quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Capítulo 28 –  MÚSICA DE ENCOMENDA

Durante o final da semana em que tínhamos gravado, ficamos com os amigos curtindo e claro, ainda sob o efeito do deslumbramento que sentíamos. O interessante na altura dos acontecimentos, é que apesar te termos feito a demo com finalidade de abrir alguma porta no mercado fonográfico, nós não ficamos nem um pouco ansiosos ou aflitos. A nossa vida continuava da mesma maneira, as nossas cabeças continuavam e funcionavam do mesmo modo. A fita ficou com o produtor. Ele mesmo se prontificou, o que já fora premeditado, de conseguir primeiramente na própria gravadora em que pertencia o Sullivan e me parece com uma pequena anuência do próprio. Depois ficamos sabendo, que a fita não chegou nem a ser apresentada, o Sullivan se desentendeu com a gravadora e, portanto, o que para nós seria comumente chamado de padrinho, nem chegou a acontecer. Mesmo se transferindo contratado por uma outra casa, nosso produtor perdeu a sua grande chance, pois agora o terreno era novo e ele teria que esperar até se familiarizar. De imediato ficamos assim, mas com o passar do tempo, outras oportunidades surgiram sem trazer nenhuma boa notícia. Quando vi, o tempo é inclemente, já havia passado quase um ano e nós não evoluímos nada, pelo contrário, cada vez mais ficávamos mais distante, agora o baixista é que se distanciava, só persistiam eu e o guitarrista, assim mesmo porque ele frequentava a casa da minha namorada, se juntando aos agregados como eu já citei no capítulo passado.
Vamos fazer um trato: daqui para frente sempre que eu falar casa, apesar de ser a casa da namorada, passou a ser minha, pois era ali que tudo acontecia, OK? – Certo dia, estava eu em casa, quando fui surpreendido pela visita de um adolescente do bairro, eu já o conhecia, devido as minhas andanças pelos bares do bairro tocando violão e também por ele ser amigo de um dos irmãos mais novo da casa. A surpresa não foi pela visita em si, mas pela aproximação e o pedido: Ele veio me pedir, se eu podia musicar uma poesia sua, para que ele participasse do festival do colégio. Chega a ser engraçado, mas não é pela graça, é pela inocência que o ato traduz. Ele, penso eu, assim como outras pessoas, tinha na cabeça que fazer uma música seria como andar de bicicleta, fácil, simples, de bate pronto, uma vez feito uma música, era só pegar o violão e fazer mais toda as vezes que eu quisesse, bastava para isso só começar a pedalar ou melhor dedilhar. Bem, apesar de saber disso tudo, não externei meu pensamento. Recebi a poesia, notei que era um tanto longa, me pus a ler e quando terminei, perguntei: “para quando você precisa e quem é que vai cantar? ” - Já procurando me prevenir, caso houvesse alguma intenção. “Eu tenho trinta dias para fazer a inscrição, quanto a cantar, eu tenho um amigo que toca e ele já disse que aprende para ir cantar. ” Eu não lhe dei nenhuma esperança, mesmo porque, rapidamente resumi que fazer uma música em cima de uma letra pronta e feita por outra pessoa não era simples, mas, eu tentaria e, assim, caso acontecesse, daria um jeito de avisá-lo. Fiquei com a folha solta de um caderno na mão. Repousando entre suas linhas, palavras que traduziam um sentimento de profunda paixão. Apesar de seu tema ser amor, em momento algum era piegas, pelo contrário, havia talento na escrita. A forma como ele expunha seu amor impossível, inacessível, tinha contornos das poesias expurgadas. Me vi na obrigação de corresponder à altura. Agora não se tratava de colocar apenas uma música qualquer, tratava-se de construir uma que traduzisse não só a letra, mas o que havia por trás, o que ela representava. A música tinha a obrigação de ser a voz do poeta. Compreendida essa parte, a outra, seria trabalhar em cima desse sentimento, procurando senti-lo, aguçando o sentido, permitindo, entre erros e acertos e apesar da longa escrita, que o resultado chegasse.
Até então, eu nunca havia realizado uma tarefa igual. Compor música sim, mas fazê-la sob encomenda não. Como eu já citei o poema era longo, talvez vocês não façam ideia do quanto longo, mas talvez vocês entendam depois que descrever como eu apanhei, sofri, para musicá-lo. Na maioria das vezes, as músicas possuem um refrão, de cara eu vi que ali não ia rolar. Também, levemos em consideração que esse artifício é muito usado para aumentar a duração ou mesmo para fixar a música, tornando-a mais conhecida pelo seu refrão repetitivo e chiclete. Não era o caso. Outra observação, é a introdução. Podem ser curtas, longas, nem uma coisa nem outra, vai do gosto ou as vezes da própria necessidade da música. Agora, fazer do único jeito que eu arranjei para não cortar nem uma vírgula, aí, penso que posso afirmar não ter escutado até hoje, mas posso estar errado ou ao menos considerar desconhecer. Depois de muitas idas e voltas, tentativas frustradas, quase desistência, eu consegui encaixar. O resultado foi um parto de trigêmeos. A abertura com o fundo musicado eu declamava o início do poema, em seguida cantava a metade do que restava em uma melodia e, sem afetar ou causar grandes danos auditivos, eu enveredava até o final por uma outra melodia, mas que harmonizava perfeitamente com a primeira e, assim finalizava a minha jornada musical. Ufa! Gravei na fita cassete que ele havia deixado, já que ele iria levar para o seu amigo músico aprender, pedi que alguém o avisasse e, quando apareceu entreguei-lhe a encomenda desejando-lhe boa sorte. Nem comentei o trabalho que deu. Ele foi embora todo satisfeito e emocionado. De lembrança me deixou a folha solta do caderno com o poema e, eu, como tinha gostado do resultado, mostrei para os amigos a canção.    

