quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Capítulo 29 – SACA-MOLAS

Eu não sei porque, quer dizer, no fundo penso que sei, mas na verdade por que na época eu não atentei para o porquê e, ainda agora será que eu sei mesmo por quê? Na primeira vez que fui participar do festival de Caxias, nós levamos um tango irônico, que acabou me premiando como melhor intérprete. Então, como eu não tinha nenhuma música naquele momento, que fosse considerada adequada para participar de um festival, as vezes a gente delira, mete na cabeça certos conceitos, isso me incomodou tamanho, que eu me vi obrigado a compor algo novo. Foi daí que surgiu o tema, que seria a estória de um vampiro português passando por maus momentos, em virtude de suas presas doerem tanto, que além dele não consegui se alimentar, ainda precisava urgente de um dentista (saca-molas no português castiço) para resolver a questão e, teria pela frente a difícil missão de descobrir aonde encontra-lo e evidentemente sem o assustar. Como se já não bastasse a perseguição sofrida pela multidão e seus algozes, esse dentista teria que o atender à noite, pois durante o dia ele tentava dormir em seu ataúde, tentava, porque seus dentes não paravam de doer, tanto que o faziam desejar uma estaca no coração. Pega o vampiro! Pega! Pega! Gritava o povo sedento. Corre o vampiro, coitado, de dor nos dentes morrendo. Quando acabamos de compô-la, fiquei na dúvida em qual ritmo tocaria e cantaria. Bem, para a classificação acabou indo assim meio que no ritmo brega. De qualquer forma foi suficiente, pois classificou. Como tinha alguns dias antes da apresentação, aproveitei para mostrar aos amigos, que sempre eu encontrava para uma violada e, que certamente estariam no meio da plateia representando a minha pequena porcentagem de torcida, assim eles conheceriam e aprenderiam.
Eu já havia cantado bastante, portanto estava com a música na ponta da língua, quanto ao ritmo tinha melhorado um pouco o brega, o que me incomodava mais era ter que tocar e perder a possibilidade de usufruir de todo o palco para interpretação, entretanto, era a oportunidade de me descobrir com cantor e músico. Já fazia um tempinho que eu tentava melhorar a minha convivência com o violão. Há tempos era um flerte, agora um namoro, avançando, amadurecendo, um sentindo que precisava do outro, era inevitável, eu tomei a iniciativa, tínhamos que nos entender, a recepção fora recíproca, mas para se tornar sólida, era preciso atenção, dedicação, carinho, eu me esforçava em melhorar as minhas limitações, então abrimos um diálogo com uma proposta clara, eu precisava mais, portanto trataria de me colocar a inteira disposição.
Estava eu há uma semana do festival, quando fui surpreendido pela visita do guitarrista, há tempo que não nos víamos. Entre as novidades, mostrei-lhe a correspondência com o convite e, em seguida a música que levaria. Pensei imediatamente na possibilidade de reunir o grupo, mas para minha tristeza, ficaria apenas no sonho. Claro, depois que ouviu a melodia e viu os acordes, pegou o violão e decretou: Vou tocar para você cantar. De imediato começou a encorpar a música, desenhando um arranjo e depois de variar um cadinho, definiu que fosse tocada em ritmo de tango. De cara eu aleguei que havíamos tocado um no ano passado, mas ele me convenceu mostrando que desse modo a música ganhava um quê de diferente. Nesse final de semana ensaiamos bastante e, realmente, sem a preocupação de ter que tocar, era um peso a menos. Tudo pronto, agora era só esperar o sábado, para confiantes fazermos aquilo que tínhamos ensaiado. A semana não correu, voou. No dia, durante o trajeto dentro de uma Kombi, acertamos os últimos detalhes passando a música, principalmente a pedido dele para sentir que não havia esquecido de nada, enquanto tocávamos veio uma ideia de súbito. Como não estávamos com a banda, não tínhamos nos preocupados com um arranjo de solo de algum instrumento que pudesse preencher o meio da música para após finalizarmos cantando e assim encerrarmos a apresentação. Então, quando nós começamos o ensaio final na Kombi, para preencher esse vazio, eu resolvi improvisar um bebop – que me desculpem os gênios do Jazz, foi uma ousadia de minha parte, mas eu tinha que tirar algum coelho da cartola -  e nesse pedaço o ritmo saia momentaneamente do tango e enveredava pelo jazz por alguns minutos e retornava posteriormente a batida de origem para que eu cantasse até finalizar. Isso tudo aconteceu durante a viagem até Caxias. Esses momentos fazem parte do imponderável.
Assim que cheguei, me deparei com o Chicão, parecia preocupado, notei quando nos cumprimentamos, achei que fosse coisa natural de quem tem a responsabilidade de organizar um festival de música, por isso imediatamente qualquer raciocínio mais inquietante virou fumaça. Já no grande salão, avistei meus amigos no meio da plateia, enquanto me dirigia para o local onde ficava os participantes. Não demorou muito e as apresentações começaram. Até chegar a minha vez, havia percebido que o que fora apresentado não trouxera nada arrebatador. Quando você escuta uma música pela primeira vez, se ela tiver uma boa letra, já chama a atenção, se juntar uma boa melodia, aí aguça a atenção, contudo se for só letra boa e melodia fraca, não ruim, apenas digamos pequena, repetitiva, ainda assim ela pode ganhar fôlego, agora o contrário é lastimável, um desperdício. Subimos ao palco e desfiamos o nosso rosário, com os nossos amigos na plateia dando força no refrão. O guitarrista mostrou seu virtuosismo e eu caprichei na cantoria, dando o meu máximo na improvisação, que apesar do campo minado, deu para sair ileso. Depois, só nos restava o resultado e a confirmação da classificação. Não tinha como ficar de fora. Diante do apresentado nós já nos considerávamos dentro. É contar com o ovo no .... Para nossa surpresa, na lista de classificados não fazíamos parte. Como não? Algo estava fora do lugar. Não demorou muito para sabermos. Chicão tentara fazer da mesma maneira que o anterior, mas dessa vez teve pouquíssimo apoio e praticamente nada de recursos. A prefeitura só cedera o local e havia reduzido a verba para a premiação. Isso prejudicou imensamente na escolha dos jurados, sem verba para pelo menos pagar honorários aos profissionais ligados a música, tivera que improvisar a contragosto, usando de um recurso que sabia com antecedência que lhe traria dissabores, fora obrigado a convidar os professores de uma escola do município para ocuparem as cadeiras dos jurados. O que presenciamos no decorrer do festival foi que os jurados propugnavam descaradamente a favor dos seus discípulos. Todos os classificados eram alunos da escola. Ficamos ainda um bom tempo ouvindo as desculpas e vendo a revolta do nosso amigo Chicão, era uma grande decepção para ele. Fizemos tudo ao nosso alcance para amenizar e melhorar o astral dele, apesar de estarmos profundamente decepcionados, não com ele e, sim com acontecimentos. Voltamos para casa e dessa vez a cerveja desceu amarga. Bem, lembrei de um velho ditado popular português: “o que não tem remédio remediado está. ”


