Capítulo 28 –
MÚSICA DE ENCOMENDA
Durante o
final da semana em que tínhamos gravado, ficamos com os amigos curtindo e
claro, ainda sob o efeito do deslumbramento que sentíamos. O interessante na
altura dos acontecimentos, é que apesar te termos feito a demo com finalidade
de abrir alguma porta no mercado fonográfico, nós não ficamos nem um pouco
ansiosos ou aflitos. A nossa vida continuava da mesma maneira, as nossas
cabeças continuavam e funcionavam do mesmo modo. A fita ficou com o produtor. Ele
mesmo se prontificou, o que já fora premeditado, de conseguir primeiramente na
própria gravadora em que pertencia o Sullivan e me parece com uma pequena
anuência do próprio. Depois ficamos sabendo, que a fita não chegou nem a ser
apresentada, o Sullivan se desentendeu com a gravadora e, portanto, o que para
nós seria comumente chamado de padrinho, nem chegou a acontecer. Mesmo se
transferindo contratado por uma outra casa, nosso produtor perdeu a sua grande
chance, pois agora o terreno era novo e ele teria que esperar até se
familiarizar. De imediato ficamos assim, mas com o passar do tempo, outras
oportunidades surgiram sem trazer nenhuma boa notícia. Quando vi, o tempo é
inclemente, já havia passado quase um ano e nós não evoluímos nada, pelo
contrário, cada vez mais ficávamos mais distante, agora o baixista é que se
distanciava, só persistiam eu e o guitarrista, assim mesmo porque ele
frequentava a casa da minha namorada, se juntando aos agregados como eu já
citei no capítulo passado.
Vamos fazer
um trato: daqui para frente sempre que eu falar casa, apesar de ser a casa da
namorada, passou a ser minha, pois era ali que tudo acontecia, OK? – Certo dia,
estava eu em casa, quando fui surpreendido pela visita de um adolescente do
bairro, eu já o conhecia, devido as minhas andanças pelos bares do bairro
tocando violão e também por ele ser amigo de um dos irmãos mais novo da casa. A
surpresa não foi pela visita em si, mas pela aproximação e o pedido: Ele veio
me pedir, se eu podia musicar uma poesia sua, para que ele participasse do
festival do colégio. Chega a ser engraçado, mas não é pela graça, é pela
inocência que o ato traduz. Ele, penso eu, assim como outras pessoas, tinha na
cabeça que fazer uma música seria como andar de bicicleta, fácil, simples, de
bate pronto, uma vez feito uma música, era só pegar o violão e fazer mais toda
as vezes que eu quisesse, bastava para isso só começar a pedalar ou melhor
dedilhar. Bem, apesar de saber disso tudo, não externei meu pensamento. Recebi
a poesia, notei que era um tanto longa, me pus a ler e quando terminei,
perguntei: “para quando você precisa e quem é que vai cantar? ” - Já procurando
me prevenir, caso houvesse alguma intenção. “Eu tenho trinta dias para fazer a
inscrição, quanto a cantar, eu tenho um amigo que toca e ele já disse que
aprende para ir cantar. ” Eu não lhe dei nenhuma esperança, mesmo porque,
rapidamente resumi que fazer uma música em cima de uma letra pronta e feita por
outra pessoa não era simples, mas, eu tentaria e, assim, caso acontecesse, daria
um jeito de avisá-lo. Fiquei com a folha solta de um caderno na mão. Repousando
entre suas linhas, palavras que traduziam um sentimento de profunda paixão.
Apesar de seu tema ser amor, em momento algum era piegas, pelo contrário, havia
talento na escrita. A forma como ele expunha seu amor impossível, inacessível,
tinha contornos das poesias expurgadas. Me vi na obrigação de corresponder à
altura. Agora não se tratava de colocar apenas uma música qualquer, tratava-se
de construir uma que traduzisse não só a letra, mas o que havia por trás, o que
ela representava. A música tinha a obrigação de ser a voz do poeta. Compreendida
essa parte, a outra, seria trabalhar em cima desse sentimento, procurando
senti-lo, aguçando o sentido, permitindo, entre erros e acertos e apesar da
longa escrita, que o resultado chegasse.