Na mesma semana que acabara de compor a canção do rapaz, chegava em casa, uma correspondência vinda de Duque de Caxias enviada pelo Chico Chicão. Nela havia um convite para participar de mais um festival de música do município. Nela, explicava também porque realizavam em menos de um ano de intervalo e que ficariam muito honrados com a nossa presença. Da participação no ano anterior para esse, muita coisa havia acontecido. Eu praticamente me encontrava só, já, que o guitarrista nos víamos, mas, não com tanta constância. Quanto ao baixista, não tinha mais contato, então, diante desse quadro revirei o meu baú de composições e verifiquei que o que havia não empolgava, aí pensei, preciso de algo novo.  Eu, acabara de compor uma de encomenda, agora tinha que buscar inspiração não só para melodia, mas também combinar com uma letra. As primeiras tentativas foram desanimadoras. Os dias iam passando e toda investida não rendia frutos. Eu já contei aqui, que uma vez veio, sabe-se lá de onde, uma música inteira com letra e tudo na minha cabeça e, que, eu corri desesperado para casa a fim de passa-la no violão para não esquecer, lembram-se? Foi no capítulo 11 – DEL VECCHIO. Pois bem, estava eu no ponto do ônibus, esperando ele chegar para que me levasse para casa, quando senti do nada uma leve brisa trazendo uma melodia e como companheira um tema, não titubeei, abrir a mochila, vasculhei atrás de uma folha de papel e caneta para começar a escrever. Meu Deus me ajuda! O ônibus chegou, era um desses que a gente compra a passagem antes na cabine e, depois espera ele chegar para então entrar. A fila andava, eu escrevia e cantarolava. Entrei, sentei e, como não parava de vir frases, continuei escrevendo a cantarolando. Não reparei nem aonde sentei e nem quem sentou ao meu lado. Eu estava num mundo paralelo. Se você já leu, ouviu ou viu (filme) sobre esse assunto, sabe do que eu estou falando. Não estou afirmando nada, só parafraseando. Quase passo do ponto de saltar do ônibus, a sorte foi que eu só estava fazendo algumas correções; a letra estava praticamente pronta. Ao chegar em casa, ainda contei com a ajuda do irmão da minha namorada, para finalizar e mudar algumas frases, o que a deixou mais arrumada. Toquei várias vezes cantando, confirmando de que estava realmente pronta e assim também eu decorava definitivamente a letra. Agora era gravar na fita e mandar para o festival, esperando que ela cumprisse o seu papel, o de primeiro classificar, confirmando a participação, depois eram outros quinhentos. 

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