Naquela noite eu dormir muito chateado, triste, mas a vida é uma caixinha de surpresa e no dia seguinte...

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Capítulo 28 –  MÚSICA DE ENCOMENDA

Durante o final da semana em que tínhamos gravado, ficamos com os amigos curtindo e claro, ainda sob o efeito do deslumbramento que sentíamos. O interessante na altura dos acontecimentos, é que apesar te termos feito a demo com finalidade de abrir alguma porta no mercado fonográfico, nós não ficamos nem um pouco ansiosos ou aflitos. A nossa vida continuava da mesma maneira, as nossas cabeças continuavam e funcionavam do mesmo modo. A fita ficou com o produtor. Ele mesmo se prontificou, o que já fora premeditado, de conseguir primeiramente na própria gravadora em que pertencia o Sullivan e me parece com uma pequena anuência do próprio. Depois ficamos sabendo, que a fita não chegou nem a ser apresentada, o Sullivan se desentendeu com a gravadora e, portanto, o que para nós seria comumente chamado de padrinho, nem chegou a acontecer. Mesmo se transferindo contratado por uma outra casa, nosso produtor perdeu a sua grande chance, pois agora o terreno era novo e ele teria que esperar até se familiarizar. De imediato ficamos assim, mas com o passar do tempo, outras oportunidades surgiram sem trazer nenhuma boa notícia. Quando vi, o tempo é inclemente, já havia passado quase um ano e nós não evoluímos nada, pelo contrário, cada vez mais ficávamos mais distante, agora o baixista é que se distanciava, só persistiam eu e o guitarrista, assim mesmo porque ele frequentava a casa da minha namorada, se juntando aos agregados como eu já citei no capítulo passado.
Vamos fazer um trato: daqui para frente sempre que eu falar casa, apesar de ser a casa da namorada, passou a ser minha, pois era ali que tudo acontecia, OK? – Certo dia, estava eu em casa, quando fui surpreendido pela visita de um adolescente do bairro, eu já o conhecia, devido as minhas andanças pelos bares do bairro tocando violão e também por ele ser amigo de um dos irmãos mais novo da casa. A surpresa não foi pela visita em si, mas pela aproximação e o pedido: Ele veio me pedir, se eu podia musicar uma poesia sua, para que ele participasse do festival do colégio. Chega a ser engraçado, mas não é pela graça, é pela inocência que o ato traduz. Ele, penso eu, assim como outras pessoas, tinha na cabeça que fazer uma música seria como andar de bicicleta, fácil, simples, de bate pronto, uma vez feito uma música, era só pegar o violão e fazer mais toda as vezes que eu quisesse, bastava para isso só começar a pedalar ou melhor dedilhar. Bem, apesar de saber disso tudo, não externei meu pensamento. Recebi a poesia, notei que era um tanto longa, me pus a ler e quando terminei, perguntei: “para quando você precisa e quem é que vai cantar? ” - Já procurando me prevenir, caso houvesse alguma intenção. “Eu tenho trinta dias para fazer a inscrição, quanto a cantar, eu tenho um amigo que toca e ele já disse que aprende para ir cantar. ” Eu não lhe dei nenhuma esperança, mesmo porque, rapidamente resumi que fazer uma música em cima de uma letra pronta e feita por outra pessoa não era simples, mas, eu tentaria e, assim, caso acontecesse, daria um jeito de avisá-lo. Fiquei com a folha solta de um caderno na mão. Repousando entre suas linhas, palavras que traduziam um sentimento de profunda paixão. Apesar de seu tema ser amor, em momento algum era piegas, pelo contrário, havia talento na escrita. A forma como ele expunha seu amor impossível, inacessível, tinha contornos das poesias expurgadas. Me vi na obrigação de corresponder à altura. Agora não se tratava de colocar apenas uma música qualquer, tratava-se de construir uma que traduzisse não só a letra, mas o que havia por trás, o que ela representava. A música tinha a obrigação de ser a voz do poeta. Compreendida essa parte, a outra, seria trabalhar em cima desse sentimento, procurando senti-lo, aguçando o sentido, permitindo, entre erros e acertos e apesar da longa escrita, que o resultado chegasse.
Até então, eu nunca havia realizado uma tarefa igual. Compor música sim, mas fazê-la sob encomenda não. Como eu já citei o poema era longo, talvez vocês não façam ideia do quanto longo, mas talvez vocês entendam depois que descrever como eu apanhei, sofri, para musicá-lo. Na maioria das vezes, as músicas possuem um refrão, de cara eu vi que ali não ia rolar. Também, levemos em consideração que esse artifício é muito usado para aumentar a duração ou mesmo para fixar a música, tornando-a mais conhecida pelo seu refrão repetitivo e chiclete. Não era o caso. Outra observação, é a introdução. Podem ser curtas, longas, nem uma coisa nem outra, vai do gosto ou as vezes da própria necessidade da música. Agora, fazer do único jeito que eu arranjei para não cortar nem uma vírgula, aí, penso que posso afirmar não ter escutado até hoje, mas posso estar errado ou ao menos considerar desconhecer. Depois de muitas idas e voltas, tentativas frustradas, quase desistência, eu consegui encaixar. O resultado foi um parto de trigêmeos. A abertura com o fundo musicado eu declamava o início do poema, em seguida cantava a metade do que restava em uma melodia e, sem afetar ou causar grandes danos auditivos, eu enveredava até o final por uma outra melodia, mas que harmonizava perfeitamente com a primeira e, assim finalizava a minha jornada musical. Ufa! Gravei na fita cassete que ele havia deixado, já que ele iria levar para o seu amigo músico aprender, pedi que alguém o avisasse e, quando apareceu entreguei-lhe a encomenda desejando-lhe boa sorte. Nem comentei o trabalho que deu. Ele foi embora todo satisfeito e emocionado. De lembrança me deixou a folha solta do caderno com o poema e, eu, como tinha gostado do resultado, mostrei para os amigos a canção.    

