Capítulo 67 - O cenário
atual da música brasileira enche o saco
Ok, isso é um belo de um
vespeiro.
Eu deveria ficar com minha
boca fechada, pra não arrumar confusão. Mas não aguento, então gostaria apenas
de pontuar que, daqui pra frente, é opinião, opinião e opinião. Não sou nem um
crítico gabaritado, sou somente um sujeito de gosta de música. Beleza?
Críticos gostam de falar de
cenários. O cenário atual do pop, o cenário atual do Rock. A cena do underground.
Bom, se a analogia é com artes cênicas, eu creio que a música nacional está
passando pelos dias de teatro do absurdo. Por um lado, temos uma indústria
totalmente profissional, movimentando montanhas de grana pra produzir merda.
Seria como o Gerald Thomas on drugs produzindo uma versão
teatral de Chaves. E do outro, lado atores profissionais interpretando Hamlet,
mas com cenários produzidos pelas tias do Colégio Primário Toquinho de Gente.
Quando eu era moleque, 80% do
que a gente ouvia vinha de fora. E os músicos reclamavam, nos chamavam de
colonizados, de alienados, de vendidos aos ianques. Pois corta pra 2016, e hoje
mais de 70% do que se ouve é nacional. Bom, né?
Será?
Não vou entrar em juízo de
valor. Talvez o caminho seja esse mesmo. 50 anos tentando descobrir quais
seriam nossas impressões digitais musicais para chegar a conclusão de que
aquilo que nos representa mesmo são duplas de sujeitos gritando com vozes
agudas, calças apertadas e chapeus de vaqueiro. Mas como isso cansa.
Eu me encontro bem de mau com
a música nacional. Não tenho saco, não tenho paciência, tudo me causa náusea,
sono, revolta ou os três juntos, o que é quase um daqueles episódios de Pokemon
que despertavam epilepsia.
Não aguento ouvir falar de
mais uma música sertaneja cujo refrão é alguma expressão idiomática levemente
modificada, ou alguma onomatopeia. Não aguento mais saber que eles gostam tanto
de cerveja, mulher e alguma outra coisa aleatória, estou cagando para o fato de
que eles levaram um chifre e estão tristes, mas vão superar e dar a volta por
cima. Não quero mais mistura de guitarra com sanfona.
Não consigo acreditar que
ainda existam variações de temas para cantar como Salvador no Carnaval é bom.
Que existam formas novas de falar “tererê-tê-TÊ-rê-RÊ!” em axés, nem maneiras
físicas de “sair do chão” e “quero ver as mãos” que a lei da gravidade e da
anatomia permitam.
Por outro lado, grande parte
da chamada Nova MPB me dá sono. Primeiro, porque tudo que eu falei até o
momento deveria ser MPB, já que é popular, e bem, infelizmente é brasileiro,
mas como não faz parte desse clube de gente chique e com cara de quem acordou e
não penteou o cabelo, fica de fora. Mas me falem a verdade, as pessoas precisam
ter nascido com uma paciência de Jó para aguentar a quantidade absurda de
“iáiás e iôiôs” e “shimbalauês” dessa galera. É muita fofinhice, muito complexo
de emoticon, muita bundamolice. A MPB séria perdeu os dentes, e vive cantando o
quanto sopa de água com amor é lindo.
Aliás, gente, que tanto amor
é esse? Ok, como diria o Paul McCartney, eu gosto de tanto de “tolas canções de
amor” quanto qualquer um, mas pra tudo há um limite. Eu não sei o que se
esgotou, se foi o assunto, a coragem para falar dele ou a minha paciência. Mas
sinto que essa galera supernhóim não quer muito ficar
colocando o dedo em feridas que podem desagradar uns e/ou outros. E dessa
forma, vai ficar difícil alguém escrever um novo “Como nossos pais”, ou um “De
Frente pro Crime”. É tudo gostosinho, melódico, suave e brocha.
O lado contrário disso é o
funk, que, segundo algumas correntes ideológicas, eu deveria respeitar, porque
é música do povo, pelo povo e para o povo, mas catzo, como eu acho
ruim, primário, tosco. Pra mim o funk (a corrente carioca do funk, que fique
claro) é uma piada que alguém levou a sério. As primeiras vezes que ouvi era
quase uma atividade humorística. Alguém tinha um CD de proibidão para ouvir os
caras gritando barbaridades como quem tem uma fita do Costinha ou do Manhoso no
carro. Era zueira. Mas parece que alguém levou a sério, porque agora tem gente
que ouve funk mesmo. Assim, direto, playlist com
200 músicas seguidas no celular, para ouvir no talo enquanto trabalha. Ou no
ônibus, no alto falante do carro, em qualquer lugar, desde que todo mundo ouça
junto, queira ou não.
