segunda-feira, 28 de maio de 2018


Capítulo 79 – MPB MAIS POBRE E BANAL; DE QUEM É A CULPA?
A música brasileira nunca esteve tão simplória, confinada em letras que abusam de palavras repetidas e de poucos e recorrentes acordes nas composições. Os responsáveis por esse movimento não são exatamente os atuais sertanejos, mas o rock nos 1960, o rap nos 1980 e, principalmente, a massificação cultural do país desde o auge de Faustão e Gugu Liberato em seus programas de auditório.
A conclusão acima está em um estudo do pernambucano Leonardo Sales, um dos mais completos já publicados sobre o tema no Brasil e o primeiro a ir a fundo em questões harmônicas. Para chegar a um veredito o que para muitos é mais que óbvio, ele selecionou 532 artistas nacionais, analisando o espectro de letras e acordes.
A radiografia musical é baseada nos acervos dos sites Letras.com.br (102 mil letras) e Cifras.com.br (44 mil cifras). Privilegiou-se artistas com mais de dez cifras e gêneros com mais de 20 artistas. Apenas faixas com pelo menos 50% do vocabulário em português e palavras constantes no nosso dicionário entraram na análise de dados.
Essa metodologia, como qualquer outra, têm lá suas limitações. As cifras extraídas, por exemplo, não são necessariamente as oficiais do artista. Muitos jamais chegaram a registrar a notação. “Claro que música é muito mais complexo que isso. A intenção é apenas pontuar certos aspectos das músicas e analisá-los, no limite do que é quantificável pela análise de dados no computador.”
Segundo a pesquisa, a música brasileira foi brutalmente "simplificada" com o advento do rock e da Jovem Guarda nos anos 1960. Passada a moda de Roberto, Erasmo e Wanderléa, os sons voltaram se intrincar, mas é nítido que ao longo das últimas décadas eles vêm ficando mais fáceis. Isso tem a ver com a popularização do rap a partir da década de 1980, que maximizou o número de palavras e diminuiu o de acordes, e com o intenso processo de massificação que hoje tem reflexo no quase monopólio do sertanejo nas paradas. “Houve uma mudança do perfil do artista. Antes, ele era mais elitizado. Tinha que saber compor e tocar. Com a mercantilização da música, hoje ele pode se lançar sem saber muito de música, sabendo só cantar e se apresentar. ”
Em termos de riqueza artística, não tem para ninguém. Chico Buarque lidera com folga o coeficiente brasileiro de complexidade musical. Não por acaso, o cantor e compositor carioca é o artista nacional que mais gravou acordes distintos na carreira. Na sequência dos complexos, aparecem, na ordem, Djavan, Ivan Lins, João Bosco, Ed Motta, Caetano Veloso, Lenine, Vinicius de Morais e Simone. O técnico Ed Motta encabeça no ranking de tamanho de acorde (aqueles enriquecidos com mais notas), enquanto Lenine é o primeiro em matéria de raridade deles, o que torna o pernambucano, ao menos cientificamente, um dos artistas mais originais do país. Na outra ponta da lista, a dos músicos menos complexos, estão nomes como Michele Mello, a banda Malla 100 Alça e o --lembra dele?-- grupo Rouge.
Você sempre odiou os funkeiros, argumentando que o gênero é o mais pobre e simplista da música? Bem, ao menos sob a ótica da quantidade de acordes, há aí um bom argumento. O estilo nascido nos morros do Rio é o que menos faz uso de notações distintas. A repetição também é a tônica do rap, do brega, da música regional e do reggae, que aparecem na sequência --sim, o reggae é mais simples, que ritmos como o forró, o axé e o sertanejo, que já são relativamente descomplicados. Outra: o samba/pagode é bem mais complexo harmonicamente que o rock. Já no número de palavras e na raridade delas, o rei é o rap: só ele consegue bater a MPB, o estilo mais rico da nossa música, seguido da bossa nova. Entre os artistas, o grupo paulistano Facção Central é o primeiro lugar isolado em quantidade de palavras diferentes usadas.
Sim: à similaridade dos “acordários”. Polêmico? Nem tanto. De acordo com o estudo, esses dois populares grupos, conhecidas por suas sonoridades enxutas, utilizam uma dinâmica similar no uso de acordes. É aí que o rock básico influenciado pelo pós-punk e as micaretas do axé se encontram. Já em matéria de temática de letras, o resultado é bem diferente. A banda de Renato Russo está agrupada entre os artistas capazes de escrever sobre questões sociais e não só relacionamentos, enquanto os asseclas de Durval Lélys habitam o variado mundo das paixões bem-sucedidas, que agrega principalmente o axé, mas também o samba, o pop rock e... Tom Jobim. Em tempo: 64% dos artistas brasileiros tem uma forte preponderância em versar sobre temas ligados ao relacionamento.
A verdade é que as letras atuais são tão ridículas que não deveriam ser chamadas de músicas. Parando de lamentar e tentando entender (se é que é possível) como chegamos nisso? Como podemos ouvir ou dar ibope a algo tão ruim
A culpa em parte é do mercado da música, que passou a produzir dois tipos de cantores: o comercial e o artista. Sendo que o primeiro é bom porque faz um hit que estoura nas paradas de sucesso, como o rebolation. Só que essa música, por ser um produto descartável, não será relembrada por muito tempo. O segundo tipo é composto por aqueles que realmente possuem talento, que são raros. Aqui entra a parcela dos outros culpados: Nós, consumidores! Temos dado tanto ibope para diversas porcarias que nem mais reconhecemos os bons artistas!
Enquanto mantermos essa postura não teremos grandes compositores ou cantores, teremos apenas palhaços com suas músicas vergonhosas. Na verdade, grandes sábios, não é? Porque o termo “palhaços” se encaixaria melhor a nós, por sermos adeptos ao lixo que circula por aí!

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