Na mesma semana que acabara de compor a canção do rapaz, chegava em casa, uma correspondência vinda de Duque de Caxias enviada pelo Chico Chicão. Nela havia um convite para participar de mais um festival de música do município. Nela, explicava também porque realizavam em menos de um ano de intervalo e que ficariam muito honrados com a nossa presença. Da participação no ano anterior para esse, muita coisa havia acontecido. Eu praticamente me encontrava só, já, que o guitarrista nos víamos, mas, não com tanta constância. Quanto ao baixista, não tinha mais contato, então, diante desse quadro revirei o meu baú de composições e verifiquei que o que havia não empolgava, aí pensei, preciso de algo novo.  Eu, acabara de compor uma de encomenda, agora tinha que buscar inspiração não só para melodia, mas também combinar com uma letra. As primeiras tentativas foram desanimadoras. Os dias iam passando e toda investida não rendia frutos. Eu já contei aqui, que uma vez veio, sabe-se lá de onde, uma música inteira com letra e tudo na minha cabeça e, que, eu corri desesperado para casa a fim de passa-la no violão para não esquecer, lembram-se? Foi no capítulo 11 – DEL VECCHIO. Pois bem, estava eu no ponto do ônibus, esperando ele chegar para que me levasse para casa, quando senti do nada uma leve brisa trazendo uma melodia e como companheira um tema, não titubeei, abrir a mochila, vasculhei atrás de uma folha de papel e caneta para começar a escrever. Meu Deus me ajuda! O ônibus chegou, era um desses que a gente compra a passagem antes na cabine e, depois espera ele chegar para então entrar. A fila andava, eu escrevia e cantarolava. Entrei, sentei e, como não parava de vir frases, continuei escrevendo a cantarolando. Não reparei nem aonde sentei e nem quem sentou ao meu lado. Eu estava num mundo paralelo. Se você já leu, ouviu ou viu (filme) sobre esse assunto, sabe do que eu estou falando. Não estou afirmando nada, só parafraseando. Quase passo do ponto de saltar do ônibus, a sorte foi que eu só estava fazendo algumas correções; a letra estava praticamente pronta. Ao chegar em casa, ainda contei com a ajuda do irmão da minha namorada, para finalizar e mudar algumas frases, o que a deixou mais arrumada. Toquei várias vezes cantando, confirmando de que estava realmente pronta e assim também eu decorava definitivamente a letra. Agora era gravar na fita e mandar para o festival, esperando que ela cumprisse o seu papel, o de primeiro classificar, confirmando a participação, depois eram outros quinhentos. 