Até então, eu
nunca havia realizado uma tarefa igual. Compor música sim, mas fazê-la sob
encomenda não. Como eu já citei o poema era longo, talvez vocês não façam ideia
do quanto longo, mas talvez vocês entendam depois que descrever como eu apanhei,
sofri, para musicá-lo. Na maioria das vezes, as músicas possuem um refrão, de
cara eu vi que ali não ia rolar. Também, levemos em consideração que esse
artifício é muito usado para aumentar a duração ou mesmo para fixar a música,
tornando-a mais conhecida pelo seu refrão repetitivo e chiclete. Não era o
caso. Outra observação, é a introdução. Podem ser curtas, longas, nem uma coisa
nem outra, vai do gosto ou as vezes da própria necessidade da música. Agora,
fazer do único jeito que eu arranjei para não cortar nem uma vírgula, aí, penso
que posso afirmar não ter escutado até hoje, mas posso estar errado ou ao menos
considerar desconhecer. Depois de muitas idas e voltas, tentativas frustradas,
quase desistência, eu consegui encaixar. O resultado foi um parto de trigêmeos.
A abertura com o fundo musicado eu declamava o início do poema, em seguida
cantava a metade do que restava em uma melodia e, sem afetar ou causar grandes
danos auditivos, eu enveredava até o final por uma outra melodia, mas que
harmonizava perfeitamente com a primeira e, assim finalizava a minha jornada
musical. Ufa! Gravei na fita cassete que ele havia deixado, já que ele iria
levar para o seu amigo músico aprender, pedi que alguém o avisasse e, quando
apareceu entreguei-lhe a encomenda desejando-lhe boa sorte. Nem comentei o
trabalho que deu. Ele foi embora todo satisfeito e emocionado. De lembrança me
deixou a folha solta do caderno com o poema e, eu, como tinha gostado do
resultado, mostrei para os amigos a canção.
Na mesma
semana que acabara de compor a canção do rapaz, chegava em casa, uma
correspondência vinda de Duque de Caxias enviada pelo Chico Chicão. Nela havia
um convite para participar de mais um festival de música do município. Nela,
explicava também porque realizavam em menos de um ano de intervalo e que
ficariam muito honrados com a nossa presença. Da participação no ano anterior
para esse, muita coisa havia acontecido. Eu praticamente me encontrava só, já,
que o guitarrista nos víamos, mas, não com tanta constância. Quanto ao
baixista, não tinha mais contato, então, diante desse quadro revirei o meu baú
de composições e verifiquei que o que havia não empolgava, aí pensei, preciso
de algo novo. Eu, acabara de compor uma
de encomenda, agora tinha que buscar inspiração não só para melodia, mas também
combinar com uma letra. As primeiras tentativas foram desanimadoras. Os dias
iam passando e toda investida não rendia frutos. Eu já contei aqui, que uma vez
veio, sabe-se lá de onde, uma música inteira com letra e tudo na minha cabeça
e, que, eu corri desesperado para casa a fim de passa-la no violão para não
esquecer, lembram-se? Foi no capítulo 11 – DEL VECCHIO. Pois bem, estava eu no
ponto do ônibus, esperando ele chegar para que me levasse para casa, quando
senti do nada uma leve brisa trazendo uma melodia e como companheira um tema,
não titubeei, abrir a mochila, vasculhei atrás de uma folha de papel e caneta
para começar a escrever. Meu Deus me ajuda! O ônibus chegou, era um desses que
a gente compra a passagem antes na cabine e, depois espera ele chegar para então
entrar. A fila andava, eu escrevia e cantarolava. Entrei, sentei e, como não
parava de vir frases, continuei escrevendo a cantarolando. Não reparei nem
aonde sentei e nem quem sentou ao meu lado. Eu estava num mundo paralelo. Se
você já leu, ouviu ou viu (filme) sobre esse assunto, sabe do que eu estou
falando. Não estou afirmando nada, só parafraseando. Quase passo do ponto de
saltar do ônibus, a sorte foi que eu só estava fazendo algumas correções; a
letra estava praticamente pronta. Ao chegar em casa, ainda contei com a ajuda
do irmão da minha namorada, para finalizar e mudar algumas frases, o que a
deixou mais arrumada. Toquei várias vezes cantando, confirmando de que estava
realmente pronta e assim também eu decorava definitivamente a letra. Agora era
gravar na fita e mandar para o festival, esperando que ela cumprisse o seu
papel, o de primeiro classificar, confirmando a participação, depois eram
outros quinhentos.
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