Capítulo 29 –
SACA-MOLAS
Eu não sei
porque, quer dizer, no fundo penso que sei, mas na verdade por que na época eu
não atentei para o porquê e, ainda agora será que eu sei mesmo por quê? Na
primeira vez que fui participar do festival de Caxias, nós levamos um tango
irônico, que acabou me premiando como melhor intérprete. Então, como eu não
tinha nenhuma música naquele momento, que fosse considerada adequada para
participar de um festival, as vezes a gente delira, mete na cabeça certos
conceitos, isso me incomodou tamanho, que eu me vi obrigado a compor algo novo.
Foi daí que surgiu o tema, que seria a estória de um vampiro português passando
por maus momentos, em virtude de suas presas doerem tanto, que além dele não
consegui se alimentar, ainda precisava urgente de um dentista (saca-molas no
português castiço) para resolver a questão e, teria pela frente a difícil
missão de descobrir aonde encontra-lo e evidentemente sem o assustar. Como se
já não bastasse a perseguição sofrida pela multidão e seus algozes, esse
dentista teria que o atender à noite, pois durante o dia ele tentava dormir em
seu ataúde, tentava, porque seus dentes não paravam de doer, tanto que o faziam
desejar uma estaca no coração. Pega o vampiro! Pega! Pega! Gritava o povo
sedento. Corre o vampiro, coitado, de dor nos dentes morrendo. Quando acabamos
de compô-la, fiquei na dúvida em qual ritmo tocaria e cantaria. Bem, para a
classificação acabou indo assim meio que no ritmo brega. De qualquer forma foi
suficiente, pois classificou. Como tinha alguns dias antes da apresentação, aproveitei
para mostrar aos amigos, que sempre eu encontrava para uma violada e, que
certamente estariam no meio da plateia representando a minha pequena porcentagem
de torcida, assim eles conheceriam e aprenderiam.
Eu já havia
cantado bastante, portanto estava com a música na ponta da língua, quanto ao
ritmo tinha melhorado um pouco o brega, o que me incomodava mais era ter que
tocar e perder a possibilidade de usufruir de todo o palco para interpretação,
entretanto, era a oportunidade de me descobrir com cantor e músico. Já fazia um
tempinho que eu tentava melhorar a minha convivência com o violão. Há tempos
era um flerte, agora um namoro, avançando, amadurecendo, um sentindo que
precisava do outro, era inevitável, eu tomei a iniciativa, tínhamos que nos
entender, a recepção fora recíproca, mas para se tornar sólida, era preciso atenção,
dedicação, carinho, eu me esforçava em melhorar as minhas limitações, então
abrimos um diálogo com uma proposta clara, eu precisava mais, portanto trataria
de me colocar a inteira disposição.
Estava eu há
uma semana do festival, quando fui surpreendido pela visita do guitarrista, há
tempo que não nos víamos. Entre as novidades, mostrei-lhe a correspondência com
o convite e, em seguida a música que levaria. Pensei imediatamente na
possibilidade de reunir o grupo, mas para minha tristeza, ficaria apenas no
sonho. Claro, depois que ouviu a melodia e viu os acordes, pegou o violão e
decretou: Vou tocar para você cantar. De imediato começou a encorpar a música,
desenhando um arranjo e depois de variar um cadinho, definiu que fosse tocada
em ritmo de tango. De cara eu aleguei que havíamos tocado um no ano passado,
mas ele me convenceu mostrando que desse modo a música ganhava um quê de
diferente. Nesse final de semana ensaiamos bastante e, realmente, sem a
preocupação de ter que tocar, era um peso a menos. Tudo pronto, agora era só
esperar o sábado, para confiantes fazermos aquilo que tínhamos ensaiado. A
semana não correu, voou. No dia, durante o trajeto dentro de uma Kombi,
acertamos os últimos detalhes passando a música, principalmente a pedido dele
para sentir que não havia esquecido de nada, enquanto tocávamos veio uma ideia
de súbito. Como não estávamos com a banda, não tínhamos nos preocupados com um
arranjo de solo de algum instrumento que pudesse preencher o meio da música para
após finalizarmos cantando e assim encerrarmos a apresentação. Então, quando
nós começamos o ensaio final na Kombi, para preencher esse vazio, eu resolvi
improvisar um bebop – que me desculpem os gênios do Jazz, foi uma ousadia de
minha parte, mas eu tinha que tirar algum coelho da cartola - e nesse pedaço o ritmo saia momentaneamente do
tango e enveredava pelo jazz por alguns minutos e retornava posteriormente a
batida de origem para que eu cantasse até finalizar. Isso tudo aconteceu
durante a viagem até Caxias. Esses momentos fazem parte do imponderável.
Assim que
cheguei, me deparei com o Chicão, parecia preocupado, notei quando nos
cumprimentamos, achei que fosse coisa natural de quem tem a responsabilidade de
organizar um festival de música, por isso imediatamente qualquer raciocínio
mais inquietante virou fumaça. Já no grande salão, avistei meus amigos no meio
da plateia, enquanto me dirigia para o local onde ficava os participantes. Não
demorou muito e as apresentações começaram. Até chegar a minha vez, havia
percebido que o que fora apresentado não trouxera nada arrebatador. Quando você
escuta uma música pela primeira vez, se ela tiver uma boa letra, já chama a
atenção, se juntar uma boa melodia, aí aguça a atenção, contudo se for só letra
boa e melodia fraca, não ruim, apenas digamos pequena, repetitiva, ainda assim
ela pode ganhar fôlego, agora o contrário é lastimável, um desperdício. Subimos
ao palco e desfiamos o nosso rosário, com os nossos amigos na plateia dando
força no refrão. O guitarrista mostrou seu virtuosismo e eu caprichei na
cantoria, dando o meu máximo na improvisação, que apesar do campo minado, deu
para sair ileso. Depois, só nos restava o resultado e a confirmação da
classificação. Não tinha como ficar de fora. Diante do apresentado nós já nos
considerávamos dentro. É contar com o ovo no .... Para nossa surpresa, na lista
de classificados não fazíamos parte. Como não? Algo estava fora do lugar. Não demorou
muito para sabermos. Chicão tentara fazer da mesma maneira que o anterior, mas
dessa vez teve pouquíssimo apoio e praticamente nada de recursos. A prefeitura
só cedera o local e havia reduzido a verba para a premiação. Isso prejudicou
imensamente na escolha dos jurados, sem verba para pelo menos pagar honorários
aos profissionais ligados a música, tivera que improvisar a contragosto, usando
de um recurso que sabia com antecedência que lhe traria dissabores, fora
obrigado a convidar os professores de uma escola do município para ocuparem as
cadeiras dos jurados. O que presenciamos no decorrer do festival foi que os
jurados propugnavam descaradamente a favor dos seus discípulos. Todos os
classificados eram alunos da escola. Ficamos ainda um bom tempo ouvindo as
desculpas e vendo a revolta do nosso amigo Chicão, era uma grande decepção para
ele. Fizemos tudo ao nosso alcance para amenizar e melhorar o astral dele,
apesar de estarmos profundamente decepcionados, não com ele e, sim com
acontecimentos. Voltamos para casa e dessa vez a cerveja desceu amarga. Bem,
lembrei de um velho ditado popular português: “o que não tem remédio remediado
está. ”
Naquela noite
eu dormir muito chateado, triste, mas a vida é uma caixinha de surpresa e no
dia seguinte...
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