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

DIA ALÉM

RURAL NA ESTAÇÃO

Capítulo 27 – COMO GRAVAR CINCO MÚSICAS NUMA NOITE

Saboreie por algum tempo o dia do festival. Também, os amigos que foram ao festival não me deixavam esquecer. A vida seguiu e eu, como não era um músico ou cantor profissional, segui minha rotina. A semana se arrastava e, algumas poucas vezes passava mais rápida. Trabalhar só para ganhar dinheiro é angustiante, não tenho a menor dúvida. A verdade é que você já começa a segunda pensando na sexta à noite. No meu caso, agora com namorada e, morando longe dela, na sexta à noite ou no sábado depois do almoço, poucas vezes, eu chegava e ficava até domingo à noite. O meu final de semana, com a permissão dos pais dela, passou a ser em sua casa. Ela com cinco irmãos, três mais novos e dois mais velhos que ela, traduzia literalmente a frase da propaganda: “sempre cabe mais um”. E aqui tenho que ressaltar: quando cheguei já haviam uns agregados, que acampavam todo final de semana na humilde e pequena moradia, não obstante, grande no acolhimento. Tanto seu pai, quanto sua mãe, sempre foram desprovidos de qualquer mesquinharia. Penso, que por virem de famílias numerosas do interior de minas, acostumados com casa cheia e mesa farta, dentro do possível, aquele bando, davam a eles a alegria de ter a casa sempre cheia, barulhenta, harmoniosa, apesar dos seis filhos, então cabia mais essa cambada de filhos alheios. Além desses, que fiquei por longo tempo convivendo, pelas ruas do bairro fui conhecendo e fazendo mais amizades e ampliando o meu fã clube.
A banda se reuniu mais uma vez, a convite do irmão do baixista, que nessa época tocava com o Sullivan, sempre tentando nos ajudar. Ele tinha prazer em nos reunir para gravar. Tinha o sonho de nos produzir ou pelo menos nos apresentar para oportunamente gravarmos. Gostava do nosso som, das músicas, da minha voz. Arranjou um horário de uma noite no estúdio de ensaio do Sullivan, levou aparelhagem de gravação: Nada sofisticado como hoje, não existia computador, notebook; era um gravador de fita de rolo, junto com outros apetrechos e lá fomos nós, sem o batera, mas com o apoio do conjunto que ele tocava, passar uma madrugada gravando cinco músicas. Entramos no estúdio por volta das 18 horas, levamos algum tempo para que ele ajeitasse os aparelhos e nós os instrumentos, ainda tivemos que passar para os componentes da banda do Sullivan as músicas, mas isso foi coisa rápida, afinal eram músicos calejados. Acredito que lá pelas 20 horas, começamos as primeiras experiências. Eu já estava me acostumando a gravar. Passada a limpo a primeira música, fomos para a gravação. Gente, gravar é um processo demorado, tem que ter paciência, se você quer um resultado bom, não tem como ser de outro jeito e, o irmão do baixista tinha um excelente ouvido, nós achávamos que estava bom e lá vinha ele e mandava repetir. Sem contar que aconteciam erros durante o trajeto, então recomeçávamos. Para se ter uma ideia, cada música de pouco mais de três minutos, levava mais de uma hora para ser gravada, então por aí vocês já podem imaginar. Chegou a madrugada e nós ainda não havíamos terminado. Quando tudo ficou pronto os músicos estavam exaustos e cheios de sono, porém nem tudo estava pronto, o produtor veio até mim e perguntou: “Você consegue cantar do mesmo jeito que foi gravado? ” Eu não tinha uma resposta precisa para essa pergunta, então questionei: “Por que você está me perguntando isso? ” Ele sabendo do meu cansaço, mas sem alternativa, mandou na lata: “Eu preciso que você dobre a gravação ou seja, cante novamente em cima da sua voz do mesmo jeito que cantou, porque a voz ficou baixa. ” Foi quando finamente eu entendi e para não entrar em pânico, me servi de um gole de conhaque, me postei no microfone, peguei o fone e fiz o sinal de positivo. Ele aproveitou para comunicar para a galera que eles podiam dormir, se quisessem, havia espumas no