Os temas são de uma
diversidade de impressionar qualquer boteco. A julgar por essa produção
cultural, a favela (desculpem se parece reducionista, mas todos os funks que eu
ouço falam somente da favela) só quer saber de transar com as novinha,
de usar droga e detonar a polícia. Nas vertentes femininas, a situação se
inverte, mas não o teor. Há quem diga que é música do povo. Eu acho bem triste
se for. Ver rico ouvindo essa música como se isso, por si só, fosse um
movimento de contra cultura é apenas patético. Tenho saudade da época que
qualquer pessoa precisava se curvar à genialidade de um Cartola. Sinto que esse
espasmo de boçalidade possa estar eclipsando o aparecimento de novos talentos
genuínos, indispensáveis.
Há pouco tempo eu assisti a
uma velha entrevista do Cazuza num programa da Marília Gabriela, e fiquei
pensando: que sujeito interessante. Quantas opiniões diversas, surpreendentes,
que inteligência. Mesmo quando eu não concordava com ele, era admirável a
facilidade e soltura que ele exprimia suas opiniões, com aquela cara de foda-se
se você não gostar. Livre. Não era só ele: corra no Youtube, e assista
qualquer entrevista de TV concedidas nos anos 80 e 90. Não é uma questão de
nostalgia, parece que havia mais o que falar.
Hoje, quando vejo as musas da
música nacional falarem mais de 3 frases, elas estão sempre sendo juradas de
algum programa que premia quem canta mais tempo em contralto qualquer coisa com
a entonação de uma Whitney Houston da Bahia, ou estão dizendo qual demaquilante
ou creme antirrugas elas usam para deixar a pele como seda após os shows. Raro
quando alguma declaração me faz parar por mais de cinco minutos para ouvir.
E os “musos” da música nacional?
Quem são? Se alguém souber, me fala por favor. Mas tem que ser alguém que não
vá comentar sobre plantação de tomate ou sobre o pôr do sol em Cuiabá. Me diz
alguém como o Caetano, por favor. Alguém que tenha mais o que dizer.
Talvez porque eles só se
pronunciem através dos assessores de Social Media deles. E só se
vistam através dos Personal Stylists. Em entrevistas com pautas pré-decididas,
com fotos grandes, em praias desertas. E mesmo assim, alguns desses gênios
ainda conseguem dizer que “se pegassem tal repórter gostosinha, a quebraria no
meio”. Que decepcionante isso vindo de um país que tinha um Vinícius de Moraes,
que conquistava com suas namoradas com poesias. E olha só que coisa demodê
(ainda se fala demodê?), casava com elas.
É triste perceber que até o
momento não falei do rock. É que por decisão editorial, prefiro falar sobre
quem ainda está entre nós. Os defuntos, esses é que não movem moinhos mesmo. De
uma forma triste, o rock parece uma planta mais rara. Não consegue viver num
cenário de desolação tão absoluta.
Mas pra não dizer que não
falei das flores, é justamente dele que sinto mais falta. Na minha juventude,
era do Rock que vinham as vozes que diziam o que eu não tinha maturidade pra
dizer. Eram os Renatos Russos, Lobões, Leos Jaimes e Cazuzas que traduziam
nossas angústias, fossem elas políticas, sexuais ou amorosas. Eram eles que
sentiam o que eu não sabia em dar nome. Eles eram nossa voz. Hoje meu filho bem
que procura, mas acaba encontrando seus temas nas mesmas vozes que eu encontrei
há tanto tempo.
Curiosamente, o que
(literalmente) movimenta os jovens de hoje é a música eletrônica, e seus
festivais (literalmente) intermináveis, com horas e horas e horas de som
ininterrupto batendo sem dó na cabeça do povo. Não que eu entenda, mas costumo
ver os eletrônicos com mais simpatia, porque pelo menos parecem estar
experimentando mais, brincando mais, se atirando de maneira menos corporativa e
mais corajosa. Porém, veja que interessante, a grande maioria das músicas não
tem nem letra.
A julgar pelo silêncio no
horizonte da música popular, ou essa geração não tem problemas, ou nasceu muda. Inté!
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