CAPÍTULO 78 -
MORREU A IMORTALIDADDE MUSICAL
Há
40 anos a canção brasileira vem se estruturando sobre os mesmos fatores: a
mesma forma binária baseada na repetição de estrofes e refrões, a mesma
harmonia estabelecida principalmente por Jobim, a partir de parâmetros do jazz
e baseada em progressões por intervalos de 5ª, a mesma forma de estruturar a
melodia, baseada na mistura de estilos ainda mais antigos, como o choro e o
samba, com estilos importados, como o jazz e o rock. Não teriam já se esgotado
as possibilidades dentro destes moldes?
Além
disso, não se deve esquecer que, por trás daquelas canções de 40 anos atrás, se
encontravam cérebros como Rogério Duprat e Damiano Cosella, detentores de uma
cultura e de uma técnica musicais muito superior à de qualquer músico popular
da época, com exceção talvez apenas de Jobim. Eram músicos com uma vasta
formação e informados a respeito das novas “descobertas” musicais realizadas no
exterior, tais como os primeiros experimentos em música eletroacústica na
Europa, as experiências de John Cage nos EUA etc. Hoje em dia, esses técnicos,
por assim dizer, foram substituídos por estéreis burocratas e gerentes de
marketing com suas planilhas.
Creio,
portanto, que a única saída para a canção brasileira -se é que ela deve
continuar sendo canção- seria aliar uma dose de experimentalismo musical a uma
dose de iconoclastia, para que se possa parar de querer requentar velhas
receitas e de clonar velhos ídolos.
Refletindo
sobre o que vocês falaram sobre a indústria cultural no Brasil, não acho que a
nossa canção morreu, que a nossa MPB morreu. Eu tenho a sensação apenas de que
ela vive em um espaço menor. É aquele lance da segmentação, que aconteceu com
todo tipo de produto e serviço nesse mundo. Tudo é segmentado: desde o carro
até o xampu, tudo que consumimos é feito "pra gente". E com a música
no Brasil e no mundo foi assim também.
Outra
coisa grave é o mercado musical, o trabalho da mídia, o que vende. Essa descida
de ladeira cultural que o Brasil viveu nos últimos 30 anos é que foi
desastrosa. A impressão que eu tenho é que, até o fim dos anos 80, ainda
tínhamos algum resíduo cultural vindo das décadas anteriores. Mas quando entra
os 90, com o sertanejo e por aí em diante, não houve mais santo que nos
salvasse! E ficamos assim, nivelados por baixo. E a boa música ficou assim como
ilhotas cercadas por um mar de baixaria e estupidez alimentadas pela mídia
Pode-se
tentar sonatas após Beethoven e sambas-exaltação após Chico Buarque, mas mesmo
sem conhecer a íntegra da tal entrevista, acho que o Chico tem razão, nesse
ponto, o Tinhorão também. Não esquecendo a Joyce, ano de 2000, para a revista
Bundas: “Há muito tempo, não temos aquela ‘nossa canção’”.
O
Gil, uma vez, cogitou musicar trechos de “Estorvo”. E Chico afirmou que para
aquilo não tinha música. Provavelmente tinha sim. Mas se uma obra-prima como
“As Cidades” passou quase batida, imagino a repercussão das músicas que dariam
continuidade ao seu universo literário. Quem nelas se reconheceria?
Eu
poderia falar, citar, grifar, recomendar muitas músicas, mas não sairia do rol
das imortais. A imortalidade na arte e aqui especialmente na música, se dá
quando vemos nossos filhos, netos, bisnetos, – se conseguirmos – mesmo com toda
a influência da mídia, ouvindo, cantando, assobiando, compartilhando as músicas
que aprendemos a gostar quando tínhamos a mesma idade, vindo de outros tempos,
feitas no nosso tempo e que continuam a ser a nossa referência musical. Triste é
ver a geração atual sem valores musicais que se eternizem. Serão, como todo
lixo musical, varrido para o esquecimento ou no máximo para uma ocasião dentro
de uma piada. Ando, compartilho e me misturo com pessoas da minha idade ou não,
mas que sinto que estão sempre ligadas as boas músicas e com os ouvidos abertos
ou antenas ligadas para novidades que trazem, mesmo que seja mínimo, esperança de
um sopro criativo. Inté!
Curiosamente, o que
(literalmente) movimenta os jovens de hoje é a música eletrônica, e seus
festivais (literalmente) intermináveis, com horas e horas e horas de som
ininterrupto batendo sem dó na cabeça do povo. Não que eu entenda, mas costumo
ver os eletrônicos com mais simpatia, porque pelo menos parecem estar
experimentando mais, brincando mais, se atirando de maneira menos corporativa e
mais corajosa. Porém, veja que interessante, a grande maioria das músicas não
tem nem letra.
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