estúdio, enquanto terminava. O guitarrista aproveitou e pediu para incluir alguns solos e efeitos durante e, o nosso companheiro baixista acompanharia solidariamente. Foi mais uma das experiências vividas dentro da música. Eu tive que controlar bem os meus sentidos: inicialmente os nervos; depois a audição; em seguida a voz, tinha que ser a mesma o tempo todo e claro a memória, pois conforme a música ia rolando, eu tinha que lembrar como havia usado a voz. Nenhuma música eu consegui acertar de primeira, todas tiveram mais de uma tentativa, mas uma delas em particular, quase que conseguiu me desestruturar. Virou uma batalha particular. Passou a ser uma questão de honra. O pior é que quanto mais eu tentava e não acertava, mais ansioso ficava. Às vezes me sentia aliviado achando que estava certo, mas lá vinha o produtor e parava para dizer que milimétricamente a voz estava adiantada ou atrasada. Já tínhamos feito todas, só faltava essa. Se não me engano, depois de oito tentativas, evidentemente eu estava esgotado, enquanto todos dormiam, só restavam eu e o produtor, puxei o ar profundamente para me sentir vivo e acordado, pedi que começasse a introdução. Ela veio como tinha vindo todas as outras vezes, quando chegou no momento de entrar, deixei passar um pouco e pedi para repetir, uma, duas, três e, finalmente pude ouvir a minha respiração na gravação antes de entrar e contar mentalmente o tempo exato para encaixar bem em cima, quando soltei a voz o produtor começou a fazer um sinal para que eu continuasse, ele não parava de sinalizar e eu ganhando confiança segui até o final. Quando acabamos eu desabei. Não posso me furtar, mesmo sendo uma constatação conhecida por quase todos, a afirmar que quando realizamos algo do qual gostamos muito, o tempo, o cansaço, o negativismo, são completamente esquecidos e substituídos pela vontade, pelo prazer, pela doação, pela realização, pelo desapego, naquele momento, a qualquer outra coisa, reunindo o seu potencial efetivamente e reduzindo esse vasto mundo em um pequeno, porém infinito, momento de ocupação prazerosa.
Quando abrimos a porta do estúdio, é que tivemos a dimensão do tempo que ficamos envolvidos na gravação. A luz do sol nos pegou tão de com força, que parecíamos vampiros prontos para desfigurar, tal a rejeição visual, mas como o bálsamo da manhã sempre nos dá a alegria de um novo dia, foi unanime a resposta à pergunta se queríamos tomar um café. Depois de 13 horas enfurnado num cômodo, a padaria da esquina foi como um oásis no meio deserto, tínhamos a nossa disposição: pão na chapa, joelho fresquinho, pão com mortadela, café, coca, enfim, antes de irmos para casa dormir, pelo menos no meu caso, podíamos saciar nossa fome.
Já no carro do baixista, podemos ouvir com calma as músicas gravadas, seu irmão fez uma cópia numa fita cassete, enquanto ele dirigia até a minha casa, fomos saboreando cada passagem, cada solo, vibrando com o arranjo do baixo numa, da guitarra noutra, de como ficou a minha voz dobrada, não dava nem para perceber, ficou excelente. Era o nosso trabalho sendo registrado, as nossas composições, as nossas esperanças. Essa demo ia visitar algumas gravadoras. Essa parte quem se responsabilizou foi o nosso grande amigo e produtor, o irmão mais velho do baixista. Mas nessa vida nem tudo são flores e a vida é uma caixinha de surpresas, quando muito se espera... calma gente, ainda temos pela frente muitos desdobramentos, então, até o próximo capítulo. Fuuuuiiiiii!
P.S. Fui surpreendido com uma notícia, que há tempo, e põe tempo nisso, lutava para conseguir. As gravações feitas naquela noite estavam perdidas, mas numa coincidência dessas incríveis, recebi uma ligação e era o guitarrista me informando que havia recuperado todo o material, isso ontem antes da publicação, portanto, vocês poderão ouvir o resultado musical da longa madrugada. Não sei ainda, mais vou descobrir um jeito de colocar no Blog.                      

