terça-feira, 24 de abril de 2018


CAPÍTULO  78 -  MORREU A IMORTALIDADDE MUSICAL
Há 40 anos a canção brasileira vem se estruturando sobre os mesmos fatores: a mesma forma binária baseada na repetição de estrofes e refrões, a mesma harmonia estabelecida principalmente por Jobim, a partir de parâmetros do jazz e baseada em progressões por intervalos de 5ª, a mesma forma de estruturar a melodia, baseada na mistura de estilos ainda mais antigos, como o choro e o samba, com estilos importados, como o jazz e o rock. Não teriam já se esgotado as possibilidades dentro destes moldes?
Além disso, não se deve esquecer que, por trás daquelas canções de 40 anos atrás, se encontravam cérebros como Rogério Duprat e Damiano Cosella, detentores de uma cultura e de uma técnica musicais muito superior à de qualquer músico popular da época, com exceção talvez apenas de Jobim. Eram músicos com uma vasta formação e informados a respeito das novas “descobertas” musicais realizadas no exterior, tais como os primeiros experimentos em música eletroacústica na Europa, as experiências de John Cage nos EUA etc. Hoje em dia, esses técnicos, por assim dizer, foram substituídos por estéreis burocratas e gerentes de marketing com suas planilhas.
Creio, portanto, que a única saída para a canção brasileira -se é que ela deve continuar sendo canção- seria aliar uma dose de experimentalismo musical a uma dose de iconoclastia, para que se possa parar de querer requentar velhas receitas e de clonar velhos ídolos.
Refletindo sobre o que vocês falaram sobre a indústria cultural no Brasil, não acho que a nossa canção morreu, que a nossa MPB morreu. Eu tenho a sensação apenas de que ela vive em um espaço menor. É aquele lance da segmentação, que aconteceu com todo tipo de produto e serviço nesse mundo. Tudo é segmentado: desde o carro até o xampu, tudo que consumimos é feito "pra gente". E com a música no Brasil e no mundo foi assim também.
Outra coisa grave é o mercado musical, o trabalho da mídia, o que vende. Essa descida de ladeira cultural que o Brasil viveu nos últimos 30 anos é que foi desastrosa. A impressão que eu tenho é que, até o fim dos anos 80, ainda tínhamos algum resíduo cultural vindo das décadas anteriores. Mas quando entra os 90, com o sertanejo e por aí em diante, não houve mais santo que nos salvasse! E ficamos assim, nivelados por baixo. E a boa música ficou assim como ilhotas cercadas por um mar de baixaria e estupidez alimentadas pela mídia
Pode-se tentar sonatas após Beethoven e sambas-exaltação após Chico Buarque, mas mesmo sem conhecer a íntegra da tal entrevista, acho que o Chico tem razão, nesse ponto, o Tinhorão também. Não esquecendo a Joyce, ano de 2000, para a revista Bundas: “Há muito tempo, não temos aquela ‘nossa canção’”.
O Gil, uma vez, cogitou musicar trechos de “Estorvo”. E Chico afirmou que para aquilo não tinha música. Provavelmente tinha sim. Mas se uma obra-prima como “As Cidades” passou quase batida, imagino a repercussão das músicas que dariam continuidade ao seu universo literário. Quem nelas se reconheceria?
Eu poderia falar, citar, grifar, recomendar muitas músicas, mas não sairia do rol das imortais. A imortalidade na arte e aqui especialmente na música, se dá quando vemos nossos filhos, netos, bisnetos, – se conseguirmos – mesmo com toda a influência da mídia, ouvindo, cantando, assobiando, compartilhando as músicas que aprendemos a gostar quando tínhamos a mesma idade, vindo de outros tempos, feitas no nosso tempo e que continuam a ser a nossa referência musical. Triste é ver a geração atual sem valores musicais que se eternizem. Serão, como todo lixo musical, varrido para o esquecimento ou no máximo para uma ocasião dentro de uma piada. Ando, compartilho e me misturo com pessoas da minha idade ou não, mas que sinto que estão sempre ligadas as boas músicas e com os ouvidos abertos ou antenas ligadas para novidades que trazem, mesmo que seja mínimo, esperança de um sopro criativo. Inté!
Curiosamente, o que (literalmente) movimenta os jovens de hoje é a música eletrônica, e seus festivais (literalmente) intermináveis, com horas e horas e horas de som ininterrupto batendo sem dó na cabeça do povo. Não que eu entenda, mas costumo ver os eletrônicos com mais simpatia, porque pelo menos parecem estar experimentando mais, brincando mais, se atirando de maneira menos corporativa e mais corajosa. Porém, veja que interessante, a grande maioria das músicas não tem nem letra.


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