem, para a classificação acabou indo assim meio que no ritmo brega. De qualquer forma foi suficiente, pois classificou. Como tinha alguns dias antes da apresentação, aproveitei para mostrar aos amigos, que sempre eu encontrava para uma violada e, que certamente estariam no meio da plateia representando a minha pequena porcentagem de torcida, assim eles conheceriam e aprenderiam.
Eu já havia cantado bastante, portanto estava com a música na ponta da língua, quanto ao ritmo tinha melhorado um pouco o brega, o que me incomodava mais era ter que tocar e perder a possibilidade de usufruir de todo o palco para interpretação, entretanto, era a oportunidade de me descobrir com cantor e músico. Já fazia um tempinho que eu tentava melhorar a minha convivência com o violão. Há tempos era um flerte, agora um namoro, avançando, amadurecendo, um sentindo que precisava do outro, era inevitável, eu tomei a iniciativa, tínhamos que nos entender, a recepção fora recíproca, mas para se tornar sólida, era preciso atenção, dedicação, carinho, eu me esforçava em melhorar as minhas limitações, então abrimos um diálogo com uma proposta clara, eu precisava mais, portanto trataria de me colocar a inteira disposição.
Estava eu há uma semana do festival, quando fui surpreendido pela visita do guitarrista, há tempo que não nos víamos. Entre as novidades, mostrei-lhe a correspondência com o convite e, em seguida a música que levaria. Pensei imediatamente na possibilidade de reunir o grupo, mas para minha tristeza, ficaria apenas no sonho. Claro, depois que ouviu a melodia e viu os acordes, pegou o violão e decretou: Vou tocar para você cantar. De imediato começou a encorpar a música, desenhando um arranjo e depois de variar um cadinho, definiu que fosse tocada em ritmo de tango. De cara eu aleguei que havíamos tocado um no ano passado, mas ele me convenceu mostrando que desse modo a música ganhava um quê de diferente. Nesse final de semana ensaiamos bastante e, realmente, sem a preocupação de ter que tocar, era um peso a menos. Tudo pronto, agora era só esperar o sábado, para confiantes fazermos aquilo que tínhamos ensaiado. A semana não correu, voou. No dia, durante o trajeto dentro de uma Kombi, acertamos os últimos detalhes passando a música, principalmente a pedido dele para sentir que não havia esquecido de nada, enquanto tocávamos veio uma ideia de súbito. Como não estávamos com a banda, não tínhamos nos preocupados com um arranjo de solo de algum instrumento que pudesse preencher o meio da música para após finalizarmos cantando e assim encerrarmos a apresentação. Então, quando nós começamos o ensaio final na Kombi, para preencher esse vazio, eu resolvi improvisar um bebop – que me desculpem os gênios do Jazz, foi uma ousadia de minha parte, mas eu tinha que tirar algum coelho da cartola -  e nesse pedaço o ritmo saia momentaneamente do tango e enveredava pelo jazz por alguns minutos e retornava posteriormente a batida de origem para que eu cantasse até finalizar. Isso tudo aconteceu durante a viagem até Caxias. Esses momentos fazem parte do imponderável.
Assim que cheguei, me deparei com o Chicão, parecia preocupado, notei quando nos cumprimentamos, achei que fosse coisa natural de quem tem a responsabilidade de organizar um festival de música, por isso imediatamente qualquer raciocínio mais inquietante virou fumaça. Já no grande salão, avistei meus amigos no meio da plateia, enquanto me dirigia para o local onde ficava os participantes. Não demorou muito e as apresentações começaram. Até chegar a minha vez, havia percebido que o que fora apresentado não trouxera nada arrebatador. Quando você escuta uma música pela primeira vez, se ela tiver uma boa letra, já chama a atenção, se juntar uma boa melodia, aí aguça a atenção, contudo se for só letra boa e melodia fraca, não ruim, apenas digamos pequena, repetitiva, ainda assim ela pode ganhar fôlego, agora o contrário é lastimável, um desperdício. Subimos ao palco e desfiamos o nosso rosário, com os nossos amigos na plateia dando força no refrão. O guitarrista mostrou seu virtuosismo e eu caprichei na cantoria, dando o meu máximo na improvisação, que apesar do campo minado, deu para sair ileso. Depois, só nos restava o resultado e a confirmação da classificação. Não tinha como ficar de fora. Diante do apresentado nós já nos considerávamos dentro. É contar com o ovo no .... Para nossa surpresa, na lista de classificados não fazíamos parte. Como não? Algo estava fora do lugar. Não demorou muito para sabermos. Chicão tentara fazer da mesma maneira que o anterior, mas dessa vez teve pouquíssimo apoio e praticamente nada de recursos. A prefeitura só cedera o local e havia reduzido a verba para a premiação. Isso prejudicou imensamente na escolha dos jurados, sem verba para pelo menos pagar honorários aos profissionais ligados a música, tivera que improvisar a contragosto, usando de um recurso que sabia com antecedência que lhe traria dissabores, fora obrigado a convidar os professores de uma escola do município para ocuparem as cadeiras dos jurados. O que presenciamos no decorrer do festival foi que os jurados propugnavam descaradamente a favor dos seus discípulos. Todos os classificados eram alunos da escola. Ficamos ainda um bom tempo ouvindo as desculpas e vendo a revolta do nosso amigo Chicão, era uma grande decepção para ele. Fizemos tudo ao nosso alcance para amenizar e melhorar o astral dele, apesar de estarmos profundamente decepcionados, não com ele e, sim com acontecimentos. Voltamos para casa e dessa vez a cerveja desceu amarga. Bem, lembrei de um velho ditado popular português: “o que não tem remédio remediado está. ”


Naquela noite eu dormir muito chateado, triste, mas a vida é uma caixinha de surpresa e no dia seguinte...

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