https://youtu.be/5Yl1_MIavxY

https://youtu.be/EnUnPDZ00mI


https://soundcloud.com/carlos-henrique-993773027/rural-na-estacao-ii

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Capítulo 26 – DE CANTOR A REGENTE

As apresentações chegavam ao seu final, faltavam poucos e, daqui a instantes todos os participantes entrariam no processo de expectativas. Cada um no seu íntimo, tinha uma sensação, apreensão diferente, mas o pensamento derradeiro era praticamente o mesmo. Num festival de música o vencedor nem sempre é a melhor música. Lendo assim de prima soa como uma incoerência, mas você sabe que eu não estou longe da verdade. É chato ter que escrever isso, mas eu não posso fugir a verdade, você talvez discorde, tem todo o direito. Eu penso que muitas, mas nem todas as formas de competições, podem sofrer interferência de terceiros e ter resultado final injusto. Eu já presenciei vários que foram verdadeiros desastres, cominando nessa injustiça. Eu escrevo sobre esse assunto, mas eu mesmo não entro em festival para ganhar, outra incoerência... não... eu explico: Para mim o festival serve para avaliar o trabalho musical e a performance; para interagir com outros músicos, compositores e cantores; para sentir a receptividade da plateia e, para ganharmos mais experiência. Tá legal, existem prêmios em dinheiro e é muito bom ganhá-los, mas é bem melhor quando a gente consegue unir a apresentação e o público numa mesma sintonia. Aí meu caro leitor, é o orgasmo musical. Diversas vezes eu pude ver isso acontecer e ver cantores e compositores, quando o mesmo não exerce a mesma função, sendo aclamados pala plateia após ser anunciado o resultado final. Nesses casos, mesmo quem estava torcendo por um outro concorrente, reconhece o vencedor merecedor do prêmio. Bem, vou parar por aqui, pois os jurados acabam de retornar aos seus lugares e, isso indica que será anunciado os vencedores nas seguintes condições e seus respectivos prêmios: 3º, 2º, e 1º lugar, o vencedor, além do prêmio de melhor intérprete. O terceiro e o segundo lugar receberão apenas um troféu cada, mas o primeiro lugar e o melhor intérprete, a esses, além do troféu, estava reservado um prêmio em dinheiro.
O apresentador comunicou que já estava com lista na mão, portanto daria início a chamada, mas antes lembrou que como o regulamento previa, seriam chamados o terceiro lugar e o segundo lugar e, antes do vencedor, seria anunciado o melhor intérprete que além do prêmio, faria uma breve apresentação para o público e só depois viria o primeiro lugar e a respectiva apresentação, finalizando assim o festival. Não sem antes ser ressaltada a importância dos colaboradores e organizadores e, demais incentivos para realização do evento. Ele pigarreou fora do microfone, era o sinal de que começaria, todos estavam voltados para o palco, momento de grande expectativa. Posicionando-se frente ao microfone proferiu a primeira sentença, anunciando, chamou o terceiro lugar, aplausos, seguido da cerimônia de entrega do respectivo prêmio. Voltou-se, após suas duas assistentes retirarem o premiado, e de novo diante do microfone anunciou o segundo lugar, de certa forma se repetiu o ritual anterior. Não menosprezando os anteriores, mas agora começava a fase de maior importância, por isso, diante de tal, o apresentador aproveitou para fazer charme, brincadeiras, a plateia delirava ansiosamente e, finalmente empertigando-se anunciou o melhor intérprete: Eu. Eu fui o escolhido, o premiado. O público aplaudia, gritava. Não cabia em mim tanta felicidade. Saltei do banco, com dezenas de mãos me batendo no corpo, em direção ao palco, esse momento era meu, único. As assistentes me recepcionaram e me passaram os prêmios. O público gritava pedindo para eu cantar. O apresentador me felicitou, me estendeu o microfone e fazendo um gesto com a mão, apontou para a plateia. Eu não tinha discurso preparado, então foi no improviso. Primeiro agradeci a escolha, depois ao público, posteriormente aos meus companheiros e aproveitei para informar que a banda não estava completamente presente, pois os músicos tinham compromissos e então só restavam eu e o guitarrista, mas que eu não deixaria de cantar, só que seria voz e guitarra. Meu companheiro subiu, plugou o instrumento e depois de testar som e afinação, virou-se para mim mostrando que estava tudo certo.
A partir desse momento, achar palavras para descrever sentimentos múltiplos, torna-se para mim uma tarefa árdua. Como explicar que eu saltei do posto de cantor para o de regente de coral em fração de segundos. Só dizendo em poucas palavras, que eu não cantei uma vez sequer o refrão, pois a plateia o fazia sob a minha batuta, obedecendo cada movimento como se tivéssemos ensaiado há meses. Cantar acompanhado só da guitarra, tornou a apresentação mais íntima, aconchegante, claro que com o prêmio debaixo do braço, o corpo e a mente mais leves, os erros agora podiam até acontecer e, as falhas na voz embargada pela emoção, seriam compreendidas, contudo, eu me mantive firme e junto com a plateia fizemos um espetáculo maravilhoso. Essa resposta vinda do público é para o artista o apogeu. Sim, me senti nos braços da galera. Que me perdoem, não é falta de modéstia, mas a música que ganhou, merecidamente, o festival, foi ofuscada pela minha premiação e apresentação, tal a identificação do público comigo. Eu roubei a cena. Fazer o quê? Era o meu momento.  
No dia mesmo não festejamos devidamente, o adiantar da hora impedia algumas pessoas, mas também não estariam presentes os companheiros músicos que foram muito importantes para a apresentação. Por outro lado, ainda demorei a sair devido ao assédio e ao próprio Chicão que fez questão de vir pessoalmente me cumprimentar, trazendo consigo outras pessoas que participaram no processo da realização do evento e queriam me conhecer. Chicão como falei anteriormente, movimentava culturalmente o município, incrementando, incentivando, realizando eventos em vários segmentos da arte e apesar da agitação em torno, ele queria estreitar laços para um futuro convite. Só depois de passado esses acontecimentos, é que saímos retornando para casa, ainda sob o efeito daquela noite. Durante o retorno, eu e os amigos cantávamos o tempo todo a música. Já na casa da minha namorada, preparado para dormir, a minha cabeça era um turbilhão de imagens, isso mesmo, um verdadeiro ciclone que não parava de girar e fazer surgir uma atrás da outra, imagens de algumas horas antes. Custou, mas adormeci com um sorriso nos lábios.
O cheque estava bem seguro, só precisando ser descontado. Seu valor dava para fazer uma boa farra, num dos pontos que nós frequentávamos, então, marcamos para o sábado seguinte, o que daria tempo de sacar o dinheiro e comunicar aos amigos que seria uma noite de 0800 até o limite do prêmio, se ultrapassasse aí haveria vaquinha; fica aqui entre nós, deu e sobrou, tanto que o guitarrista queria ir a Úba rever sua namorada e pegou uma ajuda. Digamos que como compositor da música, recebeu os direitos autorais.
Lamento dizer, mas não acabou não, vem mais apresentações por aí, aguardem!


quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Capítulo 25 -  QUEM DIRIA, CARLOS GARDEL EM DUQUE DE CAXIAS

Bem, recordando um pouco: Depois de ter a ideia, batalhar e conseguir juntar os apetrechos que dariam forma a personagem, finalmente chegara o dia e eu agora me encontrava no apertado camarim, disputando espaço para ficar pronto antes da chamada. O festival já havia começado e, como a entrada para o palco era um pequeno corredor colado ao camarim, a movimentação era intensa, mas havia organização, só ficavam de três em três participantes anteriores ao do palco. O que tornava o espaço apertado, eram as bandas, que nesse caso tinham mais de uma pessoa para entrar. Eu me preparava, enquanto meus companheiros esperavam e claro me ajudavam. Tiro a roupa do corpo, coloco a roupa da apresentação, ajeito a gravata – detalhe que eu não sabia, mas aprendi, dar o nó na gravata – umedeço o cabelo e aplico o fixador, pego o pente e faço o penteado idêntico ao do grande cantor, me olho no espelho e vejo Gardel, olho para o chão e me vejo através do tênis, mas agora não sou mais eu e sim “CARLOS GARDEL!”. Nesse momento me veio à cabeça a tal estratégia. Chamei o guitarrista e avisei-o de que não entraria junto com a banda, ele por alguns segundos se espantou, mas logo tranquilizei-o explicando o motivo: Naquele instante eu vislumbrei a possibilidade de algo maior; eles entrariam após a chamada do apresentador e ele pediria ao mesmo que levasse a entrada do palco o microfone até as minhas mãos; a banda faria a introdução e eu começaria a cantar ainda atrás da cortina em direção ao palco, isso certamente causaria um choque, visto que eu estaria todo transformado. Ele captou a ideia de imediato, comunicou aos outros, que de cara aprovaram e assim ficou combinado. Eu estava muito nervoso, mas como já falei, não com medo, apenas ansioso para pisar no palco e desempenhar o que havia desenhado na cabeça. Não seria um improviso, pois já havia me apresentado, mas caracterizado seria o diferencial. Havia estudado um pouco, não muito, o gestual de um cantor de tango, principalmente Gardel, contudo teria que improvisar, pois nada sabia sobre a milonga, teria que ser na expressão corporal. A milonga, culturalmente não era nosso, então, sem muita informação o melhor era misturar com o nosso gingado do malandro de samba.
A voz do apresentador anunciava que era a nossa vez. Assim que acabou, a banda entrou e guitarrista foi ter com ele para que levasse o microfone até onde eu estava, na entrada para o palco atrás da cortina nos bastidores. Enquanto a banda se arrumava, ouvia-se um murmúrio vindo da plateia, que eu já supunha ser a grande interrogação que pairava sobre suas cabeças, latejando intermitentemente a respeito da minha ausência. Eu havia desligado o microfone, para não escapulir nenhum ruído e só ligaria quando tudo estivesse pronto. Instrumentos plugados, som na medida, todos prontos, começa a contagem. A introdução veio em seguida ao término da contagem, aproveitei para ligar o microfone e quando chegou no acorde que indicava a minha entrada, comecei a cantar ainda sem aparecer e fui lentamente me dirigindo ao centro do palco. Quando a minha voz soou, já expulsei a interrogação, quando a minha presença descortinou, a plateia não se conteve e a reação viera a confirmar o que eu havia desenhado na minha cabeça. Eram assobios, aplausos; mais da metade de pé; os jurados sorriam e, eu saboreando todo aquele momento. O artista as vezes, em grandes momentos de interpretação, acaba colocando a música em segundo plano, mas não foi o meu caso, pois todos estavam esperando ansiosamente pelo refrão. Claro que eu tenho méritos, a música por si só era pequena. Eu desenvolvi toda uma apresentação a partir do apelo de um refrão, então, o que poderia passar batido se tornou um hit, mas, não fosse a minha voz, desenvoltura, inventividade, tudo teria sido apenas normal. Do primeiro refrão cantado, até o último, o público participou entusiasticamente. Foram minutos de muita felicidade, longe de qualquer vaidade.

Terminada a apresentação, sob aplausos mil, me retirei com a sensação do objetivo mais que alcançado. Depois de me desconstruir; de me acalmar; de normalizar o batimento cardíaco; de descer das nuvens, é que reuni condições para comemorar com os meus amigos a nossa performance. Os músicos, exceto o guitarrista, tinham compromisso para tocar e, já estavam com o tempo contado, por isso, em seguida, se despediram de nós desejando o melhor e lamentavam não poder ficar para ver o resultado. Os caras contribuíram por amizade e amor a música, sem ganhar nada, sem pedir nada em troca, nós procuramos demonstrar quão importante fora essa doação; palavras, abraços, palavras, sorrisos, palavras, tudo parecia pouco, para nós, para eles, estava tudo certo. Na simplicidade está a beleza da vida. Complicar é uma criação humana. Eu não sou um filósofo, historiador, pensador, longe disso, mas penso, portanto, existo e por existir e pensar, é que as vezes me pego refletindo a natureza humana. Nascemos completamente despidos, não só de roupas, mas principalmente de conceitos. Nunca seremos perfeitos, mas a perfeição nos habita. A máquina que faz o ser humano funcionar é perfeita. Divaguei. Resumindo: o ser humano entre tantas virtudes, em contrapartida aos pecados, tem essa disponibilidade, esse desprendimento, esse sentimento, esse instinto, além de se auto preservar, de auxiliar, de ajudar, de contribuir para o próximo, então quando acontece nós agradecemos muito, por não ser, como deveria ser, uma ação tão normal quanto respirar. Ainda bem que tínhamos amigos na plateia, não deu para ficar com a sensação de abandono, nos juntamos rapidamente ao grupo e fomos assistir o que restava do festival e, esperarmos o veredicto. Até chegarmos aonde estavam os nossos amigos, muitas pessoas me pararam para me cumprimentar, quase todos cantavam um pouco do refrão e, parabenizavam entusiasmados, mostrando admiração. A sensação era boa, apesar de tudo conspirar a favor, eu não queria colocar a carroça a frente dos burros, então, me desliguei desse pensamento e fui apreciar os meus concorrentes. O nível era bom e nós comentávamos, a cada música, que ganhar o festival seria muito difícil. No intervalo entre uma música e outra, todos tinham a mesma sensação, era praticamente unânime a questão, o que todos se agarravam e torciam era pelo outro prêmio, havia uma possibilidade bem forte, então não nos restava muito a fazer, se não esperar. É justamente isso que vocês vão fazer: esperar até o próximo capítulo para saber o desdobramento dessa história, inté!